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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não há vagas - Ferreira Gullar



O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira

FERREIRA GULLAR

»»»»»

Procurei por Ferreira Gullar e este poema surgiu-me antes de tudo, focando aspectos da vida concreta e dura do dia-a-dia, que nos leva quase a fazê-lo nosso. Há, porém, um óbice: o facto de todas estas coisas 'não' caberem no 'poema'. A propósito, encontrei uma interpretação que nos conduz a um caminho que terá a ver com a função da poesia, em termos sociais. Eis uma passagem:

O texto, assim, com esse andamento metalingüístico, com o poema que discute a própria poesia, parece se tecer também como uma poética do autor. Ao se discutir o fazer poético, está se discutindo — embutido no texto — o sentido ou mesmo a função da poesia — para quê, e para quem, ela serve.O poema, assim, se tecendo como uma poética do autor, uma poética marcadamente modernista, e ironizando os poetas indiferentes à vida, ao cotidiano das pessoas comuns (como os parnasianos, por exemplo), traz o seguinte recado: a poesia não deve se furtar às questões sociais. Nela cabe, sim, há vagas para os dramas diários. Portanto: o sentido verdadeiro do poema é o contrário do que nele é dito.Ver mais...

Haverá lugar a uma outra ou outras interpretações?

Parece que sim. Esta, aqui, por exemplo, centrada na propaganda de um colégio: 'Sem um bom currículo NÃO HÁ VAGAS no mercado de trabalho', põe a tónica na negação, e, ao mesmo tempo na relação inclusão/exclusão, jogando também com ilusões e esperanças, para além de outras considerações.

Bem. O que diriam os meus amáveis leitores?  


Poema: fonte

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida e que menos naufrágios no mundo

Em contraste com a rémora que 'é freio da nau e leme do leme' Padre António Vieira apresenta no seu sermão aos peixes aqueles que representam os diversos defeitos humanos: os roncadores - soberba e orgulho; os pegadores -parasitas, vivem na dependência dos grandes, morrem com eles; os voadores -presunção, ambição; o polvo-traição, ataca sempre de emboscada porque se disfarça, comparado a Judas. Uma alegoria em que poderia ter-se socorrido de qualquer outro ser ou coisa, interessando apenas fazer passar a mensagem. E a mensagem era apontar os erros dos homens do seu tempo e procurar corrigi-los através das suas críticas e actos.



Homem do Sec. XVII, vivendo no Brasil desde criança, tinha a noção exacta do que se passava por lá em relação aos índios, dos ecos da Inquisição, da perseguição aos Judeus, da escravatura, assuntos que o preocupavam e contra os quais lutou durante a vida. Em Portugal mercê das suas ideias e das suas intervenções foi perseguido, inclusivamente, pela Inquisição.

A obra literária de António Vieira é vasta, assinalando-se em especial os seus sermões. É um caso interessante porque estabelece a ponte entre Portugal e o Brasil, inserindo-se por um lado no estilo barroco europeu e por outro dando início juntamente com Gregório de Matos Guerra a este estilo literário propriamente brasileiro, ainda dentro do género da Literatura Colonial, como nos informa este video.

Dado o seu grande valor como filósofo, escritor e orador, não são precisos pretextos para falar de António Vieira, cujos escritos cheios  de ensinamentos nos colocam questões de uma actualidade impressionante. Mas, por acaso, tenho um outro motivo para o trazer aqui hoje. Trata-se da leitura do 'Sermão de Santo António aos Peixes' por Diogo Infante, primeiro, abrindo em Junho passado o Ciclo de Primavera da Biblioteca Municipal do Porto, depois na Comuna em Lisboa, e a seguir vai dizê-lo em recital, para escolas, a partir do início do próximo ano letivo.




Segundo o actor: À medida que ia lendo o sermão, ia-me surpreendendo com a sua atualidade. É relativamente fácil pensar-se que António Vieira viveu numa sociedade menos evoluída, mas a verdade é que as suas críticas – políticas e sociais – podem ser aplicadas aos políticos e figuras públicas de hoje.

Reconhecendo o valor insofismável de António Vieira, como não podia deixar de ser, tenho, contudo, uma mágoa dele. Contra a escravatura e grande defensor dos índios, não teve esta postura concreta em relação aos negros que eram levados da Mãe-África para os trabalhos escravos no Brasil, nomeadamente, nos Engenhos. Em vez disso, procurou fundamentar a posição da Igreja de que 'a escravidão salva'. Leiam, por favor, esta análise do 'Sermão Décimo Quarto', de Eva Paulino, que versa sobre o assunto. Embora não se deva tomar a parte pelo todo, deixo aqui esta passagem: 


 Assim que Vieira termina de louvar aos negros por sua alta missão como cristãos que serão salvos, ele diz, claramente, que a primeira obrigação que eles têm é de
dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivêis como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé, vivaes como christãos, e vos salveis. (303)
A honra de serem cristãos fica, então, imediatamente ligada ao processo da escravidão. Sem uma, a outra seria impossível. A terra dos escravos, a África, é representada não como o lugar em que os negros eram livres e podiam cultivar suas terras, professar suas próprias crenças. A África se torna toda num continente onde o que os  negros podiam esperar era somente a perdição.

Aceito o contraditório, se for caso disso. :)

E hoje já é sexta-feira. É tempo de vos desejar um bom fim de semana. Parece que o calor vai voltar. Para os amantes da praia, do Sol, do ar livre, que somos todos (ou quase) é uma maravilha.

Abraço

Olinda

Ver notícias: aqui,aqui e aqui
Título: citação retirada de aqui

terça-feira, 30 de julho de 2013

Clarice e eu



Grande ousadia esta de associar a minha pessoa a Clarice, não acham? Eu explico. Em devido tempo falei aqui da homenagem a Clarice Lispector, sob o título A Hora da Estrela, homónimo de uma das suas obras. A referida homenagem ocorria entre 5 de Abril e 23 de Junho deste ano e eu disse na altura aos meus queridos leitores que pensava lá ir e que depois expressaria aqui as minhas impressões.

Na realidade, fui à Fundação Gulbenkian fazer a visita logo em Abril. Quando entrei deparei-me com um ambiente intimista, à média luz, talvez demasiado média, que, todavia, convidava ao recolhimento. Sem pressas ia lendo as frases escritas nas paredes e em todo o lado. Havia uma divisão em que se projectava um filme com a própria Clarice a falar de si e da sua vida. Entrei num outro compartimento, todo forrado de gavetas, de cima a baixo, algumas com chaves pendentes. Estas é que eram funcionais. Delas saíam feixes de luz e dentro encontravam-se pedaços da vida da escritora: cartas, requerimentos ou petições, algumas das suas obras ou referências a elas, fotos suas e dos filhos...

Devo dizer que não sou apologista de que se traga a público tudo o que diz respeito à vida particular dos autores. Não sei se o aprovariam ou então dever-se-ia ter a certeza disso. Lembro-me, por exemplo, das cartas de Fernando Pessoa a Ofélia: por mim, estas cartas, pelo seu cariz que desnuda a alma e mostra as suas fragilidades, não teriam sido publicadas ou então só parte delas.

Mas, voltando à exposição, apesar das minhas reservas em relação ao detalhe acima mencionado, estava completamente concentrada a admirar Clarice numa fotografia com os filhos pequeninos quando sinto o telemóvel a tremer. Vi que era uma chamada a que não podia deixar de atender e saí apressadamente do recinto, à procura de uma porta para o exterior. Ali atendi a chamada e, ao rodar o corpo para voltar a entrar, tropecei no tapete da entrada que estava mal colocado e caí redonda no chão.

Bem. Seguiu-se a atenção das pessoas presentes querendo saber se me tinha magoado, fui ao pronto-socorro, fiz a participação da ocorrência... Felizmente não parti nada mas tive um dos joelhos com hematomas durante um bom tempo.

Como é natural, tive de dar a visita por terminada mas penso que, por aquilo que me foi dado apreciar, consegui apreender um pouco mais da essência de Clarice Lispector. A minha admiração por ela continua viva e procurarei conhecê-la mais e melhor através da sua obra.

Assim, não vou perder a oportunidade de enriquecer este post com as palavras do comentário da autora de Canto da Boca, aquando da publicação de A Hora da Estrela. Verão como ela é uma profunda conhecedora da obra desta grande autora e sinto-me honrada pela sua presença aqui no Xaile de Seda.

Ora apreciem e não deixem de ver o filme cujo endereço se encontra mais abaixo:



Olinda, Olinda, minha tão querida amiga, Olinda, nem imaginas como exulto de alegria ao ler este poste... Clarice tem em mim o mesmo lugar que ocupa João Cabral! E A Hora da Estrela, me é tão familiar (como toda a sua obra, que tenho o privilégio de ter e de ter lido quase toda, quase!) conta um pouco da Macabea que há em toda mulher nordestina, brasileira, sonhadora (como eu), e que nos convida a buscarmos e não desistirmos dos nossos sonhos, do nosso protagonismo, de sermos senhoras do que queremos e desejamos. Clarice nos sacode para a vida, para não deixarmos de viver nenhum momento, e não pensarmos que apenas no tapete vermelho da fama, do estrelismo, podemos ser estrelas, somos estrelas todos os dias, nessa grande labuta e ofício que é viver num mundo cheio de padrões e temos a coragem de rompê-los, transformá-los! Salvo engano foi seu último romance publicado em vida, virou filme e a Marcela Cartaxo, uma atriz paraibana, incorporou fantasticamente a personagem da trama, inclusive ganhadora do prêmio, Urso de Prata, no Festival de Cinema de Berlim, por esse filme... Desejo que todas nós mulheres brasileiras, portuguesas, do mundo todo, tenhamos todos os dias, horas e horas de estrelas, porque merecemos, por todo nosso legado à história da humanidade...

Estou feliz demais por sua publicação!

Deixo aqui o link do filme: e: http://www.youtube.com/watch?v=376JgN-2cEc

Beijo, obrigada e depois nos diga sua impressão acerca da exposição?

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Tenham uma excelente semana.
Abraço

Olinda

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Hilda Hilst





Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.


Hilda Hilst (Jaú21 de abril de 1930 — Campinas4 de fevereiro de 2004) foi uma poetaficcionistacronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.
Assuntos tidos como socialmente controversos foram temas abordados pela autora em suas obras. No entanto, conforme a própria escritora confessou em sua entrevista ao Cadernos de Literatura Brasileira, seu trabalho sempre buscou, essencialmente, retratar a difícil relação entre Deus e o homem. 
( Ler mais... Aqui )
»»»»»

Retomo aqui, com Hilda Hilst, o Meu Ano do Brasil em Portugal, a minha versão do Ano do Brasil em Portugal, como devem estar lembrados. O tempo urge, tendo em conta que o terminus do referido ano está perto ou já chegou ao fim, penso, a 10 de Junho. Mas, já se sabe, o tempo no Xaile de Seda é uma coisa bastante relativa, querendo dizer com isto que continuarei a trazer para o nosso convívio a excelência das letras brasileiras, em qualquer tempo, pelo prazer da leitura de autores que dignificam e enriquecem a língua portuguesa.

Desejo-vos uma óptima semana. 

Abraços

Olinda

Poema: Fonte aqui

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A propósito de João Cabral de Melo Neto, de 'A Palavra Seda', de 'O cão sem plumas' e de 'Morte e Vida Severina'


Queridíssima Olinda, que prazer ler aqui em seu Xaile, o meu poeta maior! João Cabral é para mim o maior dentre todos (repare bem, para mim, questão de escolha e identificação). O poeta que conta o meu Nordeste brasileiro, o Recife, o mangue, os rios que atravessam a cidade ('como a fome atravessa um cão sem plumas' - parte de um outro poema dele, que gosto muito, O Cão sem Plumas), entranhado com influências andaluzas, e elementos catalãs, dado o tempo em que viveu nessas duas regiões de Espanha.

João Cabral é um poeta ácido, cerebral, meticuloso, artífice da palavra, como já pudemos ver nesse excecional A Palavra Seda. Para ele não havia poesia sem transpiração, sem estruturação; a poesia lapidada, burilada, um lirismo carregado de emoção, palavras que correspondem aos sentimentos, aos resultados mais profundos do que há de humano em cada um de nós, e que nem sempre demonstramos ou sabemos como dizê-los, João Cabral, diz. Cabral sabe nos conduzir em seus poemas, como se fôssemos viajantes de primeira viagem, como se o mundo só se descortinasse agora diante de nós.


Inclusive recria para o local, e para o visitante, o Recife tão conhecido de todos, entrecortado por seus quatro principais rios, a vida em suas margens, a morte em suas margens, a miséria de quem vive nas margens, dependurados em palafitas, como se fossem parte natural do cenário; como se nas veias desse homem recifense, nordestino corresse junto com o sangue, a lama e o rio. E sua pele ressecada como a lama que seca quando a estiagem castiga a região, e o leito do rio se torna esquálido, quase vazio...


Por algumas vezes, aventou-se, que um dia a Academia de Oslo iria lhe galardoar com um Nobel de Literatura, em função da importância da sua poesia, infelizmente não aconteceu. A sua poética configura-se entre as maiores do século XX, no Brasil, e também no mundo. Vale a pena dar uma lida em "Morte e Vida Severina", (mais) um grande livro dele, um auto de natal, narra a vida de um retirante, Severino, vindo da Serra da Costela, limites com o estado vizinho, Paraíba. Uma leitura que permite ao leitor, apropriar-se de um Brasil miserável, mas tão real e sofrido como quando da época do seu lançamento. Uma narrativa-denúncia, com um forte cunho social. E eu vou parar de "falar", porque senão eu vou ficar insuportável. É que publicaste um poema do meu nº 01 da poesia, desculpe a minha empolgação, amiga!!

Beijos!

Deixo aqui alguns linkes para a vossa apreciação e apropriação da nossa cultura, para entenderes mais o contexto e o sentido da poética cabralina.

A letra do Chico Buarque para a encenação do musical: http://letras.mus.br/chico-buarque/90799/


O musical completo você pode ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=u3R3s5XeB-w







E o auto aqui: http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf


Canto da Boca

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Pensam que este comentário foi produzido agora, na publicação de 'O cão sem plumas'? Não, não, isto vem de trás aquando da publicação de 'A Palavra Seda'. Mas já antes Canto da Boca nos tinha falado de João Cabral de Melo Neto e da sua escrita, quando publiquei 'O Advento', de Jorge Luís Borges, argentino, que, por sinal, ela própria nos indicara. Como vêem neste entrelaçamento a cumplicidade e o intercâmbio se tecem. Ou isto não seria o Xaile de Seda, um xaile que, a cada dia, se vai tecendo...

Obrigada, Canto.

Olinda

terça-feira, 4 de junho de 2013

O cão sem plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra, 
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açucares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que “as grandes famílias espirituais” da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

João Cabral de Melo Neto


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Mais um poeta brasileiro que aqui nos chega pela mão de Canto da Boca.
Realmente, foi através de indicações suas, em livro postado no seu blogue e aqui em comentários, que cheguei a este poeta e a este poema.
Aliás, este é o segundo poema que aqui publico. O primeiro foi 'A Palavra Seda'.

Muito obrigada, amiga.

Olinda 



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O cão sem plumas, 1949-1950:Ver análise e poema na íntegra: aqui

domingo, 14 de abril de 2013

'Sabias que uma baleia pode se afogar se estiver debaixo de água mais de 30 minutos?'

A criança que existe em mim parou para ler estas palavras num painel, num centro comercial. Nele também uma grande baleia pintada com pequenotes em volta, num mar azul. Nem vou confirmar esta informação/pergunta, vou confiar que é mesmo assim, porque a minha ideia aqui é ajuizar da fragilidade das baleias, minhas irmãs. Eu consigo permanecer debaixo de água uns míseros segundos e elas, tão possantes, trinta minutos ou pouco mais. Pelas minhas  contas elas estarão em desvantagem. E digo porquê: Em condições normais, só lá vou quando quero, ao passo que elas têm de lá viver, é o seu habitat natural, é o seu meio ambiente. Também posso ajuizar da sua aflição quando são encurraladas e caçadas, não tendo para onde fugir. Lembro-me da sua força imensa nos mares da minha infância, dos jactos de água atirados contra os céus e a delícia que era para mim e para os meus irmãos presenciar toda aquela explosão de vida. 
Neste mês de todas as leituras e perante a pergunta acima apontada, lembrei-me de trazer um conto de António Sérgio, 'A história da baleia'. Pode ser que alguma criancinha passe por aqui...




'A história da baleia

Há muito, muito, muito tempo, vivia no mar a baleia, que comia peixes. Ainda ela, nesse tempo, podia comer peixes. Comia sardinhas e tainhas, gorazes e roazes, bugios e safios, pescadas e douradas, bacalhaus e carapaus. Todos os peixes que ia encontrando deitava-lhes a boca, - ão! Por fim, só havia no mar um salmonete vermelhete, que nadava sempre atrás da orelha esquerda da baleia, para ela lhe não fazer mal. Um dia, a baleia pôs-se a pensar muito séria, e disse assim :
- Tenho fome !
E o salmonete vermelhete, com a sua voz muito agudita, disse à baleia :
- Nobre e generoso cetáceo : já experimentou comer homens?
- Não - respondeu a baleia. - A que sabe? como é?
- Bom, mas traquinas - respondeu o salmonete vermelhete.
- Então, vai-me buscar três dúzias deles - ordenou a baleia.
- Basta um de cada vez - disse o salmonete vermelhete. - Se for à latitude 60 graus norte e longitude 40 graus oeste (isto, amigos, são umas palavras mágicas que o salmonete lá sabia) encontrará uma jangada feita de tábuas, e sobre a jangada um marinheiro náufrago de calças de ganga azul, uma faca de ponta aguda, e suspensórios encarnados (não se esqueçam dos suspensórios!). O marinheiro, devo dizer-lhe, é arguto, astuto, e resoluto.
A baleia, então, foi aonde lhe disse o salmonete vermelhete, e encontrou a jangada e o marinheiro. Aproximou-se, abriu a bocarra imensa, e engoliu a jangada e o marinheiro, com as calças de ganga azul, com a faca de ponta aguda e com os suspensórios encarnados (nunca se esqueçam dos suspensórios!). E assim a baleia arrecadou tudo na despensa escura, quentinha e fofazinha, que tinha lá dentro do seu corpanzão. E como gostou, deu três estalos com a língua e três voltas sobre a cauda, levantando muita espuma.



O marinheiro (que era arguto, astuto, e resoluto) mal se viu dentro da baleia. na despensa escura, quentinha e fofazinha, pulou, saltou, rebolou, cambaleou, espinoteou, dançou, sapateou, fandangueou, esperneou, gritou, berrou, cantou, estrondeou tanto, tanto, tanto, que a baleia se sentiu com enjoos, engulhos e soluços (já se esqueceram dos suspensórios?). E disse a baleia ao salmonete vermelhete :
- O teu homem é muito traquinas, e dá-me engulhos. Que hei-de eu fazer?
- Diga-lhe que saia cá para fora - respondeu o salmonete vermelhete.
E a baleia gritou pela garganta abaixo:
- Saia cá para fora, homenzinho, e veja se tem juízo!
- Isso é que eu não saio- respondeu o homem. - Leve-me primeiro para a minha terra, e depois veremos o que se poderá fazer.
E pôs-se outra vez a saltar, a pular, a espinotear e a rebolar.
- O melhor é levá-lo para casa- aconselhou o salmonete vermelhete. - Eu já tinha prevenido a senhora baleia de que o marinheiro era arguto, astuto e resoluto.
E a baleia nadou, nadou, nadou, dando à cauda e às barbatanas, mas sempre com soluços e muito enjoada. Quando avistou a terra do marinheiro, nadou para a praia, pôs a boca sobre a areia, abriu-a muito, e disse:
- Cá chegámos à sua terra!




O marinheiro, que era na verdade arguto, astuto e resoluto, tinha durante a viagem puxado da sua faca de ponta aguda, e cortado as tábuas da jangada em fasquiazinhas muito estreitas, que ligou muito bem com tiras dos suspensórios (bem lhes dizia eu que não se esquecessem dos suspensórios!) e fez com elas uma grade que empurrou, ao sair, contra a garganta da baleia. E, deixando a grade bem presa na garganta da baleia, saltou para terra e foi ter com a mãe, com a qual viveu muito contente.
A baleia foi-se embora também muito contente, assim como o salmonete vermelhete; mas a grade é que nunca mais saiu da garganta da baleia. E por isso é que a baleia nunca mais pôde comer homens, nem meninos, nem peixes - nem sardinhas nem tainhas, nem gorazes nem roazes, nem bugios nem safios, nem pescadas nem douradas -, porque os peixes não podem passar pelas grades da garganta, mas só bichinhos pequeninos, como, por exemplo, as pulgas-do-mar.
Pouco depois, o marinheiro casou e viveu muito feliz; tinha em casa as calças de ganga azul e a navalha de ponta aguda; mas não tinha os suspensórios, porque esses ficaram a atar a grade, muito apertada que só deixa passar bichinhos pequeninos - como as pulguinhas-do-mar - na garganta da baleia.'





Texto retirado de:Aqui
Imagens internet

domingo, 7 de abril de 2013

A Hora da Estrela

'Amo esta língua', dizia. 'Não é uma língua fácil. É um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve querendo roubar às coisas e pessoas a sua primeira camada superficial. É uma língua que por vezes reage contra um pensamento mais complexo. Por vezes o imprevisto de uma frase causa-lhe medo. Mas eu gosto de manejá-la - tal como outrora gostava de montar um cavalo para o levar pelas rédeas, umas vezes lentamente, outras a galope'.

Extraí estas palavras da contracapa de Laços de Família, de Clarice Lispector, palavras que lhe são atribuídas. Este livro, que hoje vos trago, é prefaciado por Lídia Jorge, que nele traça o percurso literário e as características desta figura maior da literatura de língua portuguesa. A dado passo e referindo-se a este livro ela escreve:

'Laços de Família, obra com que na prática se inicia a publicação da Clarice Lispector entre nós, é um conjunto de treze contos surgidos no Brasil em 1960, e contêm alguns dos traços que esse género costuma ter. Tem personagens, tem aventura, acidentes e desfechos. Só que neles, tanto quanto nos romances, os personagens começando por ser comuns, logo se revelam incomuns, avançando como se não tivessem olhos para ver, e quando quisessem ouvir não tivessem ouvidos. Ou inversamente, se têm ouvidos não têm sons, e se têm olhos não há paisagem que se veja. Quando acontece a coincidência, e é por escassos instantes, a visão produz-se, dá-se a fulminação e a matéria ficcional sucede.'

Lídia Jorge evoca Sartre e La Nausée quando fala de Laços de Família, referindo-se sobretudo ao conto Amor de 'leitura obrigatória para quem se inicie na compreensão do processo epifânico de Clarice'. Mas é do conto Uma  Galinha que transcrevo as seguintes passagens, da página 28:

'Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista.'
'Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência.'
'Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desenvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos: 
- Mamãe, mamãe, não mate a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!'

Pois bem, 'A Hora da Estrela' é o nome da Exposição dedicada a Clarice Lispector na Fundação Calouste Gulbenkian, e que decorre de 5/Abril a 23/ Junho de 2013, no âmbito das comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Vem anunciada assim:


Como não podia deixar de ser, estarei entre os visitantes um dia destes!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Narcisos. Tenho muitos no meu jardim nesta altura do ano...

Com estas simples palavras, um mundo de poesia, com as quais Maria Emília Moreira nos mostra que no seu mundo cabem várias manifestações de arte: Poesia, Pintura e muitas outras.

Tela de Maria Emília Moreira.

E é com elas e com a sua tela de narcisos que aproveito para desvendar o mistério da tal quinzena, que nunca mais acabava. Lembram-se de, no ano passado, vos ter pedido para me trazerem palavras vossas ou de outrém para festejar o primeiro aniversário do Xaile de Seda? Pois, este ano, no seu segundo aniversário, resolvi fazer o contrário, indo eu própria aos vossos redutos buscar as vossas pérolas. Através delas vieram outros amigos que prestigiaram este recanto com os seus comentários.

Este ano resolvi também dar um nome a estas comemorações megalómanas :), Quinzena de Afectos/Xaile de Afectos. Uma matemática do coração. Se a quinzena é de quinze dias por aqui ela mostrou-se rebelde ao tempo que passa, marcada apenas pelo compasso do nosso comprazimento em ler e tomar contacto com várias formas de modular a Palavra.

Porque o mês de Abril é o mês de todas as leituras, inicio-o com este poema de Fernando Pessoa, que já há algum tempo anda arredado deste Xaile, mea culpa. O poema que aqui transcrevo começa com este verso 'Ó sino da minha aldeia' e segundo Robert Bréchon*, 'Este sino que toca eternamente num dos primeiros poemas do Cancioneiro, escrito em 1913, simboliza a 'saudade' forma de nostalgia tipicamente portuguesa. É o da Igreja dos Mártires, bem perto da casa onde nasceu Pessoa':

                                      
     Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto

                                       Fernando Pessoa, in Poesias, Ed.Ática

Queria inserir um video da Maria Bethânia, onde declama uma versão musicada do poema, mas não consegui. Assim, clique Aqui, p.f. 

Boas Leituras!

*Roberto Bréchon, in Estranho Estrangeiro, uma biografia de Fernando Pessoa.