segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Saudemos a Primavera, dona da vida - e efêmera"

 




A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim
para recebê-la.

A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da
terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta
ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra.
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade.
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles Obra em Prosa - Volume 1",
Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

Trazido de aqui


Deste lado do Atlântico temos o Outono com as suas cores douradas e clima pouco rigoroso embora ainda faça bastante calor. Do lado de lá é a Primavera que já  fez a sua aparição, com as suas flores e o seu perfume inconfundível.

Dedico esta crónica de Cecília Meireles aos 

meus amigos brasileiros, que visitam o Xaile de Seda.



Jorge Palma

(1950-2026)



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Imagem: Net

Encontrei com a grafia "Jaipur", mandada pintar de cor-de-rosa no século XIX, a cor da hospitalidade.

sábado, 26 de setembro de 2026

"Mãe dos poetas moçambicanos"

 Noémia de Sousa, considerada a "Mãe da poesia moçambicana", completaria 100 anos no dia 20 de Setembro de 2026. Na sala da Lusa, que teve o nome da poetisa, sua antiga jornalista, foi homenageada e recordada com emoção.

Vera Guerreiro recordou-a assim:

"Noémia era humilde e discreta. Não gostava de palco. Mas a homenagem a esta grande mulher impunha-se e hoje o palco é dela", disse a jornalista.

A Agência Lusa completou agora os 40 anos de existência e foi dito por Nicolau Santos que o nome da poetisa moçambicana levou ao evento a admiração pela mesma, tendo lido um dos seus poemas mais emblemáticos.

O pintor e escultor moçambicano Lívio de Morais que conviveu com Noémia de Sousa, congratulou-se com a homenagem, classificando-a de muito justa e que "marca o momento geopolítico de Moçambique".

E a partir de Moçambique, Nelson Saúte, escritor e editor do livro de Noémia de Sousa, "Sangue Negro" da biografia "Se me quiseres conhecer - Noémia de Sousa: Biografia Literária", juntou-se aos participantes partilhando momentos da longa amizade e revelou que uma editora portuguesa vai, pela primeira vez, editar a sua poesia. 

De referir que jovens poetas de Mafala apelam a iniciativas para preservar o legado da escritora no ano do seu centenário, incluindo bibliotecas, escolas e até ruas com o seu nome. aqui




Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos de bem ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde*
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.


Ah, essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida.
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica.
Altiva e mística.
África da cabeça aos pés
— Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de Africa,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando...
duma canção nativa, noite dentro...

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que eu não sou mais que um búzio de carne
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.

   (1926-2002)



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Agência Lusa celebra com poesia o centenário de Noémia de Sousa.

Ver no Xaile de Seda

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

S. Vicente - a miragem do paraíso (XI)

 



Porém, quer no caso geral de Cabo Verde, a história desmente essa crença de abastança com alguma crueldade. Por exemplo, o período que vai de 1850 a 1900 e talvez até um pouco mais, é tido como o período ditoso do Mindelo. Isso por causa do movimento de navios no porto em demanda de combustível, que por sua vez se reflete na economia e prosperidade da cidade e dos seus habitantes.

Ora é verdade que o abastecimento de combustível no Porto Grande e as outras actividades que lhe eram conexas, como por exemplo, a elementar extracção de pedra para lastro dos navios d vela que vinham trazer carvão, proporcionava trabalho a muita gente, e grande parte do faminto povo das ilhas vivia em demanda do sonho do Mindelo.

Porém, todos esses trabalhos eram não só absolutamente precários como sobretudo mal pagos, no geral do tipo ganhar o suficiente para levar a panela ao lume em cada dia, não permitindo portanto qualquer tipo de poupança, ainda que seja verdade que essa população era conhecida como capaz de consumir num dia os ganhos todos da semana.

Mas bastará dizer que, não obstante Mindelo poder afirmar a existência de uma relativamente avultada classe operária nesses tempos dos ingleses, só cerca de 100 anos depois do início da exploração das carvoeiras, mais propriamente em 1957, viria a ser publicada a primeira lei exclusivamente respeitante ao trabalhador caboverdiano.

GERMANO ALMEIDA, - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 28, 29.


Com o advento da navegação a vapor, os ingleses instalam no Porto Grande (Mindelo, ilha de São Vicente), em 1838, um depósito de carvão. Em 1850 esse porto foi aberto à navegação, constituindo-se atualmente no maior do arquipélago.

Novas grandes fomes se sucedem, registando-se a emigração maciça de cabo-verdianos.

Em 1874 os ingleses trazem os cabos telegráficos submarinos até ao porto de São Vicente, ligados à Madeira, à Europa e ao Brasil. Sete anos depois, os cabos foram estendidos até à Praia, ligando-a igualmente à Europa e à África Oriental.

Ver mais aqui






Abraços, amigos.

Olinda


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Imagem: Net