terça-feira, 5 de maio de 2026

Se eu pudesse trincar a terra toda






Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...



Planeta Terra ou terra terra? Sempre me intrigou a interpretação deste Poema de Alberto Caeiro. Sendo um heterónimo criado por Fernando Pessoa, com as características próprias de Guardador de Rebanhos deduzo que seja terra terra. Mas nem sempre pensei assim...tendia mais a ver a Terra na sua globalidade.

Contudo, lá volto eu aos pensamentos antigos e hoje Dia Mundial da Língua Portuguesa, publico de novo este poema do nosso homem das sensações.

No Brasil, muito antes deste dia ser estabelecido para todos os países lusófonos, já o Dia Nacional da Língua Portuguesa vigorava desde 5 de Novembro de 2006.  Não nos esqueçamos que a maior parte dos falantes da Língua Portuguesa provém do Brasil.


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Embora não seja feriado por cá, aproveitemos para fazer boas e proveitosas leituras.

Abraços
Olinda


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7-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.

  - 45.
In: Arquivo Pessoa
Publicado aqui no Xaile de Seda

domingo, 3 de maio de 2026

mil estrelas no colo





mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.

eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são

todas as estrelas que existem.

in "A casa, a escuridão"




A todas as mães que por aqui passarem.

Beijos 
Olinda



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imagens: pixabay

sexta-feira, 1 de maio de 2026

VENHAM MAIS CINCO

 


ZECA AFONSO
Venham mais cinco


Senhor de um invejável talento, que lhe dá para escrever, compôr, cantar, este é o nosso Zeca Afonso, de seu nome, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. 

Da sua forja saiu Grândola Vila Morena* que foi escolhida como senha, indicando que a Revolução de Abril de 1974 estava em marcha e que era para ir até ao fim. Embora não tenha sido concebida com cariz de protesto cedo serviu para enviar uma nota altamente política ao Estado Novo. Tinha sido composta em 1971 após uma visita à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense de Grândola, no Alentejo, e gravada em França com a direcção de José Mário Branco.

Para assinalar o Centenário do nascimento de Zeca Afonso, 2029, o Município de Grândola criou uma Comissão, presidida por Francisco Fanhais. Este, padre incómodo, assumidamente contra a guerra colonial, impedido de dar aulas, suspenso das funções de padre e, muitas vezes, impedido de cantar, acompanhou Zeca Afonso e José Mário Branco na gravação de Grândola Vila Morena. Diz que: apanhou o comboio dos cantores que lutavam contra o regime 


E hoje, 1º de Maio, Dia do Trabalhador, trago "Venham mais cinco", para o festejarmos comme il faut .


Bom feriado, amigos.
Vou ausentar-me por 2 dias.
Voltarei no domingo.

Abraços
Olinda


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* "E depois do adeus" - foi a primeira senha radiofónica - cantada por Paulo de Carvalho, letra de José Niza e música de José Calvário
Francisco Fanhais - aqui