quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"Davam grandes passeios aos domingos"



Calaram-se, com um golpe de olhos uma à outra. Não encontrando mais cadeiras vagas, Rosa Maria vinha precisamente sentar-se perto delas. Tão freneticamente a haviam aplaudido os rapazes - que a assembleia feminina, de princípio também benévola, imediatamente se mostrara reservada. 

O triunfo da mestra de piano e lavores ia tomando proporções quase escandalosas. Já se vê! o caso não teria importância, em se tratando, isto é um exemplo..., de Lá-Lá: qualquer menina de meios, com pai e mãe vivos. Conquanto, porém, D. Alice Caldeira dissesse sempre "a minha sobrinha" (faça-se-lhe essa justiça), toda a gente mais ou menos pensava na sobrinha pobre de D. Alice como na mestrazita de piano e lavores... 

Toda a gente conseguira já saber como vivera no Norte, em companhia da mãe, que até deixara de usar chapéu depois da morte do marido. e não era porque ser pobre fosse vergonha, isso não!(" a pobreza Deus a amou" repetia D. Piedade Passos, que se mostrava muito religiosa e tinha fama de avarenta), não era porque a pobreza fosse vergonhosa, quando honrada (e, a tal respeito, parece que nada havia a dizer sobre a vida que ambas tinham levado, pelo menos nada constara...), mas o certo é que os homens podiam pensar em se aproveitar! "Fugir sempre desses mafarricos!" proclamava a religiosa D. Piedade Passos.

Ao que a rude e implacável D. Rosinda Noronha contrapunha entre dentes: "Bem n-o prega Frei Tomás..." Aludia a que, tendo sempre andado muito metida pelas igrejas, D. Piedade chegara em tempos a andar falada com o padre Silveira

Pois é verdade!: os homens podiam querer aproveitar-se, tentar abusar, tanto mais que a rapariga se mostrava afinal um pouco leveira da cabeça; ou, então, andava estonteada naquele meio em que ainda propriamente não entrara, tendo prolongado para além do uso o luto da mãe..., essa verdade diga-se.

 JOSÉ RÉGIO - Davam grandes passeios aos domingos (1941) - pgs 53, 54


A novela Davam Grandes Passeios aos Domingos centra-se na personagem Rosa Maria, destacando sua introspecção e sua alienação em relação ao mundo após mudar-se para viver com sua tia, depois da morte de sua mãe. Assim, José Régio explora a dinâmica social de como diferentes gerações da burguesia falam e interagem[4], enquanto também revela como o comportamento e as expressões das mulheres dessa época são moldados pelas fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa. Comparada à história de Cinderela, a narrativa de Rosa Maria explora a psicologia de uma mulher pobre, órfã e complexa dentro da trama de Davam Grandes Passeios aos Domingos.

aqui



Poeta, ficcionista, dramaturgo, crítico e ensaísta, José Régio foi também o fundador e a alma da revista Presença órgão do Segundo Modernismo português, publicação que marcou de forma indelével toda a vida cultural portuguesa entre 1927 e 1940. (No Livro)


José Régio, o homem do Cântico Negro, nesta pequena história mergulha na alma da sociedade portuguesa, trazendo com maestria os defeitos e as virtudes que dela sobressaem.

Davam grandes passeios aos domingos será uma realidade ou apenas o desejo intrínseco que pairava nos sonhos de Ana Maria?


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Imagens - pixabay


sábado, 17 de outubro de 2026

XIV Encontro de Escritores Lusófonos

 



Está a decorrer na cidade da Praia, de 15 a 17 deste mês, o XIV Encontro de Escritores Lusófonos sob o tema geral “A língua portuguesa como elemento de adaptação num mundo de mudanças” com o intuito de juntar escritores, investigadores, editores, professores, críticos literários e leitores de várias nações lusófonas, e nesta edição com uma presença mais forte do Brasil, Macau e Timor-Leste.

Também a ideia dos promotores do evento é que neste ano a população esteja mais próxima do Encontro e para estimular esse interesse contará com uma feira de gastronomia, uma feira do livro e, em paralelo, atos simbólicos, como a plantação de uma árvore.

Para além disso, esta edição do encontro servirá também para debater as mais-valias que o Prémio de Revelação Literária UCCLA — Câmara Municipal de Lisboa - pode trazer para os jovens escritores.

O Encontro conta com a participação de escritores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe. Timor-Leste está representado pelo ministro da Administração estatal, Tomás do Rosário Cabral. 

Colocada a questão sobre o que mudariam na Língua Portuguesa, houve quem dissesse que começaria por revogar o acordo ortográfico, obrigatório em Portugal desde 2015.



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Ver - O que mudariam na língua portuguesa

Encontro de escritores lusófonos com mais Brasil, Macau, Timor-Leste e povo

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Que Humanidade é esta?



Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. 

Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. 

Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.

José Saramago, 
in 'Canarias7 (1994)'


 José de Sousa Saramago (Azinhaga, 16 de novembro de 1922 – Tías, 18 de junho de 2010) foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

aqui


Neste dia em que, entre outras efemérides, se comemora o Dia Mundial de Resolução de Conflitos é importante que paremos um pouco e meditemos sobre o destino que o mundo vai seguindo. De todos os conflitos que já vivemos no passado e de toda a evolução por que passámos parece que a nossa mente está cada vez pior. Metemo-nos em questões que não interessam nada, que não são essenciais para a nossa felicidade e bem-estar. Guerras, mortes, invasões, toda a espécie de ignomínias se cometem em nome de não sei o quê. 

Desejo que a resolução desses conflitos entre na ordem do dia e que no coração dos homens e mulheres entre um pouco de paz que é o que mais nos convém.


Abraços.

Olinda 

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Tías está localizada na ilha de Lanzarote, nas Canárias.

Texto: Citador

Efemérides do dia 15 de Outubro