quarta-feira, 11 de março de 2026

Cartas de Amor

 De António Lobo Antunes, 1942-2026, guardo, com ternura, o livro com as cartas que escrevera à mulher. De uma delas extraí algumas passagens a que intitulei "Meu querido amor", e que eu considerei a mais bela declaração de amor, incluída, salvo erro, numa "Quinzena do Amor".

São cartas de amor, de saudade e de descrição da guerra, quase um diário, com os altos e baixos, com um olhar crítico sobre o que se passava à sua volta. 

Tenho-o à minha frente e não resisto em transcrever mais uma pequena passagem, agora dedicada à filha:

Minha querida filha

Soube ontem que você tinha nascido, e não pode calcular a alegria que essa notícia me deu. Não sei o dia, não sei a hora, não sei como foi. Mas sei que você já está cá neste mundo, e isso é que é importante.

Sou o seu pai. Há nove meses que tenho por si um amor como nunca tive por ninguém. Um amor diferente. Há nove meses que sonho com este dia, que penso como serão os seus olhos, o seu cabelo, a sua cara. E tenho a certeza que você é a rapariga mais bonita, mais bonita do mundo, sinto-me, já, muito orgulhoso de si.

...

Até agora tive dois momentos de grande, de intensa felicidade na minha vida. O primeiro, quando casei com a sua mãe. O segundo foi ontem, ao saber que tinha nascido, você, a minha filha mais velha. Você é um testemunho do amor de seus pais, e mais um motivo a uni-los, a dar-lhes força e coragem. Você é a nossa filha. ... Pg 208 

Da sua extensa obra outros falarão e muito melhor do que eu. 

Contudo, assinalo aqui "Sôbolos rios que vão", título retirado de um poema de Camõesnuma altura em que precisava reflectir sobre o fluxo contínuo da vida da memória e da arte. 

Sôbolos rios que vão

Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado. 
..." 
Luis Vaz de Camões



Que siga com os rios, António Lobo Antunes.  


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D'este viver aqui neste papel descripto
Cartas de Guerra
1ª edição outubro de 2005
Lobo Antunes - aqui, no Xaile de Seda

sábado, 7 de março de 2026

Revelação de Arquétipos


Hipnotizaste minha inocência,
tocaste em algo muito raro.

Em meio à escuridão,
uma rosa te esperava.

Despertei, mesmo vulnerável,
eu te permiti, sem entender.

O acesso indeferido aos demais
foi liberado. ofereci-te minha raridade.

Há tempo não florescia,
como contigo...

Teu toque despertou meu desabrochar,
sei saberes minha vulnerabilidade.

Estava trancada em mim,
minha nudez de alma   tu desvendastes.

Despiste-me, viste como sou,
sem máscaras, de forma genuína.

Não se trata de roupas,
sim, de vestes da alma, algo sagrado.

Um sentimento místico, mágico,
nudez de espírito, despertou-nos.

Tu despertaste-me, foste despertado,
foste luz na minha escuridão.

Nus, não nos esquecemos,
somos o real um ante o outro.

De forma genuína, me tocaste,
sentiste-me, não nos esquecemos.

Foge da explicação lógica,
chama gêmea, nos compactuamos.

Sinto-me com o ouro na mão,
além da matéria, guardo no coração.

Somos segredo do nossa essência,
nosso sagrado não foi violado.

Eu  me mostrei vulnerável,
ante tua sobriedade, tua lógica.

Momento único, irreversível,
já não voltamos atrás...






Daqui vos saúdo, meus amigos!

Depois de algum tempo de Pausa volto para o vosso convívio.
Neste ano não me foi possível editar a "Quinzena do Amor",
mas a amiga Rosélia Bezerra não se esqueceu e enviou-me um
belo poema. Prometi-lhe que o mesmo constaria do meu 
primeiro post.

Amanhã é o Dia destinado no Calendário à Mulher. Embora
saibamos que a mulher está sempre activa em todos os dias
do ano, aproveitemo-lo para a prestigiar e honrar.

Abraços e beijinhos.

Olinda


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Imagem: pixabay

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mais um ano...

 


Quinze anos é muito tempo, parafraseando Paulo de Carvalho que, na sua canção, refere que dez anos é muito tempo. Ou talvez não, no caso do Xaile de Seda. Comigo tive a vossa amável companhia, com palavras bonitas e generosas. Neste tempo que passou depressa, muito tenho a agradecer: as vossas visitas, os vossos comentários, que vieram completar com mais informações o que faltava. 

Como sabeis, o Xaile de Seda é um blog que prestigia a palavra dos outros, o mesmo é dizer que procuro publicitar poemas e prosas que couberam na inspiração de pessoas que têm a infinita arte de escrever. Também se trata de publicar música de que gosto, esperando que também vos tenha agradado, o que fiz com imenso prazer.

Assim, cumpri um pouco o que Voltaire teria querido dizer no final de Candide: "Il faut cultiver notre jardin". 

Claro que essa expressão não poderá ser interpretado à letra, tout court, visto que o livro seria escrito depois do terramoto de Lisboa, 1755, com muita ironia e em oposição ao fatalismo de Leibniz. Segundo este todas as desgraças que acontecem neste nosso mundo têm uma razão de ser. É o optimismo no seu cúmulo, na sua melhor ou pior versão.

Desta feita, ouve-se Monsieur Pangloss dizer: Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. 

E enquanto temos a ilusão de que estamos no melhor dos mundos, viajando pelo século XVIII, trago esta canção de Salvatore Cutugno - l'italiano vero, que nada tem a ver com os quinze anos deste blog, 

mas sim com a CHICA e o MARIDO que fizeram anos de casados há poucos dias. Assim, dedico-lhes esta canção que, como diz a própria letra:

Lasciatemi Cantare:


Toto Cutugno

Lasciatemi Cantare



Envio-vos abraços apertados, ao mesmo tempo que vos anuncio que vou iniciar uma Pausa, pequenina ou longa ainda não sei.

Dias felizes vos desejo.

Olinda


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imagens - pixabay