sexta-feira, 2 de outubro de 2026

S. Vicente - a miragem do paraíso (XII)

 



Na verdade, quase todos os observadores da época estão de acordo em como a população que vivia à roda do cais tinha uma vida nhanida, se não mesmo miserável, o que qualquer pessoa poderia observar à simples entrada de um barco no porto: Quando chegavam, cita Duncan, eram rapidamente rodeados por pequenos botes conduzidos por um magote de remadores que tentavam escapar a vida vendendo frutas, doces, e curiosidades da terra. ...

Mas essa vida miserável estava longe de ser exclusiva da ponta de cais. Em boa verdade não diferia muito da vida na cidade que por sinal nunca viria a gozar de boa fama, nem nas demais ilhas do arquipélago, que a consideravam uma terra de perdição, nem junto dos estrangeiros que a visitavam: "O passageiro ou tripulante que aventura desembarcar (em Mindelo) é logo rodeado por um pequeno exército de pedintes, alcoviteiros, prostitutas e vagabundos, sem mencionar os cicerones, os rapazes de recado e os chulos que se aglomeram junto ao infeliz visitante com uma persistência única", disse um viajante. (...)

Para se conhecer bem a vida da cidade nesse "tempo, aparentemente longínquo, arcaico e morto", mas que "apresenta-se afinal portador de inúmeros paralelismos com os vivos e prementes problemas da nossa época, isso mesmo salvaguardando a individualidade específica de cada período histórico", nada melhor que ler o autor destas palavras, o sociólogo-historiador caboverdiano António Carreira e Silva no seu expressivo livro "Nos tempos do Porto Grande do Mindelo".

De todo o modo, durante cerca de 50 anos Mindelo vive uma aparência de bem estar, para o qual no entanto a população trabalhadora paga um preço exagerado (...)

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente - pgs 29, 30, 31


Os antigos contam sobre esses dias de cicerone, dos barcos, 

do Porto Grande, e também de miséria. 




Abraços, amigos.

Olinda


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imagem: Net

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

De Elvas a Olivença

 


 

Esta é a Ponte da Ajuda que ligava Elvas a Olivença, mandada construir por D. Manuel I. Durante a Guerra da Restauração, em 1646, foi parcialmente destruída pelo exército castelhano e mandada reparar depois do fim da guerra. Em 1709 durante a Guerra da Sucessão Espanhola, o exército castelhano fê-la explodir também parcialmente não tendo sido objecto de qualquer reparação. 

Em 1967, a ponte foi declarada como Imóvel de Interesse Público pelo estado português.

Passando pela ponte mandada construir, a jusante, chamou-me a atenção essa outra meio destruída que até me pareceu com um traçado romano, o que me fez proceder a alguma pesquisa.

Tendo em conta toda a história à volta de Olivença, na minha cabeça soavam os dizeres "Olivença é nossa" que os antigos e, também, por quem conhece os percalços por que passou a sua posse.

A demarcação de Olivença é objeto de litígio entre Portugal e Espanha. Reivindicado de jure por Portugal, o município integra atualmente a província de Badajoz da comunidade autónoma espanhola da Estremadura.

Apesar do desentendimento entre Portugal e Espanha sobre a Questão de Olivença, o tema não tem provocado atrito nas relações entre os dois países ibéricos.




Passeámos por lá, tirámos fotos aos monumentos, bebemos café, comemos tapas. 

Tão perto de Elvas ou de Mourão, até ouvia com certa estranheza ouvir falar espanhol.


Abraço
Olinda


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1ª imagem: Wiki

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Saudemos a Primavera, dona da vida - e efêmera"

 




A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim
para recebê-la.

A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da
terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta
ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra.
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade.
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles Obra em Prosa - Volume 1",
Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

Trazido de aqui


Deste lado do Atlântico temos o Outono com as suas cores douradas e clima pouco rigoroso embora ainda faça bastante calor. Do lado de lá é a Primavera que já  fez a sua aparição, com as suas flores e o seu perfume inconfundível.

Dedico esta crónica de Cecília Meireles aos 

meus amigos brasileiros, que visitam o Xaile de Seda.



Jorge Palma

(1950-2026)



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Imagem: Net

Encontrei com a grafia "Jaipur", mandada pintar de cor-de-rosa no século XIX, a cor da hospitalidade.