terça-feira, 8 de setembro de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (VIII)

 


...Mindelo vai lentamente regressando ao seu anterior ritmo de crescimento e pouco tempo depois, com a forte ajuda da emigração das ilhas, voltava a atingir os seus 1400 habitantes. Em 1862 já se construíra o edifício da alfândega, diversos outros estavam iniciados e a vila já beneficiava de "uma bonita igreja com a invocação de Nossa Senhora da Luz".

O grande problema de S.Vicente era realmente a água, na maior parte importada do Tarrafal de Santo Antão. Uma comissão constituída para estudar as possibilidades de abastecimento da vila do Mindelo através da canalização das águas das nascentes do Madeiral e Madeiralzinho, declarou com alguma precipitação que tal não seria rentável pois que eram insuficientes para abastecer a população e ainda fazer a aguada dos navios. 

Mas certamente que em desespero de causa, em 1870 o governador geral foi autorizado pela Metrópole a celebrar com Jorge e João Rendall, Manuel Gomes Madeira e Aleixo Justiniano Sócrates da Costa, o médico-político-literato que já encontrámos na Boa Vista, um contrato para a canalização dessas águas rumo à vila.

Mas outros progressos iam também acontecendo: a 18 de Março de 1874 seria amarrado na praia da Matiota o primeiro cabo submarino ligando a ilha à Europa e América e,  com a instalação no Porto Grande dos depósitos da Cory Brothers & Cª em 1875, Mindelo passa a ser considerado o maior porto carvoeiro do médio Atlântico.

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 22 e 23.


Assim, S.Vicente vai se desenvolvendo, com altos e baixos, com falta do líquido precioso, água potável, mas procurando soluções para não ficar pelo caminho. O primeiro cabo submarino é ligado na praia da Matiota à Europa e América...

Veremos como as coisas funcionam daqui para o futuro. 



Flor Formosa - A. Travadinha



Abraços, amigos.

Olinda


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Imagem: Net

S.Vicente, uma das 10 ilhas de Cabo Verde.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A CASA PERMANECE

 



 Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa.

O coração bate em todas as paredes. Acolhes a intimidade, da penumbra, o cheiro da lavanda em cada canto, a pulsação do passado. Quase tocas as faces familiares presas ao inquietamento das janelas fechadas. O desvio arbitrário dos dedos contorna a trama tecida na memória, sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte.

Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. Esta, onde entras para te reencontrares. Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão e o soalho range com o aperto do olhar, como um eco dos teus passos. Demoras-te. Entregas-te à irrealidade de pretéritos rumores, ao alarme de uma distância que não alcanças.

E recuperas o deslumbramento de seres criança e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.

Graça Pires - Poemas Escolhidos (2012-2025) - pg 202


Gosto muito dos poemas de Graça Pires, uma das melhores poetisas que tenho lido. Agora, neste ano, saiu um livro com poemas escolhidos dos anos de 2012-2025, livro precioso cuja leitura nos leva a momentos de puro enlevo. 

Este poema, escrito em forma de prosa, foi retirado do livro "Antígona passou por aqui", que conta a vida de Antígona no jeito pessoalíssimo de Graça Pires. 

Muito obrigada, amiga, por nos trazer esta bela forma de escrita.  





Blog: Ortografia do Olhar


Abraços, amigos.

Olinda


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imagem: pixabay

imagem: "Antígona" Wiki

terça-feira, 1 de setembro de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (VII)

 



A carvoeira East India teria uma presença efémera em Mindelo. Porém, em 1850, a Royal Mail inicia a instalação no Porto Grande dos depósitos de combustível para o abastecimento da navegação que ali passa com destino ao atlântico sul. Por causa disso logo se torna necessário dotar a ilha de alfândega própria, e em Março de 1852 o Governo desanexa S.Vicente de Santo Antão, constituindo-se em concelho independente, tanto mais que no ano seguinte a companhia inglesa Visger & Miller instala novo depósito de carvão de pedra. (...)

Certamente que por pressão dos ingleses, por portaria de 10 de Março de 1857, é abolida de facto a escravatura em S.Vicente e no ano seguinte em S.Nicolau e Santo Antão. Os dados ficam pois lançados para o início dos considerados tempos áureos de Mindelo, embora um americano que visitou o burgo em 1855, o tenha descrito como uma colecção de pequenas cabanas de pedra, cercadas por montes e vales, verdadeiros exemplos de aridez. Mas em 1858, ano em que foi elevada à categoria de vila, Mindelo já possuía 4 ruas, 4 travessas, 2 largos e 170 habitações, e a sua população estava calculada em 1400 habitantes.

... subitamente a ilha é atingida por um surto de febre amarela que a flagela com tal violência que quando o navio em que viajava o árbitro português na Comissão Mista Luso-Britânica, Francisco Travassos Valdez, a visitou em 1861, disse ele que "só com muita dificuldade obtivemos braços suficientes para meter carvão no vapor..."

E de facto a mortandade foi tão grande que se estima ter a população ficado reduzida a metade. O povo vivia aterrorizado e apático, abandonado como se sentia pelos poderes públicos. (...)

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 19, 20.


Desconhecia que S.Vicente encontrava-se anexado a Santo Antão. 

O surto de febre amarela foi deveras terrível. Felizmente, houve particulares que, sacrificando-se, prestaram o socorro necessário fazendo com que o resultado não fosse pior...  




Abraços, amigos.

Olinda


Nota: o próximo post vos trará um poema, em forma de prosa, da autoria de Graça Pires. Portanto, interrompo por poucos dias a nossa viagem por S.Vicente.


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S.Vicente - Ilha pertencente ao arquipélago de Cabo Verde. 

O arquipélago é composto por 10 ilhas: Santo Antão, S.Vicente, Santa Luzia,(desabitada), S. Nicolau, Sal, Boavista, Maio, Santiago, Fogo e Brava.

Imagem: Net