sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Afinal, o futuro era isto. Não estamos mais sábios, não temos melhores razões.





MORANGOS

No começo do amor, quando as cidades 
nos eram desconhecidas, de que nos serviria 
a certeza da morte se podíamos correr 
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite 
e acabar na praia a comer morangos 
ao amanhecer? Diziam-nos que tínham

a vida inteira pela frente. Mas, amigos, 
como pudemos pensar que seria assim 
para sempre? Ou que a música e o desejo 
nos conduziriam de estação em estação 
até ao pleno futuro que julgávamos 

merecer? Afinal, o futuro era isto. 
Não estamos mais sábios, não temos 
melhores razões. Na viagem necessária 
para o escuro, o amor é um passageiro 
ocasional e difícil. E a partir de certa altura 
todas as cidades se parecem. 

in 'Longe da Aldeia' 

Escritor português, Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Chacim, uma pequena aldeia do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros. Cedo abandonou a terra natal para ir estudar num colégio interno em Macedo. Uma parte importante da sua infância foi constituída pelas visitas de veraneio, em férias do internato, a Chacim e a Alvites, um outra aldeia, em Mirandela, onde o seu pai nascera. O contacto que aí foi mantendo com a natureza veio determinar em absoluto o carácter da sua obra. LER MAIS AQUI

====

Poema: Citador

Imagem:daqui

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Meu Pai, o que é a Liberdade?

- Meu pai, o que é a liberdade? 

- É o seu rosto, meu filho, 
o seu jeito de indagar 
o mundo a pedir guarida 
no brilho do seu olhar. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto da vida 
que a vida quis desvendar. 
É sua irmã numa escada 
iniciada há milênios 
em direção ao amor, 
seu corpo feito de nuvens 
carne, sal, desejo, cálcio 
e fundamentos de dor. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto do amor. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

A mão limpa, o copo d’água 
na mesa qual num altar 
aberto ao homem que passa 
com o vento verde do mar. 
É o ato simples de amar 
o amigo, o vinho, o silêncio 
da mulher olhando a tarde 
- laranja cortada ao meio, 
tremor de barco que parte, 
esto de crina sem freio. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

É um homem morto na cruz 
por ele próprio plantada, 
é a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada. 
É Cuauhtemoc a criar 
sobre o brasileiro que o mata 
uma rosa de ouro e prata 
para altivez mexicana. 
São quatro cavalos brancos 
quatro bússolas de sangue 
na praça de Vila Rica 
e mais Felipe dos Santos 
de pé a cuspir nos mantos 
do medo que a morte indica. 
É a blusa aberta do povo 
bandeira branca atirada 
jardim de estrelas de sangue 
do céu de maio tombadas 
dentro da noite goyesca. 
É a guilhotina madura 
cortando o espanto e o terror 
sem cortar a luz e o canto 
de uma lágrima de amor. 
É a branca barba de Karl 
a se misturar com a neve 
de Londres fria e sem lã, 
seu coração sobre as fábricas 
qual gigantesca maçã. 
É Van Gogh e sua tortura 
de viver num quarto em Arles 
com o sol preso em sua pintura. 
É o longo verso de Whitman 
fornalha descomunal 
cozendo o barro da Terra 
para o tempo industrial. 
É Federico em Granada. 
É o homem morto na cruz 
por ele próprio plantada 
e a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

A liberdade, meu filho, 
é coisa que assusta: 
visão terrível (que luta!) 
da vida contra o destino 
traçado de ponta a ponta 
como já contada conta 
pelo som dos altos sinos. 
É o homem amigo da morte 
Por querer demais a vida 
- a vida nunca podrida. 
É sonho findo em desgraça 
desta alma que, combalida, 
deixou suas penas de graça 
na grade em que foi ferida... 
a liberdade, meu filho, 
é a realidade do fogo 
do meu rosto quando eu ardo 
na imensa noite a buscar 
a luz que pede guarida 
nas trevas do meu olhar. 

Moacyr Félix 

1926-2005


====
in 'Canto para As Transformações do Homem' (Citador)
Dos nomes referidos no poema os que eu desconhecia:
-Cuauhtémoc (1502 - 1525),  Wiki
-A Revolta de Filipe dos Santos — episódio também conhecido como Revolta de Vila Rica. Considerado um dos precursores da chamada Inconfidência Mineira. Wiki

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Presente não existe


Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência. 



Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo. 

 
in 'Ensaio: O Tempo'


====

Texto: Citador
Imagem: aqui

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Poema de Setembro





Sugeriram-me um poema sobre Setembro. Comecei
de imediato a pensar: tirar um Setembro das recordações? Criar
um Setembro que jamais existiu? E criar como? Só como entidade
fortuita, como vivência crepuscular? Num princípio de manhã?
Setembro como lugar e hora, como estância perdida? Porque
Setembro é algo de impalpável, estranhamente inexistente, um risco numa
parede entre duas portas cerradas. Ou então
algo tão intenso e cheio de presença como uma sombra enorme
num pátio abandonado. Setembro como memória perene? Setembro como fuga
como chegada à palavra e ao horizonte das formas?

Eis a voz. Eis o nome. Eis o lugar que se escolheu. Um vestígio
de matéria absurdamente concreta. Porque os demais momentos
são agora um ruído junto das casas que se habitaram
com todo o seu encanto e desencanto primordiais. Com a semelhança
de olhares e de ausências.

E assim Setembro me poisou num ombro
como réstea de sol  num dia inteiramente comum. Setembro
que é dito, que é escrito, que é rememorado
Setembro que se olh
a e nos define como seres ao anoitecer
ante este muro sobre o qual já se vêem os astros habituais
e que são tão nossos como o grito súbito de uma ave indistinta.

Setembro que não sei dizer
Setembro que nos foge quando o tentamos olhar
Setembro que lembro e que conheço como uma cor amada
mês que morre e revive em mim como um soluço um beijo um aceno

de mão sulcada por muitas linhas e pensamentos.

(Do livro em preparação Escrita e o seu contrário)


Pseudónimo de Francisco Ludovino Cleto Garção
Poeta, pintor, publicista, actor/declamador. Aqui

====
Poema de Aqui - O Arquivo de Renato Suttana
Imagem: Pixabay

terça-feira, 21 de agosto de 2018

As Pontes - Obras de Arte de Engenharia Civil

As pontes ligam pessoas e coisas e fazem a vida acontecer. À vista delas pensamos logo em duas margens e na possibilidade de irmos de um lado ao outro e trazer o que nos faz falta tanto no aspecto material como num mais elevado, poético, (quase que oiço os Jáfumega: A ponte é uma passagem// p'rá outra margem//Desafio pairando sobre o rio//a ponte é uma miragem). 

E é indiscutível: a existência das pontes facilita grandemente o nosso quotidiano. O interessante é que na construção civil elas têm a designação de Obras de Arte. Assim os viadutos e os túneis, bem como as barragens, os diques, as eclusas, os muros de sustentação. 


O termo remonta à época em que tais estruturas eram concebidas por artífices que, graças a uma importante intuição e criatividade, conseguiram conceber e construir obras que eram apelidadas de "obras de arte". aqui

Só que essas estruturas foram construídas para suportar determinados pesos e esforço, conforme as exigências de cada época. Se pensarmos que em Portugal temos pontes desde os romanos e que de lá para cá foram sendo construídas muitas mais tomamos consciência de como o seu número é elevado*, o que multiplica os cuidados a ter com a sua manutenção. Logo, há que vigiá-las e avaliá-las constantemente no sentido de se determinar se a sua utilização, de forma continuada, obedece aos parâmetros devidos de segurança.


Construída entre o Século I e o Século II d.C.


Passagem de uma resenha histórica em relação às pontes:

Apesar de as primeiras estruturas em arco terem surgido inicialmente na Mesopotâmia e no Egipto entre os anos de 4.000 a.C. e 3.000 a.C., é com os romanos que nascem os primeiros verdadeiros engenheiros da nossa civilização. Tendo por base os conhecimentos adquiridos do contacto com as culturas etrusca e grega e partindo da aplicação do arco, do ponto de vista pragmático e através de experiências em série, os romanos deduziram os princípios teóricos da construção de pontes.* 

Em Março de 2001 fomos assombrados com a queda trágica de um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro, também chamada de Entre-os-rios, e com ela perdemos 59 vidas. Investigações e mais investigações. Foi da areia retirada sistematicamente das suas bases? Parece que foi essa a conclusão. Não foram encontrados culpados. A ponte entrara oficialmente ao serviço em 1888, tendo sido sujeita a algumas intervenções ao longo dos anos, mas não as suficientes em termos de fiscalização para evitar tal desastre. 





O que aconteceu com a Ponte de Entre-os-rios veio despertar-nos para a necessidade urgente de reavaliar o estado das pontes no sentido de passarmos à sua reabilitação. De 2014 encontrei notícias de que haveria cerca de 430 pontes e viadutos a necessitar de obras. Sobre a sua efectivação nada sei. De uma entrevista de 18 deste mês, do Público, a um responsável da Infraestruturas de Portugal, respigo esta pergunta e a correspondente resposta:

Existe um plano de fiscalização com períodos definidos para vistoria?

Podem ser inspecções mais detalhadas a que chamamos inspecções principais, e que regra geral ocorrem de seis em seis anos, ou inspecções de rotina, que têm uma base anual e servem para identificar eventuais anomalias ou confirmar que a manutenção corrente é suficiente.


Podemos ficar descansados? 

De concreto, sabemos que há projectos em relação à Ponte 25 de Abril, para 2019, com vista à realização de obras de reabilitação o que levará à interrupção do trânsito nos seguintes dias: 

No sentido Norte/Sul, os cortes estão previstos para os dias 18 e 19 de maio e 13 e 28 de outubro. No sentido Sul/Norte, as interrupções serão efetuadas nos dias 11 e 12 de maio e 12 e 19 de outubro de 2019. As datas indicadas por António Laranjo coincidem com madrugadas de fins de semana e foram anunciadas durante uma audição na comissão de obras públicas do Parlamento sobre as obras de reabilitação da Ponte 25 de Abril.



A intervenção durará dois anos e ao longo desse tempo outros cortes poderão ser necessários.

Venham as obras e as interrupções de trânsito, para o bem de todos nós.


Daqui expresso a minha tristeza pela tragédia sofrida pelos genoveses com o desabamento do viaduto Morandi, que ceifou tantas vidas e mergulhou os sobreviventes em grande sofrimento. 


====

Leia mais:

Ponte 25 de Abril - História

Lista de Pontes de Portugal

Obras na Ponte 25 de Abril

*7200 obras de arte - Manutenção e reparação em tempo

**Conferência Internacional sobre Reabilitação de Estruturas Antigas de Alvenaria
fulltext_CIRea2012.pdf - (Aqui ficamos a saber tudo, ou quase tudo, sobre estas estruturas)

Imagens- Wiki


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A Viagem dos Malditos


Quando cheguei ao canal da RTP Memória, no Domingo à tarde, o filme já tinha começado. Pelas indumentárias consegui identificar a época e à medida que os diálogos iam avançando consegui aperceber-me do tema. Tratava-se de cerca de mil passageiros, 937, talvez judeus (não tinha ainda percebido bem) e pelas datas diárias que iam aparecendo em rodapé, vi que estávamos em Maio de 1939. Muita incerteza lavrava entre as pessoas mas a esperança de chegar a bom porto, Havana, como lhes fora prometido, fazia-as aceitar a situação mesmo sabendo que o futuro era incerto.


Em Havana, entretanto, decorriam conversas, conversações, negociações e negociatas em torno desses passageiros e aos poucos foi ficando evidente que não havia intenção nenhuma de os deixar desembarcar. Com efeito, o comandante do navio, Gustav Schroeder, alemão, homem com grande sentido do dever e da ética, não foi autorizado a desembarcar os seus passageiros. As dificuldades a bordo eram enormes com a concentração de tanta gente com os nervos e frustrações à flor da pele. O navio foi obrigado a sair das águas cubanas sem rumo definido. O comandante ainda chegou a verbalizar perante um dos passageiros, um médico famoso, que pensava provocar um acidente à aproximação do Canal da Mancha forçando à recolha e à aceitação dessas pessoas. Quando já estava tudo preparado para que isso acontecesse chegou a notícia, da parte do agente de ligação dos judeus alemães retidos no navio, que alguns países aceitavam recebê-los.


O destino destes seres humanos apanhados na voragem da segunda guerra mundial e da loucura desses dias, cuja data oficial viria a dar-se em Setembro desse ano com a invasão da Polónia, não será difícil de adivinhar. Pelo menos para a maior parte deles, os campos de concentração com a subsequente destruição da sua forma de vida, e da sua própria vida, foi uma certeza.

De referir que a viagem fora uma farsa. Os judeus foram metidos no navio pelos governantes da Alemanha-nazi para provar ao mundo que ninguém os queria, o que ajudaria ao seu extermínio, conforme é referido aqui.

===

SINOPSE

===



À medida que via o filme assaltava-me a imagem do Aquarius vogando pelo Mar Mediterrâneo com 141 pessoas a bordo, pessoas essas que ninguém queria receber. A Itália a fazer ver à Europa que para esse peditório já deu. Falava-se em Malta e Espanha que também se recusavam a recebê-las. E os outros países onde estavam? É certo que o assunto está resolvido, de momento. Chegou-se a um acordo de circunstância, creio eu, com o beneplácito da União Europeia. Portugal e outros países vão recebê-las ou já as receberam. E depois? Quais as soluções de fundo? Onde estarão os gabinetes de crise que deveriam ser criados para estudar com seriedade esse problema migratório?

Não queiramos que os vindouros nos acusem de desumanos daqui a uns anos quando alguém se lembrar de fazer um filme apresentando o Mar Mediterrâneo como o Mar da nossa Vergonha. Há uma certeza: a História julgar-nos-à.


====
2ª imagem - net: 
O navio SS St. Louis no porto de Havana
Aquarius - aqui

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Livro da Vida


Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia... 
— Lia o «Livro da Vida» — herança inesperada, 
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria 
Ao primeiro clarão da primeira alvorada. 

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto, 
Todo o humano tropel num clamor ululando, 
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto, 
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos; 
E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça,— 
A ler e a meditar postulados eternos, 
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada página abrange um estádio da Vida, 
Cujo eterno segredo e alcance transcendente 
Ele tenta arrancar da folha percorrida, 
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo; 
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão... 
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo! 
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta: 
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos, 
Nem o humano sofrer, que outras almas enluta, 
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!

Só depois de voltada a folha derradeira, 
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado, 
É que o Sábio entreviu, como numa clareira, 
A luz que iluminou todo o caminho andado..

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas, 
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento, 
— Tudo viu num relance em imagens perdidas, 
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu estéril zelo, 
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou, 
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo, 
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou... 


 in 'Sol de Inverno' 



António de Castro Feijó (1859-1917) Poeta e diplomata. Português. Diz-se que a morte prematura da esposa viria a influenciá-lo, imprimindo um certo tom fúnebre à sua obra.

Neste poema vejo-lhe, contudo, válidos motivos de reflexão sobre a Vida e do que queremos fazer com ela. Tudo o que nos rodeia faz parte dela. Se é importante a parte teórica, os ensinamentos antigos, os valores da filosofia, as leis e outras disposições, é a sua aplicação no nosso quotidiano que nos enobrece. É fundamental passarmos das normas à prática, experimentando, experimentando, experimentando até ver se as coisas funcionam para que no momento de grandes emergências cada um saiba o seu lugar e as suas funções.

Os incêndios que lavram em Monchique mostram como somos pequenos perante tragédias dessa natureza. Mais uma parte do país a ser devorado pelas chamas, pessoas em desespero... O meu apreço àqueles que lá estão, no terreno, procurando de todas as formas que as coisas não assumam aspectos de total catástrofe.

Antes de Monchique, a Grécia. Também lá se viu como a falta de planeamento pode tomar proporções inconcebíveis, incontroláveis. Vidas ceifadas pelo fogo, pelo mar, também nas escarpas. Em momentos de aflição tudo parece conjugar-se para fechar todas as saídas.


Por aqui ainda a curar uma gripe (a tentar, pelo menos).
Desejo-vos uma boa semana.

Abraço.

=====
Poema: Citador

terça-feira, 31 de julho de 2018

A Criança do Lapedo

Um pouco ausente do blogue, por assistência a familiar, agradeço a todos os que por aqui têm passado, neste ínterim. Não queria deixar passar este mês (na verdade, daqui a pouco já é Agosto) sem fazer referência a uma notícia que li logo no seu início, não porque nos faça alguma diferença para o nosso quotidiano, mas, sim, no sentido de que nos permite conhecer mais do nosso passado, das nossas origens, dos cruzamentos a que, provavelmente, ao longo dos tempos fomos sujeitos e que de alguma forma terão influenciado a nossa sobrevivência.

Trata-se de um achado arqueológico de Dezembro de 1998, no Abrigo do Lagar Velho do Vale do Lapedo - Leiria - o esqueleto fossilizado de uma criança com a idade compreendida entre os quatro e cinco anos, datado no tempo com 24500 a 25000 anos, enterrada com cuidados que fazem supor que era amada e que viveria no seio de uma comunidade. Na verdade foi designada de "Menino do Lapedo", embora não se saiba se é menino ou menina. (Há textos que dizem peremptoriamente que é do sexo masculino)*. 




O espanto para os especialistas reside no facto de estar datado o desaparecimento ou extinção dos Neandertais em 28000 anos e essa criança apresentar na sua estrutura óssea influências do Homo Sapiens Sapiens e do Homo Neandertalensis. Então, uma série de questões se coloca: Em que condições ter-se-á processado o cruzamento entre eles? Os neandertais terão sido absorvidos pelo homem moderno? Ter-se-ão verificado confrontos entre eles e em que medida? Enfim,  há controvérsias e polémicas a perder de vista.

Por mim, creio que nada se extingue sem deixar rasto, por mais ténue que seja. Muito há para descobrir ainda e penso que não será nos nossos dias que ficaremos a saber de que se compõem esses mistérios ou se chegaremos ao seu âmago. 

Talvez com o fito de se procurarem mais respostas e em comemoração dos 20 anos do referido achado arqueológico, no passado dia 23 de Julho, em Leiria, recomeçaram-se as escavações arqueológicas e há um programa afim durante o ano de 2018, que inclui uma exposição na Croácia: O Museu de Arqueologia de Zagreb (Croácia) vai receber em dezembro uma exposição sobre o Menino do Lapedo, projeto que envolve a autarquia de Leiria, o Ministério da Cultura e o Museu Nacional de Arqueologia, entre outros.





Diz aqui que:

Assinalar os 20 anos da descoberta do Menino do Lapedo é reconhecer a sua importância e a relevância do Abrigo do Lagar Velho, no Lapedo, no âmbito científico e pedagógico, na área da arqueologia e paleontologia mundiais, mas sobretudo dar-lhes a devida projeção enquanto património cultural de extraordinária relevância nacional e internacional... (Vereador da Cultura da Câmara de Leiria)


QUEIRA ACEDER A ESTE INTERESSANTE



Boa semana.

Abraço.


=====

Leia mais: aqui, aqui, aqui 
Imagens: daqui

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Procuro-te

Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido.


Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 

in "As Palavras Interditas"

Encontrei, há dias, Eugénio de Andrade no blog Raraavisinterris. Lembrei-me que há já algum tempo que ele não visita o meu Xaile de Seda. Fui à procura de poemas seus e, claro, a dificuldade esteve na escolha. Acabei por optar por este: "Procuro-te". 

Há sempre algo que procuramos na vida e penso que as palavras deste magnífico Poeta traduzem na perfeição o que nos faz avançar estrada fora, aos mais profundos recantos ou dentro de nós próprios: a procura do sentido da Vida.

======

Poema:  Citador
Imagem: Pixabay  

sábado, 30 de junho de 2018

Oh, Vida, sê bela!


Alberto de Lacerda - o poeta expatriado

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita: 
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita.

aqui


NÓS

Falei 

Cantei 
Cantei demais 

Arrisquei quebrar 
O arco-íris 

Mas até em estilhaço 
Continuaria 
O encantamento


Alberto de Lacerda, in 'Átrio' 


Como é Belo Seu Rosto Matutino

Como é belo seu rosto matutino 

Sua plácida sombra quando anda 

Lembra florestas e lembra o mar 
O mar o sol a pique sobre o mar 

Não tive amigo assim na minha infância 
Não é isso que busco quando o vejo 
Alheio como a brisa 
Não busco nada 
Sei apenas que passa quando passa 
Seu rosto matutino 
Um som de queda de água 
Uma promessa inumana 
Uma ilha uma ilha 
Que só vento habita 
E os pássaros azuis 


Alberto de Lacerda, 

in 'Exílio' 




Alberto de Lacerda viveu quase sempre no estrangeiro e foi esquecido. Porém, nunca se esqueceu de Portugal. Pelo contrário, levou a nossa cultura para junto de gente que, de Portugal, nada sabia. Esse é um dos problemas que se apresenta no que respeita à tarefa de divulgar a vida e obra do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007). É preciso ir encontrá-lo, situá-lo no seu tempo e dar-lhe o contexto de uma vida vivida e celebrada por outros.


Palavras iniciais da introdução à exposição, da Biblioteca Nacional, dedicada à obra de Alberto de Lacerda, em Outubro de 2017, com o título "Oh, Vida, sê bela!".

===

ALBERTO DE LACERDA: toda a luz e solidão do mundo.

LABAREDA - publicado agora, em Junho 
Diz-se aqui que este livro quer resgatá-lo para as novas gerações e estimular a curiosidade para uma poética e uma vida invulgares.

=====

Imagens: net
Poemas: Citador