sábado, 7 de novembro de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (XV)

 



Entretanto dá-se a implantação da república em Portugal, aliás vivamente saudada em sessão extraordinária expressamente reunida para o efeito: "Esta Comissão Municipal da cidade do Mindelo julga interpretar o sentir da população fazendo votos por que de toda essa memorável luta armada entre filhos da mesma terra, surja uma pátria de homens fortes impondo-se ao mundo civilizado pela cultura das suas leis políticas e sociais", dizia o telegrama enviado. 

Porém, são associações beneméritas do mundo, como por exemplo a associação "Amor e Caridade" de Santos, Brasil, que se encarregam de ajudar os famintos trazendo navios carregados de mantimentos vários, tendo mesmo a Comissão Municipal, em acta de 23.11.911, louvado o "prestante cidadão Augusto Messias de Burgos", representante dessa associação "pelos relevantes serviços que incontestavelmente tem prestado aos famintos na actual crise alimentícia".

Dois anos depois da implantação da República a situação encontrava-se particularmente agravada, sobretudo pelo " facto de já se achar vendendo o milho por um preço exorbitante", quando era certo ser ele a principal alimentação do povo. A pedido de "alguns membros do corpo comercial que em nome deste e do povo solicitavam uma sessão extraordinária", a Comissão Municipal volta a reunir-se a  17.12.912 sob a forte pressão "de trabalhadores de carvão em número superior a 4.000, que ocuparam o edifício municipal e a praça da República" "a fim de se pedirem providências a Sua Excia o Ministro das Colónias acerca da crise alimentícia que ameaça a população, por falta de chuva e da insuficiência de trabalho no Porto Grande". (...)

Na sequência dessa reunião, um telegrama é enviado ao Ministro das Colónias e algumas medidas paliativas são postas em prática. (...)

A 9.4.917, mais uma vez em sessão extraordinária, a Câmara reune-se "a fim de resolver sobre o que convém pôr em prática, por parte do Município, para se socorrer o povo faminto nas circunstâncias motivadas pela falta de trabalho e pela ausência quase completa de navegação no Porto Grande, agravadas pela carestia cada vez maior dos géneros alimentícios de primeira necessidade". Decide-se por unanimidade "dar uma refeição diária aos indivíduos mais necessitados".

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 37 a 40




Abraços, amigos.

Olinda


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imagem: net

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

"A missão de continuar a vida"




Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério. Para nós mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo. Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje. 

Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. 

A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver. Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem.

in 'Entrevista (1983)'






Natália de Oliveira Correia  (1923 -1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores. 
Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais. A partir de 1971, essas reuniões passaram a ter lugar no bar Botequim. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.


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Abraços, amigos.

Olinda

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Imagens - net
Texto: citador

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Em todos os jardins



Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen

            

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui



 Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo". A sua própria vida e as suas próprias lembranças são uma inspiração para a autora, pois, como refere Dulce Maria Quintela, ela "fala de si, através da sua poesia".


Abraços, amigos.

Olinda


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Poema - daqui

Imagem: pixabay