quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Em todos os jardins



Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen

            

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui



 Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo". A sua própria vida e as suas próprias lembranças são uma inspiração para a autora, pois, como refere Dulce Maria Quintela, ela "fala de si, através da sua poesia".


Abraços, amigos.

Olinda


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Poema - daqui

Imagem: pixabay

sábado, 24 de outubro de 2026

S,Vicente - a miragem do paraíso (XIV)




Mas também o governo está de tangas, pelo que responde ordenando três medidas: o repatriamento de todos os indigentes; oferta de passagem aos que quisessem ir trabalhar nas obras públicas de Santo Antão; abertura de trabalhos públicos para os naturais de S.Vicente. Era em si uma medida cómoda, ainda que de difícil aplicação porque poucos já eram ao tempo os naturais de S.Vicente.

De todo modo, os operários em peso recusam essa proposta discriminatória. Mas entretanto essa primeira crise acaba por ficar de certa forma ultrapassada com a retoma de algum movimento de barcos entrados no porto e consequente emprego ainda que só para uma parte dos trabalhadores.

Porém, a partir daí o desemprego passa a ser uma constante no seio de uma classe trabalhadora depauperada, e com ele o espectro da fome ou pelo menos de verdadeiros dramas sociais, como põem a nu os romances como "Chiquinho" de Baltasar Lopes ou os contos "Caderneta" e "Dona Mana" do mesmo autor, sem já falar nesse constante forçar para sobreviver magistralmente retratado por Manuel Lopes no "O galo cantou na baía": "Quando porto não dá, acaba comida do povo".

"O que é verdade é que a mesquinhez dos salários, insuficientando os recursos  para a satisfação das imprescindíveis necessidades do viver ou dos encargos; a singular proliferação da raça indígena, mal contida nos seus feitos de exagerado povoamento das famílias, pela mortalidade derivada das desumanas condições em que crescem, sem cuidados familiares e físicas, as crianças que enxameiam cada lar; as taras da tuberculose e dos vários vícios atávicos da raça e a violência do trabalho, são bem de feição própria a imprimir na vida em geral das classes proletárias, e sobretudo logo que o trabalho falte, o carácter iniludível da verdadeira miséria", lê-se no relatório da Câmara de S.Vicente em Julho de 1910 (...) 

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente - pgs 35 a 37





Abraços, amigos.
Olinda


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Imagem: net

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"Davam grandes passeios aos domingos"



Calaram-se, com um golpe de olhos uma à outra. Não encontrando mais cadeiras vagas, Rosa Maria vinha precisamente sentar-se perto delas. Tão freneticamente a haviam aplaudido os rapazes - que a assembleia feminina, de princípio também benévola, imediatamente se mostrara reservada. 

O triunfo da mestra de piano e lavores ia tomando proporções quase escandalosas. Já se vê! o caso não teria importância, em se tratando, isto é um exemplo..., de Lá-Lá: qualquer menina de meios, com pai e mãe vivos. Conquanto, porém, D. Alice Caldeira dissesse sempre "a minha sobrinha" (faça-se-lhe essa justiça), toda a gente mais ou menos pensava na sobrinha pobre de D. Alice como na mestrazita de piano e lavores... 

Toda a gente conseguira já saber como vivera no Norte, em companhia da mãe, que até deixara de usar chapéu depois da morte do marido. e não era porque ser pobre fosse vergonha, isso não!(" a pobreza Deus a amou" repetia D. Piedade Passos, que se mostrava muito religiosa e tinha fama de avarenta), não era porque a pobreza fosse vergonhosa, quando honrada (e, a tal respeito, parece que nada havia a dizer sobre a vida que ambas tinham levado, pelo menos nada constara...), mas o certo é que os homens podiam pensar em se aproveitar! "Fugir sempre desses mafarricos!" proclamava a religiosa D. Piedade Passos.

Ao que a rude e implacável D. Rosinda Noronha contrapunha entre dentes: "Bem n-o prega Frei Tomás..." Aludia a que, tendo sempre andado muito metida pelas igrejas, D. Piedade chegara em tempos a andar falada com o padre Silveira

Pois é verdade!: os homens podiam querer aproveitar-se, tentar abusar, tanto mais que a rapariga se mostrava afinal um pouco leveira da cabeça; ou, então, andava estonteada naquele meio em que ainda propriamente não entrara, tendo prolongado para além do uso o luto da mãe..., essa verdade diga-se.

 JOSÉ RÉGIO - Davam grandes passeios aos domingos (1941) - pgs 53, 54


A novela Davam Grandes Passeios aos Domingos centra-se na personagem Rosa Maria, destacando sua introspecção e sua alienação em relação ao mundo após mudar-se para viver com sua tia, depois da morte de sua mãe. Assim, José Régio explora a dinâmica social de como diferentes gerações da burguesia falam e interagem[4], enquanto também revela como o comportamento e as expressões das mulheres dessa época são moldados pelas fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa. Comparada à história de Cinderela, a narrativa de Rosa Maria explora a psicologia de uma mulher pobre, órfã e complexa dentro da trama de Davam Grandes Passeios aos Domingos.

aqui



Poeta, ficcionista, dramaturgo, crítico e ensaísta, José Régio foi também o fundador e a alma da revista Presença órgão do Segundo Modernismo português, publicação que marcou de forma indelével toda a vida cultural portuguesa entre 1927 e 1940. (No Livro)


José Régio, o homem do Cântico Negro, nesta pequena história mergulha na alma da sociedade portuguesa, trazendo com maestria os defeitos e as virtudes que dela sobressaem.

Davam grandes passeios aos domingos será uma realidade ou apenas o desejo intrínseco que pairava nos sonhos de Rosa Maria?


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Imagens - pixabay