terça-feira, 6 de abril de 2021

Don't stop dreamin'

 


Don't Stop

When it comes to loving me don’t stop I know there ain’t no guarantee but don’t stop Let’s keep it shakin’ while we can You don’t need another man We’ll be rollin’ with the plan Don’t stop When it’s near to closing time don’t stop Put your hand in mine don’t stop We’ll dance the night away won’t care what people say No pause, press play Don’t stop Don’t stop dreamin’ Don’t stop believin’ ‘Cause you know that our time is coming up So with all you’ve got, don’t stop There’s a reason that you’re here don’t stop You ain’t got nothing to fear don’t stop This train has left the station Who knows what destination This love is for the taking Don’t stop Don’t stop dreamin’ Don’t stop believin’ ‘Cause you know that our time is coming up Let’s soak up the day and dance the night away So with all you’ve got don’t stop
So with all you’ve got don’t stop

Jon Batiste

- n. 1986 -

Músico norte-americano


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Tenham uma boa semana, meus amigos.

Abraços.




sábado, 3 de abril de 2021

O osso côncavo

Ó ímpeto do Espírito,
radícula que o vento despenteia e o músculo imprime
travejado por dentro!

Ó longilínea dilatação do tempo,
barca oblonga onde nascem os rios, lentos,
adornando seu plasma na noite!

Da tua anca de água negra, das cavernas
soltas no dorso do abismo,
é que te escarvo, osso côncavo,
a fauce rilhando de te lancetar a carne inútil,
o gume da estraçalhada língua, o sibilante enigma,
a curva suspensa e a sombra eléctrica,
ó força, ó inominado!

E de te ver!

Nem linha elíptica, tu a combinatória do que persiste
no desvão das palavras, quando ingénuas convocam
a eternidade, e nem trave rectilínea ou frontispício,
ou ensanguentada testa de fauno,
tu que só aceitas o esterno e o ilíaco
e a lava que se derrama dos pulmões furiosos;

E concebeste o indizível! Como dizer o que há no vazio
em riste dessa curvatura, oscilante eco sem memória
de ventre onde nem a águia se atreve ao vôo
e a serpente se desenrola até à evaginação de si?

Não te nomeio. Caminho. E o plano se inclina, grave,
ondulantemente terrível. Névoa ou pele ou pano,
já às raízes se contraem e pulsam, odoríferas, húmidas,
um enxamear de deuses espargindo a poeira;

E tu, intacto, flutuante onde ninguém te disse
e a palavra se acoita, espasmódica,
fetal. Seu silêncio enformando-o, ao osso,
côncavo.

-1953-

Poeta, autor teatral e jornalista moçambicano, 
com vários livros publicados.
"O Osso Côncavo e outros poemas", uma Antologia, (1980-2004), foi lançada pela Caminho, em 2005.
Em 2018 foi-lhe atribuído o prémio de Literatura em Língua Portuguesa, "Oceanos" (4º lugar) pela obra "O Deus Restante".
Segundo Pedro Mexias, aqui, tanto nos livros mais antigos como nos recentes, Patraquim assume-se herdeiro de uma tradição lírica africana (em língua portuguesa) que apresenta características como o poema breve de verso curto e a ode mais expansiva, as referências histórico-geográficas, um ‘nós’ identitário que pode ser um ‘nós’ de amigos como de povos, o poema político,...





É a primeira vez que trago este autor ao Xaile de Seda. Talvez este poema não seja o mais expressivo, à primeira vista, em relação ao tema que pretendo abordar, em síntese. Mas é uma Ode, e as odes têm aquele quê de trágico que transcende o quotidiano. E o que se passa no norte de Moçambique nada tem de normal.  

Há mais de três anos que se fala de Cabo Delgado, à boca pequena. Exceptuando-se Nuno Rogeiro que tem vindo a alertar incansavelmente, num programa de televisão, para a situação vivida por aquele povo, o resto da comunicação social pouco ou nada tem dito. E, de repente, faz parte das manchetes... Como diz o Da Literatura foi preciso que elementos estrangeiros fossem atacados para que o mundo começasse a tomar consciência do que lá se passa. 

Continuo a citar:

Situada no extremo Norte de Moçambique, Palma é uma das principais bases de exploração de gás natural, naquele que é o maior investimento privado de toda a África. Entre as petrolíferas internacionais envolvidas destaca-se a Total, presente em Moçambique há mais de 60 anos.

Por junto, existem neste momento setecentos mil deslocados em Cabo Delgado, uma das onze províncias de Moçambique. mais aqui
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Boa Páscoa, meus amigos.

Abraços.

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Poema retirado - daqui
Veja Identidade, aqui, no "Xaile de Seda"
Imagem daqui - Leia a notícia e veja o video, por favor,
de Dezembro/2020.

sábado, 27 de março de 2021

Guerras do Alecrim e Manjerona

Uma tia minha, a Tia Arlete, convidou-nos para irmos ao Teatro Nacional D. Maria II ver a peça "O Judeu", de Bernardo de Santareno (1924-1980). Isto nos idos de '80. Ruy de Carvalho representava o papel de O Cavaleiro de Oliveira, narrador, na referida peça, da vida de António José da Silva (1705-1739). 



António José da Silva (Coutinho), escritor e dramaturgo luso-brasileiro, vive no tempo em que a Inquisição torturava os judeus, impunha-lhes insígnias vergonhosas, sendo obrigados a abjurar a sua fé e, no limite, executados em autos-de-fé. Tanto ele como a sua mãe sofreram esse martírio.

Da sua obra, ressalto "Guerras do Alecrim e Manjerona", uma sátira à sociedade portuguesa de então. Foi levada à cena em 1737. Comédia de enganos, considerada por muitos a sua obra-prima. ... estilo inovador; textos em prosa, marionetas em vez de atores e música com cantores de carne e osso. Eram as óperas de bonifrates ou, como o próprio preferia chamar-lhes, óperas joco-sérias, que seguiam a tradição da escola de Gil Vicente.

Influenciado pelas ideias igualitárias do Iluminismo francês ligara-se a um grupo de estrangeirados formado por figuras ilustres como Alexandre Gusmão, o principal conselheiro de D. João V. Contudo, Gusmão não lhe serviu de nada quando se viu em dificuldades.

António José da Silva tem suscitado a admiração de seus pares ao longo dos tempos, nomeadamente de Camilo Castelo Branco, bem como várias análises ao pendor trágico da sua vida. 

A peça de Bernardo de Santareno, reconhecido como o mais pujante dramaturgo do Século XX - peça que eu tive o prazer de ver - retrata o calvário desse dramaturgo setecentista queimado pelo Santo Ofício. Nela o autor plasma as suas criações no molde do teatro épico de matriz brechteana, adaptando-o ao seu estilo próprio, e assumindo uma posição de crescente intervencionismo que irá retardar até à queda do regime fascista a sua representação.

Hoje, Dia Mundial do Teatro, recordemos estes e outros autores, e os profissionais desta área da Cultura que em tempos considerados normais não contam com grande apoio, mormente agora com as dificuldades que todos conhecemos.



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NOTA:

Insiro a seguir um resumo da vida de António José da Silva, em comentário a este post,
De:


"Fui conhecer um pouco mais da vida desse escritor dramaturgo
alguns detalhes da Wikipedia:
António José da Silva Coutinho (São João de Meriti, 8 de maio de 1705 — Lisboa, 19 de outubro de 1739) foi um escritor e dramaturgo luso-brasileiro nascido no Brasil Colônia.[1] Formado na universidade de Coimbra,[2] escreveu o conjunto da sua obra em Portugal entre 1725 e 1739.[1] Recebeu o epíteto de "O Judeu".
É hoje considerado um dos maiores dramaturgos portugueses de todos os tempos e o precursor da modinha.
O romancista português Camilo Castelo Branco (1825-1890) retratou a vida de várias gerações da família de António José da Silva até à sua morte na sua obra O Judeu.[5][6] A história de António José da Silva também inspirou Bernardo Santareno, igualmente de origem judaica, a escrever a peça O Judeu (1966)"
António José da Silva foi garrotado antes de ser queimado num Auto-de-Fé em Lisboa em Outubro de 1739. Sua mulher, que assistiu à sua morte, morreria pouco depois.
Tudo muito triste"


Os meus agradecimentos

Abraço


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Leia se lhe interessar:

"Guerra do Alecrim e Manjerona",

Cavaleiro de Oliveira

Bernardo de Santareno

Programação

Imagem: Net

domingo, 21 de março de 2021

Quem somos?

O mar chama por nós, somos ilhéus!
Trazemos nas mãos sal e espuma
cantamos nas canoas
dançamos na bruma

somos pescadores-marinheiros
de marés vivas onde se escondeu
a nossa alma ignota
o nosso povo ilhéu

a nossa ilha balouça ao sabor das vagas
e traz a espraiar-se no areal da História
a voz do gandu
na nossa memória...

Somos a mestiçagem de um deus que quis mostrar
ao universo a nossa cor tisnada
resistimos à voragem do tempo
aos apelos do nada

continuaremos a plantar café cacau
e a comer por gosto fruta-pão
filhos do sol e do mato
arrancados à dor da escravidão

Olinda Beja


Flor de São Tomé e Príncipe


Maria Olinda Beja Martins Assunção é uma escritora lusófona. Nasceu em São Tomé e Príncipe, em 1946. Veio para Portugal, trazida pelo pai, aos três anos. Quando em 1985, ao regressar a São Tomé e Príncipe, se depara com a paisagem luxuriante e paradisíaca, um povo tão alegre e acolhedor e a família materna à sua espera, Olinda Beja decidiu, através dos livros que vai escrevendo, divulgar o seu país e o seu povo – o seu povo materno. Foi ali que nasceram e viveram os avós dos seus avós. É ali a sua mátria. Ali estão as suas raízes, a sua placenta.
Hoje Olinda Beja divide o seu tempo entre os dois países e continua a preservar a casa materna, em Batepá, onde se inspira sempre que está sentada na varanda de onde um dia partiu…
Ver mais aqui




MORNA
Autoria de B.Léza

"Lua nha testemunha"
Ana Moura e António Zambujo
LINDOS!

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Bô ka ta pensâ
Nha kretxeu
Nen bô ka t'imajinâ,
O k'lonj di bó m ten sofridu.

Perguntâ
Lua na céu
Lua nha kompanhêra
Di solidão.

Lua vagabunda di ispasu
Ki ta konxê tud d'nha vida,
Nha disventura,
El ê k' ta konta-bu
Nha kretxeu
Tud k'um ten sofridu
Na ausênsia
Y na distância.

Mundu, bô ten roladu ku mi
Num jogu di kabra-céga,
Sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
El ta traze-m un dor
Pa m txiga más pa Déus

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Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.

Abraços.


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sábado, 20 de março de 2021

Paisagens do Alvão

Ora, vejam esta maravilha. Os deuses andaram por aqui, em dia de muito comprazimento e amor



Um descanso para os olhos, não é verdade? Formações rochosas graníticas, vales, cascatas...o rio Olo, rei e senhor.

Na vertente oeste da Serra do Alvão, que integra o imponente maciço montanhoso onde se inclui a Serra do Marão, esta área protegida é percorrida pelo Rio Olo, que corre entre fragas e penhascos e atravessa as rochas nas Fisgas de Ermelo, caindo em cascatas de uma altura de cerca de 250 metros. Impressionante pela força das águas, este é um dos locais mais belos da região e está representado no símbolo do Parque.

O curso do rio Olo une duas realidades distintas. A uma altitude média de 1.000 m, na zona de Lamas de Olo, predomina o granito e a vegetação de alta montanha; em baixo, junto a Ermelo, onde a altitude ronda os 450 m, prevalece o xisto e a paisagem é verdejante como no Minho.

O xisto, o granito e o colmo são os materiais usados na construção das casas das aldeias típicas de Lamas de Olo, Anta ou Ermelo, em que o tempo corre tão devagar que parece estarmos muito longe de qualquer cidade, mas afinal o Porto fica apenas a uma hora de viagem. Para ter uma ideia do modo de vida das gentes destes lugares, visite o núcleo Ecomuseológico do Arnal, que recria o ambiente de uma aldeia tradicional do Alvão.




Aqui temos as Aldeias preservadas do Alvão, granito e xisto que contam histórias de muitas vidas geológicas e humanas. E a presença do colmo, a rematar, em muitos casos, essa rusticidade.

O percurso das Aldeias das Serras do Alvão e Marão desenvolve-se essencialmente em zonas de montanha, percorrendo ambientes rurais e naturais muito preservados. Trata-se de um traçado turístico, onde os viajantes podem contemplar paisagens de grande beleza e usufruir da vida das aldeias, convivendo com os seus simpáticos habitantes.

Este circuito integra visitas ao Parque Natural do Alvão, uma zona ambientalmente protegida. É um maçiço maioritariamente granítico, repleto de água, onde abundam os xistos e granitos, muito utilizados nas construções das aldeias.

Também percorre a parte Oeste da Serra do Marão, onde são visíveis grandes manchas graníticas e xistosas, estendendo-se entre os rios Tãmega (Oeste) e Douro (Sul). Está classificado como Rede Natura 2000 – Sítio de Alvão / Marão.
As aldeias serranas, na sua maioria construídas sobre as encostas e junto a rios ou riachos, estão habitadas e preservam a sua identidade tradicional, onde predominam as construções de dois pisos, umas em xisto outras em granito, com coberturas diversas, como a telha e lousa. É comum encontrarem-se as casas de granito rebocadas ou em alvenaria.
Ver mais: aqui


E porquê falar agora da Serra do Alvão e do seu Parque Natural, área sabiamente protegida? Convenhamos que nunca é demais ter presente esta e outras riquezas patrimoniais que a todos nós pertencem. Mas hoje o motivo está relacionado com o que se segue: 

Chamou-me a atenção, há dias, uma notícia interessante sobre um dos aspectos das tecnologias que utilizamos na vida quotidiana: o telemóvel, já uma extensão nossa e que também chegou às serranias.




Há muito que os solitários zagais deixaram de o ser, em parte, porquanto o pequeno e mágico equipamento, de que se fala, reduz distâncias e a voz que ecoa respondendo a chamadas de familiares e amigos já nada tem a ver com o chamamento aos animais, como soía

Na verdade, assim como tudo evolui, na Serra do Alvão os pastores acompanham à distância as suas cabras bravias e vacas maronesas com coleiras GPS através de uma aplicação associada ao telemóvel, a qual faz parte de um projecto chamado "Rebanhos+" .  

É o remanso telúrico a ceder lugar ao avanço do moderno e artificial, o que, na realidade, dá muito jeito.  Poupa muito trabalho e correrias.

E nós saudosistas incorrigíveis...recordando tempos outros.


Meus amigos:
Agora que estamos menos confinados, 
aproveitemos estes dias de Sol em espaços abertos.
Como é sabido, a Vitamina D faz falta ao nosso organismo.

E a Primavera apresentou-se, hoje, esplendorosa. 

Abraços. 


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Notícia: aqui

quarta-feira, 17 de março de 2021

Amar pelos dois



Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi pra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada pra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho

Talvez, devagarinho,…

Talvez, devagarinho...

E foi a explosão. Letra, música, numa toada lânguida. Feito de dois irmãos: Luisa e Salvador Sobral. Muitos quiseram repetir a fórmula nos festivais que se seguiram a esta vitória de 2017. Mas, debalde.

Veremos agora como será com os The Black Mamba e a sua canção em inglês. Nada contra. Os fins justificam os meios? Talvez Maquiavel dissesse que sim... 

Diz-se que a história que contam tem um pendor humanista. Pelo menos, o título é apelativo: Love is on my side

E também já ouvi dizer que é um grupo com talento, de craveira internacional. 

Desejo-lhes sorte. 

Que ganhem o "Festival Eurovisão da Canção", deste ano, para nosso contentamento.




Boa quarta-feira, meus amigos.

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sábado, 13 de março de 2021

Trio Odemira

 




O músico Júlio Costa, 85 anos, do Trio Odemira, morreu hoje(12/03), disse à agência Lusa o ator Paulo Vasco.

"O músico Júlio Costa morreu hoje, aos 85 anos, cinco dias depois do seu irmão Carlos. Desaparecem assim, num curto espaço de tempo, os elementos fundadores de um dos mais longevos e sem dúvida profícuos grupos da história da música portuguesa", disse Paulo Vasco.

O Trio Odemira contava mais de 60 anos de carreira. Formou-se em 1958 e protagonizou êxitos como "Ana Maria" e "Anel de Noivado", tendo sido o primeiro a gravar em disco temas populares alentejanos, à exceção dos grupos corais, segundo a Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, que dá como exemplo o 'single' "Rio Mira", de 1958. Ver mais: aqui


presença inesquecível no panorama da música popular.

NOTA:

VOTO DE PESAR
17/03/2021

A Assembleia da República aprovou nesta quarta-feira, por unanimidade, um voto de pesar pela morte dos irmãos músicos Júlio e Carlos Costa, elementos do grupo popular Trio Odemira, considerando que os artistas "deram corpo e alma" à música portuguesa.

O voto de pesar, apresentado pelo grupo parlamentar do Partido Socialista (PS), foi aprovado em sessão plenária por todas as bancadas:

"Carlos Costa e Júlio Costa dedicaram-se ao longo da vida de corpo e alma à música e ao Trio Odemira, construindo carreiras tão longas quanto consagradas, e deixam-nos um legado na cultura musical portuguesa que muito nos deve orgulhar", pode ler-se no voto apresentado.
Ler mais aqui

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segunda-feira, 8 de março de 2021

Contra a Fome

Hoje, Dia da Mulher. Dizemos todos os anos que o dia da mulher é todos os dias. Uma verdade inquestionável, se atentarmos na sua posição na sociedade e em todos os momentos da nossa existência. Contudo, este dia pode e deve ser aproveitado para falarmos dos problemas que continuam a massacrar a condição feminina. Ou então para assinalar o papel de mulheres que souberam ganhar o seu espaço e fazer da sua passagem por este mundo algo de positivo, para o bem de todos.

Fiz uma pequena pesquisa e de entre vinte e cinco mulheres portuguesas da actualidade escolhi falar de uma delas, nesta publicação, tendo em vista o tema em presença e pela sua dedicação a esta causa: a luta contra a fome. E assim, aqui me têm a homenagear: 


Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet  (1960)

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa e da Federação que reúne todos os bancos alimentares existentes no país. Foi fundadora da Bolsa de Voluntariado, da Entreajuda, do Banco dos Bens Doados e, mais recentemente, do projeto Tempo Extra, que está a mobilizar cada vez mais voluntários na idade da reforma. É a cadeia logística formada pelos 21 bancos alimentares que permite que 2400 recebam os produtos que alimentam quase 400 mil pessoas. (Dados de 2019) aqui

Estruturou e lançou em 2005, proclamado pelo Conselho da Europa como o Ano Europeu da Cidadania através da Educação, o programa Educar para a Cidadania dirigido a crianças e jovens, o qual, através do caso prático do Banco Alimentar, mostra a importância dos valores na formação e na educação.

Foi Presidente do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares entre Abril de 2012 e Dezembro 2017

Em novembro de 2012, foi criada uma Petição Pública para que abandonasse o cargo de presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, devido a declarações polémicas proferidas em época de austeridade, entre as quais "Vamos ter de reaprender a viver mais pobres" e "Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias".  No entanto, como resposta a esta petição, várias outras petições públicas, com muito mais assinaturas, surgiram em defesa da Isabel Jonet, pedindo-lhe que continuasse por muitos anos à frente dos destinos do Banco Alimentar Contra a Fome. aqui


É que a Fome anda aí...

Sempre soubemos da pobreza e das desigualdades que assolam algumas faixas da sociedade. Tudo um tanto longe, algo difuso, quase não nos tocando. Com a pandemia que se abateu sobre nós tomámos a dolorosa consciência de novo tipo de pobres a somar ao que já existia.

Trata-se de pessoas que tinham a vida organizada nos seus pequenos negócios e viram-se de uma hora para a outra privadas do seu ganha-pão. Não será preciso fazer uma lista do descalabro que vigora nos nossos dias, pois todos nós conhecemos a situação.

Com efeito, muitos têm sido os pedidos de ajuda para aquilo que há de mais básico: o pão para boca. E Instituições, como o Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa, que no passado recente faziam disso uma missão em relação a grupos sociais mais desfavorecidos , têm agora a atenção também centrada nessa grande fusão social que se tem verificado.

Daí a homenagem que ora presto a Isabel Jonet, bem como a todos os voluntários que labutam para fazer chegar aos que mais precisam essa preciosa ajuda.



 Saudosa Maria Guinot!

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Momento de Poesia, com Graça Pires, do seu último livro, "Jogo Sensual no Chão do Peito", dedicado à vida da extraordinária bailarina e coreógrafa, Isadora Duncan:


O meu tempo vivi.
Tive amigos.
Eram actores, músicos,
bailarinos, boémios.
Escreviam o meu nome
nos jornais e em cartazes.

Em berlim chamavam-me deusa
Na grécia quis ser ninfa, calipso,
nausícaa, ou mesmo ulisses.
No egipto deixei que o deserto
e a vale dos mortos me fascinassem.

Por todos os lugares conheci
o esmorecimento ou a ânsia da perfeição.

Como contar aqui todos os tropeços,
todos os despojos, todas as solidões?

Teimei incansavelmente na mais cúmplice
presença do silêncio.

in Jogo sensual
no chão do peito
pg.42

Leia mais sobre a Autora, aqui, no Xaile de Seda







Saibamos fazer a vida acontecer.

FELIZ DIA DA MULHER!


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Veja mais sobre a Mulher
aqui e aqui, no Xaile de Seda

quinta-feira, 4 de março de 2021

Luz di prata

 

B.Léza

Intérprete - Titina

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Um raio di lua, entrâ divagarinho Na quarto di nha cretchêu Na sê rostinho, el poisâ tudo mansinho Feliz el dâ'l beijo tchêu Essa luz di prata Spalhâ sereno Na rosto moreno Di nha mulata Lua sorrî pá mô nha cretchêu Sima um anjo di céu El ficâ ta dormi Dja'm sintî ciúme di lua, dja'm sinti Cond el beijâ nha Oriuntina Oriuntina di meu, só di meu Feliz el dâ'l beijo tchêu!

(Oriuntina/B.Léza)


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Nota: Leia mais sobre B.Léza, aqui, no Xaile de Seda

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"Criança, no meu tempo de criança"





ANTIGÜIDADES

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada ...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa,
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
— Valha-me Deus!...
As visitas ...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas!

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversas
que davam sono.
Antigüidades ...

Até os nomes, que não se percam:
Dona Aninha com Seu Quinquim.
Dona Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita-alta, magrinha.
Lili-baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia croché.
E, diziam dela línguas viperinas:
"— Lili, é a bengala de D. Benedita".
Mestra Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio ...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.

O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
-ai de mim-
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.



Cora Coralina, batizada Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, é um dos grandes patrimônios culturais de Goiás. Sua obra tardia, impõe-se por sua singeleza e autenticidade, na figura confessional de Aninha, em testemunhos de vívida e emocionante prosa poética: transumante de uma exemplaridade altruísta e otimista. Sofrida pelos preconceitos de seu tempo, pelas limitações de sua existência, cultivou um saudosismo sem pieguismo, certa de que os tempos atuais “são infinitamente melhores”, em sua crença na contemporaneidade e no futuro, não obstante as mazelas que soube apontar e denunciar.
...
Antonio Miranda




Mercedes Sosa
Gracias a la Vida que me ha dado tanto


“Mergulhar na obra de Cora, Aninha, a Mulher Guerreira, a Rapsoda, a Cigarra Cantadeira e Formiga Diligente (...) é uma lírica, telúrica e emocionante aventura: é um evocar de dados, lembranças, referências às nossas raízes e, acima de tudo, esplêndida imagem de uma vida forte e sabiamente vivida e muito bem expressa na sua palavra poética”. MARIETTA TELLES MACHADO


Nota: Prometi trazer um poema diferente de Cora Coralina, aquando da "Quinzena do Amor". Este é um poema que retrata uma época, uma crítica severa...a que não faltam os nomes próprios das personagens, "que não se percam", diz a autora.  

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Site de António Miranda: Poesia Ibero-Americana
http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html

Título do post, "Criança, no meu tempo de criança", verso retirado do poema ora publicado

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A Inocência das Coisas



Todas as vivas coisas fluem sem cessar.
Sem nada pedirem. Ou deverem.

E em sua inocência,
Abrem-se e fecham-se, tricotando, mudas,
A caligrafia do Mundo.

E o ritmo dos caminhos.

In: Perfil dos Dias
pg.63



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Veja mais sobre Manuel Veiga, aqui, no Xaile de Seda

domingo, 14 de fevereiro de 2021

o tempo subitamente solto. um dia, quando a ternura for a única regra da manhã


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

E MAIS

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto (1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português,
cuja primeira obra foi publicada em 2000.
foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas.
A sua obra tem sido abundantemente adaptada para espetáculos e obras artísticas de diversos géneros.


A voz cristalina de Carolina Deslandes. 
E o seu talento.

Valentine's Day

Neste dia, que para muita gente seria de oferendas simbólicas e comemorações com jantares à luz das velas, temos as palavras.
E servimo-nos, aqui, das palavras dos outros para abrilhantar esta maratona, apesar da Covid-19, que quase nos fazia falhar a meta.
Nos textos que apresentei foi privilegiado o amor romântico. Mas o Amor universal e solidário está sempre presente nas minhas publicações, como sabeis.

Agradeço a vossa presença e comentários. 
Irei visitar-vos em breve.

Bom domingo, meus amigos.

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Citador - Textos
Veja José Luís Peixoto, aqui, no Xaile de Seda

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Serenata






Vestida de gemidos de bordão,
lancinâncias de violino,
na noite parada
vem descendo a seresta.

Sumiu-se a cidade barulhenta
inimiga das crianças e dos poetas.

Uma voz canta sentimentalmente um samba.

          Aquele aperto de mão
          não foi adeus!

Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento,
a cidade morreu lá longe,
e a lua vem surgindo cor de prata.

Nessa história de amor todos são iguais,
até o rei volta sua palavra atrás...

O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.

É hora que os poetas escolheram
para a procura dos seus mundos perdidos...

Amanhã a cidade virá novamente
inimiga dos poetas.
Mas agora ela dorme,
ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor,
com a lua e as estrelas,
nesta hora tão lírica...

Menina romântica, irmã
das crianças e dos poetas...
A tua janela, florida de esperanças,
é um mistério que a cidade não entende.

Passa a serenata.
Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
ficam os gemidos do violão e do cavaquinho,
vozes crioulas neste noturno brasileiro
de Cabo Verde.


Oswaldo Alcântara




Osvaldo Alcântara, pseudônimo poético de Baltazar Lopes da Silva, nasceu na Ilha de São Nicolau, Cabo Verde, em 1907. Advogado e filósofo. Professor, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Um dos fundadores da revista Claridade, marco da literatura cabo-verdiana.

Publicou: Chiquinho (romance), São Vicente, 1947; O Dialeto crioulo de Cabo Verde, Lisboa, 1957; Cabo Verde visto por Gilberto Freire, Praia, Cabo Verde, 1956; Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, Praia, Cabo Verde, 1960.

Conhecemo-lo, não é verdade? 
Veja-o aqui, no Xaile de Seda




Humbertona



Bom fim de semana, amigos.

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Extraídos de

BARBOSA, Rogério Andrade. No ritmo dos tantãs; antologia poética dos países africanos de língua portuguesa; Brasília: Thesaurus, 1991. 165 p.
Site de António Miranda:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/osvaldo_alcantara.html


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O Amor é o Elixir da Juventude





O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras. O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar.

O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar.

Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis formulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes, o pisamos sem reparar.

Joaquim Pessoa, 
in 'Guardar o Fogo'


Joaquim Maria Pessoa (1948), conhecido por Joaquim Pessoa, é um poeta, artista plástico, publicitário e estudioso de arte pré-histórica português.

Veja alguns posts dedicados a este autor aqui, no Xaile de Seda







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Texto: Citador

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Eu te amo






Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

Chico Buarque


Francisco Buarque de Hollanda mais conhecido como Chico Buarque (1944), é um músico, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos.
Mais ... Aqui




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Em todas as ruas te encontro





Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

in "Pena Capital"

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 -2006) foi poeta e pintor, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.
Mais...




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Poema - Citador