domingo, 3 de maio de 2026

mil estrelas no colo





mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.

eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são

todas as estrelas que existem.

in "A casa, a escuridão"




A todas as mães que por aqui passarem.

Beijos 
Olinda



====
imagens: pixabay

sexta-feira, 1 de maio de 2026

VENHAM MAIS CINCO

 


ZECA AFONSO
Venham mais cinco


Senhor de um invejável talento, que lhe dá para escrever, compôr, cantar, este é o nosso Zeca Afonso, de seu nome, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. 

Da sua forja saiu Grândola Vila Morena* que foi escolhida como senha, indicando que a Revolução de Abril de 1974 estava em marcha e que era para ir até ao fim. Embora não tenha sido concebida com cariz de protesto cedo serviu para enviar uma nota altamente política ao Estado Novo. Tinha sido composta em 1971 após uma visita à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense de Grândola, no Alentejo, e gravada em França com a direcção de José Mário Branco.

Para assinalar o Centenário do nascimento de Zeca Afonso, 2029, o Município de Grândola criou uma Comissão, presidida por Francisco Fanhais. Este, padre incómodo, assumidamente contra a guerra colonial, impedido de dar aulas, suspenso das funções de padre e, muitas vezes, impedido de cantar, acompanhou Zeca Afonso e José Mário Branco na gravação de Grândola Vila Morena. Diz que: apanhou o comboio dos cantores que lutavam contra o regime 


E hoje, 1º de Maio, Dia do Trabalhador, trago "Venham mais cinco", para o festejarmos comme il faut .


Bom feriado, amigos.
Vou ausentar-me por 2 dias.
Voltarei no domingo.

Abraços
Olinda


===
* "E depois do adeus" - foi a primeira senha radiofónica - cantada por Paulo de Carvalho, letra de José Niza e música de José Calvário
Francisco Fanhais - aqui


sábado, 25 de abril de 2026

Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos

 ...

sempre defendi que a primeira obrigação da polícia consiste em tornar-se desejada como fomos desejados quando em janeiro de mil novecentos e sessenta e um os bundi-bângalas se recusaram às colheitas, assaltaram cantinas, destruíram senzalas, vagueavam nos trilhos, presentes mesmo se não estavam, ausentes se estavam e nunca tendo estado logo que recolhemos à cidade, a aviação se foi embora e deslocámos para a Baixa do Cassanje, a fim de recuperar o algodão, jingas e tchoués com garantia de trabalho, alojamento e paga que cumprimos mesmo que os padres sustentassem maldosamente que não cumpríamos pelo simples facto de os indígenas gastarem sem prudência demasiado peixe seco, demasiada mandioca, demasiado tabaco na venda, peixe seco, mandioca e tabaco que os padres, sem noção do preço das coisas, acusavam de ser demasiado caros do mesmo modo que nos acusavam injustamente de praticarmos uma espécie capciosa de escravatura, peixe seco, mandioca e tabaco que se comprometiam a pagar na safra seguinte e na seguinte e na seguinte aumentando a dívida em lugar de a amortizarem e enredando-se numa teia de compromissos comerciais (...)

António Lobo Antunes, O Esplendor de Portugal, pgs 307 e 308

No jeito peculiar da escrita deste autor, falecido recentemente, temos uma pequena mostra da situação que levaria à revolta dos camponeses da Companhia Geral dos Algodões de Angola (COTONANG), a empresa angolana produtora de algodão, com participação belga, vigente no tempo colonial. 

Essa rebelião, a 4 de Janeiro de 1961, seria o primeiro passo (segundo alguns) para aquela que marcaria o início da guerra de libertação, a 4 de Fevereiro do mesmo ano.





Hoje comemoramos o 52º aniversário da Revolução dos Cravos levada a cabo, a 25 de Abril de 1974, por militares que serviram na Guerra do Ultramar português. Antes desse dia, o Marechal Spínola publicaria a 22 Fevereiro de 1974 o livro "Portugal e o Futuro" em que propunha uma federação entre Portugal e as antigas colónias por ter chegado à conclusão de que a guerra não resolveria nada. Apenas uma solução politica chegaria a bom porto. 

Mas o que pretendiam os colonizados era uma Liberdade Plena, sem amarras, tornando-se donos das suas terras e dos seus destinos.

E é isso que temos a dita de comemorar nesta data para além da libertação do povo português, das suas ideias, liberto da polícia política que entravava tudo não só por cá como em todo o espaço dito português. 

Pelo sonho é que vamos, como diria Sebastião da Gama. 
O sonho e a realidade a acordar-nos do torpor destes dias de chumbo que vivemos. Cada tempo tem o seu louco. 


Abraços, meus amigos.
Olinda


===
Nota:
a "voz" do excerto refere-se a alguém que chefiava a polícia na Baixa de Cassange,
Angola: Revolta da Baixa de Cassange - aqui