domingo, 3 de julho de 2022

Beju Furtado

 


ASSOL GARCIA

Beju Furtado

Kusé ki tem furtabu um beju
Ma kusé ki tem txomau di meu
Kusé ki tem pou na nha petu
Ma kusé ki tem sim krebu txeu

Beju mas sabi é kel furtadu
Kombersu dosi murmuradu
Ka tem koragi txobeu di ladu
Mata saudade é só imbrasadu
Amor di longi é ka di konta
Amor di pertu amor di fronta
Mas si contisi ka ta negadu
Kelo ki kredu ka ta importadu

===

Sim, que mal tem roubar-te um beijo? Que mal tem dizer que és meu e encostar-te ao meu peito se te quero tanto?! Beijo roubado é mais gostoso, conversa doce e murmurada...

Assol Garcia num ritmo que convida a um pé de dança, vida ao ar livre, numa piscina, ou à beira-mar. 

Parece que o Sol, um pouco esquivo por estes dias, resolveu reaparecer. Aproveitemos.


Bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda


===

Music and Lirics-Teté Alhinho

quinta-feira, 30 de junho de 2022

MÃE!


Maternidade -1935- Almada Negreiros 


Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não viajei. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado! Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

In: A Invenção do Dia Claro
1921

Entre outras considerações, Jorge de Sena, na sua análise da Obra de Almada Negreiros, refere que:

(...)a coesão interna do livro assenta no "tom de menino pequeno que está a falar com a sua mãe", o que torna este texto modelar relativamente a uma característica "profunda da linguagem de Almada Negreiros, que é a de uma simplificação no sentido, não dum primitivismo propriamente, mas do que nós poderíamos dizer duma sofisticação da sua simplicidade."




José Sobral de Almada Negreiros (1893 -1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses. aqui

Foi contemporâneo de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor entre outros nomes grandes da Literatura.




Revista de que só saiu um número em Novembro de 1917 e que pretendia ser a voz impressa do Futurismo em Portugal. Segundo Fernando Pessoa, a apreensão deu-se quando a revista, tendo escapado por uma "sorte inexplicável" à censura prévia que vigorava em tempo de guerra, se encontrava já nas montras das livrarias. A polícia, condescendente, consentiu que "os rapazes salvassem o maior número de exemplares que pudessem. (...)

Termino aqui, por agora, estes apontamentos sobre a obra deste artista multisciplinar cujo falecimento completou, a 15 deste mês, 52 anos.

Abraços
Olinda


====
Imagem: Maternidade -  Obra de Almada Negreiros, 1935
A invenção do dia claro - https://docero.com.br/doc/sn55vxs
Portugal Futurista - Wiki

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Mon essence






J'ai le sentiment atroce
D'avoir perdu quelque chose
Pendant ma vie, aujourd'hui,
À chaque moment même

J'aimerais retrouver le chemin
Débarquer sur le quai de mon enfance
Parcourir les méandres de mon âme
Et voir la lumière qui me manque

Voyageant sur le dos du Pégase
Je traverserais auprès des étoiles
Le ciel infini, les endroits inconnus,
Et serait là, peut-être, l'essence perdue

Dinola Melo




                                          Tu es mon autre
                                    Laura Fabian, Mauranne
                                              et Lalane



Boa quarta-feira, meus amigos.
Abraços
Olinda


=====

Imagem: pixabay




sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Ano da Morte de Ricardo Reis



Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou  a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subi a escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, (...) 

Excerto pgs 79/80

E ei-los. Criatura e Criador. Agora ambos irreais, cada um na sua própria condição. Trata-se de ficção em cima de ficção sob a lupa de José Saramago, que aproveita para fazer o retrato do país, nesses anos trinta do nosso descontentamento. Decorria o Estado Novo que desde 1926 vinha fazendo história, no pior sentido, e na Europa a Guerra Civil em Espanha; a ascensão ao poder de Mussolini, em Itália; e a expansão da ideologia nazi, na Alemanha.

 

Ricardo Reis (pormenor). 1958 - 
Almada Negreiros*

Quanto a Ricardo Reis, como se sabe, é o heterónimo clássico, helénico e imbuído de um paganismo revisitado, edificado literariamente quando Pessoa quis “escrever uns poemas de índole pagã”, concebido como tendo uma educação em colégio de jesuítas, formado em medicina, expatriado por ser monárquico para o Brasil e regressado a Lisboa depois da morte de Pessoa, nascido antes dele em 1877 e que supostamente lhe terá sobrevivido, morrendo, segundo a ficção de Saramago em 1936, um ano após a morte do seu autor. aqui


Fernando Pessoa 
Almada Negreiros - 1964

Aproveito para aqui inserir um dos belos poemas (ode) de Ricardo Reis:


Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis
in "Odes"


Na penúltima página, 406, pode ler-se:

Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa de cabeceira buscar The god of labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, (...)

A criatura reúne-se ao criador.
Assim o quis Saramago.
E o destino cumpre-se.

==

Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

Olinda


====


José Saramago:
O Ano da Morte de Ricardo Reis, Excerto pgs 79/80
*Pormenor Ricardo Reis:
MultiPessoa-Mural da Fac. de Letras de Lisboa

domingo, 19 de junho de 2022

SAUDADES

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca
    (1894-1930)






Saudades Trago Comigo
Camané



====
Poema - Citador
in "Livro de Sóror Saudade"