sábado, 24 de outubro de 2026

S,Vicente - a miragem do paraíso (XIV)




Mas também o governo está de tangas, pelo que responde ordenando três medidas: o repatriamento de todos os indigentes; oferta de passagem aos que quisessem ir trabalhar nas obras públicas de Santo Antão; abertura de trabalhos públicos para os naturais de S.Vicente. Era em si uma medida cómoda, ainda que de difícil aplicação porque poucos já eram ao tempo os naturais de S.Vicente.

De todo modo, os operários em peso recusam essa proposta discriminatória. Mas entretanto essa primeira crise acaba por ficar de certa forma ultrapassada com a retoma de algum movimento de barcos entrados no porto e consequente emprego ainda que só para uma parte dos trabalhadores.

Porém, a partir daí o desemprego passa a ser uma constante no seio de uma classe trabalhadora depauperada, e com ele o espectro da fome ou pelo menos de verdadeiros dramas sociais, como põem a nu os romances como "Chiquinho" de Baltasar Lopes ou os contos "Caderneta" e "Dona Mana" do mesmo autor, sem já falar nesse constante forçar para sobreviver magistralmente retratado por Manuel Lopes no "O galo cantou na baía": "Quando porto não dá, acaba comida do povo".

"O que é verdade é que a mesquinhez dos salários, insuficientando os recursos  para a satisfação das imprescindíveis necessidades do viver ou dos encargos; a singular proliferação da raça indígena, mal contida nos seus feitos de exagerado povoamento das famílias, pela mortalidade derivada das desumanas condições em que crescem, sem cuidados familiares e físicas, as crianças que enxameiam cada lar; as taras da tuberculose e dos vários vícios atávicos da raça e a violência do trabalho, são bem de feição própria a imprimir na vida em geral das classes proletárias, e sobretudo logo que o trabalho falte, o carácter iniludível da verdadeira miséria", lê-se no relatório da Câmara de S.Vicente em Julho de 1910 (...) 

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente - pgs 35 a 37





Abraços, amigos.
Olinda


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Imagem: net

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"Davam grandes passeios aos domingos"



Calaram-se, com um golpe de olhos uma à outra. Não encontrando mais cadeiras vagas, Rosa Maria vinha precisamente sentar-se perto delas. Tão freneticamente a haviam aplaudido os rapazes - que a assembleia feminina, de princípio também benévola, imediatamente se mostrara reservada. 

O triunfo da mestra de piano e lavores ia tomando proporções quase escandalosas. Já se vê! o caso não teria importância, em se tratando, isto é um exemplo..., de Lá-Lá: qualquer menina de meios, com pai e mãe vivos. Conquanto, porém, D. Alice Caldeira dissesse sempre "a minha sobrinha" (faça-se-lhe essa justiça), toda a gente mais ou menos pensava na sobrinha pobre de D. Alice como na mestrazita de piano e lavores... 

Toda a gente conseguira já saber como vivera no Norte, em companhia da mãe, que até deixara de usar chapéu depois da morte do marido. e não era porque ser pobre fosse vergonha, isso não!(" a pobreza Deus a amou" repetia D. Piedade Passos, que se mostrava muito religiosa e tinha fama de avarenta), não era porque a pobreza fosse vergonhosa, quando honrada (e, a tal respeito, parece que nada havia a dizer sobre a vida que ambas tinham levado, pelo menos nada constara...), mas o certo é que os homens podiam pensar em se aproveitar! "Fugir sempre desses mafarricos!" proclamava a religiosa D. Piedade Passos.

Ao que a rude e implacável D. Rosinda Noronha contrapunha entre dentes: "Bem n-o prega Frei Tomás..." Aludia a que, tendo sempre andado muito metida pelas igrejas, D. Piedade chegara em tempos a andar falada com o padre Silveira

Pois é verdade!: os homens podiam querer aproveitar-se, tentar abusar, tanto mais que a rapariga se mostrava afinal um pouco leveira da cabeça; ou, então, andava estonteada naquele meio em que ainda propriamente não entrara, tendo prolongado para além do uso o luto da mãe..., essa verdade diga-se.

 JOSÉ RÉGIO - Davam grandes passeios aos domingos (1941) - pgs 53, 54


A novela Davam Grandes Passeios aos Domingos centra-se na personagem Rosa Maria, destacando sua introspecção e sua alienação em relação ao mundo após mudar-se para viver com sua tia, depois da morte de sua mãe. Assim, José Régio explora a dinâmica social de como diferentes gerações da burguesia falam e interagem[4], enquanto também revela como o comportamento e as expressões das mulheres dessa época são moldados pelas fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa. Comparada à história de Cinderela, a narrativa de Rosa Maria explora a psicologia de uma mulher pobre, órfã e complexa dentro da trama de Davam Grandes Passeios aos Domingos.

aqui



Poeta, ficcionista, dramaturgo, crítico e ensaísta, José Régio foi também o fundador e a alma da revista Presença órgão do Segundo Modernismo português, publicação que marcou de forma indelével toda a vida cultural portuguesa entre 1927 e 1940. (No Livro)


José Régio, o homem do Cântico Negro, nesta pequena história mergulha na alma da sociedade portuguesa, trazendo com maestria os defeitos e as virtudes que dela sobressaem.

Davam grandes passeios aos domingos será uma realidade ou apenas o desejo intrínseco que pairava nos sonhos de Rosa Maria?


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Imagens - pixabay


sábado, 17 de outubro de 2026

XIV Encontro de Escritores Lusófonos

 



Está a decorrer na cidade da Praia, de 15 a 17 deste mês, o XIV Encontro de Escritores Lusófonos sob o tema geral “A língua portuguesa como elemento de adaptação num mundo de mudanças” com o intuito de juntar escritores, investigadores, editores, professores, críticos literários e leitores de várias nações lusófonas, e nesta edição com uma presença mais forte do Brasil, Macau e Timor-Leste.

Também a ideia dos promotores do evento é que neste ano a população esteja mais próxima do Encontro e para estimular esse interesse contará com uma feira de gastronomia, uma feira do livro e, em paralelo, atos simbólicos, como a plantação de uma árvore.

Para além disso, esta edição do encontro servirá também para debater as mais-valias que o Prémio de Revelação Literária UCCLA — Câmara Municipal de Lisboa - pode trazer para os jovens escritores.

O Encontro conta com a participação de escritores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe. Timor-Leste está representado pelo ministro da Administração estatal, Tomás do Rosário Cabral. 

Colocada a questão sobre o que mudariam na Língua Portuguesa, houve quem dissesse que começaria por revogar o acordo ortográfico, obrigatório em Portugal desde 2015.



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Ver - O que mudariam na língua portuguesa

Encontro de escritores lusófonos com mais Brasil, Macau, Timor-Leste e povo