quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Piku Ntóni

 A LENDA

Conta-se que, antes de ser descoberto, Cabo Verde era de facto verde. Possuía uma vegetação espessa, cheia de arvores frondosas e vicejantes. A água era abundante e os terrenos pantanosos, o que de facto se verificava no tempo da descoberta dos portugueses, em 1460, segundo alguns dados.

Havia então dois seres nesse confim do meio do mundo, eleitos do senhor, que os criou à sua semelhança e feitio. Adão e Eva se chamavam eles, únicos seres inteligentes destas paragens hisperianas da Macaronésia.

O povo chamava-os, Ntóni e Ntónia.

Viviam numa grande clareira de Matu-l Engenho, actual planície da Assomada. Eram agricultores e criadores de gados. Viviam em abundância de pão, paz e tranquilidade, semeando e vivendo do fruto da sua sementeira, ate que um dia, por capricho da natureza, essa felicidade foi interrompida, não por uma serpente diabólica, como na Sagrada Escritura, mas por um abalo sísmico seguido de uma erupção vulcânica portentosa que dizimou quase toda a população da ilha, tornando a paisagem idílica de então num espectro desértico e lunar. As lavas e as magmas expelidas espalharam-se pela ilha cobrindo-a de um manto de desolação.

Os dois Elfos fugiram para a maior elevação da ilha de Santiago, que hoje se chama Piku Ntónia, a fim de se resguardarem de uma possível soterração. Entretanto, quando se encontravam num vale, entre uma serra e outra mais elevada, foram inexoravelmente surpreendidos por uma lava mais caprichosa que os petrificou, tornando-as em duas estátuas, postadas lado a lado que a população de Santa catarina chama Adon y Eva.”

PIKU NTÓNI

Para alem dessa lenda contada por Manuel Veiga in “ Cabo Verde: Insularidade e Literatura”, muitos outros mitos rodeiam a maior elevação da ilha de Santiago (e a terceira de Cabo Verde, com 1394 metros).

Diz-se, por exemplo que Piku Ntóni (ou Piku Ntónia, ou Pico de Antonio, ou Pico de Antonia ) é um vulcão de água que a qualquer altura pode arrebentar e inundar a ilha de Santiago e as nuvens que envolvem o seu pico no mês de Julho são interpretadas como sinal de bom ano agrícola, sob o olhar de Ntoni ku Ntonia, duas agulhas levantadas do chão.

fonte:aqui



Assomada

AUTOBIOGRAFIA

Nasci numa aldeia
à sombra de um sobrado
e da austera penumbra das montanhas

Ainda criança
galguei a orografia de Assomada
e fiz-me árvore do planalto

O serpentear das estradas
fez-me desembocar no mar
junto a uma cidade
enfeitiçada de azul e murmúrio

De costas para o mar
insinuei-me – para além da ilha –
na lenta e transparente caminhada das nuvens
para beijar loucamente
a neve com odor de carvão de Leipzig

Hoje sei quem sou
um simples signo de Adão e Eva
e do seu éden pétreo no Piku Ntoni


José Luiz Hoffer Almada, poeta cabo-verdiano, levou-me a querer saber o significado de Piku Ntoni.





Boa semana, meus amigos.
Abraços.


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Imagem: Net

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Razão de Phidias - Proporção Áurea

Hoje trago-vos uma curiosidade. Muitos de nós gostaríamos de ser perfeitos tanto física como intelectualmente. Isso vem desde tempos imemoriais. Caminhar para a perfeição e tentar alcançar o inatingível. Essa ambição persegue-nos. E por vezes, há quem faça sacrifícios desnecessários, lutando contra o tempo no sentido manter um rosto sem rugas ou alterar as feições. Sabemos que o resultado poderá ser o oposto daquilo que se quer.

De vez em quando lembro-me de um episódio que se passou comigo na adolescência. Disse à minha mãe: De nós as três (irmãs) acho que sou a menos bonita. Ao que ela respondeu: As tuas feições condizem todas umas com as outras. E fiquei contente e convencida. Acreditei no que me disse, nunca mais me preocupei com tal assunto. :)

Idealização de Nefertiti
,
Eis uma definição da Proporção Áurea ou Razão de Phidias:

A proporção que é de 1:1,618 é conhecida como Proporção Áurea ou Proporção Divina. Essa constante foi nomeada de Phi, em homenagem ao escultor e arquiteto Phídias responsável por estruturar o Parthenon. Na antiguidade os egípcios já utilizavam dessa técnica para criar suas estruturas, assim como o Parthenon. Nefertiti, aproximadamente 1370-1350 aC, era considerada a mulher mais bela de seu tempo. O cânone de beleza de 3.200 anos atrás perdurou até os dias de hoje. Seu rosto está em conformidade com os padrões de beleza observados na Grécia e Roma antigas em que a Proporção Áurea era utilizada nas esculturas clássicas. 




Também na época do Renascimento, Grandes Obras foram realizadas baseadas no conceito de Proporção Áurea. Atualmente, este conceito de Beleza e Equilíbrio Estético é utilizado como recurso embelezador na área do Design, Artes Plásticas e da Estética que inclui o Visagismo, Estética Médica e Cirurgia Plástica. Veja mais aqui



Como vemos pelo Homem Vitruviano e Mona Lisa, Leonardo da Vinci não fez por menos.

Escusado será dizer que na Música, na Literatura, no Cinema e outras áreas essa preocupação tem perseguido o ser humano.


E com esta vos deixo...
Desejo-vos uma óptima semana.

Abraços.

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Voltei... com esta nossa grande Pianista:



A magia ao piano



E um pouco do seu mundo interior



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Veja aqui a Teoria dos arquétipos de Platão
imagem: daqui

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Colhe o Dia, porque és Ele





Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos 
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis
 in "Odes"


Ricardo Reis, ao lado de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, é um dos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa.
Influenciado pelos ideais filosóficos greco-latinos, sobretudo pelo epicurismo e pelo estoicismo, Ricardo Reis criou uma poesia em que a harmonia, a clareza, as boas formas de viver, o prazer, a serenidade e o equilíbrio são os principais temas. Recebeu também forte influência do poeta Alberto Caeiro, heterônimo de Pessoa considerado um mestre para os demais. Sua poesia defende o ideal do “carpe diem”, frase do poeta Horácio popularmente traduzida como “aproveite o momento”. Por meio de seus versos, Ricardo Reis procurou atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer, considerando a vida como uma viagem cujo fluir e fim são inevitáveis. aqui





Continuação de boa semana, meus amigos.

Abraços

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Imagem: pixabay

domingo, 22 de agosto de 2021

"Meu Olhar Espiritual na Pandemia"

Este é o título da reflexão que a Amiga Rosélia nos propôs tendo em vista a comemoração do 12º aniversário do seu blog "ESPIRITUAL-IDADE", amanhã dia 23 do corrente mês.



Neste ano e meio tanta coisa aconteceu e continua a acontecer que convocar tudo de modo a fazer-se uma análise objectiva torna-se tarefa hercúlea...porque dói. De vez em quando falamos sobre um aspecto ou outro, de modo a tentarmos exorcizar um pouco as dificuldades que temos experimentado. 

Aqui, no Xaile de Seda, fui abordando essas dificuldades da forma como as interpretava, sendo de grande relevo para mim o trabalho e dedicação dos Profissionais da Saúde, todo o sacrifício a que foram sujeitos pelas terríveis circunstâncias que a doença apresentava; também os Voluntários, essas figuras quase invisíveis que só se dá por elas quando andamos desesperados, à toa num hospital, e nos levam pela mão; o trabalho relâmpago dos Cientistas na descoberta de uma vacina para debelar este flagelo, quando se pensava que isso levaria o tempo de estarmos já todos mortos; os confinamentos e restrições sucessivos levando muita gente com pequenos negócios para a miséria e muitos mais para o desemprego.

Todos temos bem presente a primeira fase da notícia do aparecimento do vírus, os tempos de dúvida em que a comunidade científica não sabia o que fazer, tentando apanhar aqui e ali um sintoma, que medicamentos prescrever, todos vestidos da cabeça aos pés, protegendo-se, e com motivos para isso... As imagens da desinfecção das ruas com pessoas que pareciam extra-terrestres, as notícias que nos chegavam dos milhares que sucumbiam à doença, as recomendações contraditórias de uso ou não uso de máscara... além da desinfecção das mãos, distanciamento social que impedia o toque tão necessário ao ser humano.

Parece que estamos a viver isto há uma eternidade. Conseguimos agora respirar um pouco mais à vontade. Contudo, sabemos que a vacina não resolve tudo. O vírus continua aí, tomando novas formas.

Tive Covid em Janeiro bem como os meus familiares mais chegados, inclusivamente o benjamim da família de oito meses. Foram dias de grande aflição. Levámos agora a vacina, a segunda dose, pois consideram que quem já teve a doença não precisa da primeira...

Muitos parabéns, minha amiga Rosélia, pelo seu blog e por congregar todos numa acção introspectiva, contando as suas experiências neste momento crítico da Humanidade.



Boa semana, meus amigos.

Abraços.


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"Ressonâncias"




O nda de carinho

L iberdade nas amizades

I nteligente

N ada esnobe

D ádiva no virtual

A miga muito leal



Grata pelas suas gentis palavras, querida amiga Rosélia.

Beijinhos

Olinda


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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Gouveia e Melo - Um Homem focado

Preocupa-se com a missão que lhe deram e quer levá-la até ao fim com uma estratégia bem definida, seguindo, obviamente, as indicações técnicas da DGS e de quem de direito. Diz-se dele que seguindo o clássico de Sun Tzu, soube atrair o inimigo para o seu campo de batalha e aí dar-lhe luta. Pré-agendamentos, Casa Aberta, foram a guerrilha que Gouveia e Melo mobilizou para emboscar a Covid. Neste momento temos 70% da população vacinada antes da data prevista. 

Quem é este militar catapultado para a vida civil? Com um Currículo invejável, com várias condecorações, ex-Comandante Naval, actualmente Adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas, em acumulação com o cargo de Coordenador da Task Force para o Plano de vacinação contra a COVID-19 em Portugal, como bem sabemos. O melhor é ler tudo aqui ...




Traja-se com fardamento de campanha o que a nós nos parecia esquisito e algo despropositado. É o único uniforme que é comum aos três ramos das Forças Armadas. (...) Lembra-me todos os dias que estou aqui numa função crítica e que tem de ser feita com todo o esforço necessário”, refere aqui

Com o tempo, esse militar já faz parte do panorama invulgar que estamos a viver e sentimo-lo mais familiar depois dos resultados obtidos e de ter sido apupado por meia dúzia de desinformados, tendo reagido com fleuma e bom senso. 
 
O que virá a seguir? Terceira dose? O futuro o dirá. 
Cada batalha a seu tempo, nesta guerra sem quartel.

Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços


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No primeiro parágrafo, em itálico, 
palavras de Manuel Alexandre Ganhão, 
no CM 

sábado, 14 de agosto de 2021

A Real Barraca. O Palácio Nacional da Ajuda. A Calçada...

Real Barraca ou Paço de Madeira. Perturbado com a violência do terramoto (1755) que destruira o sumptuoso Paço da Ribeira, D. José I não quis arriscar. Preferiu mandar construir um Palácio em que não entrasse pedra e cal, o qual viria a  servir de residência da Corte por três décadas, até à data da sua completa destruição por via de incêndio, já no reinado de D. Maria I. O interessante é que no rescaldo descobriu-se que afinal havia alvenaria a suportar o segundo andar. 

Pormenor da Real Barraca

O Palácio Nacional da Ajuda ou de Nossa Senhora da Ajuda seria construído em substituição da referida Real Barraca, com início em 1795. O projecto inicial de estética barroca tivera profunda alteração em 1802, de inspiração neo-clássica, da autoria dos arquitectos Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva. Funcionou como Paço Real com o rei D. Luis I (1838-1889), que aí se instalou definitivamente a partir de 1861. No vestíbulo, merecem destaque as 47 estátuas assinadas por artistas portugueses.

É hoje, em grande parte, um museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca Nacional da Ajuda, o Ministério da Cultura, a Galeria de Pintura do rei D. Luís I e a Direção Geral do Património Cultural. O Palácio e o Museu são geridos pela Direção Geral do Património Cultural e pela Presidência da República.


Lembro-me de, em 2008/09, ter lugar na Galeria do Rei D. Luís a exposição "Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage, de Pedro o Grande a Nicolau II", exposição essa que tive o prazer visitar e  apreciar.

O Palácio foi sujeito a obras de requalificação, contando com nova Ala, inaugurada a 7 de Junho deste ano, pronta a acolher o futuro Museu do Tesouro Real que abrirá ao público em Novembro próximo futuro. Uma requalificação que incluiu a Calçada da Ajuda, totalizando 31 milhões de euros, a maior parte viabilizada pelo Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa. Previstos ainda a recuperação do pátio, das fachadas e dos espaços exteriores.

Diz-se que foi posto um ponto final na maldição relacionada com várias interrupções, redução das suas dimensões originais, várias tentativas de remate ao longo de 200 anos:


Citado pela Lusa, aquando da cerimónia de inauguração da nova Ala do Palácio Nacional da Ajuda, o arquiteto João Carlos Santos comentou, desta forma, a conclusão da obra: “Após mais de dois séculos do lançamento da primeira pedra, em novembro de 1795, pelo príncipe regente, D. João, e depois de várias vicissitudes na história trágica da construção do palácio, finalmente deu-se a coincidência de um grupo de personalidades ter tido a coragem de acabar com a maldição que sobre ele se abatia”. aqui

E como não há bela sem senão na semana passada veio a público, como sabemos, uma notícia insólita. Contrastando com a pompa e circunstância da inauguração da referida Ala do Palácio, temos na Calçada da Ajuda portas a metro e meio do chão, para gaúdio de nacionais e turistas... aqui e aqui

Mas diga-se, em abono da verdade: Consta que as casas estão desabitadas e que a GNR que as utiliza pontualmente entra pelas traseiras e que as respectivas portas vão ter a devida atenção até Novembro, de modo a poderem ser galgadas devidamente...para não se transformarem, permanentemente, numa real barraca, ou seja, numa grande anedota arquitectónica.

Há quem diga em relação ao Palácio e, já agora, à area envolvente: O que torto nasce, tarde ou nunca se endireita.

Penso que não será o caso.  


Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O Ar Da Minha Dama



Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.



(A seguir, tradução de Jorge de Sena)

Tanto gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: — Suspira.

(Encontrará aqui várias outras traduções do soneto, contando-se entre elas uma de Vasco Graça Moura. 
Veja de qual gosta mais.)


Dante Alighieri, 1265-1321, foi um escritor, poeta e político florentino. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta. Disse o escritor e poeta francês Victor Hugo (1802-1885) que o pensamento humano atinge em certos homens a sua completa intensidade, e cita Dante como um dos que "marcam os cem graus de gênio". E tal é a sua grandeza que a literatura ocidental está impregnada de sua poderosa influência, sendo extraordinário o verdadeiro culto que lhe dedica a consciência literária ocidental. Leia mais aqui

Consta que Beatriz de Folco Portinari teria sido a grande musa de Dante na construção de La Divina Commedia, a sua epopeia teológica.






Boa semana, meus amigos.

Abraço


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Poema: in 'Poesia de 26 Séculos, Jorge de Sena'
Imagem:
"Dante e Beatrice no jardim", 1903, obra de estilo pré-rafaelita
do pintor italiano Cesare Saccaggi.

domingo, 1 de agosto de 2021

O que é suposto fazer?

A loja está apinhada de gente, acotovelando-se quase. E eu ali com o bebé de um ano ao colo, aliás, enfiado num suporte no meu lado direito. De repente, tenho um baque, sinto-me estranha e desconfortavelmente leve desse lado. Já em pânico, verifico o que temia. Tinham-me tirado o menino. Olho à volta meio perdida e vejo que muitos dos rostos são conhecidos. O que estariam ali a fazer? Pergunto se viram quem me tinha levado o bebé e noto desinteresse e indiferença. Sinto que aquilo não tinha acontecido por acaso. E dá-me a impressão de alguém estar a dizer baixinho: eles vão tratá-lo bem. Saio a correr desorientada pela rua do Conde Redondo acima. E agora o que é que eu faço? O que é suposto fazer-se num caso destes? Ah, já sei, vou à Polícia. Começo por perguntar a um homem que vinha a descer a rua onde era a esquadra, pôs-se a esbracejar, afastando-se rapidamente. Encontro um rapaz e uma rapariga a quem faço a mesma pergunta, mas debalde. Encolhem os ombros pura e simplesmente. Seriam estrangeiros? Devo estar com ar tresloucado. Atravesso a rua e vou de roldão por ela abaixo. Não quero ligar para casa, não quero causar alarido nem preocupações, mas que remédio? Paro por instantes, abro a mala, está vazia, telemóvel e documentos, carteira, nada. Entro numa lojinha, vejo outra cara conhecida. E peço: por favor, deixe-me ligar do seu telemóvel, estou numa aflição. Num gesto moroso que dura uma eternidade, estende-me o aparelho. Ligo o número, nem um som sequer. Volto a ligar. O mesmo resultado. E digo-lhe: o telemóvel não dá, veja se pode ligar para este número. Com os mesmos vagares, ela pega num cabo, liga-o ao telemóvel e diz-me: é que convém não ficar registado...e pisca-me um olho cúmplice. Dos confins da terra oiço a voz da minha filha: Mãe, o pequeno-almoço é às nove. Abro os olhos, cansada, extenuada, esbaforida e ... vejo-a com o bebé ao colo. Uff!!!


Boa semana, meus amigos,

Abraços

Olinda


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Imagem - daqui


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Emigrante



O drama começa no momento
em que nasce a idéia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!

Esta é a alcunha que te deram.
A tragédia que isso acarreta
consome anos de existência
aniquilando lentamente
castelos edificados de ilusões
que dos sonhos ainda restam

Emigrante!

Fantasia dos que ficam
Américas
Alemanhas
Franças
e outros mundos sempre iguais...

Emigrante!

Suportar esse título tão honradamente
ter que comer o pão que o diabo amassou
ser sempre forasteiro em porta alheia...

Sim, emigrante!
Emigrante = sobrevivência
Gritos de alma
ambição amordaçada
desejos frustrados...

VITA BREVIS num copo de vinho
Esquecer as amarguras
Da "Terra Prometida"



Biografia da Autora aqui, no Xaile de Seda.


Tema por demais importante neste Portugal emigrante, em tempos idos mas igualmente no presente. Também poderemos olhar o outro lado da moeda, o dos imigrantes. Povos que procuram um porto seguro, arrostando mil perigos e que, muitas vezes, acabam por ficar presos em trabalho escravo. E isso também acontece, por cá, neste país de brandos costumes.

A pandemia, que agora nos ocupa os dias e a mente, camufla ou vem pôr a nu situações que só quem as vive pode aquilatar de como custa a vida. Não apenas a dos imigrantes. Mas também de pessoas que labutam neste chão, e todos os dias é um recomeçar, sem cessar... 

VEJAM BEM!


Ana Laíns, voz belíssima, intérprete talentosa 
"É no estrangeiro que tem recebido o (devido) reconhecimento"

Apreciemo-la, aqui, com Fernando Pereira 
nesta canção de Zeca Afonso



Desejo-vos boa semana, meus amigos.

Abraços

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Poema e imagem: daqui
a) Um paradoxo que acontece amiúde. Muitos artistas e também profissionais 
de outras áreas, ex. científica, não poucas vezes, encontram antes de mais 
reconhecimento fora da terra natal...

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Habitamos as Palavras

Tacteio sinais furtivos e emoções breves
Como brisa no rosto inocente das palavras
Ainda por dizer...

Seminais veredas. E ondas ou inaudíveis
Sons de um cântico tão subtil que se esfuma
Em mistério. Como o decair da tarde no zénite de sol.
Ou apenas um gosto acre. Depois da chuva...

Ainda resta esta solicitude das palavras
Doirados reflexos a perseguir as entranhas do vento.
Sem outra glória que não seja a emoção alada.
E o fio ténue. De nós mesmos. Que as prende.

Habitamos as palavras e elas nos habitam
E por elas fecundamos o Tempo.


Blog do Autor: Relógio de Pêndulo





Boa semana, meus amigos.

Abraços.


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Poema - In: Do Esplendor 
das Coisas Possíveis
Pg.12