sábado, 20 de junho de 2026

NÓS






II

Que de fruta! E que fresca e temporã,
Nas duas boas quintas bem muradas,
E que o sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.

Das courelas, que criam cereais,
De que os donos - ainda! - pagam foros,
Dividem-no fechados pitosporos,
Abrigos de raízes verticais.

Ao meio, a casaria branca assenta
À beira da calçada, que divide
Os escuros tomates de pevide,
Da vinha, numa encosta soalhenta!

Entretanto não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!
...




José Joaquim Cesário Verde (1855-1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos pioneiros, precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.

Morto prematuramente, aos 31 anos de tuberculose, foi curta a obra que nos deixou. No entanto, o carácter ousado de uma realismo lírico e prosaico confere à sua poesia importância determinante no contexto da segunda metade do XIX e perspectivando já algumas vertentes da modernidade do XX.
Ver aqui*

No ano seguinte ao da sua morte, Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde, compilação das suas poesias publicada em 1901.
(tenho um exemplar)


***


Bom fim-de-semana, amigos.
Abraços.
Olinda





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Do poema "NÓS" 1884 - extenso.(refere-se à história da família, inclusivamente no que diz respeito à tuberculose que ceifou a vida a uma irmã e a um irmão)
* 9. Pequeno Livro - Brevíssima portuguesa



quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Dia da Raça"

 


Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que, à custa de vossas próprias mortes,

A Lei da vida eterna dilatais:

Assi do Céu deitadas são as sortes

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na santa Cristandade,

Que tanto, ó Cristo, exaltais a humildade!

Luís Vaz de Camões

"Os Lusíadas", Canto sétimo, Canto 3


Luís Vaz de Camões (Lisboa?, c.1524 – Lisboa, 10 de junho de 1579 ou 1580) foi um poeta e soldado português, considerado o poeta nacional de Portugal, o maior representante do renascimento português, o escritor mais importante da língua portuguesa e um dos grandes expoentes da literatura ocidental, famoso por sua epopeia Os Lusíadas (1572) e por seus sonetos (editados, postumamente, com outros poemas líricos do autor nas Rimas, em 1595). 

aqui

Na prisão Goa, 
por anónimo em 1556


Baptizado como o Dia da Raça pelo Estado Novo, por motivos óbvios. Não há certezas sobre a vida de Camões, andou por montes e vales, enfrentou diversas adversidades, queixando-se de à sua obra não ser dada a devida importância.

Neste ano as Comemorações do dia de Portugal, de Camões e das Comunidades fazem-se nos Açores, Ilha Terceira, enquanto o mundo se encontra mergulhado, na actualidade, em grande confusão.

Bom feriado, amigos.

Abraços.

Olinda 

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aqui - A biografia de Camões...

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Contemplação

 




Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...

Antero de Quental
in "Sonetos"


Antero Tarquínio de Quental (1842-891) foi um escritor e poeta português oitocentista que desempenhou relevante papel no movimento da Geração de 70. 



A Carta encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, será hoje apresentada.na Feira do Livro, em Lisboa.

Abraços, amigos.
Olinda

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Imagens:pixabay