sexta-feira, 11 de setembro de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (IX)




Nessa época já era uma vila asseadíssima, alumiada por 100 candeeiros de petróleo, e dotada não só de belos edifícios públicos (igreja, palacete do governo, paços do concelho, quartel, alfândega com seu cais, ponte de madeira e caminho de ferro, para além do mercado em construção) mas também de algumas casas particulares "onde não falta o conforto, podendo chamar-se o segundo foco da população e civilização da província". Aliás já em 1873 o Conselho da Província tinha estabelecido a obrigatoriedade de os habitantes do Mindelo plantarem uma árvore no seu próprio quintal, por cada três metros quadrados de terreno ocupado.

Assim, em 1879, época em que já tinha 27 ruas, uma praça ( a célebre praça D.Luiz alumiada por um bonito candelabro), 5 largos, 11 travessas, um beco e 2 pátios, quase todas calçadas e arborizadas e iluminadas por um total de 120 candeeiros de petróleo e uma população de 3300 habitantes, foi formalmente elevada à dignidade de cidade.

A nível de comércio e de serviços a uma cidade estava provida de um armazém de venda por grosso da casa Millers, que fornecia não só aos negociantes da terra como também a muitos das ilhas;(...)

A água à cidade é que continuava a ser fornecida por poços, sendo 13 públicos e 22 particulares. (...)

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 23 e 24.


A água...o calcanhar de Aquiles de S.Vicente. 

Noutros aspectos a ilha ia ganhando vida e ritmo. 


Recordando "Humbertona"


Abraços, amigos.

Olinda


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Imagem: Net

S.Vicente - uma das ilhas do arquipélago de Cabo Verde.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (VIII)

 


...Mindelo vai lentamente regressando ao seu anterior ritmo de crescimento e pouco tempo depois, com a forte ajuda da emigração das ilhas, voltava a atingir os seus 1400 habitantes. Em 1862 já se construíra o edifício da alfândega, diversos outros estavam iniciados e a vila já beneficiava de "uma bonita igreja com a invocação de Nossa Senhora da Luz".

O grande problema de S.Vicente era realmente a água, na maior parte importada do Tarrafal de Santo Antão. Uma comissão constituída para estudar as possibilidades de abastecimento da vila do Mindelo através da canalização das águas das nascentes do Madeiral e Madeiralzinho, declarou com alguma precipitação que tal não seria rentável pois que eram insuficientes para abastecer a população e ainda fazer a aguada dos navios. 

Mas certamente que em desespero de causa, em 1870 o governador geral foi autorizado pela Metrópole a celebrar com Jorge e João Rendall, Manuel Gomes Madeira e Aleixo Justiniano Sócrates da Costa, o médico-político-literato que já encontrámos na Boa Vista, um contrato para a canalização dessas águas rumo à vila.

Mas outros progressos iam também acontecendo: a 18 de Março de 1874 seria amarrado na praia da Matiota o primeiro cabo submarino ligando a ilha à Europa e América e,  com a instalação no Porto Grande dos depósitos da Cory Brothers & Cª em 1875, Mindelo passa a ser considerado o maior porto carvoeiro do médio Atlântico.

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 22 e 23.


Assim, S.Vicente vai se desenvolvendo, com altos e baixos, com falta do líquido precioso, água potável, mas procurando soluções para não ficar pelo caminho. O primeiro cabo submarino é ligado na praia da Matiota à Europa e América...

Veremos como as coisas funcionam daqui para o futuro. 



Flor Formosa - A. Travadinha



Abraços, amigos.

Olinda


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Imagem: Net

S.Vicente, uma das 10 ilhas de Cabo Verde.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A CASA PERMANECE

 



 Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa.

O coração bate em todas as paredes. Acolhes a intimidade, da penumbra, o cheiro da lavanda em cada canto, a pulsação do passado. Quase tocas as faces familiares presas ao inquietamento das janelas fechadas. O desvio arbitrário dos dedos contorna a trama tecida na memória, sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte.

Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. Esta, onde entras para te reencontrares. Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão e o soalho range com o aperto do olhar, como um eco dos teus passos. Demoras-te. Entregas-te à irrealidade de pretéritos rumores, ao alarme de uma distância que não alcanças.

E recuperas o deslumbramento de seres criança e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.

Graça Pires - Poemas Escolhidos (2012-2025) - pg 202


Gosto muito dos poemas de Graça Pires, uma das melhores poetisas que tenho lido. Agora, neste ano, saiu um livro com poemas escolhidos dos anos de 2012-2025, livro precioso cuja leitura nos leva a momentos de puro enlevo. 

Este poema, escrito em forma de prosa, foi retirado do livro "Antígona passou por aqui", que conta a vida de Antígona no jeito pessoalíssimo de Graça Pires. 

Muito obrigada, amiga, por nos trazer esta bela forma de escrita.  





Blog: Ortografia do Olhar


Abraços, amigos.

Olinda


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imagem: pixabay

imagem: "Antígona" Wiki