segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A missão de continuar a vida




Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério. Para nós mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo. Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje. 

Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. 

A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver. Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem.

in 'Entrevista (1983)'






Natália de Oliveira Correia  (1923 -1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores. 
Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais. A partir de 1971, essas reuniões passaram a ter lugar no bar Botequim. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.


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Abraços, amigos.

Olinda

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Imagens - net
Texto: citador

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Em todos os jardins



Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen

            

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui



 Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo". A sua própria vida e as suas próprias lembranças são uma inspiração para a autora, pois, como refere Dulce Maria Quintela, ela "fala de si, através da sua poesia".


Abraços, amigos.

Olinda


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Poema - daqui

Imagem: pixabay

sábado, 24 de outubro de 2026

S,Vicente - a miragem do paraíso (XIV)




Mas também o governo está de tangas, pelo que responde ordenando três medidas: o repatriamento de todos os indigentes; oferta de passagem aos que quisessem ir trabalhar nas obras públicas de Santo Antão; abertura de trabalhos públicos para os naturais de S.Vicente. Era em si uma medida cómoda, ainda que de difícil aplicação porque poucos já eram ao tempo os naturais de S.Vicente.

De todo modo, os operários em peso recusam essa proposta discriminatória. Mas entretanto essa primeira crise acaba por ficar de certa forma ultrapassada com a retoma de algum movimento de barcos entrados no porto e consequente emprego ainda que só para uma parte dos trabalhadores.

Porém, a partir daí o desemprego passa a ser uma constante no seio de uma classe trabalhadora depauperada, e com ele o espectro da fome ou pelo menos de verdadeiros dramas sociais, como põem a nu os romances como "Chiquinho" de Baltasar Lopes ou os contos "Caderneta" e "Dona Mana" do mesmo autor, sem já falar nesse constante forçar para sobreviver magistralmente retratado por Manuel Lopes no "O galo cantou na baía": "Quando porto não dá, acaba comida do povo".

"O que é verdade é que a mesquinhez dos salários, insuficientando os recursos  para a satisfação das imprescindíveis necessidades do viver ou dos encargos; a singular proliferação da raça indígena, mal contida nos seus feitos de exagerado povoamento das famílias, pela mortalidade derivada das desumanas condições em que crescem, sem cuidados familiares e físicas, as crianças que enxameiam cada lar; as taras da tuberculose e dos vários vícios atávicos da raça e a violência do trabalho, são bem de feição própria a imprimir na vida em geral das classes proletárias, e sobretudo logo que o trabalho falte, o carácter iniludível da verdadeira miséria", lê-se no relatório da Câmara de S.Vicente em Julho de 1910 (...) 

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente - pgs 35 a 37





Abraços, amigos.
Olinda


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Imagem: net