terça-feira, 21 de abril de 2026

Ode para o Futuro






Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Jorge de Sena
in 'Pedra Filosofal'




Jorge Cândido de Sena (1919-1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português, naturalizado brasileiro em 1963.
Foi um dos mais influentes intelectuais portugueses do século XX, com vasta obra de ficçãodramaensaio e poesia, além de importante epistolografia com figuras tutelares da literatura portuguesa e brasileira. A sua obra de ficção mais famosa é o romance autobiográfico Sinais de Fogo, adaptado ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha. Grande parte da sua obra foi publicada postumamente pelos cuidados da viúva, Mécia de Sena.
Ver aqui





Boa semana, amigos.
Olinda


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Imagem: pixabay
Poema: daqui

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dom Casmurro




Segundo notícias do fim do mês de Março, o Consulado do Brasil em Lisboa vai inaugurar (ou já inaugurou) um espaço dedicado a Machado de Assis. 

Também o Clube Leitura Libertas, do Núcleo de Estudo Luso-Brasileiro da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, iria debater a obra Dom Casmurro no dia 8 de abril...

E o artigo acrescenta:

A discussão a respeito da obra promete se transformar num verdadeiro julgamento sobre os personagens de um dos clássicos do escritor brasileiro: afinal, Capitu traiu Bentinho?

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Cap.CXL

VOLTA DA IGREJA

 Ficando só, era natural pegar no café e bebê-lo. Pois não, senhor; tinha perdido o gosto à morte. A morte era uma solução; eu acabava de achar outra, tanto melhor quanto não era definitiva, e deixava a porta aberta à reparação, se devesse havê-la. Não disse perdão, mas reparação, isto é, justiça. Qualquer que fosse a razão do acto, rejeitei a morte, e esperei o regresso de Capitu. Este foi mais demorado que de costume; cheguei a temer que ela houvesse ido a casa de minha mãe, mas não foi.

_Confiei a Deus todas as minhas amarguras - disse-me Capitu ao voltar da igreja -; ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável, e estou às suas ordens.

 Os olhos com que me disse isto eram embuçados, como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. Mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que aparecia agora, desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e faríamos o que eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. (...)

Machado de Assis, Dom Casmurro, pg.154 (Diário de Notícias)

Deixo aqui mais um excerto de uma das obras de um autor que muito aprecio.


Abraços, meus amigos.

Olinda


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Machado de Assis aqui


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Impossível é não viver

  Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho. (...)

José Luís Peixoto, in "Abraço"



José Luís Marques Peixoto (1974) é um escritordramaturgo e poeta português, cuja primeira obra foi publicada em 2000. Vencedor de vários prémios como o Prémio José Saramago, as suas obras estão traduzidas em mais de 30 línguas. 

Veja o "O único impossível" aqui.

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Boa quarta-feira, meus amigos.
Abraços.
Olinda

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Citação: Citador