sábado, 16 de maio de 2026

A Herança

 



A herança
Sei que buscas ainda
o secreto fulgor dos dias
anunciados.

Nada do que te recusam
devora em ti
a memória dos passos calcinados.
É tua casa este exílio
este assombro esta ira.

Tuas as horas dissipadas
o hostil presságio
a herança saqueada.
Quase nada.

Mas quando direito e lúgubre
marchas ao longo da Baía
um clamor antigo
um rumor de promessa
atormenta a Cidade.

A mesma praia te aguarda
com seu ventre de fruta e de carícia
seu silêncio de espanto e de carência.
Começarás de novo, insone
com mãos de húmus e basalto
como quem reescreve uma longa profecia

CONCEIÇÃO LIMA


Sua obra tem como uma das temáticas principais o resgate do passado tanto ao revisitar suas origens quanto ao reconstruir poeticamente a história de um país marcado pela ação colonialista e pela escravidão.


Faleceu ontem aos 64 anos.
Notícia aqui.

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Poema daqui

Conceição Lima - aqui, no Xaile de Seda

quinta-feira, 14 de maio de 2026

POEMA DA PERGUNTAÇÃO

Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?

Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?

O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão somente uma ínfima parte da verdade?

E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.

Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?

Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.

Somos todos nós os verdadeiros culpados, são nossos os muros e as grades onde escondemos a verdade. E deles ninguém se evadiu, somos todos nós os verdadeiros evadidos.

EDUARDO WHITE 


Eduardo White sempre se impôs como um poeta impar desde os primórdios da sua infância literária. Poeta notável e respeitado pela sua invulgar criatividade no seio dos amantes da literatura moçambicana, dos PALOP e da CPLP, onde foi agraciado com vários prémios.

aqui

O meu lugar


Continuação de boa semana.

Abraços 

Olinda


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Poema de - aqui

Eduardo White - aqui, no Xaile de Seda

sábado, 9 de maio de 2026

Quem é que cuida da mãe?

Carolina Deslandes fez uma canção para o Dia da Mãe. Ainda não tem título. Aceitam-se sugestões.

Ora, oiçam:



 Se atentarmos nas palavras veremos que grandes verdades são ditas nesta canção, na voz maviosa da autora. O mistério da maternidade na sua imensa magnitude. Quem que é que cuida da mãe depois da parto, do aleitamento, das noites mal dormidas, de toda a infância com as quedas, as birras, as idas ao medico. 

E há uma outra circunstância: é que a mãe quase nunca aparece nas fotos, pois é ela que guarda os momentos para a posteridade.

E hoje é Dia da Europa, a velha Europa, fraca e pusilânime na sua postura a precisar de homens e mulheres com acções felizes, funcionais e operacionais, de modo a despachar umas quantas ideias feitas e a recuperar a sua antiga glória. Não aquela glória de explorações, de escravatura de má memória, mas aquela que Jean Monet preconizou e que chegou a concretizar-se. 

Temos vinte e sete estados-membros a compôr a União Europeia, é hora de fazerem alguma coisa no sentido de cuidarem desta mãe que já deu mostras de cuidar de todos.

Oiçamos de novo as belas palavras e a música de Carolina Deslandes.

Cuidemos de todos sem excepção e tenhamos a esperança de que num dia qualquer, de um ano qualquer possamos festejar com pompa e circunstância, com foguetes e alegria este Dia da Europa.

Bom fim-de-semana, amigos.

Abraços
Olinda


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Europa, aqui, no Xaile de Seda