terça-feira, 31 de março de 2026

"O escritor e a sua época"

 Em Angola há um Programa denominado "O Escritor e a sua Época ", abarcando o espaço temporal desde o século XIX, que visa promover o conhecimento da literatura angolana, incentivando o estudo das suas obras e também no sentido de valorizar a Língua Portuguesa.

O programa já vai na sua 20ª edição e desta vez, 27 de Março, foi homenageada Maria Eugénia Neto, escritora e jornalista luso-angolana, que escreve nos géneros literários:  poesia, prosa, encómio e literatura infantojuvenil.

Aproveito a oportunidade para transcrever este seu poema:



“Asas brancas dos confins do meu sonho”

Dos confins dos meu sonho
Eu estendo asas brancas
Sobre o ódio sobre a dor
Sobre a tristeza e o desespero

Dos confins dos meu sonho
Envio-te o elo da amizade
Que faz palpitar os homens justos
E os faça unir as mãos
E Construir já o porvir
E venham torrentes e vendavais
Plenos de vida e de energia
Mostrar como é puro o meu anseio

Eu estendo asas brancas
Sobre o desespero de querer ser audaz
E ser vencido pela timidez
Devendo avançar e não dar o passo
Fechando-se e metamorfoseando-se
Como crisálidas em casulos

Eu estendo asas brancas
Intercalando-as no caminho dinâmico da vontade
E sobre a impotência de não poder libertar-se
Dos que amarram os homens aos seus erros

Asas brancas dos confins do meu sonho
Para que a fraternidade seja uma conquista
E os homens verdadeiramente sejam homens

Eugénia Neto,
in “Foi esperança e foi certeza”, UEA 1976


1978 - A recepcionar o embaixador da Polónia e a 
embaixatriz Aleksandra


Não nos esqueçamos que Maria Eugénia Neto, mulher de Agostinho Neto, desempenhou um papel muito importante na luta anti-colonial. Ver aqui 


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Abraços, meus amigos.

Olinda


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Programa “O escritor e a sua época” homenageia…

Poema : aqui

sexta-feira, 27 de março de 2026

"A Senhora GPS"

 


Hoje, aliás, há já algum tempo, entramos no carro e seguimos caminho tendo antes inserido o endereço do GPS sem muitas preocupações, pois sabemos que chegaremos ao destino. Embora a voz que nos orienta seja por vezes incomodativa, vire à direita, vire à esquerda, saia na primeira saída da rotunda etc, temos em nós a certeza de que chegaremos sem problemas.

Lembro-me muito bem de quando queríamos ir a algum sítio, era aquela incerteza e íamos às apalpadelas, desejando encontrar pelo caminho alguém que nos indicasse a rua ou a região se as indicações de trânsito não fossem explícitas. Actualmente, vemos o carro a seguir estrada fora, uns a virem e outros e irem, e o nosso veículo bem assinalado na imagem.

Imaginamos quanto trabalho outros tiveram de desenvolver para que esta tecnologia nos viesse facilitar a vida. Além das dificuldades e obstáculos que tiveram de arrostar.



É o caso de Gladys West, 1930-2026, que deu o seu contributo e que ficou conhecida como  "mãe do Gps". Licenciada em Matemática colaborou nos cálculos que ajudariam a criar o Sistema de Posicionamento Global, vulgo GPS, que agora até as crianças aconselham os pais a recorrer a ele quando não conhecem o caminho. 

Em entrevista à agência Associated Press, em 2018, a pioneira admitiu que, na época em que trabalhou com os cálculos que ajudariam a criar o sistema do GPS, não tinha ideia do tamanho da importância que a tecnologia ganharia para a sociedade.



Hoje é o Dia da Mulher Cabo-Verdiana. Não consegui transferir para aqui a imagem que uma amiga me enviou, de modo que procurei esta na Net. 

Abraços.
Olinda

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Gladys West - aqui

quarta-feira, 25 de março de 2026

A Borbulhar Por Dentro





Soberbo o carvalho e sua fronda -
Soberbo o freixo e sua sombra.
Soberbo o melro a saltar de galho em galho.
Soberano. E negro.

Soberbos os espantados tordos. E meus olhos
Espantados no seu canto.

Soberba a montanha. E a pedra parideira.
E a água fresca a cair da pedra.
Bebida pelos dedos.

Soberba a litania dos insectos. E o sol a pique.
Soberbo o rio. E as coleantes margens.
E o linho na corrente fria
A curtir as mágoas.

Soberbos os dedos tecendo. E as açucenas.
E os bordados. E a toalha alva.
E a mesa do sacrário.

Soberbos os sinos. E missa d'alva. E o menino
A esfregar os olhos. Meigos.
E o restolho. E o trigo.
E o pão ázimo.

Soberba a misteriosa Lua a espreitar furtiva
Amores imaculados. E a dançar soberba
E nua. Uma dança de corpos perdidos
Em seus raios.

Soberbo o dia de ontem. E todas as auroras.
A soberba cálida vida a esgotar-se. Límpida.
Licor ainda.

Soberbo este perfume de ausência.
A arder sem lume.

Soberbo o murmúrio do poeta
A borbulhar por dentro.
E incauto a resguardar-se
No frágil eco
Do poema.




o Poeta insiste amplo e largo e lírico na ambiência dos seus outros livros
 retransportando uma nitidez reconhecível em cada frase quase como se um risco
contínuo atravessasse cada palavra escrita cada respiração por ele e
só por ele presentificada.
Isabel Mendes Ferreira
in:Prefácio

 

Jacques Brel
-La valse à mille temps-




Nota:
Peço desculpas ao Poeta e aos leitores por haver
transcrito apenas a página 11 deixando a página
12 no tinteiro :)
Já corregi o lapso.
Abraços
Olinda


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Poema in: Caligrafia Íntima, pg 11 e 12