Em contraste com a rémora que 'é freio da nau e leme do leme' Padre António Vieira apresenta no seu sermão aos peixes aqueles que representam os diversos defeitos humanos: os roncadores - soberba e orgulho; os pegadores -parasitas, vivem na dependência dos grandes, morrem com eles; os voadores -presunção, ambição; o polvo-traição, ataca sempre de emboscada porque se disfarça, comparado a Judas. Uma alegoria em que poderia ter-se socorrido de qualquer outro ser ou coisa, interessando apenas fazer passar a mensagem. E a mensagem era apontar os erros dos homens do seu tempo e procurar corrigi-los através das suas críticas e actos.
Homem do Sec. XVII, vivendo no Brasil desde criança, tinha a noção exacta do que se passava por lá em relação aos índios, dos ecos da Inquisição, da perseguição aos Judeus, da escravatura, assuntos que o preocupavam e contra os quais lutou durante a vida. Em Portugal mercê das suas ideias e das suas intervenções foi perseguido, inclusivamente, pela Inquisição.
A obra literária de António Vieira é vasta, assinalando-se em especial os seus sermões. É um caso interessante porque estabelece a ponte entre Portugal e o Brasil, inserindo-se por um lado no estilo barroco europeu e por outro dando início juntamente com Gregório de Matos Guerra a este estilo literário propriamente brasileiro, ainda dentro do género da Literatura Colonial, como nos informa este video.
Dado o seu grande valor como filósofo, escritor e orador, não são precisos pretextos para falar de António Vieira, cujos escritos cheios de ensinamentos nos colocam questões de uma actualidade impressionante. Mas, por acaso, tenho um outro motivo para o trazer aqui hoje. Trata-se da leitura do 'Sermão de Santo António aos Peixes' por Diogo Infante, primeiro, abrindo em Junho passado o Ciclo de Primavera da Biblioteca Municipal do Porto, depois na Comuna em Lisboa, e a seguir vai dizê-lo em recital, para escolas, a partir do início do próximo ano letivo.
Segundo o actor: À medida que ia lendo o sermão, ia-me surpreendendo com a sua atualidade. É relativamente fácil pensar-se que António Vieira viveu numa sociedade menos evoluída, mas a verdade é que as suas críticas – políticas e sociais – podem ser aplicadas aos políticos e figuras públicas de hoje.
Reconhecendo o valor insofismável de António Vieira, como não podia deixar de ser, tenho, contudo, uma mágoa dele. Contra a escravatura e grande defensor dos índios, não teve esta postura concreta em relação aos negros que eram levados da Mãe-África para os trabalhos escravos no Brasil, nomeadamente, nos Engenhos. Em vez disso, procurou fundamentar a posição da Igreja de que 'a escravidão salva'. Leiam, por favor, esta análise do 'Sermão Décimo Quarto', de Eva Paulino, que versa sobre o assunto. Embora não se deva tomar a parte pelo todo, deixo aqui esta passagem:
Assim que Vieira termina de louvar aos negros por sua alta missão como cristãos que serão salvos, ele diz, claramente, que a primeira obrigação que eles têm é de
dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivêis como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé, vivaes como christãos, e vos salveis. (303)
A honra de serem cristãos fica, então, imediatamente ligada ao processo da escravidão. Sem uma, a outra seria impossível. A terra dos escravos, a África, é representada não como o lugar em que os negros eram livres e podiam cultivar suas terras, professar suas próprias crenças. A África se torna toda num continente onde o que os negros podiam esperar era somente a perdição.
Aceito o contraditório, se for caso disso. :)
E hoje já é sexta-feira. É tempo de vos desejar um bom fim de semana. Parece que o calor vai voltar. Para os amantes da praia, do Sol, do ar livre, que somos todos (ou quase) é uma maravilha.
Abraço
Olinda
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