Sobe a noite sobre o meu corpo frio. Nada aquece o meu
corpo. Deito-me sobre esta cama vazia, gelada e o meu corpo é uma sombra. No
meu corpo não há carne, não há um rio de sangue que se move, quase não há
respiração que se sinta. Uma sombra.
Não sei se a janela ficou aberta ou se está fechada
desde que te foste embora. Não sei, não me interessa. Não sei se entra o sol ou
o luar ou se apenas entram as nuvens carregadas de lágrimas. Não sei.
A casa está fria, silenciosa, aquele silêncio cheio de
tristeza que habita as casas onde apenas a sombra de uma mulher se desloca. Não
há música, nem cheiro a pão nem se ouve o cantar dos pássaros. Nem os gatos já
aqui vêm porque sabem que aqui nada encontram. Esta é a casa onde a solidão se
instalou sem remissão.
Mas, então, aqui deitada, exangue, inerte, nesta
cama larga e fria, eis que ouço um som que não reconheço. Parecem passos no
telhado. A sombra que sou agita-se, não sei se é o meu sangue, se é a minha
fome, se são vestígios daquela que em tempos fui. Levanto-me, quase sem força,
trémula, assustada, pequeno pássaro indefeso, tanto medo, tanta velada vontade.
Uma luz vem do telhado. Talvez sejas tu, talvez sejas
tu que me vens incendiar os sentidos que eu julgava para sempre adormecidos.
Uma luz na mão de quem dá passos no telhado da minha casa, uma luz na mão do
anjo que pousou no meu telhado. Ou uma estrela, talvez apenas uma
estrela, tento sossegar-me.
A madrugada avança, fresca,
perfeita, e eu hesito, enredada nas minhas frágeis contradições. Depois
encho-me de coragem, vou até à janela, abro-a, deixo que a neblina entre, deixo
que as estrelas entrem, deixo que os primeiros raios de luz entrem, olho os anjos
que me olham, e depois vejo que não é um anjo, que és tu, tu que trazes um
incêndio no teu peito, e, ainda trémula, ainda a medo, deixo que entres, deixo
que afastes de mim todas as sombras, deixo que me cubras com o calor do teu
corpo, deixo que entres no meu corpo como um anjo carregado de estrelas.
Esta é a pergunta, retórica, que eu faria aos meus amáveis leitores... Depois respondê-la-ia eu. Mas não. É a própria UJM que nos dá o prazer de se apresentar, dizendo-nos dos seus gostos, da sua maneira de ser, do que a faz feliz.
Isto aconteceu há três dias, assim, ainda vão a tempo de ler um dos seus mais lindos textos, com o seu cunho pessoal, o qual encerra todo um mundo de boas sensações. Mas, o mais interessante é que a UJM não nos diz tudo nesse texto, falta o resto que é ainda tudo. Para o saber só indo lá, e tomar contacto com aquele manancial inesgotável, que tanto versa em política, economia, sociedade, como em arte e outras matérias, enfim, só vendo e lendo.
E mesmo assim, ainda não é tudo. E este blogue, Ginjal e Lisboa a love affair, donde retirei o texto que aqui vos trago? É mesmo um caso de amor e é a parte mais intimista e poética de UJM, não querendo dizer com isto que o outro blogue não comporte também, muitas vezes, essa sua faceta. Já estou a meter os pés pelas mãos, estão a ver? Repito: só indo lá...
Meus amigos:
Apreciem esta prosa poética que nos preenche e, ao mesmo tempo, nos faz desejar ler mais e mais.
Abraço
Olinda
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Indicação da autora:
Mote para o texto produzido: " Poema 2 de 'Pelas mãos e pelos eu juro' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água'."
Imagem: daqui - Agradecimentos
Boas Leituras!