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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Oito individualidades memoráveis (8)

Um homem não morre quando deixa de viver,
morre quando deixa de pensar.
António Sérgio






Como devem ser na escola as lições de linguagem

Um livro, para a escola velha, é um frasquinho cheio de «ciência»; um livro, para o laboratório, é como um estojo com instrumentos; por isso ele é decorado dentro da aula, e por isso no laboratório ele é usado.

As ideias, para o cientista, são ferramentas e são bússolas; para os estudantes, são ainda como panóplias de museu...

Precisa a escola de compreender: 1.º, que as ideias são instrumentos (instrumentos de experiência); 2.º, que a experiência não é a armazenagem dos golpes recebidos do exterior, mas a nossa ofensiva sobre as coisas, e os resultados que de aí provêm para a nossa futura actividade. Cumpre que nos objectos de uso humano, que em toda ideia de ciência humana, se veja o resultado de um trabalho, de muitos e pacientes esforços do homem.

Que é a linguagem, na realidade? Um instrumento de pensar e agir, uma moeda de uso diário no intercâmbio social; mas, nos programas, a linguagem não é um instrumento de intercâmbio, é uma peça de numismática: observa-se e revolve-se, põe-se a pino e põe-se chata e recoloca-se na vitrina de Luís Camões ou de António Vieira, não se estuda pelo seu uso, como instrumento de bem pensar... A ciência, a linguagem, a ginástica, o desenho, na escola do futuro, serão considerados como instrumentos de uma actividade social; e subordinados, como tais, aos fins superiores da acção humana – à humanização de todos os homens.

Subordinar o ensino — e todo o ensino — aos fins superiores da acção humana, é subordinar a escola inteira à actividade da Razão. Para que se exerça essa actividade há-de ensinar-se cada ciência segundo processos investigadores (onde as ideias são sugeridas pelos problemas a resolver) e definir no estudo da linguagem o objecto do seu ensino como o do «falar correctamente», mas não só, como até aqui, no ponto de vista da boa gramática, senão que também, e em primeiro lugar, no da boa observação e da boa lógica, procurando exprimir pelas palavras próprias uma realidade bem observada, ou um pensamento bem conduzido — e para isso, como é óbvio, abrir largas e luminosas as alamedas da intelecção.

Antes da correcção gramatical da frase, deve considerar-se a do pensamento que com essa frase se quis exprimir. As lições de língua serão de lógica, de observação, de estética — e de probidade.'





António Sérgio de Sousa Júnior ( 3/09/1883-24/01/1969) foi um pedagogo, jornalista, sociólogo, historiador e político português. 




Defendeu que é no indivíduo, em cada indivíduo, que a unidade da consciência se manifesta: «caminhe-se para a liberdade através da liberdade»! Neste contexto formulou a sua doutrina sobre o socialismo cooperativista, surgindo-lhe o cooperativismo como a forma de organização social mais consentânea com a sua concepção do homem como ser activo e criador. Com a proclamação da República (1910/10/05), passou a trabalhar a favor da reforma da educação no nosso país. 

Assim, foi um dos fundadores do movimento denominado Renascença Portuguesa, fundamentalmente voltado para as questões educacionais. Criou e dirigiu também várias revistas e jornais que tratavam do assunto, como a revista Pela Grei (1918). Titular da pasta de Instrução Pública (1923), no ministério reformista de Álvaro de Castro. Com a ascensão de Salazar ao poder, foi obrigado a exilar-se em Paris., depois em Madrid, de onde regressou a Portugal depois de ter sido abrangido por uma amnistia.

Dos seus livros mais importantes destacam-se: Educação cívica (1915) e os oito volumes de Ensaios (1920-1958).aqui

É um dos herdeiros da chamada Geração de 70, sendo evidente a influência que Antero de Quental exerceu sobre Sérgio, como homem e pensador. *

Com efeito inspira-se em Antero de Quental, Alexandre Herculano e Oliveira Martins para além de pensadores cosmopolitas de pendor voluntarista seus contemporâneos, defensores da democracia e de ideais socialistas, entre os quais se contam John Dewey, Guglielmo Ferrero, Ramsay MacDonald e Georg Kerschensteiner. aqui


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É como «seareiro» que António Sérgio entra para o governo liderado por Álvaro de Castro como ministro da Instrução Pública.

Sérgio alia-se a Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Sarmento Pimentel, João Soares e outros, para intervir na restauração das instituições democráticas vigentes até à data do golpe militar. Participa na primeira revolução constitucionalista contra o regime, liderada pelo general Sousa Dias e outros, que estalou em 3 de Fevereiro de 1927. O movimento falhou. Sousa Dias e os promotores da revolução foram deportados para África, e Sérgio, juntamente com outros intelectuais e políticos, teve de exilar-se em França.aqui

Aliás, como é referido acima.

Em "Textos Políticos" a que tive acesso, faz uma interessante exortação aos jovens seareiros:

Aos jovens "Seareiros" de Coimbra, sobre a maneira de lidar com os inimigos da luz e da razão - 1926
[...] Em política, que deseja a Seara? A democracia. Mas a base da democracia é a" virtude", como já afirmava Montesquieu; isto é, a moralidade cívica de todos nós. Antes de ser um regime político, é a democracia uma atitude moral, e a maneira de fazer a democracia não é directamente pela política, mas indirectamente pelos costumes. A causa da imoralidade dos homens públicos é a imoralidade cívica dos cidadãos, e povo algum entre os mal governados se pode queixar dos seus governantes, pois são os povos, afinal de contas, quem os selecciona e quem os faz. Fundar a democracia é levar a substituir progressivamente a autoridade externa de certos homens (ou de um certo homem) sobre os outros pela autoridade "interna" em cada um de nós, isto é, pelo império do racional de cada alma cívica sobre os seus próprios interesses e paixões. Por outras palavras:a democracia corresponde, nos sistemas políticos, à ideia moral do autodomínio.. [...]
Pg 64
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As Rimas são o único volume de poesia de António Sérgio (1883-1969), tendo sido editadas em 1908, por iniciativa de um amigo. Os poemas aí contidos terão sido escritos maioritariamente no início da primeira década do século, estando biograficamente ligados ao período em que Sérgio conhece aquela que virá a ser sua esposa e companheira intelectual - Luísa Estefânea Gershey da Silva (1879-1960). **

Não me foi possível arranjar um exemplar desse livro. Contudo logo que o consiga voltarei com um dos seus poemas.

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Embora haja muito para dizer sobre este grande autor, tenho de terminar, não é verdade? Mas antes, relembro que António Sérgio era um defensor acérrimo do Cooperativismo.

Esta casa, a casa de António Sérgio, construída em 1925, alterada em 1939 por iniciativa do próprio, recebeu  os serviços e actividades de António Sérgio para o Sector Cooperativo - Inscoop. Este edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público.

Possui uma Biblioteca especializada em Economia Social e é de acesso público. Integra ainda um fundo composto pela biblioteca pessoal de António Sérgio (BAS) e por parte do seu espólio (originais e manuscritos, recortes de jornais, correspondência e fotografias). daqui




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* "António Sérgio e a Cultura em Portugal"
** aqui
Veja aqui "O espírito cívico e pedagogo de António Sérgio"


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Série

Oito individualidades memoráveis (7) - Miguel Torga
Oito individualidades memoráveis (6) - Fernando Namora

domingo, 14 de abril de 2013

'Sabias que uma baleia pode se afogar se estiver debaixo de água mais de 30 minutos?'

A criança que existe em mim parou para ler estas palavras num painel, num centro comercial. Nele também uma grande baleia pintada com pequenotes em volta, num mar azul. Nem vou confirmar esta informação/pergunta, vou confiar que é mesmo assim, porque a minha ideia aqui é ajuizar da fragilidade das baleias, minhas irmãs. Eu consigo permanecer debaixo de água uns míseros segundos e elas, tão possantes, trinta minutos ou pouco mais. Pelas minhas  contas elas estarão em desvantagem. E digo porquê: Em condições normais, só lá vou quando quero, ao passo que elas têm de lá viver, é o seu habitat natural, é o seu meio ambiente. Também posso ajuizar da sua aflição quando são encurraladas e caçadas, não tendo para onde fugir. Lembro-me da sua força imensa nos mares da minha infância, dos jactos de água atirados contra os céus e a delícia que era para mim e para os meus irmãos presenciar toda aquela explosão de vida. 
Neste mês de todas as leituras e perante a pergunta acima apontada, lembrei-me de trazer um conto de António Sérgio, 'A história da baleia'. Pode ser que alguma criancinha passe por aqui...




'A história da baleia

Há muito, muito, muito tempo, vivia no mar a baleia, que comia peixes. Ainda ela, nesse tempo, podia comer peixes. Comia sardinhas e tainhas, gorazes e roazes, bugios e safios, pescadas e douradas, bacalhaus e carapaus. Todos os peixes que ia encontrando deitava-lhes a boca, - ão! Por fim, só havia no mar um salmonete vermelhete, que nadava sempre atrás da orelha esquerda da baleia, para ela lhe não fazer mal. Um dia, a baleia pôs-se a pensar muito séria, e disse assim :
- Tenho fome !
E o salmonete vermelhete, com a sua voz muito agudita, disse à baleia :
- Nobre e generoso cetáceo : já experimentou comer homens?
- Não - respondeu a baleia. - A que sabe? como é?
- Bom, mas traquinas - respondeu o salmonete vermelhete.
- Então, vai-me buscar três dúzias deles - ordenou a baleia.
- Basta um de cada vez - disse o salmonete vermelhete. - Se for à latitude 60 graus norte e longitude 40 graus oeste (isto, amigos, são umas palavras mágicas que o salmonete lá sabia) encontrará uma jangada feita de tábuas, e sobre a jangada um marinheiro náufrago de calças de ganga azul, uma faca de ponta aguda, e suspensórios encarnados (não se esqueçam dos suspensórios!). O marinheiro, devo dizer-lhe, é arguto, astuto, e resoluto.
A baleia, então, foi aonde lhe disse o salmonete vermelhete, e encontrou a jangada e o marinheiro. Aproximou-se, abriu a bocarra imensa, e engoliu a jangada e o marinheiro, com as calças de ganga azul, com a faca de ponta aguda e com os suspensórios encarnados (nunca se esqueçam dos suspensórios!). E assim a baleia arrecadou tudo na despensa escura, quentinha e fofazinha, que tinha lá dentro do seu corpanzão. E como gostou, deu três estalos com a língua e três voltas sobre a cauda, levantando muita espuma.



O marinheiro (que era arguto, astuto, e resoluto) mal se viu dentro da baleia. na despensa escura, quentinha e fofazinha, pulou, saltou, rebolou, cambaleou, espinoteou, dançou, sapateou, fandangueou, esperneou, gritou, berrou, cantou, estrondeou tanto, tanto, tanto, que a baleia se sentiu com enjoos, engulhos e soluços (já se esqueceram dos suspensórios?). E disse a baleia ao salmonete vermelhete :
- O teu homem é muito traquinas, e dá-me engulhos. Que hei-de eu fazer?
- Diga-lhe que saia cá para fora - respondeu o salmonete vermelhete.
E a baleia gritou pela garganta abaixo:
- Saia cá para fora, homenzinho, e veja se tem juízo!
- Isso é que eu não saio- respondeu o homem. - Leve-me primeiro para a minha terra, e depois veremos o que se poderá fazer.
E pôs-se outra vez a saltar, a pular, a espinotear e a rebolar.
- O melhor é levá-lo para casa- aconselhou o salmonete vermelhete. - Eu já tinha prevenido a senhora baleia de que o marinheiro era arguto, astuto e resoluto.
E a baleia nadou, nadou, nadou, dando à cauda e às barbatanas, mas sempre com soluços e muito enjoada. Quando avistou a terra do marinheiro, nadou para a praia, pôs a boca sobre a areia, abriu-a muito, e disse:
- Cá chegámos à sua terra!




O marinheiro, que era na verdade arguto, astuto e resoluto, tinha durante a viagem puxado da sua faca de ponta aguda, e cortado as tábuas da jangada em fasquiazinhas muito estreitas, que ligou muito bem com tiras dos suspensórios (bem lhes dizia eu que não se esquecessem dos suspensórios!) e fez com elas uma grade que empurrou, ao sair, contra a garganta da baleia. E, deixando a grade bem presa na garganta da baleia, saltou para terra e foi ter com a mãe, com a qual viveu muito contente.
A baleia foi-se embora também muito contente, assim como o salmonete vermelhete; mas a grade é que nunca mais saiu da garganta da baleia. E por isso é que a baleia nunca mais pôde comer homens, nem meninos, nem peixes - nem sardinhas nem tainhas, nem gorazes nem roazes, nem bugios nem safios, nem pescadas nem douradas -, porque os peixes não podem passar pelas grades da garganta, mas só bichinhos pequeninos, como, por exemplo, as pulgas-do-mar.
Pouco depois, o marinheiro casou e viveu muito feliz; tinha em casa as calças de ganga azul e a navalha de ponta aguda; mas não tinha os suspensórios, porque esses ficaram a atar a grade, muito apertada que só deixa passar bichinhos pequeninos - como as pulguinhas-do-mar - na garganta da baleia.'





Texto retirado de:Aqui
Imagens internet