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terça-feira, 8 de março de 2022

As Mulheres

...Pela cidade, as mulheres suportam malas e cuidam das crianças. São milhares, sem o companheiro. Só elas e os filhos. Os homens estão a combater. Outros, estão de prontidão. ...

O visor da minha máquina fotográfica já me limpou os olhos várias vezes. É difícil não chorar. Caros leitores, aqui o sofrimento é atroz. Podemos ser comentadores, analistas, de esquerda ou de direita. É sempre fácil no conforto do sofá. Aqui deixou de haver sofás. E berços só nos braços fortes das mães e das avós. Gosto de olhar olhos nos olhos. 

As mulheres são lindas. Transportam uma beleza que nem o desespero consegue vencer. São serenas. São solidárias. Carregam com elas o futuro de dois países. Meninos e meninas. Em Kiev ou em Moscovo, todos gostam de brincar. Bonecas e carrinhos. Existem linguagens universais.

As mulheres são o melhor que a humanidade tem.

Excerto de Crónica de 5/3, de Adriano Miranda, 
enviado do Público à Ucrânia.



Em Nome do Amor,

Ela espera fiel, confia, é puro clamor
Aos céus, confia no Alto com penhor.
Em nome do Amor,
Ela aguarda o tempo da dura espera,
Aguarda, no 💙, o cumprir da quimera.
Em nome do Amor,
Ela tem paciência, calma com sua dor,
Sabe o Amor paciente ser como a flor.
Em nome do Amor,
Ela é serena, com todo seu sofrimento,
Não cansa nem se cansa em tormento.
Em nome do Amor,
Ela sabe, um dia renascerá das cinzas,
Como fênix revigorada, sem tristezas.



Posto que o Amor também é feito de espera, o mesmo é dizer de esperança, hoje, Dia Internacional da Mulher, trago-vos este poema da amiga Rosélia. O direito de amar, de aspirar à Felicidade e de estar na vida de conformidade com as próprias escolhas. 

Esperança de que a Paz invada os corações de quem decide da vida das pessoas, de crianças, velhos e de quem é considerado mais fraco pelo poder das armas.

A canção que acompanha este poema foi-me indicada 
pela autora, a meu pedido, e verão como tudo está em consonância: 
palavras, música e esse sentimento que é 
o sal da vida, o Amor, 
 em todas as suas manifestações. 



A Miragem/Somente por amor


...somente por amor a gente põe a mão 
no fogo da paixão, deixa-se queimar 
somente por amor movemos terra e céus
rasgando sete véus, saltamos do abismo
sem olhar para trás...


Rosélia Bezerra, professora aposentada, é uma escritora com vários livros publicados. Confira aqui, em ClubedeAutores.

Este poema foi publicado em 2021 com o título "Como uma Fênix", no seu blogue  AMORAZUL. 


=====

Imagem: net


domingo, 6 de março de 2022

Memórias de Adriano

Livro de Marguerite Yourcenar que retrata a vida do Imperador romano Adriano, (76-138 d.C), o governante ideal, autobiografia romanceada e baseada em minuciosa pesquisa que durou cerca de trinta anos, uma das obras de referência da literatura contemporânea. Foi lançada em 1951 e tornou internacionalmente conhecida a sua autora.




Tem a forma de uma longa carta dirigida por Adriano, Pontifex maximus dos territórios romanos entre 117 a 138 d.C., já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma (século II d. C.). Nessa carta promete contar-lhe toda a verdade, sem as reservas próprias da história oficial. Pouco a pouco, através desta serena confissão, suscitada pelo pressentimento de que a morte se aproxima, ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável, que soube pacificar o império, tornar a sociedade romana um pouco mais justa, melhorar a sorte das mulheres e dos escravos.

Consta que Adriano teria deixado realmente uma autobiografia que, entretanto, não chegou aos nossos dias. 

Memórias de Adriano é prefaciado por Isabel Alçada, e poderemos ouvi-la, neste video, numa interessante reflexão sobre a obra.



A autora, Marguerite Yourcenar, de seu nome Marguerite Cleenewerck de Crayencour (Yourcenar - anagrama de Crayencour), -1903-1987- belga, foi uma escritora francesa e a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras, ocupando a cadeira nº 3, 1980.

Marguerite Yourcenar refere no posfácio, "Carnet de note", à edição inicial, que havia escolhido Adriano como tema para o seu romance em parte porque este tinha vivido numa época intercalar, em que já não se acreditava nos deuses romanos mas em que o Cristianismo ainda não se tinha firmado, o que lhe despertou curiosidade porque ela própria viveu uma época semelhante na Europa do pós-guerra. aqui


Por cá, Memórias de Adriano é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, programa que abrange os anos de 2017 a 2027.

Bom domingo, meus amigos.

Abraços

Olinda

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Imagens: Net

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Procuro o lugar onde começa o silêncio...




Procuro o lugar onde começa o silêncio.


Convoco-me para os lugares da infância, meu paraíso
tão desmoronado, tão precocemente desaparecido.
Um anjo austero apoderou-se de mim enquanto eu
escondia nos bolsos os berlindes coloridos.
Quis nascer de novo. Da mesma mãe. Com o mesmo
pai. Mas num tempo sem infâncias desamparadas,
sem deuses distraídos na cadência das horas lentas...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio da cintilação das sombras pelo chão.
O silêncio onde me esvaeço, na negritude da noite.


...Vem de tão longe, meus filhos. Vem do começo
sagrado dos tempos e do silêncio dos dias ao acaso, 
a grandeza de cada gesto. É preciso ter asas e deixar 
que o fascínio vos conduza até ao infinito, onde a avidez 
da vida inaugure no olhar o prodígio do espanto e a pura 
nascente de todas as sedes. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio transparente do mar, dos barcos ao longe,
da sombra dos mastros, do brilho dos búzios.


Esbarro na sombra, na minha sombra, e alargo os
passos para encurtar a distância entre os barcos e a
ilha mais próxima, onde uso o declive certo do olhar
para deslindar a ausência da água em meus olhos 
secos pela maresia.
Procuro o silêncio desconcertante das madrugadas, 
com a luz ainda baça do orvalho a dissipar-se. 
...

Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das sementes, da melancolia das árvores,
do restolho do trigo, do afago da terra.


No impulso da manhã, o nevoeiro esfarrapa-se sobre
os arbustos, incerto e sem peso. É o momento em que 
o olhar não tolera a luz que incide sobre branquíssimas
açucenas. Digo pétala, e o perfume de cada flor
estremece no olfacto como um sismo brando, com
réplicas no chão flexível que me prende e torna
urgentes os caminhos repetidamente pisados. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O imenso silêncio dentro de mim, na ansiedade das
palavras distantes, quando, sem aviso, ele se afunda
no meu peito insensatamente,  ...


Nas pontas dos dedos, uma insubmissa escrita teima 
na promessa de um poema com sílabas luminosas.
Escrevo silenciosos vocábulos, agora que a poesia se
detém no fingimento de entrelinhas, soletrando 
a febre nos lábios. Podem dizer de mim que nunca me
cansei das palavras porque foi com elas que me
aprendi inteira.
Regressa a mim, poesia!...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das montanhas azuis, da neve, das 
planícies eternas, das glicínias, do vinho maduro, da 
música de schubert, do coração dos pássaros
da fulguração da alba, ...


...O coração não cabe nas palavras quando a dádiva e o 
fascínio se confundem.
Distancio-me de mim. Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora onde guardei o 
mel com que aclarei os gritos abafados no recato da noite.
Sinto ainda o cheiro do leite quente guardado em 
meus seios para delírio precoce da boca que sugou
a minha sede. ...




Procuro o lugar onde começa o silêncio
O profundo silêncio de deus. O celestial silêncio dos
anjos.

...
Em minha garganta dilato os gritos sangrantes que 
antígona não gritou para que ressoem em todos os 
templos, em todos os palácios, em todos os mares,
em todas as praias, em todas as planícies, em todas
as montanhas, em todos os desertos, em todas as
casas. Na cegueira de uma febre maldita e benigna.
No amor sem perdão dos homens e dos deuses. ...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio definitivo da morte.
...

Procuro definir o eixo doloroso do espaço seguido
por antígona, feminina e livre, até à transgressão mais
tangível de um mundo nocturno.
Ela não chorou. Não dramatizou o lamento. Não
implorou aos deuses qualquer auxílio. Ela ficou
isolada, agarrada à compaixão sentida, em total
solidão. Lançada na treva, levou nos cabelos a
grinalda de uma morte ausente da morte: antinomia
alucinante, a antecipar a perda do paraíso. ...
 


Procuro o lugar onde começa o silêncio.





ANTÍGONA PASSOU POR AQUI numa pequena mostra das profundas palavras de GRAÇA PIRES. 

Assistimos a uma sentida homenagem, em prosa poética, a mais uma figura feminina, desta feita mitológica, Antígona, que atravessa os tempos e, nas devidas proporções, traz o seu rasto trágico até aos dias de hoje. 

Em Isadora, a autora entra-lhe na pele e transmite-nos as suas dúvidas, as  tristezas, a incompreensão dos contemporâneos perante a interpretação da arte que lhe preenchia a vida. Com Antígona embrenha-se no mundo antigo lê-lhe os pensamentos e os mitos, a sua forma de estar e de actuar, trazendo-o assim para o presente.

Sentimo-nos envolvidos, como que fazendo parte dessa travessia que nos atinge o âmago, num caminho de pedras percorrido com a garganta apertada de emoção. 

Busca de um silêncio que abafe a dor, mas que também faz ansiar pelo doce encanto da infância, não desamparada, a magia do aleitamento materno e a grandeza de cada gesto desde o começo dos tempos:

Obrigada, querida Graça, por nos proporcionar a oportunidade de penetrar nessa sua esfera em que a cultura e o talento andam de mãos dadas. 


Abraços
Olinda


=====

Neste texto, por cores :

1) Em roxo: desideratum que separa cada grupo de textos, no livro.
2) Em cinzento: Excertos de alguns dos textos que compõem a obra

(Das páginas: 11, 18, 26, 36, 37, 42, 45, 48, 51, 56, 60, 62, 66, 72, 73, 77, 81)

3) Considerações minhas - Palavras em preto.


Referência a "Isadora", Livro de Poesia - "Jogo sensual no chão do peito" - Graça Pires

Imagens: pixabay

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Acordem Rainhas!




Chegou-me a notícia deste movimento "Acordem Rainhas!", que visa alertar e consciencializar as Mulheres cabo-verdianas dos seus direitos perante maus-tratos, violência doméstica e discriminação de género. Sabemos o que acontece por cá através das notícias que nos vão chegando, situações que chegam à forma extrema de feminicídeo.


Video do movimento aqui.(não consegui importá-lo)


E veio-me à ideia, neste momento, o poema de António Gedeão, Calçada de Carriche. Talvez já o tenha publicado, mas penso que não haverá nenhum outro que expresse tão bem os sacrifícios e a submissão da Mulher perante forças retrógradas que parecem vir do fundo dos tempos. 


Eis o Mito de Sísifo adaptado à condição feminina:


CALÇADA DE CARRICHE


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.



Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.



in 'Teatro do Mundo'





Aproveito a oportunidade para vos deixar, abaixo, links de alguns dos posts que tenho produzido ao longo destes anos da existência deste Xaile.