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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Como nos Prodígios


Sou-te presente mulher e chama,
ímpeto fremente de lua abandonada.
aberta do calor na turbulência da noite,
ignota fonte de ternura derramada.



Encontrou-o à entrada do deserto,

absorto, como se conhecesse

todas as invocações do silêncio.

Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,

pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.

Ela saía do deserto. O mesmo deserto.

Trazia um cacto murcho em cada mão

e um rio seco a escamar-lhe a pele.

Olharam-se. Ela contou-lhe.

Contou-lhe das vezes que se afogou no chão

pensando que era água;

como rebentaram seus lábios pela sede interminável.

Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;

que bebeu o próprio sangue

para curar a febre e o delírio.

Falou-lhe do medo e do cansaço

que venceu cambaleando, rastejando,

dormindo agarrada à noite.

Ele hesitou.

Depois, com uma quietude

que nos prodígios acontece,

pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.

Graça Pires



Como nos prodígios apreende-se o mistério
que envolve este belo poema.
As palavras envolvem-nos e fazem-nos pressentir um
certo sofrimento e dedicação aproximado ao amor.



Paganini



O blog: Ortografiadoolhar


Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema


===

In: A solidão é como o vento, de Graça Pires

pg.61

Citação: Rio de Infinitos, pg162

terça-feira, 11 de julho de 2023

Com uma praia na lembrança





Percorro os verões antiquíssimos
quando era absoluta a cintilação do dia.

Havia uma praia com areia muito fina
Havia toldos brancos às riscas azuis.
Havia o prego e as cinco pedrinhas
que divertiam as meninas.
Havia o som de risos e brincadeiras.

Contra o vento flutuava o rigor da luz
em meu olhar tão cheio de candura.

Os rapazes faziam do jogo da bola
o gozo e o pretexto de espreitar
as mais distraídas a vestir o fato de banho.

O mar com ondas sempre enormes
era demasiado belo não fora o banheiro
a enfiar-me a cabeça na rebentação
como num cerco escuro
indiferente ao meu berreiro.
A água que eu engolia fazia descer a maré
tinha a certeza porque depois
a ondulação acalmava dilatando o areal.

E o sol sem pressa tornava os dias
mais longos e memoráveis.

Graça Pires
In: "O improviso de viver"
Pg 46



Quase que faço minhas as lembranças dessa praia ou outra mais perto de mim... 
A água que eu engolia fazia descer a maré, com as partidas dos meus irmãos mais velhos. Dias felizes e despreocupados, sem dúvida.

"O improviso de viver", tão intimista que, ao percorrermos as suas páginas, identificamo-nos com muitos momentos descritos nos poemas que o compõem. 






O Blog da Autora:

            *

Boa semana, amigos.
Abraços
Olinda

==

P.S. - Peço, desde já, desculpas se levar algum tempo antes de eventuais comentários serem publicados.

Motivo: 

Tenho estado sem computador. "Tenho vivido de amigos", o mesmo é dizer que só escrevo alguma coisa quando estou com a minha filha, aproveitando para utilizar o portátil dela.

Olinda



====
Praia de Quiaios - daqui

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

As palavras pesam




Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.

A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Graça Pires



O peso das palavras, aqui, neste belo poema, com o talento e elegância a que nos habituou a querida amiga Graça Pires. Há o quotidiano com as suas pequenas coisas que nos envolvem e fazem condicionar praticamente tudo o resto. E esse resto que é quase tudo leva-nos em viagens de descoberta em descoberta e nos faz sentir e dizer:

Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito. 




Graça Pires editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Veja mais aqui


Blog da Autora:






Bom fim de semana, amigos.
Abraços 
Olinda


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Poemas Escolhidos 1990-2011
daqui

Imagem - pixabay



sábado, 26 de fevereiro de 2022

Procuro o lugar onde começa o silêncio...




Procuro o lugar onde começa o silêncio.


Convoco-me para os lugares da infância, meu paraíso
tão desmoronado, tão precocemente desaparecido.
Um anjo austero apoderou-se de mim enquanto eu
escondia nos bolsos os berlindes coloridos.
Quis nascer de novo. Da mesma mãe. Com o mesmo
pai. Mas num tempo sem infâncias desamparadas,
sem deuses distraídos na cadência das horas lentas...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio da cintilação das sombras pelo chão.
O silêncio onde me esvaeço, na negritude da noite.


...Vem de tão longe, meus filhos. Vem do começo
sagrado dos tempos e do silêncio dos dias ao acaso, 
a grandeza de cada gesto. É preciso ter asas e deixar 
que o fascínio vos conduza até ao infinito, onde a avidez 
da vida inaugure no olhar o prodígio do espanto e a pura 
nascente de todas as sedes. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio transparente do mar, dos barcos ao longe,
da sombra dos mastros, do brilho dos búzios.


Esbarro na sombra, na minha sombra, e alargo os
passos para encurtar a distância entre os barcos e a
ilha mais próxima, onde uso o declive certo do olhar
para deslindar a ausência da água em meus olhos 
secos pela maresia.
Procuro o silêncio desconcertante das madrugadas, 
com a luz ainda baça do orvalho a dissipar-se. 
...

Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das sementes, da melancolia das árvores,
do restolho do trigo, do afago da terra.


No impulso da manhã, o nevoeiro esfarrapa-se sobre
os arbustos, incerto e sem peso. É o momento em que 
o olhar não tolera a luz que incide sobre branquíssimas
açucenas. Digo pétala, e o perfume de cada flor
estremece no olfacto como um sismo brando, com
réplicas no chão flexível que me prende e torna
urgentes os caminhos repetidamente pisados. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O imenso silêncio dentro de mim, na ansiedade das
palavras distantes, quando, sem aviso, ele se afunda
no meu peito insensatamente,  ...


Nas pontas dos dedos, uma insubmissa escrita teima 
na promessa de um poema com sílabas luminosas.
Escrevo silenciosos vocábulos, agora que a poesia se
detém no fingimento de entrelinhas, soletrando 
a febre nos lábios. Podem dizer de mim que nunca me
cansei das palavras porque foi com elas que me
aprendi inteira.
Regressa a mim, poesia!...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das montanhas azuis, da neve, das 
planícies eternas, das glicínias, do vinho maduro, da 
música de schubert, do coração dos pássaros
da fulguração da alba, ...


...O coração não cabe nas palavras quando a dádiva e o 
fascínio se confundem.
Distancio-me de mim. Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora onde guardei o 
mel com que aclarei os gritos abafados no recato da noite.
Sinto ainda o cheiro do leite quente guardado em 
meus seios para delírio precoce da boca que sugou
a minha sede. ...




Procuro o lugar onde começa o silêncio
O profundo silêncio de deus. O celestial silêncio dos
anjos.

...
Em minha garganta dilato os gritos sangrantes que 
antígona não gritou para que ressoem em todos os 
templos, em todos os palácios, em todos os mares,
em todas as praias, em todas as planícies, em todas
as montanhas, em todos os desertos, em todas as
casas. Na cegueira de uma febre maldita e benigna.
No amor sem perdão dos homens e dos deuses. ...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio definitivo da morte.
...

Procuro definir o eixo doloroso do espaço seguido
por antígona, feminina e livre, até à transgressão mais
tangível de um mundo nocturno.
Ela não chorou. Não dramatizou o lamento. Não
implorou aos deuses qualquer auxílio. Ela ficou
isolada, agarrada à compaixão sentida, em total
solidão. Lançada na treva, levou nos cabelos a
grinalda de uma morte ausente da morte: antinomia
alucinante, a antecipar a perda do paraíso. ...
 


Procuro o lugar onde começa o silêncio.





ANTÍGONA PASSOU POR AQUI numa pequena mostra das profundas palavras de GRAÇA PIRES. 

Assistimos a uma sentida homenagem, em prosa poética, a mais uma figura feminina, desta feita mitológica, Antígona, que atravessa os tempos e, nas devidas proporções, traz o seu rasto trágico até aos dias de hoje. 

Em Isadora, a autora entra-lhe na pele e transmite-nos as suas dúvidas, as  tristezas, a incompreensão dos contemporâneos perante a interpretação da arte que lhe preenchia a vida. Com Antígona embrenha-se no mundo antigo lê-lhe os pensamentos e os mitos, a sua forma de estar e de actuar, trazendo-o assim para o presente.

Sentimo-nos envolvidos, como que fazendo parte dessa travessia que nos atinge o âmago, num caminho de pedras percorrido com a garganta apertada de emoção. 

Busca de um silêncio que abafe a dor, mas que também faz ansiar pelo doce encanto da infância, não desamparada, a magia do aleitamento materno e a grandeza de cada gesto desde o começo dos tempos:

Obrigada, querida Graça, por nos proporcionar a oportunidade de penetrar nessa sua esfera em que a cultura e o talento andam de mãos dadas. 


Abraços
Olinda


=====

Neste texto, por cores :

1) Em roxo: desideratum que separa cada grupo de textos, no livro.
2) Em cinzento: Excertos de alguns dos textos que compõem a obra

(Das páginas: 11, 18, 26, 36, 37, 42, 45, 48, 51, 56, 60, 62, 66, 72, 73, 77, 81)

3) Considerações minhas - Palavras em preto.


Referência a "Isadora", Livro de Poesia - "Jogo sensual no chão do peito" - Graça Pires

Imagens: pixabay

segunda-feira, 8 de março de 2021

Contra a Fome

Hoje, Dia da Mulher. Dizemos todos os anos que o dia da mulher é todos os dias. Uma verdade inquestionável, se atentarmos na sua posição na sociedade e em todos os momentos da nossa existência. Contudo, este dia pode e deve ser aproveitado para falarmos dos problemas que continuam a massacrar a condição feminina. Ou então para assinalar o papel de mulheres que souberam ganhar o seu espaço e fazer da sua passagem por este mundo algo de positivo, para o bem de todos.

Fiz uma pequena pesquisa e de entre vinte e cinco mulheres portuguesas da actualidade escolhi falar de uma delas, nesta publicação, tendo em vista o tema em presença e pela sua dedicação a esta causa: a luta contra a fome. E assim, aqui me têm a homenagear: 


Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet  (1960)

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa e da Federação que reúne todos os bancos alimentares existentes no país. Foi fundadora da Bolsa de Voluntariado, da Entreajuda, do Banco dos Bens Doados e, mais recentemente, do projeto Tempo Extra, que está a mobilizar cada vez mais voluntários na idade da reforma. É a cadeia logística formada pelos 21 bancos alimentares que permite que 2400 recebam os produtos que alimentam quase 400 mil pessoas. (Dados de 2019) aqui

Estruturou e lançou em 2005, proclamado pelo Conselho da Europa como o Ano Europeu da Cidadania através da Educação, o programa Educar para a Cidadania dirigido a crianças e jovens, o qual, através do caso prático do Banco Alimentar, mostra a importância dos valores na formação e na educação.

Foi Presidente do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares entre Abril de 2012 e Dezembro 2017

Em novembro de 2012, foi criada uma Petição Pública para que abandonasse o cargo de presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, devido a declarações polémicas proferidas em época de austeridade, entre as quais "Vamos ter de reaprender a viver mais pobres" e "Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias".  No entanto, como resposta a esta petição, várias outras petições públicas, com muito mais assinaturas, surgiram em defesa da Isabel Jonet, pedindo-lhe que continuasse por muitos anos à frente dos destinos do Banco Alimentar Contra a Fome. aqui


É que a Fome anda aí...

Sempre soubemos da pobreza e das desigualdades que assolam algumas faixas da sociedade. Tudo um tanto longe, algo difuso, quase não nos tocando. Com a pandemia que se abateu sobre nós tomámos a dolorosa consciência de novo tipo de pobres a somar ao que já existia.

Trata-se de pessoas que tinham a vida organizada nos seus pequenos negócios e viram-se de uma hora para a outra privadas do seu ganha-pão. Não será preciso fazer uma lista do descalabro que vigora nos nossos dias, pois todos nós conhecemos a situação.

Com efeito, muitos têm sido os pedidos de ajuda para aquilo que há de mais básico: o pão para boca. E Instituições, como o Banco Alimentar Contra a Fome (BA) de Lisboa, que no passado recente faziam disso uma missão em relação a grupos sociais mais desfavorecidos , têm agora a atenção também centrada nessa grande fusão social que se tem verificado.

Daí a homenagem que ora presto a Isabel Jonet, bem como a todos os voluntários que labutam para fazer chegar aos que mais precisam essa preciosa ajuda.



 Saudosa Maria Guinot!

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Momento de Poesia, com Graça Pires, do seu último livro, "Jogo Sensual no Chão do Peito", dedicado à vida da extraordinária bailarina e coreógrafa, Isadora Duncan:


O meu tempo vivi.
Tive amigos.
Eram actores, músicos,
bailarinos, boémios.
Escreviam o meu nome
nos jornais e em cartazes.

Em berlim chamavam-me deusa
Na grécia quis ser ninfa, calipso,
nausícaa, ou mesmo ulisses.
No egipto deixei que o deserto
e a vale dos mortos me fascinassem.

Por todos os lugares conheci
o esmorecimento ou a ânsia da perfeição.

Como contar aqui todos os tropeços,
todos os despojos, todas as solidões?

Teimei incansavelmente na mais cúmplice
presença do silêncio.

in Jogo sensual
no chão do peito
pg.42

Leia mais sobre a Autora, aqui, no Xaile de Seda







Saibamos fazer a vida acontecer.

FELIZ DIA DA MULHER!


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Veja mais sobre a Mulher
aqui e aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 1 de maio de 2020

GRAÇA PIRES - "A solidão é como o vento"



Leu a notícia no jornal:

"Menina de nove anos agredida pela mãe".
Sabia que era dela que falavam
e escreveu no seu diário:
mãe, o que é que aconteceu?
O sorriso que começava inteiro nos teus olhos
tornou-se estrangeiro em tua boca.
Lembro-me do instante
em que começaste a fitar-me obliquamente,
como se um cerco de amordaçasse o olhar.
Depois, sem suspeitares,
tinhas as mãos vulneráveis à violência.
O que é que nos aconteceu, mãe?
Como dizer o teu andar inquieto, ou calar
o teu rosto cavado por uma qualquer angústia?
O que é que te aconteceu, mãe?
De hoje em diante usarei no tornozelo
uma pulseira negra, em sinal de protesto,
por me teres privado tão cedo da tua alegria.
Pg.46

Poemas que falam bem do estilo da Autora, da sua prodigiosa propensão em ir ao fundo das emoções e sentimentos humanos.

Parabéns, Graça Pires.






Encontrou-o à entrada do deserto

absorto, como se conhecesse
todas as invocações do silêncio.
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.
Ela saía do deserto. O mesmo deserto.
Trazia um cacto murcho em cada mão
e um rio seco a escamar-lhe a pele.
Olharam-se. E ela contou-lhe.
Contou-lhe das vezes que se afogou no chão
pensando que era água;
como rebentaram seus lábios pela sede interminável.
Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;
que bebeu o próprio sangue
para curar a febre e o delírio.
Falou-lhe do medo e do cansaço
que venceu cambaleando, rastejando,
dormindo agarrada à noite.
Ele hesitou.
Depois, com uma quietude
que só nos prodígios acontece,
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.
Pg. 61







Hoje, lançamento no Facebook - Poética Edições.
(01/05)


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BREVE RESENHA SOBRE O LIVRO DE GRAÇA PIRES, "A SOLIDÃO É COMO O VENTO" - AQUI


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Vem, amor


Nada sabemos das mãos gretadas pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
E é mister que o saibamos.



Vem, amor
Não tarda aí o fim do dia
e ainda não plantámos as avencas
junto do ribeiro para que o rosto
da terra resplandeça nos prados.
Repara: já há amoras no muro de pedra 
onde prendemos as raízes da sede.
pg 51

E mais:

Desconhecemos as cicatrizes das mãos
que manejaram a mó dos moinhos
e a fadiga das que mondaram a terra,
num ritual repetido infindavelmente.
Nada sabemos das mãos gretadas
pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
Abandonadas há muito tempo,
as alfaias antigas ainda rangem
nas mãos dos que pisam os trilhos
das cabras em lugares desamparados.
São mãos onde se lê a escassez
do amor e do pão de cada dia

pg 35
Graça Pires
in Uma vara de medir o Sol

Graça Pires, portuguesa, editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.




Obras publicadas
Poemas. Lisboa: Vega, 1990; Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993 ; Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996; Conjugar afectos. Lisboa:Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997; Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997; Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002; Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003; Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005; Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007; Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008; O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009; A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011; Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012; Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012; Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013 - aqui

Blog da autora: Ortografia do olhar

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2 Poemas: in Uma vara de medir o Sol
pgs 51 e 35
Imagem: pixabay

Quinzena do amor
Post 1 ; Post 2 ; Post 3 ; Post 4; Post 5

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Quase acreditámos na luz rodopiando as sombras



Quase acreditámos na luz rodopiando as sombras
para tornar transparente a maciez do húmus
preso à torrente das chuvas.
Pressentíamos que qualquer coisa de comovente
se alojava no brilho da folhagem atravessada
pelo perfil das aves migratórias.
Sempre soubemos que há rosas
que se desfolham antes de alguém as ver
derramando um leve aroma sobre o delírio da cor
para deslumbramento das borboletas.
Nunca se repete, sempre soubemos,
a curva do tempo na concha do olhar.

Graça Pires
in: Uma vara de medir o sol
pg.48

Querida Graça

Mais uma vez na sua seara, onde gosto de descansar a vista e alimentar o espírito. Obrigada.

Bj

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Título do post - retirado do primeiro verso
Ortografia do olhar - Blogue da autora
Imagem - daqui

domingo, 2 de dezembro de 2018

Como um aviso*



Quando as espigas surgiram de repente 
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

In: Uma Vara de medir o Sol
pg.52

GRAÇA PIRES



* Título do post retirado do último verso. 
   Peço à autora me releve a liberdade.

=====
Imagem: Pixabay

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Victoria




Não tenho na ponta da língua o vocabulário
avulso da insubmissão ou da revolta,
mas queria dispor de palavras certeiras
para exprimir o meu protesto:
considero absurdo que me venham falar
de amor e desdenhem dos sonhos (tantos)
com que me assombro.

Não quero para mim aquela história
igual a tantas outras: "casaram
e foram felizes para sempre".

São vozes que desabam sobre a agudeza
do recato e desfazem o casulo da puríssima
seda que ao instinto pertence.

Um eco de sinais antigos como salmos
envolve meus lábios, tão trementes agora.

Graça Pires
In:Fui quase todas
as mulheres de Modigliani (clic)
Pag.44


Figura austera a Victoria. Mas, faria minhas as suas palavras. Os contos de fadas e da carochinha já não pegam. Numa relação há altos e baixos o sempre é muito relativo.




Graça Pires (1946) Poetisa portuguesa.É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Poemas. Ler mais aqui


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Quinzena do Amor
Post 20 - Carta (Esboço), Post 19 - Morena, Post 18 - Diz o meu nome, Post 17 - Canção do africano, Post 16 - Os cinco sentidosPost 15 - Amor a amor nos convidaPost 14 - E Serei VeleiroPost 13 - Poema de Amor de António e CleópatraPost 12 - Que era é esta?Post 11  - A noite abre meus olhosPost 10 - sim.foi por um beijo em simples vendaval que morriPost 9 - Ó MãePost 8 - Alma minha gentil que te partistePost 7 - Do inquieto oceano da multidão,Post 6 - Amar teus olhosPosta 5 - Conheço esse sentimentoPost 4 - Éramos tu e euPost 3 - Saudades não as queroPost 2 -Não é por acasoPost 1 - É daqui a pouco 
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1ª Imagem: Pintura de Modigliani - Victoria 1916
2ª Imagem: Graça Pires - aqui