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domingo, 27 de outubro de 2019

Essa que eu hei de amar




Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"


     (1890-1969)


No passado mês de Julho, apresentei, no Xaile, Guilherme de Almeida, poeta modernista, chamado "O Príncipe dos Poetas Brasileiros", com a sua poesia e alguns elementos biográficos, num total de onze posts. Não terei dito tudo a seu respeito, naturalmente. Hoje, trago mais este poema, para assinalar o Dia Nacional da Poesia, no Brasil, país que através dos seus Autores e iniciativas culturais muito prestigia a Literatura e o amor à Língua Portuguesa.

Trarei também, até 31 de Outubro*, poemas de Castro Alves e de Carlos Drummond de Andrade.



Santos e Pecadores (O.Bilac) - Fala-me de amor



* Dia nacional da Poesia, no Brasil. 
Inicialmente comemorado a 14 de Março, data do nascimento de Castro Alves, foi posteriormente instituído o dia 31 de Outubro, assinalando o dia do nascimento de Drummond de Andrade.

Espero aqui os amigos brasileiros, para me dizerem de sua justiça. :)

Bom domingo a todos.

Abraço.



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Veja, sobre Guilherme de Almeida:
Posts:  IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXX, XI

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Poema - daqui
Imagem - daqui


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - XI

Chegámos então a este post XI e muitos mais poderiam ser que não chegaríamos a dizer o suficiente deste homem nascido em Campinas, Brasil, multifacetado, interventivo até às últimas consequências na vida social e política do seu país, também poeta, advogado, ensaísta, tradutor, jornalista, crítico de cinema. De tudo dando conta e em tudo se comprometendo na sua apurada consciência cívica.

Devo dizer que tive um prazer imenso na busca da peugada de alguns pormenores da sua vida e obra. Os poemas que atrás publiquei dizem bem da sua sensibilidade, do seu ritmo “no sentir, no pensar, no dizer”, do trabalhar do verso, tanto que o poeta Manuel Bandeira o considerou o maior em língua portuguesa.

Com efeito, nos últimos dias passaram pelos nossos olhos poemas maravilhosos, não todos os que seriam de justiça mas aqueles que, talvez, me falassem mais ao coração. E como não amar este Poeta?

Da sua permanência em Portugal, exilado, deixou as suas impressões em livro intitulado "O meu Portugal - Crônicas de um desterro". Desse livro, recolho algumas passagens* que espelham a sua alma de poeta e do seu reconhecimento por ter sido recebido como um herói, especialmente pelos seus pares.





“Lisboa é a caixa de cores com que maio costuma pintar as paisagens pequenas, todas salpicadinhas de tintas, desta Europa estreita, apertada, aproveitada.

Todas as cores moram aqui numa doidice harmoniosa.”

“Lisboa…Só Boa ? Não! É Lis…óptima! “

“Sobre o Tejo estanhado vagam as velas cor de açafrão…” 





Mas também, Sintra:


“Nessas pedras o reflexo de tantas e tantas coisas que ellas viram e ninguém mais viu, que ellas sabem e ninguém mais…”. 

E das origens portuguesas do povo brasileiro:




A gota de sangue que daqui partira Martim Affonso de Souza, há quatrocentos anos, refluía no coração… era o regresso, o retorno, no refluxo das águas que a levaram, da gotinha de sangue, longo tempo refugiada, refugindo…”

E termino, por agora, transcrevendo mais este belo soneto, o XI, e claro, da obra "NÓS":

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
longe do coração” — diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
quanto mais longe, mais te quer ao lado;
tanto mais te ama, quanto mais te avista
e, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
— Não sei: longe de ti tudo é deserto
e todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
quando se unissem nossas mãos, querida,
nunca pudessem desunir-se mais!

Guilherme de Almeida

      (1890-1969)




Veja: 
Post  IIIIIIIVVVIVIIVIIIIX, X

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Imagem daqui
Imagem: aguarelas de Jorge Carmo

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - X

Quando as folhas caírem nos caminhos




Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
-" Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...



Guilherme de Almeida
     (1890-1969)



Casa Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida mudou-se para o local em 1946, um sobrado na rua Macapá, no Pacaembu, em São Paulo. Era chamado carinhosamente por ele como a "Casa da Colina" . E ele a descreveu: "A casa na colina é clara e nova. A estrada sobe, pára, olha um instante e desce". Nela, o poeta viveu até 1969 e nela faleceu. Lá, os saraus eram bem animados, como lembra o poeta Paulo Bomfim. Também estavam sempre presentes os amigos Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Noemia Mourão, René Thiollier, Saulo Ramos, Roberto Simonsen, Carlos Pinto Alves e tantos outros.
A casa, em 1979, tornou-se o Museu Casa Guilherme de Almeida, pertencente à Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, tendo sido "tombado como museu biográfico e literário" pelo Conpresp, em maio de 2009. O museu conta com importante acervo de obras de arte: quadros de Di Cavalcanti, Lasar Segall e Anita Malfatti, as primeiras edições dos livros do poeta, entre seis mil volumes no total, além de mobiliário, peças pessoais e relíquias da Revolução de 1932. aqui




Nós IV - Interpretação de Fernando Bezerra


Veja:
Post  IIIIIIIVVVIVIIVIII, IX


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Poema - aqui
Agradecimentos ao "nothingandall..."

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - IX

NÓS





Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!


    (1890-1969)


A publicação do livro de poesias Nós (1917), iniciando sua carreira literária, e dos que se seguiram, até 1922, de inspiração romântica, colocou-o entre os maiores líricos brasileiros. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna, fundando depois a revista Klaxon. Percorreu o Brasil, difundindo as idéias da renovação artística e literária, através de conferências e artigos, adotando a linha nacionalista do Modernismo, segundo a tese de que a poesia brasileira “deve ser de exportação e não de importação”. Os seus livros Meu e Raça (1925) exprimem essa orientação fiel à temática brasileira. aqui





Holambra - Festa das flores

Veja: 
Post IIIIIIIVVVIVIIVIII

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Poema - daqui
Imagem - daqui

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - VIII

NATUREZA-MORTA







Na sala fechada ao sol seco do meio-dia
sobre a ingenuidade da faiança portuguesa
os frutos cheiram violentamente e a toalha é fria
e alva na mesa.

Há um gosto áspero de ananases e um brilho fosco
de uvaias flácidas
e um aroma adstringente de cajus, de pálidas
carambolas de âmbar desbotado e um estalo oco
de jaboticabas de polpa esticada e um fogo
bravo de tangerinas.

E sobre esse jogo
de cores, gostos e perfumes a sala toma
a transparência abafada de uma redoma.


     (1890-1969)



Da vida tantas vezes tumultuada de Guilherme de Almeida, o chamado Príncipe dos Poetas Brasileiros, faz parte um ano de exílio ou desterro em Portugal (de 1932 a 1933), devido à sua defesa da causa constitucionalista, que o levou a se alistar como soldado raso na Revolução de 1932, contra a presidência de Getúlio Vargas. Dirigiu o Jornal das trincheiras, distribuído até no próprio campo de batalha. Foi preso no dia 10 de outubro do citado ano e enviado para a Casa de Detenção do Rio de Janeiro, saindo daí para Recife e continuando, posteriormente, por via marítima, para a Europa, junto com dezenas de paulistas que também tinham apoiado aquele movimento.



O autor foi recebido em Portugal com honras de herói e como um dos maiores poetas da língua, tal como ele próprio reconhece no discurso de receção na Academia das Ciências de Lisboa. Na verdade, perante qualquer comentário acerca da estada de Guilherme de Almeida em Portugal, torna-se imprescindível lembrar, com mais ou menos pormenores, a campanha de relacionamento empreendida por intelectuais de ambos os lados do Oceano que já se vinha levando a cabo havia alguns anos (ou mesmo algumas décadas.
leia mais aqui (interessante)








Eduardo Ramos e o seu alaúde



De assinalar:
os seus contatos com Castelao e com Laxeiro ou Colmeiro, as suas recriações da lírica medieval galego-portuguesa através do neotrovadorismo, as suas investigações sobre a origem genealógica do apelido Andrade em Pontedeume, as suas importantes conferências em homenagem e apoio aos emigrantes galegos no estado de São Paulo e, enfim, as suas constantes referencias à Galiza como “terra matricial”. Com efeito, até no seu discurso de entrada na Academia Brasileira das Letras se lembrou da Galiza e das origens literárias comuns.


Veja aqui Saudosismo e Neotrovadorismo
(Afonso Lopes Vieira, Guilherme de Almeida e Álvaro Cunqueiro)



Veja: 
Post IIIIIIIVVVI, VII

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Poema: daqui
Imagem daqui
Natureza-morta - Claude Monet

terça-feira, 9 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" - VII

BRANCA DE NEVE





Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


        (1890-1969)

A sua entrada na Casa de Machado de Assis significou a abertura das portas 
aos modernistas. 
Formou, com Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e 
Alceu Amoroso Lima, o grupo dos que lideraram a renovação da Academia.
Era membro da Academia Paulista de Letras; do Instituto Histórico e Geográfico 
de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela; 
e do Instituto de Coimbra.
Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, 
Charles Baudelaire, Paul Verlaine e, ainda, a peça a peça Huis clos 
(Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre. aqui





Veja: 
Post IIIIIIIVV, VI
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Poema daqui
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
Imagem: daqui

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - VI

CINEMA





Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


Guilherme de Almeida
          (1890-1969)


"A mais moça das artes"
Guilherme de Almeida via o cinema como uma marca do recém-iniciado Século XX, uma nova e vibrante marca de uma sociedade que parecia desejosa de superar antigos paradigmas, dentre os quais estavam os artísticos, com a predominância do teatro e da literatura.(...) Chegou mesmo a "comemorar" o fato de muitos teatros estarem, na década de 1920, dando lugar a salas de cinema, como sendo uma prova inequívoca da superioridade desta, que era em suas palavras, "a mais capaz e moderna das artes"
"Cinematographos: Antologia crítica cinematográfica", reúne textos de Guilherme de Almeida publicados de 1926 a 1942 no jornal O Estado de São Paulo. A coletânea traz à vida a história do cinema no país, mostrando os costumes e paixões. aqui



Pioneiro na crítica do cinema no Brasil

Veja: 
Post IIIIIIIVV

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Poema: daqui
Imagem: daqui

sábado, 6 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - IV

ESTA VIDA




Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


     (1890-1969)



Embora tenha aderido ao movimento da Semana de Arte Moderna, não encontrou nela os reais valores para a criação artística. Algumas obras revelam elementos do passado, principalmente da escola parnasiana, amenizados por um toque de neossimbolismo em “Nós” e “A Dança das Horas”. Depois da atuação na semana, deixa-se contaminar pelos valores do movimento e algumas obras espelham seu ideário nacionalista em “Meu” e “Raça”. 

Em seguida, o poeta retorna ao ponto de origem. Cultua valores parnasiano-decadentes em “Encantamento”, “Acaso” e “Você”. Faz reviver o estilo dos trovadores no “Pequeno Cancioneiro”. Assume também caracteres da lírica renascentista em “Camoniana”. aqui





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Poema: daqui
Imagem: Flamboyant Campinas

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" III

Harmonia vermelha*





O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tacto, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tacto mais vibrante,
O sabor mais subtil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
- o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...


     (1890-1969)

Sua estreia na poesia se deu com a obra “Nós”, em 1917. Sonetista exímio, hábil manejador de versos, recebeu fortes influências de Olavo Bilac e do português Antônio Nobre. Fez conferências divulgando os ideais do Movimento Modernista. Difundiu a Poesia Moderna proferindo a conferência "Revelação do Brasil pela Poesia Moderna", nas cidades de Fortaleza, Porto Alegre e Recife. Participou da Semana de Arte Moderna, fundando em seguida, a revista "Klaxon". aqui

Nos poemas de "Simplicidade", publicado em 1929, retornou às suas matrizes iniciais, à perfeição formal desprezada pelos outros, mas não recaiu no Parnasianismo, porque continuou privilegiando a renovação de temas e linguagem. 

Sobressaiu sempre o artista do verso, que o poeta Manuel Bandeira considerou o maior em língua portuguesa. aqui





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Poema daqui
Agradecimentos ao "Nothingandall..."

*Dúvida:
Encontrei o mesmo soneto com o título de "Harmonia Velha": aqui

Imagem - Holambra - Janete Oliveira - aqui

Descubra "Holambra" aqui no "Xaile" - uma curiosidade

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - II

IDÍLIO SUAVE






Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!


      (1890-1969)


Foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930). Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de BilacAlberto de Oliveira e Olegário Mariano). 
A essência de sua poesia é o ritmo “no sentir, no pensar, no dizer”. Dominou amplamente os processos rímicos, rítmicos e verbais, bem como o verso livre, explorando os recursos da língua, a onomatopeia, as assonâncias e aliterações. aqui

Ver:
Post I



Antoine Watteau


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Poema - daqui
Agradecimentos ao "Nothingandall..."
Imagem:Campinas: Paisagem Urbana 
daqui




Video: Morna "Saudades", de B.Léza (Francisco Xavier da Cruz)
 Intérprete: Maria da Luz Souza