Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Protege-me com o teu Olhar






Completas


A meu favor tenho o teu olhar

testemunhando por mim

perante juízes terríveis:

a morte, os amigos, os inimigos.


E aqueles que me assaltam

à noite na solidão do quarto

refugiam-se em fundos sítios dentro de mim

quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.


Protege-me com ele, com o teu olhar,

dos demónios da noite e das aflições do dia,

fala em voz alta, não deixes que adormeça,

afasta de mim o pecado da infelicidade.


in “Algo Parecido Com Isto, 
da Mesma Substância”


***


Fala em voz alta, não deixes que adormeça. 
Afasta de mim o pecado da infelicidade





Laura Pausini
La Solitudine



====
Poema enviado por uma irmã minha. Obrigada, mana :)

Manuel António Pina (1943-2012) foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prémio Camões. A obra de Manuel António Pina incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e televisão e editadas em disco. aqui

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Todas as Palavras



As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.


   (1943-2012)


Manuel António Pina (Sabugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012) foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prémio Camões.

A obra de Manuel António Pina incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e televisão e editadas em disco.

A sua obra se difundiu em países como França (Francês e Corso), Estados Unidos, Espanha (Espanhol, Galego e Catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária. aqui

Em 2005, em 9 de maio, foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

====
Poema - daqui
In: Todas as Palavras-Poesia reunida
Imagem - daqui

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lugares da infância






Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

 In: "Um sítio onde pousar a cabeça"

       (1943-2012)


====

Poema: Citador
Imagem:pixabay

quarta-feira, 19 de março de 2014

Amor como em casa


Ficheiro:Kim 0078-2.jpg



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina
       (1943-2012)

in:

Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo. 
Calma, é apenas um pouco tarde.

Ver também este artigo do Expresso

****


Interrompo, por momentos, a minha incursão no mundo da Poesia Haiku para recordar, hoje, Manuel António Pina.

Feliz Dia do Pai a todos os pais que por aqui passarem.

Abraço

Olinda


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Que coisa morreu na minha infância e está lá a ser eu?




Alguém atrás de ti

Como no sonho dum sonho, arde 
na mão fechada de Deus o que passou. 
É cada vez mais tarde 
onde o que eu fui sou. 

Que coisa morreu 
na minha infância 
e está lá a ser eu? 
A lâmpada do quarto? A criança? 

Em quem tudo isto 
a si próprio se sente? 
Também aquele que escreve 
é escrito para sempre. 

Manuel António Pina
    1943-2012




*****

Manuel António Pina vai ser recordado num livro com desenhos e pinturas da autoria de Agostinho Santos e textos de amigos sobre o poeta e jornalista, a lançar no sábado, no dia em que se cumpre um ano da sua morte. Mais aqui ...

Em tempo:

Ver: O Senhor Pina, de Álvaro Magalhães, com ilustrações de Luiz Darocha, lançamento a 18 de Novembro, data de aniversário de Manuel António Pina.







Imagens: Net

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Saudade da prosa


Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu» e escrevia «rosa»
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios;
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal - livro precioso, presente que eu ganhei agora no Natal. :)





Então, a inserção deste poema vem a propósito do prazer de partilhá-lo convosco e, também, para referir que foi criado pela Editora Tcharan, o Prémio de Literatura Infanto-Juvenil Manuel António Pina, a que podem concorrer, até final de Fevereiro de 2013, autores e editoras do espaço lusófono.

Como incentivo, aqui vai mais um poema deste saudoso poeta:

A um jovem poeta

Procura a rosa
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti.Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Ver mais aqui.

BOA SORTE!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Na Biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.




Manuel António Pina
Poesia, Saudade da Prosa
in:Poemário 2012
Imagem: internet

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Não o sonho







Talvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora.                                           
                                                                                      Manuel António Pina1943-2012 - hojePrémio Camões 2011Poema e imagem:internet