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quarta-feira, 1 de junho de 2016

As crianças: oxalá cresçam felizes e em segurança




para uma canção de embalar

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.

 

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.

lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo

e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.

Vasco Graça Moura
in 'O Concerto Campestre'

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Assim falou e sentiu o Poeta.

E oxalá todas as crianças tenham uma cama para dormir, aconchegadas com cantigas de embalar por pais amorosos. Oxalá nenhuma criança seja exposta a intempéries, a naufrágios, numa fuga inglória para o desconhecido. Que fadas benfazejas lhes guarde a inocência, que vivam a infância sem terem de passar por situações de maus-tratos e violência.

Oxalá! 

Meus amigos,

Daqui vos envio um grande abraço. 

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Poema:Citador
Imagens:Pixabay 


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Abril - Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância

Vede, meus amigos, este é o mês dedicado à prevenção dos maus-tratos contra as crianças. Por amarga ironia, verificaram-se, por cá, nos últimos dias, actos aterradores contra alguns destes seres frágeis e inocentes. 

Perante esta realidade e por tudo o que tem acontecido ao longo dos anos, temos de tomar consciência de que somos todos responsáveis. Onde quer que haja uma criança em risco é onde deveremos estar, deixando de ser um reduto dos procriadores e passando a ser, pura simplesmente, um espaço de intervenção pública. E não vale virar a cara ao problema, porque é um problema grave que precisa ser solucionado.

Há instituições afectadas a esta área? Há. Há legislação para punir os prevaricadores? Há. Há documentos internacionais que asseveram os direitos das crianças e ratificados por Portugal? Há. Então o que nos falta? Amor? É o desleixo, o deixa andar porque não é comigo, é com o colega ao lado ou com o vizinho mais ao lado? Ora, tenhamos vergonha e cumpramos o nosso dever. Sei que há instituições que levam a cabo, durante este mês, algumas actividades assinalando o tema, mas precisamos de mais, muito mais.

O tempo urge. O menino de seis meses e a menina de dois anos, as últimas vítimas mortais, conhecidas, assim o exigem.



Transcrevo parte de um texto, encontrado neste vasto mundo virtual, que traduzirá muitas das nossas preocupações e anseios:

Por nossas crianças

Rogo, não só a Deus,
mas a todos que possam ser responsáveis por elas.
Aos pais, para que as amem acima de tudo
e que lhes deem o carinho de que necessitam
para se tornarem pessoas de bem.
Aos professores,
para que assumam o papel de seus mestres
e os oriente no caminho certo,
a fim de que tomem a direção correta em suas vidas.
Aos políticos,
para que usem do seu poder
na defesa dos interesses coletivos
e se sirvam dele para aprovar projetos sociais
que visem acolher as que se encontram abandonadas,
e tirá-las das ruas dando-lhes condições
(a elas e a seus pais)
para viverem de forma digna
e tornarem-se cidadãos conscientes e participativos,
capazes de melhorar a sociedade na qual vivem.
Aos mais velhos,
sejam quais forem as suas profissões,
rogo que se esforcem para passar a todas as crianças
que cruzarem os seus caminhos,
as lições que adquiriram com o tempo.
Aos cristãos,
que pregam o evangelho onde o primeiro mandamento é:
“Ama a teu próximo como a ti mesmo”,
para que vivam essas palavras
e não apenas as pronunciem da boca para fora,
mas falem do coração.

(...)

Lívia Chamusca

===

Transcrevo, a seguir, estas palavras extraídas do comentário da Majo:


~ Quero alertar que aos professores também cabe o papel
de estarem atentos ao comportamento dos alunos, divulgar
o nº de contacto da linha de apoio nas turmas e incentivar a
participação da todas as crianças e jovens.

~Exorto todos a cumprirem o seu dever, que é mais do que
mera cidadania, neste caso, é uma questão de humanidade.
A referida linha é anónima e confidencial e o Instituto pode
ser contactado por ''e.mail''... Toda a informação no Google,
basta pesquisar: «SOS Criança».


Muito obrigada, cara amiga, por este importante contributo.

Olinda

====
Excerto: daqui - Os meus agradecimentos à autora.
Imagem: daqui

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ah, Primavera! Tão bela, florida e perfumada e tão castigadora...

É como me sinto, dividida entre as muitas belezas e divinos odores desta estação e o outro lado menos atraente das alergias causadas precisamente pelos pólenes e por tudo o que lhes está associado. Não há anti-histamínico que me valha, os espirros não me dão descanso e os olhos e o nariz já ganharam vida própria numa choradeira sem fim.

Mas há que remar contra a maré e, com um olho aberto e outro fechado, aqui estou eu a traçar estas linhas. Para dizer o quê? Hoje em dia, com a profusão de canais comunicacionais existentes, milhões de pessoas estão a dizer ao mesmo tempo as mesmas coisas, debatendo assuntos de grande importância ou assinalando apenas outros de seu interesse. Parece quase redundante eu aparecer também a fazer o mesmo. Contudo, há aspectos da sociedade, tanto no nosso bairro como em latitudes mais afastadas, que devemos todos apontar e rebater, se for caso disso.

Surge-me, de pronto, o caso noticiado das meninas raptadas na Nigéria. Uma tragédia humanitária. E é tão grande e sinto-a tão minha que me é quase impossível encontrar palavras para se lhe referir. As autoridades internacionais têm responsabilidades, todos nós as temos, cada um no seu íntimo. Um espelho em que teremos de nos rever. E é obrigação nossa olhar em redor e verificar se não existem casos perto de nós, não com esta dimensão, como é óbvio, que necessitam de atenção. E oiço em eco este verso de Augusto Gil: Mas as crianças, senhor, porque lhes dais tanta dor

Num sentido totalmente diverso, lembro-me agora de uma notícia, num jornal regional, sobre o Avô Cantigas. Lembram-se dele? Um jovem de há 32 anos que resolveu vestir a pele de Avô para delícia das crianças. Agora já não precisa fingir que é avô, os cabelos brancos atestam-no. Um homem de visão. Um ideia interessante, um projecto que vai sendo realizado ao longo da vida. Vai comemorar estes anos de carreira, brevemente, em Évora, com um espectáculo, É Bom Sonhar. Pessoas que pugnam pela felicidade das crianças: De louvar.





E, por estes dias, uma outra notícia chamou-me a atenção, numa revista, embora a mesma já tivesse aparecido em Janeiro, em jornais, como verifiquei depois. Duas jovens portuguesas, no Reino Unido, projectaram um trabalho de promoção do nosso idioma, inserido no conceito de speed-dating, destinado a crianças. E esta, hein?! Trata-se da divulgação e aprendizagem da língua, envolvendo crianças bilingues, precisamente as nossas crianças no estrangeiro. São muitos os voluntários, cientistas portugueses, que estão a dar o seu contributo, pois nisso está também inserida a abordagem de outras matérias.

Por falar em língua, no passado dia 5 foi o dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP. Ouviram falar disso? Algum Organismo fez disso notícia? Houve acções em conjunto com o órgão que representa a Comunidade a dar-nos conta do que tem sido feito em prol de uma maior exposição da referida cultura? Vieram dizer-nos se têm sido levado a cabo providências no sentido de a língua portuguesa ser, efectivamente, considerada como língua de trabalho nas instituições internacionais?  Não sei. 

Mas como tenho estado mergulhado neste meu limbo de alergias é natural que me tenha escapado.

Desejo-vos uma excelente semana. Bem, o que dela resta ainda.


Notícia: speed-dating aplicado às línguas e à ciência
Imagem: Tatiana Correia e Joana Moscoso

domingo, 22 de dezembro de 2013

Do direito ao amor e à compreensão





Todos os dias são dias da criança e hoje ocorre-me trazer este tema, na certeza de que é um assunto de cariz universal, cabendo-nos ter presente a nossa obrigação para com seres que carecem de protecção e amor. E crianças são todas as crianças, sem distinção... crianças felizes, crianças maltratadas e sujeitas a abusos, crianças abandonadas. Qualquer que seja o ponto do mundo onde se encontrem. Elas deverão ser o nosso reflexo, aquele quê incomensurável para atingirmos a perfeição, a nossa elevação de espírito, a nossa redenção.





Na Declaração dos Direitos da Criança, de 20 de Novembro de 1959, proclamada pela Onu, lê-se:

Princípio VI - Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.
  • A criança necessita de amor e compreensão, para o desenvolvimento pleno e harmonioso de sua personalidade; sempre que possível, deverá crescer com o amparo e sob a responsabilidade de seus pais, mas, em qualquer caso, em um ambiente de afecto e segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar a criança de tenra idade de sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de subsistência.(...)

Princípio IX - Direito a ser protegido contra o abandono e a exploração no trabalho.
  • A criança deve ser protegida contra toda forma de abandono, crueldade e exploração. Não será objecto de nenhum tipo de tráfico.
  • Não se deverá permitir que a criança trabalhe antes de uma idade mínima adequada; em caso algum será permitido que a criança se dedique, ou a ela se imponha, qualquer ocupação ou emprego que possa prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu desenvolvimento físico, mental ou moral.

Acredito que existe em todos nós uma chama benfazeja, capaz de dar grandes passos e de coisas maravilhosas. Deixemos que ela brilhe. Façamos nossas as palavras constantes do documento acima referido, e de tantos outros, demonstrando-o através de obras e atitudes.

Deixemos que o espírito natalício seja uma constante nas nossas vidas.

A todos um Bom Natal.






Abraço

Olinda


Excertos retirados de aqui
Pintura de Gustav Plimt

sábado, 3 de agosto de 2013

O principezinho e o xaile branco. A mantinha azul do 'Paixões da Nina'. E ainda, dicas para a praia.

Tudo o que diga respeito a xailes, xailinhos, mantinhas para bebé, de que tenha conhecimento, é notícia aqui no Xaile de Seda mesmo em se tratando de faits divers. E isto para dizer que li algures que o xailinho branco que envolvia o pequeno George, no dia em que saiu do hospital com a mãe e o pai, esgotou completamente nas lojas inglesas. Mundo louco...






Mas, notícia mesmo é esta linda 'manta de crochet para bebé' confeccionada pela autora do blogue Paixões da Nina e destinada a um bebé chamado João. Fica linda em qualquer cor. Ela permitiu que a trouxesse e assim é-me possível presentear, com obra alheia :)), as mamãs que acedem a esta casa, pesquisando como fazer um xaile para bebé.

 




Minhas amigas, não me parece difícil mas se tiverem alguma dificuldade em relação aos pontos é só irem à fonteisto é, ao blogue mencionado, e colocarem as vossas questões. 

De novo a mantinha, mais em pormenor:





E já que estamos em tempo de praia aqui vão alguns conselhos cuja proveniência indico mais abaixo:



Quando levar o bebê
O bebê só pode começar a ir à praia ou à piscina com seis meses de idade. “Antes disso, a criança corre muito risco de apresentar desidratação, queimaduras - já que a pele ainda é bastante sensível - e insolação, porque até o meio ano de vida não se pode usar protetor solar”, diz Solange Saboia, pediatra da Coordenadoria Regional de Saúde Sul da Secretaria Municipal de Saúde.

Proteção
Toda mãe sabe que o uso do protetor solar no bebê é indispensável, porém o mais importante é saber que o produto deve ser escolhido sob orientação médica. “O protetor de fator 30 é o mais recomendado para bebês, mas apenas o médico da criança pode indicar o produto ideal baseado em fatores como a pele e a composição do protetor”, afirma Solange. A aplicação do produto deve ser feita a cada duas horas, ou no máximo, a cada quatro horas. Se a criança entrar na água, deve aplicá-lo novamente assim que sair. A mesma regra é válida para aquelas que acabaram de praticar um esporte.

Mas apenas o protetor não é suficiente para proteger o bebê dos raios solares. Chapéus, roupas leves, como bermuda e camiseta, e até mesmo óculos de sol também fazem parte do “kit verão”. Mesmo devidamente protegido, o bebê não deve ficar exposto diretamente ao sol.

Hidratação
O risco de desidratação é mais alto durante o verão do que em outras épocas do ano. Portanto, é imprescindível oferecer à criança líquidos variados. “O bebê que está em fase de aleitamento materno recebe quantidade de água suficiente para o organismo a cada mamada, que devem ser feitas com intervalos curtos de tempo”, aconselha a doutora Solange. Já as crianças maiores devem beber bastante água e sucos naturais. “Manter o bebê hidratado deve ser a principal preocupação da mãe durante o calor”, completa.

»»»»»»


Assinalo esta recomendação da São, constante do seu comentário:

Importantes as informações sobre a ida dos bebés à praia /piscina. Permito-me acrescentar que jamais deverão ficar, mesmo crianças já bem mais crescidinhas, após as 11h e, se voltarem, só depois das 17, 30h. 


Abraços

Olinda

»»»»»»

Fonte em relação às dicas (praia): aqui

sábado, 1 de junho de 2013

Luis Carlos de Bourbon

Encontrei este menino nas minhas andanças pela França do Século XVIII. Um menino como qualquer outro que só precisava de colo. Chamava-se Luís Carlos. Preso juntamente com os pais, Luis XVI e Maria Antonieta, ambos guilhotinados, permaneceria na Prisão do Templo onde viria a falecer com apenas 10 anos, vítima de maus tratos.


Louis Charles of France5.jpg


Após a morte do pai seria proclamado rei pelos monárquicos exilados e reconhecido como tal pelos governantes das potências europeias de então. Nas suas costas carregaria todos os pecados do seu mundo, pagaria de uma forma quase anónima por tudo aquilo que a Revolução Francesa de 1789 reclamava, maltratado física e psicologicamente pelo seu carcereiro, um homem chamado Antoine Simon.

A este respeito pode ler-se aqui:

En la prisión sufrió un intento de reeducación republicana por parte de Antoine Simon. Entre palizas y torturas, Simon lo forzaba a beber grandes cantidades de alcohol y lo obligó a cantar La Marsellesa portando un bonete de sans-culotte. Era amenazado repetidas veces con la guillotina, lo que le causaba desmayos. Le dijeron que sus padres aún vivían, pero que ya no le amaban. Después de la partida de Simon, fue aislado en una celda secreta durante seis meses sin contacto humano alguno y con unas nefastas condiciones higiénicas. Probablemente murió de peritonitis tuberculósica o de escrófula, el 8 de junio de 1795 en el Temple. Durante la autopsia se observó que su cuerpo estaba consumido por tumores y sarna y que había sufrido una total desnutrición, manifestada en una extrema delgadez. El cuerpo fue inhumado en una fosa del cementerio de Santa Margarita de París, sin indicativo alguno de que allí reposaba, salvo una gran "D" de Delfín pintada en el ataúd.




Luís Carlos de Bourbon - Luís XVII, Rei de França e de Navarra, co-príncipe de Andorra,Conde da Provença, Conde de Valentinois, Conde de Diois, Conde de Barcelona, Conde de Cerdagne, Conde de Rousillon, Conde de Forcalquier e das ilhas adjacentes e Delfim do Viennois,



Afinal, uma pobre criança abandonada à sua sorte e que só pedia um pouco de amor...



Imagens:Internet
títulos retirados de aqui

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Escrever para a criança ou com a criança?

Escrever representa uma das formas de desafio à morte: e ler, também, é permanecer. Qualquer forma de escrita, qualquer forma de leitura.
E o que é escrever para a criança? Será escrever para a criança escrever para um outro mundo que já não é nosso?
É a criança que lê connosco? Abrir as páginas da vida contra a morte ajudados pelas mãos da criança, será, talvez, dos actos mais simples e mais difíceis que um escritor pode fazer.
A criança talvez não precise muito mais de nós do que nós precisamos dela.
Contar histórias, dizer, contar poemas foi acção cultural em que naturalmente, adultos e crianças se iam empenhando naquela fome do real e do maravilhoso que sempre construiu o homem pelo tempo fora. Durante muitos séculos, ler com a criança foi a presença de uma voz com um rosto que contava histórias, que dizia poemas, que ensinava lenga-lengas e, antes de tudo isto, a voz-rosto que derrama ritmos de adormecer - ritmos com palavras que diziam respeito não só à mãe desperta como ao menino que adormecia.
Hoje que a criança é mais conhecida, mas apesar de tal 'reconhecimento', a barreira entre a criança e o adulto não deixa de existir. Esquecemos que, apesar de tudo, a criança está connosco. E de nós ausente.
Fryda Schultz de Mantovani diz no seu livro El mundo poetico infantil: 'Algumas vezes temos contemplado em sonhos a nossa própria infância. Vêmo-la como uma criança que nos volta as costas e se afasta lentamente de nós. Com um gozo de triste exasperação e ternura - acariciamos com o olhar esse andar e nele nos reconhecemos meninos; esse passo cego que julgávamos tão lúcido para percorrer a terra e tocar as coisas  que nos cercam. Mais tarde compreendemos que éramos nós que não devíamos aproximar-nos das coisas, talvez para nunca as alcançar na sua essência, porque a razão nos oferece formas vazias dessa dimensão extra-natural, fantástica, que a imaginação do primitivo ou da criança toca tão facilmente. Isto é, sonhámos com o nosso próprio tempo da nossa vida que é, quando o pensamos, como o revés do presente.'
Daí que seja tão difícil o escrever para a criança não a traindo a ela e a nós. Nós trazemos connosco a criança que fomos ou aquela que, muito carregados de outros mundos, ainda somos: e trazemos a criança ideal que queremos projectar e que tão raras vezes é verdadeira.
É uma espécie de escrita triangular a que muitos dão o sinal simplista de horizontalidade. Daí haver tanto livro para a infância que julga a criança um ser menor. De limitadas compreensões. De limitados problemas. Até de limitadas roturas com as normas vocabulares. Andersen, Grimm, Perrault não contaram pequenas histórias de anedóticas vidas ou de existências piegas, ou ainda pequenas histórias de chaves moralizantes para abrir portas de bom comportamento, embora Perrault tivesse cedido a fechar as suas histórias com tão judiciosos como irónicos conselhos morais. Fizeram muito mais do que isso: souberam que escreveram para, e com, um povo poderoso e fraco, e ainda mal conhecido, que se chama infância.

***
Excerto da página 17 da obra de Matilde Rosa Araújo, 'A Estrada Fascinante', que ela define como uma reflexão que lhe trouxe o entrecruzado dialéctico mundo infância/adulto, encontro na aventura apaixonante que é estar com a Criança: a nossa memória acorda e sabemos que a escrita para adultos não está longe do que fomos, do que amámos ou repelimos enquanto crianças. E tudo quanto quisemos exigir no futuro.