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sábado, 26 de outubro de 2024

Andamos às arrecuas ou em círculo?

 


Tanto faz, pois a verdade é que não damos mostras de perceber seja o quer for. Quezílias seculares que conduzem a guerras infindas. Lutas pelo poder, pela conquista de territórios. Mascaramos tudo com negociações, diplomacias que mais não são do que formas de escamotear intenções hegemónicas. 

E assim, quem é mais fraco acaba por perder tudo e até a própria vida. Nações que já alcançaram um desenvolvimento apreciável não param para pensar que, talvez, a partir de determinado momento há que trabalhar para o bem comum.

Dá-me a impressão de que tudo o que havia para descobrir em termos globais e científicos já está feito. Agora o que se faz é apenas o aperfeiçoamento deste ou daquele ponto, de modo a dar-nos aquela sensação de conforto e progresso que tanto propalamos. 

Depois da Idade Média, considerada erradamente, segundo alguns, a idade das trevas, a evolução das ideias com o Renascimento, que vai buscar o classicismo como base, sem esquecermos o Século das Luzes, mas antes disso o século XVII que inicia a explosão tecnológica, passando pelo século XIX que tanta coisa descobriu, o século XX um tempo de guerras seguido de alguma acalmia, até agora limitamo-nos a pegar nessas descobertas e a direccioná-las para o tal conforto de que falei atrás. E não é pouco, é verdade. 

Temos conhecido momentos áureos que nos levam a pensar que tudo podemos, que somos senhores do nosso destino. Com o que vem de trás conseguiu-se que o mundo se transformasse numa aldeia. Hoje posso dormir aqui e acordar no outro lado do mundo. 

E continuamos a referir-nos a essa tecnologia como "nova" sem estabelecer limites, não criando legislação que ponha ordem aos abusos que a facilidade comunicacional nos permite.

Bom domingo, meus amigos.

Abraço

Olinda

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Mais um ano...

Com efeito, mais um ano cumprido neste "Xaile de Seda", que assinalará o seu 12º aniversário no próximo dia 22.

Daqui, muito se tem observado do mundo que roda sem parar, nem sempre seguindo o sentido pré-estabelecido, metaforicamente falando. Nos seus efectivos movimentos de rotação e translação, com a sucessão dos dias e das noites, e dos anos, respectivamente, a terra cumpre o seu desígnio, ora mansamente ora mostrando como a maltratamos. E, assim, também saímos prejudicados, fruto das nossas más decisões.

Da minha parte, no que concerne a este blog existe a decisão, boa ou má, de publicar temas que se tornam extensos, reconheço. Quando iniciei este espaço disse para comigo:
 
"Vou fazer textos curtos. As correrias de hoje em dia não dão tempo para grandes leituras, ainda por cima se o assunto não for apelativo". 

Mas, estes meus bons propósitos foram por água abaixo. Privilegiando antes de mais autores que escrevem em língua portuguesa, existe em mim uma certa curiosidade em anotar as alterações que este idioma vai tendo ao longo dos tempos nas suas múltiplas viagens. E tenho reparado que as várias latitudes, os climas, o modo de estar, a transmissão de ideias, vão circulando e deixando a sua marca.

Para além disso, faço uma ou outra incursão em assuntos que nos saltam à vista no quotidiano, mesmo que a nossa voz não seja relevante para os casos intrigantes que se sucedem E, tendo em conta que todos os nossos posicionamentos na vida social têm um cariz político, a acreditar no que nos dizem os clássicos, donde vem a raiz da nossa cultura, é mister que neste Xaile apareçam algumas palavras em relação ao que se passa no mundo...e neste nosso cantinho à beira-mar plantado.


"Il mondo"

Haverá, então, motivos para festejar? Sem dúvida, digo eu. Quanto mais não seja em relação a tudo quanto a vida nos traz de positivo.

Agradeço a todos os leitores que me têm acompanhado durante estes anos, uns mais que outros, mas sempre mostrando compreensão e simpatia. 




Bom fim de semana, amigos.

Grande abraço.
Olinda

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Pétalas de Alquimia

Do meu coração,

Saltam pétalas acetinadas,

Despencam alquimias,

Desgrudam poções mágicas
..."

Assim começa o poema que a amiga Rosélia dedica ao "Xaile de Seda", homenageando-o pelo seu 12º aniversário. Além de um belo poema de Herberto Helder. E a compor ainda mais o post, Flores e mais Flores das mais belas. E música de encantar.
Fiquei emocionada pelo seu belo gesto, minha amiga
TUDO BELO E ENCANTADOR!
Muito obrigada.
Beijinhos
Olinda

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Imagens: Pixabay
3ª imagem-trazida do blog da Rosélia


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Do Inquieto Oceano da Multidão




Do inquieto oceano da multidão 
veio a mim uma gota gentilmente 
suspirando: 

— Eu te amo, há longo tempo 
fiz uma extensa caminhada apenas 
para te olhar, tocar-te, 
pois não podia morrer 
sem te olhar uma vez antes, 
com o meu temor de perder-te depois. 

— Agora nos encontramos e olhamos, 
estamos salvos, 
retorna em paz ao oceano, meu amor, 
também sou parte do oceano, meu amor, 
não estamos assim tão separados, 
olha a imensa curvatura, 
a coesão de tudo tão perfeito! 
Quanto a mim e a ti, 
separa-nos o mar irresistível 
levando-nos algum tempo afastados, 
embora não possa afastar-nos sempre: 
não fiques impaciente — um breve espaço 
e fica certa de que eu saúdo o ar, 
a terra e o oceano, 
todos os dias ao pôr-do-sol 
por tua amada causa, meu amor. 


(...)

Walt Whitman
In: Leaves of Grass


Até onde Walt Whitman nos quererá levar com a menção a essa gota e à amada causa? É Amor. Disso não duvido. Mas, a quê ou a quem? Convido-vos a descobri-lo ou a intuí-lo. Quanto a mim, há um poema seu do qual não me canso: Milagres. O milagre de cada dia e em todas as coisas que habitualmente nos acompanham e que por isso mesmo nem damos por elas. Não o trouxe hoje porque já o publiquei duas vezes.




Walt Whitman foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano, considerado por muitos como o "pai do verso livre". Paulo Leminski o considerava o grande poeta da Revolução americana, como Maiakovsky seria o grande poeta da Revolução russa. Sua obra Folhas de Relva é considerada um marco na literatura universal, principalmente dentro do gênero poético. Mais...

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Quinzena do Amor - De 31/01 a 14/02

Post 6 - Amar teus olhos

Posta 5 - Conheço esse sentimento
Post 4 - Éramos tu e eu
Post 3 - Saudades não as quero
Post 2 -Não é por acaso
Post 1 - É daqui a pouco



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Poema: Citador
1ªImagem: daqui
2ªImagem: daqui

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Caminhos de pedras e de abrolhos




Os meus pés nus já palmilharam montes e vales e caminhos de cabra incrustados em rochas abruptas e levadas secas desenhadas em precipícios. Achataram-se em solos de cascalhos e de vidros partidos. Comi solas de sapatos demolhadas em suor e lágrimas. Em lugares quase ermos, sem recursos, levantava-me de noite à procura de socorro quando filhos meus se engasgavam e ardiam em febre. Em desespero, esburaquei as paredes da minha casa com as unhas em sangue quando alguns deles partiram para sempre, sem que para isso o ser supremo me desse uma razão plausível. Com os olhos cansados e enevoados já perscrutei os céus, caminhando pela estrada de santiago, via leitosa, em busca de sinais de nuvens prenhes dispostas a deixar cair o líquido precioso para a renovação e despertar da terra sequiosa. Por elas esperei vezes sem conta. Teimosas e sovinas deixariam cair algumas gotas. Antes que estas desaparecessem nas entranhas subterrâneas apressava-me a lançar as sementes que, contentes, germinariam. Sachando e mondando, tudo vicejando, a segunda fase do precioso líquido não marcaria presença, tudo mirrando e secando. Os ventos avaros carregariam as nuvens, levando-as para paragens desconhecidas. Vi estiolarem-se vidas numa sequência esmagadora. De lábios gretados e abdómenes inchados pela fome fariam a sua passagem para além desta vida terrena. Vi entes queridos partirem para longe. Lembro-me de um deles fazendo a sua despedida ao som do seu clarinete, a figura jovem, de fato branco, congregando atrás de si crianças e populares. Nunca mais voltou. A vida não lho permitiu. De todas as lembranças é a que mais me marcou. Não sei porquê. Mas nada aquebranta a minha esperança. Dos filhos que me restaram e da vida que me resta espero ainda grandes coisas. O quê não sei. On verra. 
O velho homem calou-se e olhou para mim. Tomou-me as mãos e apertou-as contra as suas. Depois pegou no terço e começou as passar as contas, movendo os lábios em silêncio. No seu olhar via-se todo o mistério do mundo.

Meus amigos, desejo-vos uma boa semana.

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Nota:Compus este texto a partir de situações reais, de que tomei conhecimento de muito perto. Olinda

Imagem:daqui 

domingo, 11 de outubro de 2015

É brando o dia, brando o vento





É brando o dia, brando o vento 
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!


Fernando Pessoa
in: O Cancioneiro


Penso logo existo? A partir da minha existência percepciono o céu e a terra, sinto o vento e a luz a trespassarem-me e tudo o que me circunda porque a mente é a minha fonte. Se o mundo é o resultado daquilo que trazemos em nós, então poderemos influenciar o vento que passa, o rugir dos vulcões, o borbulhar do incandescente. E se na minha ânsia de encontrar um pensamento primeiro, depois de eliminar do meu entendimento o supérfluo e os ensinamentos de antanho, cairei na dúvida metódica. Será bom negócio? Duvidando de brandas glórias, de vitórias poucochinhas talvez exercite em mim o poder do raciocínio lógico. Ou talvez não. Poderei, no limite, tropeçar no erro de Descartes.


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Poema: O citador
Imagem:daqui

sábado, 5 de setembro de 2015

Estar só é estar no íntimo do mundo




Por vezes cada objecto se ilumina 
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa
    1924-2013

Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor, desenhador.

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Poema: daqui
Imagem: Desenho de António Ramos Rosa

domingo, 11 de janeiro de 2015

Imagine all the people living life in peace

Os terríveis acontecimentos em França lançaram-me num grande desânimo e assaltaram-me de pronto todos os outros massacres que têm acontecido pelo mundo inteiro. 

Tudo isso parece levar-nos a deixar de acreditar em nós mesmos como seres humanos capazes de criar e de manter relações pacíficas. Realmente, pressinto que os ideais de universalidade começam a enveredar por um caminho perigoso, de não retorno. As dúvidas assaltam as pessoas sobre se valerá a pena lutar para a valorização e integração do outro.

No blog da São li um comentário evocando John Lennon no seu Imagine, e julgo ter encontrado nas palavras de esperança que ele nos deixou um lenitivo para esta dor e descrença. Recordemo-lo:


Imagine

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today


Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace


Ler mais...


Desejo que na marcha de hoje a França e o Mundo se revejam nos ideais conquistados pela Revolução Francesa de 1789: Liberté, Fraternité, Égalité, lema da própria República. Desejo que na hora das decisões para a compreensão do presente sejam também chamados os guardiães do passado, os historiadores. Importa estabelecer a ponte entre estes dois tempos. 

sábado, 1 de junho de 2013

Luis Carlos de Bourbon

Encontrei este menino nas minhas andanças pela França do Século XVIII. Um menino como qualquer outro que só precisava de colo. Chamava-se Luís Carlos. Preso juntamente com os pais, Luis XVI e Maria Antonieta, ambos guilhotinados, permaneceria na Prisão do Templo onde viria a falecer com apenas 10 anos, vítima de maus tratos.


Louis Charles of France5.jpg


Após a morte do pai seria proclamado rei pelos monárquicos exilados e reconhecido como tal pelos governantes das potências europeias de então. Nas suas costas carregaria todos os pecados do seu mundo, pagaria de uma forma quase anónima por tudo aquilo que a Revolução Francesa de 1789 reclamava, maltratado física e psicologicamente pelo seu carcereiro, um homem chamado Antoine Simon.

A este respeito pode ler-se aqui:

En la prisión sufrió un intento de reeducación republicana por parte de Antoine Simon. Entre palizas y torturas, Simon lo forzaba a beber grandes cantidades de alcohol y lo obligó a cantar La Marsellesa portando un bonete de sans-culotte. Era amenazado repetidas veces con la guillotina, lo que le causaba desmayos. Le dijeron que sus padres aún vivían, pero que ya no le amaban. Después de la partida de Simon, fue aislado en una celda secreta durante seis meses sin contacto humano alguno y con unas nefastas condiciones higiénicas. Probablemente murió de peritonitis tuberculósica o de escrófula, el 8 de junio de 1795 en el Temple. Durante la autopsia se observó que su cuerpo estaba consumido por tumores y sarna y que había sufrido una total desnutrición, manifestada en una extrema delgadez. El cuerpo fue inhumado en una fosa del cementerio de Santa Margarita de París, sin indicativo alguno de que allí reposaba, salvo una gran "D" de Delfín pintada en el ataúd.




Luís Carlos de Bourbon - Luís XVII, Rei de França e de Navarra, co-príncipe de Andorra,Conde da Provença, Conde de Valentinois, Conde de Diois, Conde de Barcelona, Conde de Cerdagne, Conde de Rousillon, Conde de Forcalquier e das ilhas adjacentes e Delfim do Viennois,



Afinal, uma pobre criança abandonada à sua sorte e que só pedia um pouco de amor...



Imagens:Internet
títulos retirados de aqui

domingo, 26 de maio de 2013

Prise de conscience

Bangladesh


Après le drame qui a coûté la vie à 1127 victimes lors de l'effondrement, au Bangladesh, d'un immeuble où travaillaient plus de 3000 ouvriers du textile, l'heure est aux examens de conscience. Le 15 mai, le français Carrefour, l'italien Benetton, les espagnols Zara et Mango, les britanniques Topshop et Marks & Spencer ou le suédois H&M ont signé un accord pour améliorer la sécurité des usines locales, avec des contrôles impromptus par des experts indépendants. L'américain PVH (Tommy Hilfiger, Calvin Klein), l'allemand Tchibo et les britanniques Tesco et Primark se sont aussi ralliés. Le géant Walmart (279 usines dans le pays), s'est engagé à conduire ses propres inspections.
  
                                                              in: Le Nouvel Observateur - du 23 au 29 mai 2013


domingo, 5 de maio de 2013

Milonga Brava

Argentina, és bela, és divina... Começa assim uma bela canção que minha mãe costumava cantar, que fala de tango e de outras coisas belas. Estive a ver se a encontrava em video neste vasto mundo virtual, mas nada. Assim, só me resta trauteá-la e é pena que não me possam ouvir...ou então têm muita sorte. :)

Esta minha recordação tem a ver com o 8º Festival Internacional do Tango Argentino realizado no Porto, no último fim de semana, assunto que desconhecia completamente até há cinco dias atrás. Em conversa com uma amiga, na terça-feira passada, ela diz-me: Tenho os pés numa lástima.- Então porquê? -Estive este fim de semana no Porto e... Fiquei a saber que ela pertence a uma escola de tango argentino, que tinha estado a dançar a dançar no tal festival, e que também costumam dançar todo o ano em concentrações de rua a que chamam Milonga.  




Bem, fui tomada de grande espanto, verificando que todos os dias estamos a aprender e que ao nosso redor vai acontecendo tanta coisa, que há tantas e tão interessantes histórias de vida. Esta amiga prometeu enviar-me videos do referido festival e, realmente, lá estavam os pares a interpretar o tango argentino com maestria e vi-a a ela na milonga que realizaram no Porto. Percebia-se perfeitamente o frio que fazia, mas lá estavam todos a dançar por puro amor à arte.

O video que aqui vos trago diz respeito ao 7º Festival também realizado no Porto, porque não tive ainda oportunidade de pedir à minha amiga autorização para inserir os videos que ela me enviou. O título deste meu post diz respeito à MILONGA BRAVA que vai ter lugar durante o mês de Maio, segundo o mail que ela me enviou e que diz assim:

MILONGA BRAVA
2/5 às 22:00 até 25/7 à 1:00
Todas as QUINTAS-FEIRAS | THURSDAYS | JEUDI | JUEVES
das 22h à 1h... a tua Dose Semanal de Inspiração Milonguera! Na Fábrica Braço de Prata. 

Realmente, nunca é tarde para começar a milonguear.

Entretanto, continuo a trautear a canção que minha mãe costumava cantar e dedico-a a todas as mães que por aqui passarem...e ainda bem que não conseguem ouvir-me! :))

Grande abraço.


sexta-feira, 8 de março de 2013

A Mulher Inspiradora


Mulher, não és só obra de Deus; 
os homens vão-te criando eternamente 
com a formosura dos seus corações, 
e os seus anseios 
vestiram de glória a tua juventude. 

Por ti o poeta vai tecendo 
a sua imaginária tela de oiro: 
o pintor dá às tuas formas, 
dia após dia, 
nova imortalidade. 

Para te adornar, para te vestir, 
para tornar-te mais preciosa, 
o mar traz as suas pérolas, 
a terra o seu oiro, 
sua flor os jardins do Verão. 

Mulher, és meio mulher, 
meio sonho. 

Rabindranath Tagore 
in "O Coração da Primavera" 
Citador


Dedico a todas as mulheres este comentário de: 


Que todas nós nos recriemos, cotidianamente, e nos adornemos de protagonismos, e sejamos senhoras das nossas belezas e destinadas à felicidade, à generosidade, ao companheirismo; e que a violência contra nós mulheres, em todos os níveis, passe a ser apenas um dado maculado na história da humanidade... Havemos muito que caminhar, mas creio!

Obrigada, amiga!
Beijos
Olinda

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Os poetas, como os cegos, podem ver no escuro


Termino, hoje, esta série de publicações sobre o tema mundo, que visava o dia 11 de Julho, data em que foi assinalado o dia mundial da população ou o dia da população mundial, avaliada, em Outubro de 2011, em sete biliões de pessoas.

Importará reflectirmos sobre quem somos, o que somos, sobre a nossa visão do mundo, fazendo também um balanço sobre o que foi ou o que tem sido a nossa vida de habitantes deste planeta.

Jorge Luís Borges, 1889-1986, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, dá-nos a panorâmica de uma vida pautada por determinados valores mas também passível de ter outros aspectos, outra dinâmica, para que ela possa ser vivida em pleno. É, realmente, o balanço de uma vida, este seu fantástico poema.

Em relação ao título deste post, retirei-o de uma citação numa sua biografia e consta também do poema que abaixo transcrevo, não sabendo se dele faz parte ou não. Contudo, segundo consta da referida biografia, ele teria feito esta afirmação em função da sua progressiva cegueira.



Imperdível este video


Instantes
Se eu pudesse novamente viver a vida…
Na próxima…trataria de cometer mais erros…
Não tentaria ser tão perfeito…
Relaxaria mais…
Teria menos pressa e menos medo.
Daria mais valor secundário às coisas secundárias.
Na verdade bem menos coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui.
Só na alegria existe vida.
Seria mais espontâneo…correria mais riscos, viajaria mais.
Contemplaria mais entardeceres…
Subiria mais montanhas…
Nadaria mais rios…
Seria mais ousado…pois a ousadia move o mundo.
Iria a mais lugares onde nunca fui.
Tomaria mais sorvete e menos sopa…
Teria menos problemas reais…e nenhum imaginário.
Eu fui dessas pessoas que vivem preocupadamente
Cada minuto de sua vida.
Claro que tive momentos de alegria…
Mas se eu pudesse voltar a viver, tentaria viver somente bons momentos.
Nunca perca o agora.
Mesmo porque nada nos garante que estaremos vivos amanhã de manhã.
Eu era destes que não ia a lugar algum sem um termômetro…
Uma bolsa de água quente, um guarda chuvas ou um paraquedas…
Se eu voltasse a viver…viajaria mais leve.
Não levaria comigo nada que fosse apenas um fardo.
Se eu voltasse a viver
Começaria a andar descalço no início da primavera e…
continuaria até o final do outono.
Jamais experimentaria os sentimentos de culpa ou de ódio.
Teria amado mais a liberdade e teria mais amores do que tive.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio
E como se fosse o último.
Daria mais voltas em minha rua, contemplaria mais amanheceres e
Brincaria mais do que brinquei.
Teria descoberto mais cedo que só o prazer nos livra da loucura.
Tentaria uma coisa mais nova a cada dia.
Se tivesse outra vez a vida pela frente.
Mas como sabem…
Tenho 88 anos e sei que…estou morrendo.

“Os poetas, como os cegos, podem ver no escuro”

Com esta capacidade de ver onde normalmente pouco ou nada vemos, o poeta considera justos aqueles que se ocupam de algo, mesmo que seja ouvir música, ler um poema, cultivar o seu jardim e que, sem darem por isso, estarão a salvar o mundo...   
Os justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. 
O que agradece que na terra haja música. 
O que descobre com prazer uma etimologia. 
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso
 xadrez. 
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
 
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. 
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
 
O que acarinha um animal adormecido. 
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. 

O que agradece que na terra haja Stevenson. 
O que prefere que os outros tenham razão.
 
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. 

População da Nigéria, assim como de todo o continente africano, é uma das que mais cresce no mundo (Foto: Akintunde Akinleye/UNFPA)

Viajantes do espaço e privilegiados, alguns, com os benefícios do progresso,  ligados por fios invisíveis, não importando as coordenadas geográficas: A população mundial, uma realidade mal repartida, amontoada em determinados espaços e rareando noutros, abundando a riqueza ali e faltando o essencial para a sobrevivência acolá, indicador, talvez, da má gestão da nossa inteligência. Conseguiremos algum dia viver, todos, condignamente, qualquer que seja o recanto,  o lugar, o rincão?


NOTA: O poema Instantes, atribuído a Jorge Luís Borges, é apócrifo. Este precioso contributo foi-nos trazido pela autora do Canto da Boca, no seu comentário a este post. Obrigada minha amiga. :)


Poemas de:Jorge Luis Borges - Biografia
Nigéria: Foto Akintunde Akinleye
Imagem Jardim, também da Internet


 As hiperligaçoes permitem aceder aos sites donde retirei o material para a composição deste post, isto é, video, poemas e imagens. Os meus agradecimentos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A origem do mundo

A primeira vez que li um poema de Nuno Júdice foi no blogue da minha amiga Isabel, Luz de África. Fiquei tão apaixonada pela sua maneira de escrever que o li várias vezes e trouxe-o comigo. O título do poema: Metamorfose. Tornei-me numa admiradora fervorosa do poeta.

O poema que hoje aqui trago, A origem do mundo, não poderia vir mais a propósito para o tema mundo, aqui em vigor por estes dias e, não há dúvida, Nuno Júdice sabe destas coisas. O nascer do dia, a alvorada e a estrela d' alva a anunciarem um novo dia, o cheirinho de ervas molhadas pelo orvalho, a terra macia a convidar-nos acordar para a vida, tornando-se as nossas raízes mais resistentes às intempéries que, porventura, nos balancem.

Tomemos uma chávena de café na companhia do poeta e apreciemos todo o manancial de luz que as suas palavras nos transmite: 


A origem do mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra, 
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com 
a névoa da madrugada. O mundo, então, 
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está 
por baixo da terra; e as raízes sobem 
numa direcção invisível. De dentro 
de casa, porém, um cheiro a café chama 
por mim: como se alguém me dissesse 
que é preciso acordar, uma segunda vez, 
para que as raízes cresçam por dentro da 
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.


Nuno Júdice, in Meditação sobre Ruínas


E eu que sou uma criatura matinal, vejo que o Sol entra pelas frinchas do estore da minha janela, avisando-me que se faz tarde, porque é que hoje me deixei ficar, que lá fora está estuante de vida, bora lá tomar o café,  o pequeno-almoço, o petit déjeuner, o mata-bicho, o breakfast, o café da manhã, onde quer que eu esteja agora, não interessa...  


Poema de Nuno Júdice retirado do Citador
Imagem da chávena de café retirada da Internet
Foto janela: minha
 




domingo, 8 de julho de 2012

Centro do mundo

As Mães. Elas são o Centro do Mundo. A minha faria hoje anos. Seu nome, Isabel. Tomou da Rainha Santa, Isabel de Aragão, o nome, as qualidades. No nosso imaginário encontra-se bem patente a lenda do milagre das rosas, que mostra a sua piedade e compaixão, mas também a memória da sua acção em prol da concórdia entre pai e filho, D.Dinis e o Infante D.Afonso, herdeiro do trono.

Paraty, Brasil - Centro do Mundo literário. De 4 a 8 de Julho, até hoje, portanto, decorre a 10ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). E o grande poeta e cronista, Carlos Drummond de Andrade, é ali homenageado. Então, falando-se dele vem-me à ideia o seu poema A Máquina do Mundo:

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Ler mais ...

Recuando no tempo, em Os Lusíadas, Canto X,  a deusa Tétis leva o Gama pela mão e mostra-lhe a máquina do Mundo nestes termos:
...
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, Arquétipo  que o criou.
Vendo o Gama este globo comovido,
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa:’ o transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, para que vejas
Para onde vás e irás e o que desejas.’

‘Vês aqui a Grande Máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada
É Deus, mas o que é Deus ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende’


Entre Luís Vaz de Camões, Sec. XVI, e Carlos Drummond de Andrade, Sec.XX, tanto tempo, tanto mar, verificamos uma enorme evolução do pensamento, passando-se a uma visão do mundo fundamentada em princípios científicos. Assim, vê-se o surgimento do Sec. XVII, tido como a era da revolução científica e, nesta matéria, evidencia-se o grande teorizador Isaac Newton.

Mas a necessidade que o Homem sente em descobrir as origens do mundo e explicar a grande máquina de que fazemos parte não pára. Nos nossos dias o bosão de Higgs, na procura da partícula de Deus, chave primordial para validação da massa das outras partículas elementares- após a nossa grande eclosão conhecida como Big-Bang- o bosão, dizia, parece ser o último grito nesta área.

Enquanto isso, centremo-nos no mistério do amor, na dedicação e abnegação de um coração de Mãe, nos sacrifícios que enfrenta na defesa da sua cria.
Embrulhados no seu xaile, o universo quase que se reduz a um ponto apenas e a explicação da máquina ou origem do mundo torna-se assaz irrelevante. Hoje e sempre relembro a minha mãe e com ela homenageio todas as mães do mundo.


O convite Ler mais está hiperligado aos sites que contêm o poema de Drummond e o canto X de Os Lusíadas
Imagens retiradas Internet. Os meus agradecimentos.
NOTA - HOJE, TAMBÉM É DIA DE SANTA ISABEL, FIGURA BÍBLICA, originando, talvez,ou também, o nome da minha mãe. :)