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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Dia do Trabalhador

É a primeira vez que assinalo, aqui, o 1º de Maio. Nestes 50 anos da Revolução achei por bem mencioná-lo. Foi graças a esse acontecimento, que nos trouxe a liberdade de expressão e de estar, que se tem podido festejar o Dia do Trabalhador, como é designado.

Hoje há que festejar o Dia e relembrar uma vez mais o país que tínhamos. E nada melhor do que Ary dos Santos, com a sua verve poética e declamação inspiradora para nos transmitir todos os detalhes.


Era uma vez um País
....onde entre o mar e a guerra,
 vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra...



Ary dos Santos 
As Portas que Abril Abriu

***



***

E Graça Pires, neste belo poema, fala na mudança operada nas gentes depois da Revolução de Abril de 1974:


O país não parecia o mesmo,

Antes tinha um povo tristonho,

cabisbaixo, desacertado com a esperança.

Agora dava gosto ver e ouvir as pessoas,

mais leves, mais jovens, com braçadas

de flores a intuir alegrias futuras.

Não havia mágoas neste dia prodigioso

em que tudo era novo outra vez.

Alta noite iriam todos para casa

porque a febre dos corpos lhes apetecia.

in: Era madrugada em Lisboa
pg 31


***

Fernando Tordo


-Adeus Tristeza-


***



Esta data tem origem na primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886.

Três anos depois, em 1891, o Congresso Operário Internacional convocou, em França, uma manifestação anual, em homenagem às lutas sindicais de Chicago. A primeira acabou com 10 mortos, em consequência da intervenção policial.

Foram os factos históricos que transformaram o 1 de maio no Dia do Trabalhador. Até 1886, os trabalhadores jamais pensaram exigir os seus direitos, apenas trabalhavam.  (
Veja mais aqui)


***



Os meus agradecimentos a todos quantos me acompanharam durante o último mês, em que se versou, aqui, sobre a Liberdade.

Abraços

Olinda 

***

Querida Olinda,

Fica-me um sorriso nos lábios
Nem sei se sobe ou desce
Digo que me inunda
Somos povo liberto e libertário
Cravos rubros e abertos
Como abraços fraternos
E quando a inquietação nos dominar
Lembremos que somos "filhos da madrugada"
Felizes por vivermos uma revolução
Perfumada de sentimentos de união
E acreditarmos que viver é lutar
Por um poema maior
Feito de vida, sangue e lágrimas
Lágrimas que vertem a comoção
De dignificar o mundo do trabalho
E honrar o campo, a enxada, o arado
A caneta, o papel e o livro
Saído das mãos do trabalhador.

Um abraço imenso.

***

Querida Teresa

Emocionada com o seu gesto tão lindo.
Um poema que nos toca o coração.
Uma homenagem ao 25 de Abril e ao
Dia do Trabalhador. 
Uma surpresa muito muito agradável. 
:)
Beijinhos
Olinda


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José Carlos Pereira Ary dos Santos
(Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 7 de Dezembro de 1937– Lisboa, Santiago, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.

Graça Pires - Do seu Livro mais recente:
 "Era madrugada em Lisboa - Louvor a um dia com tantos dias dentro"


sábado, 27 de abril de 2024

A independência das colónias...

As colónias africanas, baptizadas pelo regime como sendo províncias ultramarinas, justificando a ideia de um Portugal uno e indivisível, com a notícia da revolução entraram em efervescência. Viram que a hora da verdade tinha chegado e que a libertação por que tanto se bateram estava em vias de acontecer. Só que cada cabeça sua sentença. Em Angola os três movimentos que ao longo do tempo se foram formando, MPLA, FNLA, UNITA, resolveram entrar em luta pelo poder. E foi precisamente em Luanda que se deram os confrontos.

Foram dias terríveis. A luta urbana apavorava tudo e todos. A tropa portuguesa de mãos atadas porque já não se sentia com autoridade para impor limites. Apenas com palavras na rádio tentava que chegassem a um entendimento. As pessoas, revoltadas, queriam pegar elas próprias em armas. Entretanto, a caça ao homem era um facto. De noite era a caça às bruxas e, como em todos os estados de sítio, cada um funcionava pela sua cabeça.

Começou o grande êxodo. De uma ponta à outra de Angola ouvia-se o martelar dos caixotes, o empacotamento dos haveres passíveis de transportar. O cais foi se tornando num mar de malas, caixotes, caixotinhos, sacos e sacolas. O aeroporto outro tanto. Pessoas com ar perdido aproveitavam a ponte aérea disponibilizada pelo governo português. Quem podia seguia de carro para África do Sul e para outros pontos de África. Também para o Brasil...

Era o retorno...dos "retornados". Cá chegados, era outra via sacra.



As negociações de independência iam avançando não com a velocidade desejada. Foram conversações, acordos, e muitos retornados reclamam ainda hoje que não foram acautelados os seus interesses. 

***

Numa ronda pelas independências temos que:

1) A Guiné (PAIGC) declarou a independência unilateralmente a 24 de Setembro de 1973 e reconhecida em 10 de Setembro de 1974, pelo acordo de Argel, de 26 de Agosto de 1974.  

Luís Cabral foi o primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau.

***

2) Cabo Verde ligado ao PAIGC por vontade do seu líder maior Amílcar Cabral, assassinado em 1973, ascendeu à independência a 5 de Julho de 1975, não sem primeiro ter-se de vencer algumas polémicas sobre se aquelas ilhas deveriam ficar federadas a Portugal. 

Aristides Pereira foi o primeiro Presidente da República de Cabo Verde.

***

3) Em 11 de Novembro de 1975 foi declarada a independência de Angola por Agostinho Neto, (MPLA) que foi o primeiro Presidente da República Popular de Angola,

Na Assembleia Constituinte de Portugal foi aprovada um voto de congratulação da iniciativa do PPD, tendo Mota Pinto afirmado a dado momento:

As circunstâncias em que Angola ascende à independência não são as mais auspiciosas a curto prazo, quando uma guerra fratricida rasga a carne e verte o sangue dos homens e das mulheres angolanas e destrói os seus bens. aqui

Trata-se da guerra com os outros movimentos (FNLA e UNITA), visto estes dois não terem concordado com a entrega da soberania ao MPLA.

***

4) As negociações entre a administração portuguesa, através do MFA, e a FRELIMO culminaram na assinatura dos Acordos de Lusaka em 7 de Setembro de 1974 na Tanzânia, com a transferência de soberania para as mãos da organização moçambicana. A formalização da independência de Moçambique ficou, finalmente estabelecida em 25 de Junho de 1975, o 13º aniversário da fundação da FRELIMO. 

Samora Machel foi o primeiro Presidente da República de Moçambique.

***

5) Em 1960, por influência do processo de descolonização no continente africano, surgiu um grupo nacionalista opositor ao domínio ditatorial português. Em 1972, o grupo dá origem ao MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe), de orientação marxista.

A 21 de Dezembro de 1974 foi assinada uma acta de transmissão de poderes do Estado Português para o Governo de São Tomé e Príncipe.

 A independência verificou-se a 12 de Julho de 1975. 

Manuel Pinto da Costa foi o primeiro Presidente da República Democrática de São Tomé e Príncipe.


***


No sudeste asiático, no final de 1975, Timor-Leste declarou a sua independência, mas foi invadido e ocupado pela Indonésia.

Macau, depois de muitas negociações, voltaria à soberania da China em 29 de Dezembro 1999.

Goa, Damão e Diu já tinham sido incorporados na União Indiana em 1961, mas apenas reconhecido por Portugal em 1974.



Era o Fim do
 

 

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Imagem: Net

 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Dia da Liberdade

E são passados 50 anos.

Foram precisos muitos anos para que renascêssemos numa liberdade que considerávamos perdida, aliás, muitos de nós nem a considerávamos possível ou mesmo que existisse. 

Os que nasceram nessa altura ou já eram nascidos, mas ainda crianças, e os que vieram a seguir, não conseguirão compreender na sua justa medida essa riqueza incomparável que é viver em liberdade, porque já faz parte do seu universo mental.

Por isso, é nosso dever procurar trazer, sempre que possível, a essência e as ideias que enformam este conceito que um dia se tornou realidade, para não a deixarem escapar. Lembrarmo-nos disso é preciso, e também homenagear os que lutaram para que este dia acontecesse. 


REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação



Um habitação caiada, livre de mofo, onde a brisa fresca circule. Com as mentes abertas à inovação, às ideias positivas. Precisamos urgentemente de inventar o amor, como dizia o poeta, se é que não o inventámos já, e aplicá-lo em coisas que interessem. Pensemos que todos os homens são iguais, que o racismo e a xenofobia não devem ter lugar no nosso seio.

As revoluções exigem mudanças. E aquela que aconteceu em 25 de Abril de 1974 e que encantou quem dela ouviu falar, pela forma pacífica como decorrera, veio realmente abalar o status quo que existia.*

O caso fortuito dos cravos que uma mulher, Celeste Caeiro, ofereceu aos militares e que foi seguida por outras e que se transformou num mar de flores vermelhas, veio dar um toque romântico a esse dia, com as espingardas transformadas em floreiras. Um Símbolo que ficará para sempre.

Razão tem a nossa grande Graça Pires neste belo poema, que a seguir transcrevo, quando diz que o mundo ficou maravilhado e que parecia coisa inventada:

O mundo inteiro falava
de Portugal onde se fazia
uma revolução com cravos.
Parecia uma ideia inventada.
Houve quem viesse ver se era verdade.
E deixaram-se maravilhar
com o pulsar colectivo da alegria.
Que enigmático espaço de aventura
desafiando interdições e costumes,
exclamavam admirados.



E aqui temos Georges Moustaki que, com esta versão do Fado Tropical, de Chico Buarque, quis homenagear esta festa e vem corroborar a excelência desse dia.



Georges Moustaki
Portugal



***

FELIZ

Dia da Liberdade

ABRAÇOS

Olinda




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Poemas:

- In: O nome das Coisas, 1977 (BN) (Sophia Andresesn)

- Graça Pires - "Era madrugada em Lisboa - Um dia com muitos dias dentro" - Livro lançado                 recentemente. pg 30

*a reacção do regime: registaram-se quatro civis mortos e quarenta e cinco feridos em Lisboa, atingidos pelas balas da DGS.(Polícia do Estado que substituiu a PIDE)




terça-feira, 23 de abril de 2024

Grândola, Vila Morena


No Porto


A Canção mais ouvida nestes 50 anos de Abril. Canção chamada à liça sempre que uma crise se anuncia. Nem é preciso ter boa voz ou conhecer música a fundo, nem ter especial filiação política. O povo é quem mais ordena é a mola que nos  impulsiona, o cante alentejano, a formação em fila, braço dado, o balanço, e o bater dos pés faz o resto e emociona. 


Os Ganhões de Castro Verde

Foi feita para homenagear os grandolenses, 1971:

“Grândola, Vila Morena” integrou o álbum Cantigas de Maio, de 1971, e foi gravado no Strawberry Studio, em Hérouville, França, com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, então exilado em França, assim como Francisco Fanhais, um dos músicos que acompanham os temas deste registo. Ao contrário de outras composições de José Afonso, “Grândola, Vila Morena” – tema dedicado à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – escapou ao lápis azul da censura."


Francisco Fanhais, José Afonso e José Mário Branco, 1971


E, agora, em 2024 é ela própria homenageada: 

"A Câmara Municipal de Grândola inaugura este sábado, 20 de Abril, o Museu Grândola, Vila Morena, um novo núcleo museológico do museu municipal, que contará a história do poema e depois canção de José Afonso, que se tornou uma das senhas do 25 de Abril de 1974. Um espaço interactivo e imersivo que assinala as comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos". aqui

E no livro dedicado à evolução da canção política em Portugal lemos sobre Grândola, Vila Morena, estas palavras de José Jorge Letria:

(...)
As operações militares iniciaram-se por volta das três da madrugada, a partir das "senhas" musicais: "E depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho às 22 e 55 e "Grândola, Vila Morena", escrita e cantada por José Afonso.

Escassos minutos depois da meia-noite, dezenas de milhar de pessoas, de norte a sul do País, ouviram no programa "Limite", da Rádio Renascença, estrofes que diziam "em cada esquina um amigo/em cada rosto igualdade/o povo é quem mais ordena/dentro de ti ó cidade". Era, no entanto, reduzido o número dos que conheciam o significado exacto da passagem daquela canção. A apresentar estava a voz de Leite de Vasconcelos.

"Grândola" foi o sinal da arrancada, a certeza de que havia soado a hora da mudança. A escolha da canção de José Afonso, escrita alguns anos antes em homenagem à Sociedade Fraternidade Operária Grandolense e incluída no álbum "Cantigas do Maio" (...) foi, em larga medida, a consagração de um movimento de resistência cultural.

(...)no meio das marchas militares e dos comunicados do MFA, ouviram-se pela primeira vez sem qualquer tipo de restrições, as cantigas da resistência. Era o som da mudança. O toque de alvorada num país que se libertava, entre o espanto e a alegria transbordante, da opressão fascista.

"Grândola, Vila Morena" foi o hino de libertação, a ponte entre a resistência e a revolução, o apelo fraterno à unidade e à confiança.

In: A Canção Política em Portugal, de José Jorge Letria
pg 77/78

***


GRÂNDOLA, VILA MORENA


ZECA  AFONSO



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domingo, 21 de abril de 2024

Diz





Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram 
de ti

o que quiseram 
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher 
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas 
de gritar
tua vida encarcerada

In: Mulheres de Abril
p. 21 a 23




Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros (Lisboa, 20 de maio de 1937) é uma escritora, jornalista e poetisa portuguesa. É uma das autoras do livro Novas Cartas Portuguesas, pelo qual foi processada e julgada em 1972, ao lado de Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. aqui


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sexta-feira, 19 de abril de 2024

Tengarrinha

À Memória do meu Professor, 

José Manuel Tengarrinha



Tengarrinha já tinha sido preso outras vezes. A mais violenta foi em 1961, quando havia sido duramente torturado. Desta vez, em 18 de Abril de 1974, levaram-no directamente para o reduto sul, para a última sala de interrogatório, ao fundo do corredor. Um inspector (...) perguntou-lhe o que estavam a preparar para o 1º de Maio. "Nada", respondeu. O inspector não insistiu e mudou de assunto. Queria saber se Tengarrinha estabelecera algum contacto com o movimento de oficiais que, um mês antes, estivera por detrás do golpe das Caldas e se tinha conhecimento de estarem em preparação novas movimentações. "Não sei", replicou lacónico.

O interrogatório durou várias horas, sempre à volta das mesmas questões. Já era noite quando o homem deu por concluída a sessão. "Da próxima vez vais falar. Ou confessas ou não sais daqui vivo", ameaçou. Deu-lhe uma semana para pensar e marcou novo interrogatório para daí a oito dias. Seria quinta-feira, 25 de Abril.(...) O inspector abandonou a sala e dois agentes entraram para conduzir Tengarrinha até ao reduto norte. Trancaram-no na cela de isolamento nº. 51.

Durante toda essa semana, esforçou-se por dormir o mais que conseguia. Sabia que ia ser sujeito à tortura do sono da próxima vez que o levassem para interrogatório. E temia o mais que lhe pudessem fazer.

Acordou em sobressalto na noite de 24 para 25 de Abril. Deveriam faltar poucas horas para o irem buscar, pensou. Nesse dia, no entanto, ninguém apareceu. Durante toda a manhã, nem sequer lhe foram entregar a côdea de pão e chávena de café que o guarda de serviço lhe levava todos os dias ao pequeno-almoço. (...)

As horas foram passando e também ele foi apercebendo dos vários indícios de mudança. Ao fim da tarde, ouviu, como os outros, informações dispersas sobre um golpe que derrubara o Governo. Depois de ter ecoado pela cadeia a voz de um preso pedindo prudência a todos os companheiros, Caxias calou-se. (...) Tengarrinha sabia da preparação de um golpe do MFA, mas também que estava iminente um levantamento da extrema-direita. Na altura, achou que a segunda hipótese era a mais provável. "Se for Kaúlza, vamos ser todos mortos", pensou.

José sentia-se profundamente só. Imaginava que os companheiros estariam despertos e apavorados. Precisava de ouvir uma voz, qualquer coisa que pudesse, ainda que, por segundos, tranquilizá-lo. Abriu a janela com cuidado, fez uma concha com a mão para abafar o som e perguntou, em voz baixa, ao preso do lado, igualmente em regime de isolamento: "Estás bem?" Ouviu-o levantar-se da cama e aproximar das grades. "Sim, e tu?" Não trocaram mais nenhuma palavra (...)

A noite estava gelada e o tempo parecia que não passava. Imagens de um fuzilamento tomavam-lhe o pensamento, sem que conseguisse afastá-las. Imaginou a angústia e o medo, o nó na garganta, a secura da boca e a vertigem no momento do fim. Via os agentes da PIDE a tirarem-nos das celas e a arrastarem-nos para o pátio, entre choros e gritos. (...)

Ao longo da noite, acabaria por aceitar esse destino. Sentia-se finalmente preparado. Já tinha amanhecido quando o silêncio em Caxias acabou. (...) As chaves rodaram na fechadura. José levantou-se. Parado à sua frente, um militar alto e louro, ladeado por dois homens, segurava uma G3.

_Como se chama? - perguntou-lhe.

José estava estranhamente tranquilo. Tivera tempo para se preparar para o fim. Chegara o momento.

_José Tengarrinha - disse.

_Pode sair. Está livre.

Afinal a manhã não lhe trouxera a morte. Mas faltaria ainda um dia inteiro para que efectivamente o devolvessem à liberdade.

Joana Pereira Bastos - In "Os últimos presos do Estado Novo - 

Tortura e desespero em Vésperas do 25 de Abril" - pgs 111 a 114


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José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha (Portimão, 12 de abril de 1932 – Estoril, 29 de junho de 2018) foi um jornalista, escritor, historiador, professor universitário, presidente do partido político MDP/CDE e deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da Republica de Portugal. aqui


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terça-feira, 23 de abril de 2019

Vinte e zinco

20 de Abril

Ninguém nasce desta ou daquela raça. Só 
depois nos tornamos pretos, brancos ou
de outra qualquer raça

Extracto do diário de Irene, parafraseando
Simone de Beauvoir
...

23 de Abril

Deus fez a árvore para que o Homem não 
sentisse medo do tempo.

Dito do cego Andaré


24 de Abril

Já não carecemos da igreja: o mundo inteiro
se converteu numa imensa igreja.
De joelhos, arrebanhados até ao sonho, 
aceitamos a qualquer preço isso a que 
chamam de  redenção.

Dos cadernos de Irene


25 de Abril

"Toda a terra ficará branca com a luz das
estrelas e o céu será engolido pelas
andorinhas"

Shaka Zulu a Dingane, seu assassino


26 de Abril

Até que o leão aprenda a escrever, o
caçador será o único herói.

Nozipo Maraire, em Carta a Minha Filha

...
Vinte e Zinco é o título do livro que Mia Couto escreveu a convite da Editorial Caminho aquando do 25º aniversário da Revolução de Abril de 1974. É escrito em forma de diário, de 19 a 30 de Abril, e cada dia é iniciado com a citação de um dito dos personagens, exceptuando-se um ou outro.

Antes do primeiro dia, há uma página onde vem gravada esta fala da adivinhadora Jerussima, justificando-se o título do livro:

"Vinte e cinco é para vocês que vivem nos
bairros de cimento.
Para nós, negros pobres que vivemos na madeira 
e zinco, o nosso dia ainda está por vir"

A referida Editora convidou, na altura, outros escritores constituindo assim uma colecção fechada, Colecção Caminho de Abril. Passo a indicá-los:

Alexandre Pinheiro Torres - Amor, só Amor, Tudo Amor
Alice Vieira - Vinte e Cinco a Sete Vozes
Almeida Faria - A Reviravolta
Carlos Brito - Vale a Pena Ter Esperança
Germano Almeida - Dona Pura e os Camaradas de Abril
Manuel Alegre - Uma Carga de Cavalaria
Maria Isabel Barreno - As Vésperas Esquecidas
Mário de Carvalho - Apuros de Um Pessimista em Fuga
Mia Couto - Vinte e Zinco (citado acima)
Sebastião Salgado - Um Fotógrafo em Abril
Urbano Tavares Rodrigues - O Dia Último e o Primeiro

De referir que a indicação da Editora, destes autores e das suas obras é apenas por amor à arte, não obedecendo assim a nenhuma espécie de publicidade de que o Xaile de Seda se distancia sempre.

Neste Dia do Livro, proponho a leitura do livro de Mia Couto, que é o autor aqui homenageado, seguindo o meu propósito de, por estes dias, assinalar  escritores moçambicanos, mas também poderá ser de um dos autores acima mencionados ou então um autor e um livro à vossa escolha.

O importante é ler e, também, respeitar os direitos autorais.


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Mia Couto, Vinte e Zinco - citações páginas: 11, 24, 59, 73, 90, 98
Leia, se interessar:
Uma análise: Mia Couto e a reescrita da história: o 25 de Abril em Vinte e Zinco
Flavia Renata Machado Paiani

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Do quadro revolucionário ao protocolo institucional

No dizer de Pierre Goubert, as revoluções perturbam as próprias bases do governo e da legislação, reclassificam os grupos sociais, revelam homens novos e frequentemente jovens, deslocam pelo menos em parte a propriedade e renovam sensivelmente as ideias, as mentalidades e as paixões.

Isto dito num contexto de análise de uma outra revolução, num outro tempo e espaço geográfico, mas que vem ao encontro das especificidades do ambiente vivido na sequência da Revolução de Abril de 1974, durante o chamado Prec, processo revolucionário em curso, período conturbado com acções como a reforma agrária, nacionalizações, saneamentos, movimentos populares que culminaria no golpe militar de 25 de Novembro de 1975. Nem sempre imperara o bom senso e sabemos que muitos acabariam por abandonar o país por terem ficado sem os seus bens e sofrido lamentáveis reveses.



A calma foi voltando, entretanto. Em 1976 foi aprovada a nossa Lei Fundamental, a Constituição que veio substituir a de 1933, com uma nova visão sobre a sociedade. O Estado de direito afirmou-se, funcionando em pleno através das suas instituições. 

Assim sendo, esbatido o inicial fulgor revolucionário e, tendo como referência as comemorações oficiais relativas à Revolução de Abril de 1974, estas já não acontecem nas ruas nem nas praças, nem em tribunas improvisadas, com vozes inflamadas e discursos apaixonados. É lá dentro, no hemi-ciclo parlamentar que tudo acontece, obedecendo a protocolos, através das vozes dos representantes que elegemos, na presença de auditório convidado para o efeito. Tudo muito direitinho e organizadinhho.



Mas cá fora também tivemos a nossa comemoração assinalando a data que tantas mudanças operou, quiçá mais espontânea embora não tão festiva como gostaríamos que fosse. Muito tempo se passou já e, como sabemos, o tempo não perdoa. Emocionou-me ver aquelas cabeças grisalhas, militares e populares anónimos, agora na casa dos sessenta e setenta ou um pouco mais. Imaginei-os há quatro décadas, jovens de 20 e tal anos, uns tomando decisões cruciais e outros pulando, gritando e cantando, dando vivas a uma revolução, aliás, a uma situação cujo alcance não percebiam ainda muito bem.



Neste momento, a geração sobreviva, perante a crise financeira e de valores que atravessamos, ainda procura a antiga chama de modo a alimentar rasgos de patriotismo. Ouvi um comentador dizer, num dos canais de tv, nas vésperas do dia 25: Nós, os que temos agora 40 anos, somos os filhos daquela madrugada... E gostei. Que esta geração e as vindouras, filhos dos filhos dos filhos daquela madrugada, possam receber em suas mãos, amorosamente, o testemunho em direcção à longa caminhada que está por fazer.

*****

Voltarei, na terça ou quarta, com o meu último post relacionado com a etiqueta Leituras de Abril. Desta feita trarei Almeida Santos, em Quase Memórias.

Tenham um bom fim de semana.

Abraço

Olinda


Nota: Por motivos técnicos não pude publicar este post no sábado. Então, os meus votos vão agora para um belíssimo início de semana. :)

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Ouvir: Filhos da madrugada, de Zeca Afonso

Referência a Pierre Goubert, in: História Concisa de França, Vol.II, pg.7
Imagens retiradas da internet