José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (Aveiro, 2 de agosto de 1929-Setúbal, 23 de fevereiro de 1987), foi um cantor e compositorportuguês. É também conhecido pelo diminutivo familiar de Zeca Afonso, apesar de nunca ter utilizado este nome artístico. É o autor de Grândola, Vila Morena que foi utilizada pelo Movimento das Forças Armadas para confirmar que a Revolução do 25 de Abril estava em marcha. aqui
Depois da chuva o Sol - a graça. Oh! a terra molhada iluminada! E os regos de água atravessando a praça - luz a fluir, num fluir imperceptível quase.
Canta, contente, um pássaro qualquer. Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.
Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado antes do Sol, não duvidava agora.) Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual às manhãs do princípio!
E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... Flor levada nas águas, mansamente...
O autor dedica este poema a Maria Guiomar, como se lê acima.
Confesso que não sei de quem se trata.
Este é o ano do Centenário do seu nascimento.
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Sebastião Artur Cardoso da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, 10 de abril de 1924 — Lisboa, 7 de fevereiro de 1952) foi um poeta e professor português.
(...)A sua obra encontra-se ligada à Serra da Arrábida, onde vivia e que tomou por motivo poético de primeiro plano (desde logo no seu livro de estreia, Serra-Mãe, de 1945), e à sua tragédia pessoal, motivada pela doença que o vitimou precocemente, a tuberculose.
Uma carta sua, enviada em agosto de 1947, para várias personalidades, a pedir a defesa da Serra da Arrábida, constituiu a motivação para a criação da LPN Liga para a Protecção da Natureza, em 1948, a primeira associação ecologista portuguesa. Ver mais aqui
A Canção mais ouvida nestes 50 anos de Abril. Canção chamada à liça sempre que uma crise se anuncia. Nem é preciso ter boa voz ou conhecer música a fundo, nem ter especial filiação política. O povo é quem mais ordena é a mola que nos impulsiona, o cante alentejano, a formação em fila, braço dado, o balanço, e o bater dos pés faz o resto e emociona.
Os Ganhões de Castro Verde
Foi feita para homenagear os grandolenses, 1971:
“Grândola, Vila Morena” integrou o álbum Cantigas de Maio, de 1971, e foi gravado no Strawberry Studio, em Hérouville, França, com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, então exilado em França, assim como Francisco Fanhais, um dos músicos que acompanham os temas deste registo. Ao contrário de outras composições de José Afonso, “Grândola, Vila Morena” – tema dedicado à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – escapou ao lápis azul da censura."
Francisco Fanhais, José Afonso e José Mário Branco, 1971
E, agora, em 2024 é ela própria homenageada:
"A Câmara Municipal de Grândola inaugura este sábado, 20 de Abril, o Museu Grândola, Vila Morena, um novo núcleo museológico do museu municipal, que contará a história do poema e depois canção de José Afonso, que se tornou uma das senhas do 25 de Abril de 1974. Um espaço interactivo e imersivo que assinala as comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos". aqui
E no livro dedicado à evolução da canção política em Portugal lemos sobre Grândola, Vila Morena, estas palavras de José Jorge Letria:
(...)
As operações militares iniciaram-se por volta das três da madrugada, a partir das "senhas" musicais: "E depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho às 22 e 55 e "Grândola, Vila Morena", escrita e cantada por José Afonso.
Escassos minutos depois da meia-noite, dezenas de milhar de pessoas, de norte a sul do País, ouviram no programa "Limite", da Rádio Renascença, estrofes que diziam "em cada esquina um amigo/em cada rosto igualdade/o povo é quem mais ordena/dentro de ti ó cidade". Era, no entanto, reduzido o número dos que conheciam o significado exacto da passagem daquela canção. A apresentar estava a voz de Leite de Vasconcelos.
"Grândola" foi o sinal da arrancada, a certeza de que havia soado a hora da mudança. A escolha da canção de José Afonso, escrita alguns anos antes em homenagem à Sociedade Fraternidade Operária Grandolense e incluída no álbum "Cantigas do Maio" (...) foi, em larga medida, a consagração de um movimento de resistência cultural.
(...)no meio das marchas militares e dos comunicados do MFA, ouviram-se pela primeira vez sem qualquer tipo de restrições, as cantigas da resistência. Era o som da mudança. O toque de alvorada num país que se libertava, entre o espanto e a alegria transbordante, da opressão fascista.
"Grândola, Vila Morena" foi o hino de libertação, a ponte entre a resistência e a revolução, o apelo fraterno à unidade e à confiança.
In: A Canção Política em Portugal, de José Jorge Letria