Mostrar mensagens com a etiqueta Retornados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Retornados. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de abril de 2024

A independência das colónias...

As colónias africanas, baptizadas pelo regime como sendo províncias ultramarinas, justificando a ideia de um Portugal uno e indivisível, com a notícia da revolução entraram em efervescência. Viram que a hora da verdade tinha chegado e que a libertação por que tanto se bateram estava em vias de acontecer. Só que cada cabeça sua sentença. Em Angola os três movimentos que ao longo do tempo se foram formando, MPLA, FNLA, UNITA, resolveram entrar em luta pelo poder. E foi precisamente em Luanda que se deram os confrontos.

Foram dias terríveis. A luta urbana apavorava tudo e todos. A tropa portuguesa de mãos atadas porque já não se sentia com autoridade para impor limites. Apenas com palavras na rádio tentava que chegassem a um entendimento. As pessoas, revoltadas, queriam pegar elas próprias em armas. Entretanto, a caça ao homem era um facto. De noite era a caça às bruxas e, como em todos os estados de sítio, cada um funcionava pela sua cabeça.

Começou o grande êxodo. De uma ponta à outra de Angola ouvia-se o martelar dos caixotes, o empacotamento dos haveres passíveis de transportar. O cais foi se tornando num mar de malas, caixotes, caixotinhos, sacos e sacolas. O aeroporto outro tanto. Pessoas com ar perdido aproveitavam a ponte aérea disponibilizada pelo governo português. Quem podia seguia de carro para África do Sul e para outros pontos de África. Também para o Brasil...

Era o retorno...dos "retornados". Cá chegados, era outra via sacra.



As negociações de independência iam avançando não com a velocidade desejada. Foram conversações, acordos, e muitos retornados reclamam ainda hoje que não foram acautelados os seus interesses. 

***

Numa ronda pelas independências temos que:

1) A Guiné (PAIGC) declarou a independência unilateralmente a 24 de Setembro de 1973 e reconhecida em 10 de Setembro de 1974, pelo acordo de Argel, de 26 de Agosto de 1974.  

Luís Cabral foi o primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau.

***

2) Cabo Verde ligado ao PAIGC por vontade do seu líder maior Amílcar Cabral, assassinado em 1973, ascendeu à independência a 5 de Julho de 1975, não sem primeiro ter-se de vencer algumas polémicas sobre se aquelas ilhas deveriam ficar federadas a Portugal. 

Aristides Pereira foi o primeiro Presidente da República de Cabo Verde.

***

3) Em 11 de Novembro de 1975 foi declarada a independência de Angola por Agostinho Neto, (MPLA) que foi o primeiro Presidente da República Popular de Angola,

Na Assembleia Constituinte de Portugal foi aprovada um voto de congratulação da iniciativa do PPD, tendo Mota Pinto afirmado a dado momento:

As circunstâncias em que Angola ascende à independência não são as mais auspiciosas a curto prazo, quando uma guerra fratricida rasga a carne e verte o sangue dos homens e das mulheres angolanas e destrói os seus bens. aqui

Trata-se da guerra com os outros movimentos (FNLA e UNITA), visto estes dois não terem concordado com a entrega da soberania ao MPLA.

***

4) As negociações entre a administração portuguesa, através do MFA, e a FRELIMO culminaram na assinatura dos Acordos de Lusaka em 7 de Setembro de 1974 na Tanzânia, com a transferência de soberania para as mãos da organização moçambicana. A formalização da independência de Moçambique ficou, finalmente estabelecida em 25 de Junho de 1975, o 13º aniversário da fundação da FRELIMO. 

Samora Machel foi o primeiro Presidente da República de Moçambique.

***

5) Em 1960, por influência do processo de descolonização no continente africano, surgiu um grupo nacionalista opositor ao domínio ditatorial português. Em 1972, o grupo dá origem ao MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe), de orientação marxista.

A 21 de Dezembro de 1974 foi assinada uma acta de transmissão de poderes do Estado Português para o Governo de São Tomé e Príncipe.

 A independência verificou-se a 12 de Julho de 1975. 

Manuel Pinto da Costa foi o primeiro Presidente da República Democrática de São Tomé e Príncipe.


***


No sudeste asiático, no final de 1975, Timor-Leste declarou a sua independência, mas foi invadido e ocupado pela Indonésia.

Macau, depois de muitas negociações, voltaria à soberania da China em 29 de Dezembro 1999.

Goa, Damão e Diu já tinham sido incorporados na União Indiana em 1961, mas apenas reconhecido por Portugal em 1974.



Era o Fim do
 

 

===
Imagem: Net

 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Onde estavas no 25 de Abril de 1974?

Pergunta que tem sido feita ao longo destes quarenta e oito anos. Ultimamente nem tanto. Outros assuntos têm surgido substituindo os debates e a curiosidade sobre essa data que mudou a vida de muita gente. Além disso, a paixão revolucionária já não é a mesma e o dia foi institucionalizado. Os jovens não têm bem a noção do que se terá passado nessa época de censura e de falta de liberdade. 

Em contrapartida, os jovens de então que por lá combateram para defender algo que nunca chegaram a compreender, muitos perdendo a vida e os que se salvaram vivem num limbo de recordações e pesadelos, nao conseguem libertar-se desse trauma nem falar sobre esse tempo. Famílias inteiras continuam a sofrer os seus efeitos. Um sofrimento camuflado e esquecido pela sociedade.

Ademais as comemorações já nada têm a ver com o povo. As elites fecham-se entre quatro paredes e algumas individualidades dizem de sua justiça sobre o que pensam ter sido o "25 de Abril", com o romantismo que parece tomar conta do passado.

Neste ano de 2022, resolvi colocar a pergunta a uma amiga: Luísa, onde estavas tu no dia 25 de Abril de 1974? Com um sorriso ela responde: Oh menina eu já nem sei, depois de tantos anos sei lá eu! Compondo um ar sério dispõe-se a dizer onde e o que estava a fazer: Como poderia esquecer?

Trabalhava por turnos no serviço municipalizado de água e electricidade, em máquinas perfuradoras da IBM-Informática, e no dia 25 de Abril de 1974 calhou-me o turno da manhã. Como sempre, encontrava-me antes das 7 no café em frente, a comer uma sandes de omelete com café quando alguém diz: Houve um golpe em Lisboa. Ah, sim? Quase com desinteresse. Ninguém pensava que tal golpe iria chegar tão longe e muito menos pressagiava o que se seguiria.

Em poucos dias, iniciou-se uma caça ao homem por toda a cidade, indagações sobre quem era e quem não era deste ou daquele partido, no local de trabalho grassava um clima de incerteza e notícias circulavam sobre este e aquele que tinham sido retirados durante a noite de suas casas. Viam-se homens armados nos terraços em tiroteios que atingiam os apartamentos de pacíficos cidadãos. O controlo, de armas em riste, em várias zonas a pessoas pacatas que saíam do seu trabalho, tornou-se um ritual do quotidiano. A insegurança tomou conta das nossas vidas, com os partidos* na rádio a reivindicarem os seus direitos, uns em relação aos outros, promovendo a guerrilha urbana e a tropa portuguesa, pusilânime, sem ter mão na situação.

Os dias começaram a ser marcados pelo martelar do encaixotamento dos haveres, sem se saber se haveria hipóteses de embarcá-los. Filas e mais filas de carros, de pessoas a pé, no cais tentando arranjar lugar nos navios. O aeroporto pejado de gente, com os filhos ao colo e pela mão, com pequenas malas ou sacos, ar desorientado e perdido. Notícias vindas de outros lugares em Angola diziam-me de familiares a tentar atravessar o deserto da Namibe em direcção a Africa do Sul e outros a demandar o Brasil e demais paragens.

Claro que isto é um pobre resumo desses dias de Gomorra e Sodoma. Contar-te-ei numa próxima conversa a continuação da minha própria odisseia, nomeadamente, quando cheguei como retornada sem nunca ter cá estado - diz ela com um esgar amargo...



Meus amigos: 

Esta é a Sexta-feira da Paixão da Liturgia cristã, elejamo-la como tempo de reflexão mesmo para os não crentes. Há quarenta e oito anos terminava a guerra do ultramar, há setenta e sete anos a segunda guerra mundial. Depois desta, seguir-se-ia a chamada guerra fria entre as duas grandes potências, EUA e URSS, em que o mundo tremia só de pensar num desastre nuclear. 

E agora temos a Ucrânia invadida pela Rússia. Mas antes a anexação da Crimeia. Também têm-se mantido guerras regionais em vários locais do globo, alimentadas por quem fabrica armas e por quem pugna pela hegemonia. Há povos que morrem de fome e de sede, desabrigados.

Muito temos em que pensar, e se nada podemos fazer para travar esses conflitos poderemos optar por cultivar a paz entre nós, nas nossas famílias, entre os amigos. Sei que estamos muito descrentes da boa vontade entre os humanos, mas temos de continuar a tentar e empregar nisso toda a nossa capacidade...de amar. 

BOA PÁSCOA!

Abraços
Olinda


====

Imagem Moçambique - daqui

*Leia-se "Movimentos de Libertação: MPLA, FNLA, UNITA".