Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Dia do Trabalhador

É a primeira vez que assinalo, aqui, o 1º de Maio. Nestes 50 anos da Revolução achei por bem mencioná-lo. Foi graças a esse acontecimento, que nos trouxe a liberdade de expressão e de estar, que se tem podido festejar o Dia do Trabalhador, como é designado.

Hoje há que festejar o Dia e relembrar uma vez mais o país que tínhamos. E nada melhor do que Ary dos Santos, com a sua verve poética e declamação inspiradora para nos transmitir todos os detalhes.


Era uma vez um País
....onde entre o mar e a guerra,
 vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra...



Ary dos Santos 
As Portas que Abril Abriu

***



***

E Graça Pires, neste belo poema, fala na mudança operada nas gentes depois da Revolução de Abril de 1974:


O país não parecia o mesmo,

Antes tinha um povo tristonho,

cabisbaixo, desacertado com a esperança.

Agora dava gosto ver e ouvir as pessoas,

mais leves, mais jovens, com braçadas

de flores a intuir alegrias futuras.

Não havia mágoas neste dia prodigioso

em que tudo era novo outra vez.

Alta noite iriam todos para casa

porque a febre dos corpos lhes apetecia.

in: Era madrugada em Lisboa
pg 31


***

Fernando Tordo


-Adeus Tristeza-


***



Esta data tem origem na primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886.

Três anos depois, em 1891, o Congresso Operário Internacional convocou, em França, uma manifestação anual, em homenagem às lutas sindicais de Chicago. A primeira acabou com 10 mortos, em consequência da intervenção policial.

Foram os factos históricos que transformaram o 1 de maio no Dia do Trabalhador. Até 1886, os trabalhadores jamais pensaram exigir os seus direitos, apenas trabalhavam.  (
Veja mais aqui)


***



Os meus agradecimentos a todos quantos me acompanharam durante o último mês, em que se versou, aqui, sobre a Liberdade.

Abraços

Olinda 

***

Querida Olinda,

Fica-me um sorriso nos lábios
Nem sei se sobe ou desce
Digo que me inunda
Somos povo liberto e libertário
Cravos rubros e abertos
Como abraços fraternos
E quando a inquietação nos dominar
Lembremos que somos "filhos da madrugada"
Felizes por vivermos uma revolução
Perfumada de sentimentos de união
E acreditarmos que viver é lutar
Por um poema maior
Feito de vida, sangue e lágrimas
Lágrimas que vertem a comoção
De dignificar o mundo do trabalho
E honrar o campo, a enxada, o arado
A caneta, o papel e o livro
Saído das mãos do trabalhador.

Um abraço imenso.

***

Querida Teresa

Emocionada com o seu gesto tão lindo.
Um poema que nos toca o coração.
Uma homenagem ao 25 de Abril e ao
Dia do Trabalhador. 
Uma surpresa muito muito agradável. 
:)
Beijinhos
Olinda


===

José Carlos Pereira Ary dos Santos
(Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 7 de Dezembro de 1937– Lisboa, Santiago, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.

Graça Pires - Do seu Livro mais recente:
 "Era madrugada em Lisboa - Louvor a um dia com tantos dias dentro"


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Dia da Liberdade

E são passados 50 anos.

Foram precisos muitos anos para que renascêssemos numa liberdade que considerávamos perdida, aliás, muitos de nós nem a considerávamos possível ou mesmo que existisse. 

Os que nasceram nessa altura ou já eram nascidos, mas ainda crianças, e os que vieram a seguir, não conseguirão compreender na sua justa medida essa riqueza incomparável que é viver em liberdade, porque já faz parte do seu universo mental.

Por isso, é nosso dever procurar trazer, sempre que possível, a essência e as ideias que enformam este conceito que um dia se tornou realidade, para não a deixarem escapar. Lembrarmo-nos disso é preciso, e também homenagear os que lutaram para que este dia acontecesse. 


REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação



Um habitação caiada, livre de mofo, onde a brisa fresca circule. Com as mentes abertas à inovação, às ideias positivas. Precisamos urgentemente de inventar o amor, como dizia o poeta, se é que não o inventámos já, e aplicá-lo em coisas que interessem. Pensemos que todos os homens são iguais, que o racismo e a xenofobia não devem ter lugar no nosso seio.

As revoluções exigem mudanças. E aquela que aconteceu em 25 de Abril de 1974 e que encantou quem dela ouviu falar, pela forma pacífica como decorrera, veio realmente abalar o status quo que existia.*

O caso fortuito dos cravos que uma mulher, Celeste Caeiro, ofereceu aos militares e que foi seguida por outras e que se transformou num mar de flores vermelhas, veio dar um toque romântico a esse dia, com as espingardas transformadas em floreiras. Um Símbolo que ficará para sempre.

Razão tem a nossa grande Graça Pires neste belo poema, que a seguir transcrevo, quando diz que o mundo ficou maravilhado e que parecia coisa inventada:

O mundo inteiro falava
de Portugal onde se fazia
uma revolução com cravos.
Parecia uma ideia inventada.
Houve quem viesse ver se era verdade.
E deixaram-se maravilhar
com o pulsar colectivo da alegria.
Que enigmático espaço de aventura
desafiando interdições e costumes,
exclamavam admirados.



E aqui temos Georges Moustaki que, com esta versão do Fado Tropical, de Chico Buarque, quis homenagear esta festa e vem corroborar a excelência desse dia.



Georges Moustaki
Portugal



***

FELIZ

Dia da Liberdade

ABRAÇOS

Olinda




====
Poemas:

- In: O nome das Coisas, 1977 (BN) (Sophia Andresesn)

- Graça Pires - "Era madrugada em Lisboa - Um dia com muitos dias dentro" - Livro lançado                 recentemente. pg 30

*a reacção do regime: registaram-se quatro civis mortos e quarenta e cinco feridos em Lisboa, atingidos pelas balas da DGS.(Polícia do Estado que substituiu a PIDE)




terça-feira, 23 de abril de 2024

Grândola, Vila Morena


No Porto


A Canção mais ouvida nestes 50 anos de Abril. Canção chamada à liça sempre que uma crise se anuncia. Nem é preciso ter boa voz ou conhecer música a fundo, nem ter especial filiação política. O povo é quem mais ordena é a mola que nos  impulsiona, o cante alentejano, a formação em fila, braço dado, o balanço, e o bater dos pés faz o resto e emociona. 


Os Ganhões de Castro Verde

Foi feita para homenagear os grandolenses, 1971:

“Grândola, Vila Morena” integrou o álbum Cantigas de Maio, de 1971, e foi gravado no Strawberry Studio, em Hérouville, França, com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, então exilado em França, assim como Francisco Fanhais, um dos músicos que acompanham os temas deste registo. Ao contrário de outras composições de José Afonso, “Grândola, Vila Morena” – tema dedicado à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – escapou ao lápis azul da censura."


Francisco Fanhais, José Afonso e José Mário Branco, 1971


E, agora, em 2024 é ela própria homenageada: 

"A Câmara Municipal de Grândola inaugura este sábado, 20 de Abril, o Museu Grândola, Vila Morena, um novo núcleo museológico do museu municipal, que contará a história do poema e depois canção de José Afonso, que se tornou uma das senhas do 25 de Abril de 1974. Um espaço interactivo e imersivo que assinala as comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos". aqui

E no livro dedicado à evolução da canção política em Portugal lemos sobre Grândola, Vila Morena, estas palavras de José Jorge Letria:

(...)
As operações militares iniciaram-se por volta das três da madrugada, a partir das "senhas" musicais: "E depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho às 22 e 55 e "Grândola, Vila Morena", escrita e cantada por José Afonso.

Escassos minutos depois da meia-noite, dezenas de milhar de pessoas, de norte a sul do País, ouviram no programa "Limite", da Rádio Renascença, estrofes que diziam "em cada esquina um amigo/em cada rosto igualdade/o povo é quem mais ordena/dentro de ti ó cidade". Era, no entanto, reduzido o número dos que conheciam o significado exacto da passagem daquela canção. A apresentar estava a voz de Leite de Vasconcelos.

"Grândola" foi o sinal da arrancada, a certeza de que havia soado a hora da mudança. A escolha da canção de José Afonso, escrita alguns anos antes em homenagem à Sociedade Fraternidade Operária Grandolense e incluída no álbum "Cantigas do Maio" (...) foi, em larga medida, a consagração de um movimento de resistência cultural.

(...)no meio das marchas militares e dos comunicados do MFA, ouviram-se pela primeira vez sem qualquer tipo de restrições, as cantigas da resistência. Era o som da mudança. O toque de alvorada num país que se libertava, entre o espanto e a alegria transbordante, da opressão fascista.

"Grândola, Vila Morena" foi o hino de libertação, a ponte entre a resistência e a revolução, o apelo fraterno à unidade e à confiança.

In: A Canção Política em Portugal, de José Jorge Letria
pg 77/78

***


GRÂNDOLA, VILA MORENA


ZECA  AFONSO



====


quinta-feira, 18 de abril de 2024

Ser livre





Eu não nasci com fome de ser livre. Eu nasci livre - livre em todos os aspectos que conhecia. Livre de correr pelos campos perto da palhota da minha mãe, livre de nadar num regato transparente que atravessava a minha aldeia, livre de assar maçarocas sob as estrelas e montar os largos dorsos de bois vagarosos. Contanto que obedecesse ao meu pai e observasse os costumes da minha tribo, eu não era incomodado pelas leis do homem nem de Deus. (...) 

Só quando comecei a aprender que a minha liberdade de menino era uma ilusão, quando descobri, em jovem, que a minha liberdade já me fora roubada, é que comecei a sentir fome dela. (...) Calcorreei esse longo caminho para a liberdade. Tentei não vacilar; dei maus passos durante o percurso.

Mas descobri o segredo: depois de subir uma alta montanha apenas se encontram outras montanhas para subir. Parei aqui um momento para descansar, para gozar a vista da gloriosa paisagem que me rodeia, para voltar os olhos para a distância percorrida. Mas só posso descansar um momento, porque, com a liberdade, vem a responsabilidade, e não me atrevo a demorar, pois a minha caminhada ainda não terminou. (...) 

Ser livre não é apenas livrar-se das próprias grilhetas, mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros. (...) Eu não tinha a menor dúvida de que o opressor tinha de ser libertado tanto quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem está prisioneiro do ódio, está fechado atrás das grades do preconceito e da estreiteza de vistas.

Não sou verdadeiramente livre se estou a tirar a liberdade a alguém, tão certamente quanto não sou livre quando me é roubada a minha humanidade. Tanto o oprimido quanto o opressor são espoliados da sua humanidade.


Nelson Mandela,
in 'Long Walk to Freedom
(1994)'




Ser livre não é apenas livrar-se das próprias grilhetas, 
mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros. 

Se tivéssemos isso em atenção penso que seríamos mais felizes. Contudo, nem sempre atribuímos essa obrigação ou responsabilidade a nós próprios. 
Ficamos à espera que sejam os outros a tomar a dianteira ou a pensar que essoutros é que falham.

Nestes 50 Anos de Abril, Nelson Mandela não podia faltar aqui, no Xaile de Seda. E embora diga coisas que outros já terão dito, por outras palavras, nas publicações precedentes, tem um sabor especial a forma como as diz e ainda mais sabendo nós a sua história de vida.

 

NINA SIMONE



Feeling Good




***


Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo, 18 de julho de 1918 – Joanesburgo, 5 de dezembro de 2013) foi um advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Subsaariana, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e pai da moderna nação sul-africana, onde é normalmente referido como Madiba (nome do seu clã) ou "Tata" ("Pai"). aqui





====
Texto-Citador

terça-feira, 16 de abril de 2024

Meu Pai, o que é a Liberdade?



- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.

A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.

É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.

A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.

É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.

São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.

É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.

É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.

É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.

É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.

É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.

É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.

É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.

É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...

a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.

in 'Canto para 
As Transformações do Homem'

***


Publiquei este poema em 2018. Volto a fazê-lo hoje. E hoje mais do que nunca precisamos recordar-nos do que quer dizer esta palavra, do seu valor e do muito que ganharemos se todos nós a pusermos em prática. Propalá-la só em retórica não vale coisíssima nenhuma. É bom que tenhamos em conta que cada bom gesto poderá ser um sinal de paz. É um acto de amor que se manifesta nas mais pequenas coisas. E que, afinal, são grandes.
 



Jacques Brel
(08 /4/1929 - 09/10/1978)

La valse à mille temps


***


Moacyr Félix de Oliveira (Rio de Janeiro, RJ, 11 de março de 1926 — Rio de Janeiro, RJ, 25 de outubro de 2005) foi um poeta, escritor, editor e intelectual brasileiro. aqui



===

Citador - poema
Veja, aqui, no Xaile de Seda

***
Veja, se lhe interessar:
Cuauhtemoc - O ultimo Tlatoani de Tenochtitlán ...
considerado o líder da Revolta de Vila Rica


sábado, 13 de abril de 2024

A Verdadeira Liberdade do Homem





Nunca acreditei que a liberdade do homem consiste em fazer o que quer, mas sim em nunca fazer o que não quer, e foi essa liberdade que sempre reclamei, que muitas vezes conservei, e me tornou mais escandaloso aos olhos dos meus contemporâneos. Porque eles, activos, inquietos, ambiciosos, detestando a liberdade nos outros e não a querendo para si próprios, desde que por vezes façam a sua vontade, ou melhor, desde que dominem a de outrem, obrigam-se durante toda a sua vida a fazer o que lhes repugna, e não descuram todo e qualquer servilismo que lhes permita dominar.

Jean-Jacques Rousseau
in 'Os Devaneios do Caminhante 
Solitário'


***
 
 
A pedra angular da teoria de Rousseau é a volonté générale, vontade colectiva da comunidade, diz-nos Christiane Zschirnt*, conceito que pode levar um líder delirante a transformá-lo num regime totalitário. 

Por exemplo, Robespierre, o líder dos jacobinos na Revolução Francesa soube levá-lo ao limite, instituindo o seu reinado de terror (La Grande Terreur), sem nada a ver, rigorosamente, com o pensamento deste grande teórico.



Ma Liberté


Serge Reggiani
(Autor: Georges Moustaki)


***



Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um filósofo social, teórico político e escritor suíço. Foi considerado um dos principais filósofos do Iluminismo e um precursor do Romantismo. Em sua obra mais importante "O Contrato Social" desenvolveu sua concepção de que a soberania reside no povo. Ver mais




===
Citador - texto
O título do post,"A verdadeira liberdade do Homem" encima o excerto, na fonte.
*Obra citada:Tudo o que é preciso ler..

quarta-feira, 10 de abril de 2024

A minha Poesia sou eu





… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.

Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…

Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.

Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…

Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.

A minha Poesia sou eu.


Amílcar Cabral,
in “Seara Nova”. 1946.




Amílcar Cabral, o homem que preconizava o diálogo. No poema cantado, abaixo, de António Gedeão ouve-se "mesmo morto hei-de passar". E passou. Não com a Concórdia que ele queria... 

Mesmo assim abriu os braços para acolher a Humanidade, 
transmitindo-lhe o que considerava um bem precioso:
a noção de liberdade.





Adriano Correia de Oliveira
"Fala do Homem Nascido"

(Poema: de António Gedeão
Música: José Niza)


***


Amílcar Lopes da Costa Cabral, (Bafatá, Guiné Portuguesa, actual Guiné-Bissau, 12 de setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973) foi um político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. aqui



====

Poema publicado aqui, no Xaile de Seda

domingo, 7 de abril de 2024

Liberta em Pedra





Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que é dor maior,
por dentro da harmonia jacente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.

Não importam feições,
curvas de seios e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mãos.

Importa a liberdade
de não ceder à vida,
um segundo sequer.

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.
- Falavas? Não ouvi.
- Beijavas? Não senti.
Morreram? Ah! Morri, morri, morri!

Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto...
E fugir pela noite,
sem corpo, nem dinheiro,
para ler os meus santos
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filósofos e nautas,
de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,
da música concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta?

Natércia Freire,* 
in 'Liberta em Pedra'




Livre, liberta em pedra, voltada para a luz para o mar azul 
e para o mar revolto...

O facho da liberdade que cada um traz em si, latente, em especial a mulher que, muito muito tarde, encontra o seu lugar na escrita do mundo dos homens.
 
Considerada como ser imperfeito, a mulher, sem outro préstimo que não fosse enfeitar a realidade desse mesmo mundo, foi a par e passo desabrochando, mercê de luta incessante ao longo dos tempos e compreendendo que o seu 
destino era outro.

***
  



===

*Vale a pena ler a Biografia, mais completa, da autora, aqui, escrita por altura do
Centenário do seu nascimento.

Citador - poema

Imagem - net


quinta-feira, 4 de abril de 2024

Evolução







Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo

tronco ou ramo na incógnita floresta...

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo...


Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

Ou, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paúl, glauco pascigo...


Hoje sou homem, e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, da imensidade...


Interrogo o infinito e às vezes choro...

Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.


in "Sonetos"



***


Um soneto que termina em glória. Encontra-se nele a consciência do ser que sente em si as dores do mundo. Que luta contra as emoções que poderão impedir a sua alma de se sublimar. Ainda no nebuloso limbo tacteia e depara-se 
com um ideal maior que é aspirar à liberdade. 




FREI HERMANO DA CÂMARA


-NA MÃO DE DEUS-
Soneto de Antero de Quental


***


Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada18 de abril de 1842 – Ponta Delgada11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta português do século XIX que teve um papel importante no movimento da Geração de 70. aqui




====
Poema - Citador

imagem relevo cárstico - net

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Lembra-te disto

É difícil afastar da mente a sucessão de infelicidades de partir o coração na sequência das frustrações que se têm abatido sobre nós durante os últimos 15 meses. É como se cada parte de mim tivesse sido mergulhada em azedume, a minha carne, o meu sangue, os meus ossos e a minha alma, tão desamparado me sinto pelo facto de não te poder ajudar nas circunstâncias tão duras e adversas em que te encontras. Que grande diferença faria para a tua debilitada saúde e para o teu ânimo, e para a minha própria ansiedade e tensão, que não consigo deixar de sentir, se ao menos nos pudéssemos encontrar; se pudesse estar ao teu lado e apertar-te nos meus braços, ou se pudesse ao menos ver-te por breves instantes, através da espessa rede de arame que inevitavelmente nos haveria de separar.

O sofrimento físico não é nada em comparação com o ver espezinhados aqueles laços ternos do afecto que constituem a base da instituição do casamento e da família que unem marido e mulher. Este é um momento terrível na nossa vida. E um momento de desafio a crenças que acarinhamos, e que põe à prova muitas das nossas decisões. Mas enquanto eu tiver a prerrogativa de comunicar contigo, mesmo que ela possa ser meramente formal, e enquanto não me for expressamente retirada, os registos testemunharão o facto de que eu tentei honesta e seriamente comunicar contigo por escrito todos os meses. Devo-te isso, e nada me impedirá de o fazer. 



Talvez esta atitude um dia possa colher os seus frutos. Haverá sempre bons homens sobre a terra, em todos os países, e mesmo aqui no nosso. Um dia havemos de ter do nosso lado o apoio genuíno e firme de um homem recto e directo, com altas responsabilidades, que considerará impróprio fugir ao dever de proteger os direitos e prerrogativas mesmo dos seus mais aguerridos opositores na luta de ideias que está hoje a ser travada no nosso país; um representante que terá um sentido de justiça e equidade que nos garanta não apenas os direitos e prerrogativas que a lei hoje nos concede, mas que nos compensará por aqueles que nos foram retirados sub-repticiamente. 

Apesar de tudo o que tem acontecido nos vaivéns da sorte dos últimos 15 meses, tenho vivido na esperança e na expectativa. Por vezes creio mesmo que este sentimento faz parte integrante do meu ser. Parece estar fortemente arraigado dentro de mim. Sinto o meu coração pulsar constantemente com uma esperança que envia para todos os pontos do meu corpo, aquecendo o meu sangue, e animando-me.

Estou convencido de que vagas de desastres pessoais nunca conseguirão afogar um revolucionário determinado, nem as nuvens de infortúnio que acompanham a tragédia o poderão sufocar. Para um combatente pela liberdade, a esperança é como uma bóia de salvação para um nadador - uma garantia de que não irá ao fundo e estará a salvo de se afogar. Eu sei, minha querida, que se os ricos pudessem ser avaliados em termos das toneladas de esperança e coragem inquebrantável que albergas no teu peito (esta ideia foi a ti que a fui buscar) tu serias seguramente milionária. Lembra-te sempre disto.



Nelson Mandela, 
in 'Carta a Winnie Mandela,
 1 de Agosto de 1970' 


Carta de Amor que transcende espaços, credos, raças, de um Homem que mudou a face do mundo, trazendo-nos mais esperança no ser humano. 



Wes um cantor que adoro.
Sigamos os seus ritmos com um pé ou mais de dança.




MANDELA
Apesar de não carecer de apresentação, deixo aqui algumas indicações sobre a sua vida. Faz bem recordar.

Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo18 de julho de 1918 — Joanesburgo5 de dezembro de 2013) foi um advogado, líder rebelde presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, pai da moderna nação sul-africana, onde é normalmente referido como Madiba (nome do seu clã) ou "Tata" ("Pai"). Leia mais aqui.


====

Texto classificado como "Carta de Amor" - Citador
Imagem: daqui
Video - Youtube
Wes Madiko

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Conquista




Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

in 'Cântico do Homem'


(1907-1995)


A liberdade, uma conquista de todos os dias. Existem grilhões impensáveis. Importante "é quebrar dia a dia um grilhão da corrente".

Meus amigos, estarei ausente durante alguns dias. Vou para um sítio, fora do país, aonde nesta altura talvez não devesse ir. Mas, é condição essencial do ser que se quer livre arrostar alguns perigos, conscientemente, quando necessário.

Então, até um dia destes. E sejam felizes por cá.

Abraço.

Olinda


====

Poema: Citador
Imagem: Net