domingo, 11 de fevereiro de 2024

Éramos Tu e Eu





Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.
As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga

De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.
A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.

 




E o milagre mais uma vez acontece. 
O maior amor do mundo.






Violeta Parra
Gracias a la vida



***

Nota: amanhã teremos a publicação de dois poemas.





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Poema: Site de António Miranda

Dina Salústio (1957), pseudónimo adoptado por Bernardina de Oliveira Salústio, é uma antiga jornalista, professora e premiada escritora cabo-verdiana.Considerada a primeira mulher a escrever um romance em Cabo Verde e é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras. Foi por duas vezes distinguida pelo Governo de Cabo Verde, primeiro com a Medalha de Mérito Cultural e depois com a 1ª Classe da Medalha do Vulcão. aqui

sábado, 10 de fevereiro de 2024

De amor nada mais resta que um Outubro


Antigo o canto. Ardendo.
Gota a gota.
Em cada espanto.






De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

in “Poesia Completa”


***


O amor, com tantas faces e volte-faces. 
"É um contentamento descontente".




Zeca Afonso
Balada do Outono



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Citador: Poema

Natália de Oliveira Correia (1923-1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores.
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais...aqui

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Para ti criarei um dia puro


Escuta a linguagem da vida na sua profundeza e em
cada uma sentirás na diferença, a sua beleza.






Terror de te Amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.


in “Obra Poética”


***



O mundo, um sítio frágil, 

"Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa"
 
Urgente a criação de um 
Dia Puro




Mariza
Melhor de Mim




Nota: O título do post foi retirado de um dos versos do Poema.



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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui