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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

AQUI






Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in 'Dia do Mar'



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Ler mais






Boa sexta-feira, meus amigos.
Abraços
Olinda



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Poema - citador
Veja esta autora, aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Para ti criarei um dia puro


Escuta a linguagem da vida na sua profundeza e em
cada uma sentirás na diferença, a sua beleza.






Terror de te Amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.


in “Obra Poética”


***



O mundo, um sítio frágil, 

"Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa"
 
Urgente a criação de um 
Dia Puro




Mariza
Melhor de Mim




Nota: O título do post foi retirado de um dos versos do Poema.



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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé. aqui

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Não quero possuir a terra mas ser um com ela






Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.

inédito sem data

Sophia de Mello Breyner Andresen
in BN



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Título retirado do texto

terça-feira, 7 de novembro de 2023

A Paz sem Vencedores e sem Vencidos





Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
        (1919-2004)


"A poesia de 'Sophia de Mello Breyner Andresen é (…) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns Poetas de 1938" in Colóquio: Revista de Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959)








De regresso.
Tenham boa semana, amigos.
Abraços
Olinda

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Poema: citador

sábado, 26 de novembro de 2022

Há cidades...


Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen
  in Poesia, 1944



SOPHIA


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Numa pequena pausa, meus amigos.

Abraços

Olinda




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Poema: aqui

domingo, 6 de novembro de 2022

Sobre um desenho de Graça Morais




Nítido e leve ramo de oliveira:

Rijeza firme do tronco

As pálidas folhas como ponta de lança

E o pequeno fruto negro

Compacto e brilhante


in: Musa - 1994



Será esse o desenho de que fala Sophia? O que sei dizer é que com este poema homenageia a grande artista Graça Morais, a artista rural.

As origens e as tradições populares de uma artista nascida numa aldeia do distrito de Bragança, em Trás-os-Montes, e que viveu parte da sua infância (entre 1957 e 1958), em Moçambique, tornam-se a fonte de inspiração e temática privilegiada que, ao longo de mais 5 décadas, anima e acompanha o seu percurso artístico. Através da representação das gentes, sobretudo mulheres, das paisagens áridas e rurais, dos animais selvagens e domésticos, da flora autóctone, a artista explora nas suas obras cores quentes, texturas intensas e traços marcantes, que figuram uma visão muito própria do mundo que a sensibiliza. Veja mais aqui E pesquise sobre a sua obra aqui, por exemplo.



Transfere a arte do Paleolítico para a sua pintura


Graça Morais conclui, em 1971, o curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Entre 1976 e 1979 foi bolseira em Paris da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1984 representou Portugal na XVII Bienal de São Paulo, Brasil. Em 1997 foi agraciada pelo Presidente da República Jorge Sampaio com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (CACGM) foi inaugurado em 2008 em Bragança. Em 2019 a Ministra da Cultura Graça Fonseca entregou-lhe a Medalha de Mérito Cultural em nome do Governo Português.



Madredeus
Grupo musical de excelência
E a voz de Teresa Salgueiro, incomparável!


Hoje, dia 6, data do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, faço aqui o encontro destas duas grandes Mulheres.



Pintura de Graça Morais
Guerra, Verão de 2008

Capa da Revista Seara Nova
Edição Primavera 2020
Nº 1750


Nota: Quanto a esta obra ver, p.f., o comentário de Manuel Veiga.

Continuação de boa semana.




(Post actualizado em 9/11.)

Abraços
Olinda


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Veja de Sophia, aqui, no "Xaile de Seda"

"Sobre um desenho de Graça Morais" é o titulo do poema.

Flores - daqui

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Eu queria ser Poeta



Para fazer um mar de Poesia

E comparar tua beleza 

com a natureza

Nem mar nem lua cheia

nem sol brilhante 

nem noite serena

se comparam 

à formosura 

do teu corpo
...


Paulino Vieira diz-nos isto, e muito mais, 
nesta linda Morna. 
Desejo-vos um ANO NOVO,
pleno de esperança.



BOM ANO DE 2021

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Meus amigos, como vêem, os que já aqui estiveram, acrescentei um belo Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, autora que todos nós admiramos.

Muito grata pela companhia e belos comentários, aqui, no Xaile de Seda.

Abraços.


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Imagem: daqui

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Poema de Amor de António e Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.






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(1919-2004), 
-In: No tempo dividido, 1954-
 "Obra poética I", 

Poema enviado por Teresa Dias,
Rol de Leituras, e publicado
aqui, no Xaile

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

"Pour ma Sofie"


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa






NAVEGAVAM SEM O MAPA QUE FAZIAM
    (Atrás deixando conluios e conversas)

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Título do Post, Exposição Pour ma Sofie
Pesquisa no "Xaile de Seda": SOPHIA
Poema: daqui

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.


in No Tempo Dividido, 1954






Façamos de conta que este poema é uma carta de amor, obedecendo ao tema proposto. Penso reconhecer-lhe juras e propósitos afins. 

Não resisto e transcrevo mais este poema:

Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa


in Geografia, 1967





Sobre a autora, Sophia de Mello Breyner Andresen, li hoje a notícia de que está a circular por aí um poema apócrifo, de nome O Mar dos meus olhos. Não o transcrevo para não aumentar a proliferação, se for o caso. Consta que a filha tem procurado desfazer o equivoco, mas é uma luta desigual.


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Poema transcritos - daqui (BN)
Imagem daqui
Video youtube
Notícia aqui

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A menina dança?


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

in Coral, 1950






MAP Desde quando este interesse pela dança e como?

Desde sempre. A dança é um elemento dionisíaco ligado ao ritmo e à despersonalizacão. No poema sobre Bakkhos também se fala de uma consciência múltipla...


MAP Chegou a dançar, a aprender bailado?

Eu vivia no Porto quando era pequena e não havia nenhuma escola de ballet. Inventava danças sozinha. Anos depois não perdia os bailados que apareciam. Mas era tarde para aprender. Dançava muito sozinha e, quando os meus filhos eram pequenos, dançava para eles.


MAP Às vezes ainda dança, Sophia?

…Muitas vezes imagino bailados e argumentos para bailados.

E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô – que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas – um lugar onde eu entrava em bicos de pés – e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach – talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro. Resposta a EPC






Não poucas vezes tenho-me valido do talento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), para abrilhantar este pequeno espaço. Em 2014, logo no mês de Janeiro, publiquei, durante alguns dias, poesia e prosa da sua autoria, excertos de entrevistas, pormenores da sua vida e obra. Além disso, em anos e dias esparsos a autora tem sido, aqui, uma presença muito querida.

Hoje, o "Xaile de Seda" faz oito anos. Para assinalar este dia fui buscar um poema e passagem de uma entrevista que nos trazem fragmentos do seu interesse por mais duas áreas artísticas: a música e a dança.

Tenham uma boa terça-feira.

Abraço 



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Poema e excerto de entrevista daqui (BN)

Imagens: daqui

No blogue da Majo, "A vivenciar a vida", encontrareis referências às comemorações do Centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen. 

O título do post: Lembrei-me do romance de Rita Ferro: "A menina dança?"


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Poema de Amor de António e Cleópatra

De: Teresa Dias
Blogue: Rol de Leituras







Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen,  
(1919-2004), 
 "Obra poética I", 
Círculo de Leitores, 1992

Palavras de Teresa Dias:

Estou encantada com os poemas da "quinzena do amor".
Aqui lhe mando a minha escolha. Um pequenino mas belo poema da ENORME Sophia,


Obrigada, amiga.




Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passou a infância. Em 1939-1940 estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis. Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses. Ler mais aqui


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Quinzena do Amor



domingo, 2 de julho de 2017

Porque






Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
               
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

in: Mar Novo, 1958

     6/Nov/1919 - 2/Jul/2004

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Imagem: aqui

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Para atravessar contigo o deserto do mundo





Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento 

Sophia de Mello BreynerAndresen
           1919-2004

 Palavras de Sophia:"Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema». A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». (…) Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo." aqui

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Poema do Citador
Imagem: Internet

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura

Comecei a tentar escrever com 12 anos. Depois aos 14 escrevi mais e a partir daí fui sempre escrevendo. Aí entre os 16 e os 23 escrevi mais do que em todo o resto da minha vida. Tenho imensa coisa por publicar dessa época. Sophia




Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.


Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

In Poesia, 1944

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JCV Os poemas mais antigos são...De quando tinha para aí 14 anos. Logo do princípio.

JVC Os primeiros versos incluídos na «Poesia» escreveu-os apenas com 14 anos!?
Sim, alguns, só dois ou três. Às vezes eram poemas muito mais compridos e que eu cortava, cortava, até ficarem três ou quatro versos. Mesmo no «Dia do Mar» há um poema que era muito longo e que ficou reduzido a dois versos. Chama-se «Evohé Bakhos».

MAP Há dois dos seus primeiros poemas intitulados, um, «Homens à beira-mar», outro, «Mulheres à beira-mar». As mulheres «têm o corpo feliz de ser tão seu» e «a boca colada ao horizonte». Os homens «nada trazem consigo» e os horizontes são-lhes longínquos e o seu corpo «é só um nó de frio»...Esses poemas têm a ver com as manhãs da Granja, com as manhãs da praia. E também com um quadro de Picasso. Há um quadro de Picasso chamado «Mulheres à beira-mar». Ninguém dirá que a pintura do Picasso e a poesia de Lorca tenham tido uma enorme influência na minha poesia, sobretudo na época do Coral... E uma das influências do Picasso em mim foi levar-me a deslocar as imagens. Quanto ao mais, eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem... Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença...


                      1919-2004


Excertos de entrevistas:
Aqui: Biblioteca Nacional

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Não sei rezar. Nunca gostei de repetir fórmulas...Às vezes, ao tentar dormir, digo coisas a Deus.


A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por já não ser minha

Último poema de Ilhas, 1989








JO Se tivesse a força para mudar qualquer coisa, o que mudaria?
A diferença entre ricos e pobres

JO De que tem medo nesta vida?
Tenho medo de viver ainda muitos anos. Viver pode ser muito agradável até aos 60, 65 anos. Depois, começa a ser complicado.

JO Já disse que estar feliz é fundamental para escrever bem. Tem uma obra muito extensa, isto significa que foi muito feliz?
Talvez. Hoje escrevo pouco, falta-me aquela felicidade que eu tinha. A relação com a natureza, com o mar, com a terra.

JO O que gostaria de ver realizado em Portugal neste novo século?
Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres. Mais justiça para os pobres e menos ambições para os ricos. O resto é-me indiferente.

JO O que considera mais importante na sua vida?
Foi importantíssimo o nascimentos dos meus filhos.

...Nunca consegui escrever quando estava a sofrer ou com qualquer dor. Fluía melhor quando me encontrava feliz.


Sophia de Mello Breyner Andresen
           1919-2004


Excerto de entrevista: Joaci Oliveira
Aqui:Biblioteca Nacional de Portugal

Ver também Ciclo Sophia, aqui ao lado,
nas etiquetas.