quinta-feira, 30 de maio de 2024

Busque amor novas artes...



Busque amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças:
que não temo contastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói e não sei porquê.




Dizia com razão Faria e Sousa que os 11 primeiros versos deste soneto eram dignos do seu mestre, Camões, mas que o último terceto era digníssimo de Apolo, o deus que presidia à inspiração poética.
 
Efectivamente, o soneto versa de modo engenhoso e subtil as vicissitudes do amor e o papel da esperança nesse jogo arriscado, que o poeta compara ao naufrágio dum mar temprestuoso. Às esquivanças do amor o namorado opunha, ou fingia opor, um certo desprendimento, vizinho da indiferença. 

Pura ilusão: era uma "perigosa segurança", que o amor, avesso à indiferença, se encarregava de desfazer, instilando-lhe na alma os germes do sofrimento.

In Líricas, Selecção prefácio e notas de Rodrigues Lapa
Pg.46




- Miragem -



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Lembro-me desta canção numa telenovela brasileira...Gosto muito dela.

. Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Uma réstia de azul


Para onde nos atrai o olhar?



Meus amigos

Vou hoje de férias. Não sei se poderei visitar-vos durante esse período, um mês, dependendo da facilidade ou não de ter internet. Contudo, o Xaile de Seda, continuará, aqui, a fazer-vos companhia como vereis...

Deixo-vos, para já, a Dinola Melo, no seu jeito melodramático, e Jorge Fernando com a sua canção "Chuva". 

E mais: aqui fica a imagem trazida do blogue de Teresa Dias que nos desafia a olhar mais além.


TERRA AMADA

Terra amada, mas avara
Guardas em ti ciosamente
O tesouro que me foi dado
E tirado das minhas mãos
Quando não sabia chorar

Estoicamente aceitei o fardo
A vida ainda no seu início
Havia tempo, arranjaria outro
A solidão parecia quimérica

Terra ardente, pisei o teu solo
E nele se deu o grande milagre:
O encontro de tempos paralelos
Mas, guardaste para ti a melhor
Parte!
                               
Dinola Melo


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CHUVA
JORGE FERNANDO
 

***

Saúde.

Abraços
Olinda



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terça-feira, 28 de maio de 2024

O nome sepultado nas águas (7)

Apesar de todas as incertezas, qualquer especialista concorda, hoje, que Dinamene foi a grande referência na construção do ideal camoniano do amor. A sua serenidade, a sua calma, o seu jeito solene e angélico de se mover e falar, a sua compreensão infinda, a paz enorme, um ser mais perene pelo carácter do que pela beleza física.

A juntar à sua formação humanista, às referências das figuras de Beatriz e Laura, em Dante e Petrarca, aperfeiçoou Camões o ideal da mulher amada: doce, paciente, branda e humilde, de um sofrimento obediente e um medo sem culpa, pura nos sentimentos, espalhando o bem em sua volta - como Dinamene -, o acontecimento mais suave da vida de Luís, um apontamento de mansidão na sua existência de tempestade.

Até 1567, ficou preso em Goa; no regresso a Portugal, é abandonado na costa de Moçambique por motivos pouco claros; aí, passados dois anos, o amigo e historiador Diogo de Couto encontra-o e fá-lo, por fim, embarcar de regresso à Pátria, dezassete anos depois de ter sido forçado a deixá-la e já sem os originais do seu Parnaso.



Em 71, obteve a licença da Inquisição de publicação para Os Lusíadas, o que viria a suceder no ano seguinte. Oito anos volvidos, pobre e abandonado, calculada a sua idade em cinquenta e seis anos, viria a morrer Luís Vaz de Camões, sem a certeza de ter salvo todas as páginas do manuscrito nem voltado a encontrar outro verdadeiro amor.

Excerto: 10 histórias de amor em Portugal, de Alexandre Borges, pgs.40/41.


Uma história de amor que põe frente a frente dois amores:
 Dinamene e a obra épica de Camões..

Quem venceu este duelo? Aparentemente, 
o manuscrito, ou seja, Os Lusíadas
dedicado a D.Sebastião.

Em vida, Luís Vaz de Camões não provou o 
sabor desta fama...


Abraço
Olinda


Último post.



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.Título da história: Dinamene e Luís de Camões
.Subtítulo: O nome sepultado nas águas (usei-o como título do post)
.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões