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segunda-feira, 29 de abril de 2024

A Casa dos Estudantes do Império

Por ironia do destino o Estado Novo concentrou os estudantes das colónias numa mesma instituição, a que deu o nome de "Casa dos Estudantes do Império". 

Há quem diga que foi o berço dos líderes africanos.



A referida Casa ficava na Avenida Duque D’Ávila, nº 23, na esquina com a Rua Dona Estefânia, na zona das Avenidas Novas, em Lisboa.

A instituição foi oficializada em 1944 e funcionou como tal até 1965. Estava aberta a todos os estudantes das colónias.



Posteriormente, alguns desses jovens formaram o Movimento Anticolonial (MAC), que se colocou num plano político de oposição frontal ao regime colonial português. Do MAC saíram alguns dos fundadores e dos dirigentes de certos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas, entre eles:

  • do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA): Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Gentil Viana;

  • do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC): Amílcar Cabral, Vasco Cabral;

  • do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV): Pedro Pires;*

  • da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO): Marcelino dos Santos, Hélder Martins, Sérgio Vieira, Joaquim Chissano;

  • do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe – Partido Social Democrata (MLSTP): Guadalupe de Ceita, Alda do Espírito Santo, Francisco José Tenreiro, Miguel Trovoada;

  • do Partido Popular de Goa (PPG): Aquino de Bragança.[

De notar que o PAICV referente a Cabo Verde só tomou essa designação tempos depois da independência (1981). Dantes era PAIGC, para a Guiné e Cabo Verde.



O Prédio actualmente 




Em homenagem ao que representou, a Câmara Municipal de Lisboa mandou colocar, no chão, esta placa.


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Leia mais pormenores e como funcionava aqui e aqui.


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sexta-feira, 26 de abril de 2024

The day after...

Ou os dias que se seguiram...

Depois da euforia da libertação de mentes e de corpos, depois de 48 anos* de ditadura, depois das guerras de libertação, depois de tantas mortes, de jovens estropiados tanto cá como lá, de famílias desmembradas, a alegria e o espanto tomaram conta das pessoas em todo o espaço português e africano. Devemo-lo aos capitães do exército português, fartos de serem mandados para lutar em terras de outrem e aos movimentos africanos que pegaram em armas para exigir o que era seu de direito. 

Depois do golpe militar havia que descortinar o que fazer aos presos políticos, libertá-los logo ou ponderar os prós e os contras, isto é, distinguir aqueles que se encontravam detidos por motivos ideológicos dos que eram réus de crimes comuns... Havia que resolver os problemas cá dentro que eram muitos. 

Era o PREC, processo revolucionário em curso, era a reforma agrária, eram as aspirações do povo tanto tempo amordaçado e também os saneamentos e exílios decorrentes da nova ordem política. Mas havia as colónias que ansiavam há muito pela recuperação dos seus territórios. Muito a fazer, com a pressão do acontecimento histórico, trabalho dos partidos políticos que, entretanto, saíram da sombra imposta pelo regime.


Assinatura do Acordo do Alvor


Tempos complicados esses das negociações. 

Refiro apenas o Acordo do Alvor (Janeiro de 1975) assinado entre o governo português e os principais movimentos de libertação de Angola — Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) — em Janeiro de 1975, em Alvor, no Algarve. O acordo estabeleceu os parâmetros para a partilha do poder, ou seja, foi estabelecido com o propósito de equilibrar o poder entre os três movimentos acima já mencionados após a obtenção da independência de Angola, tida como necessária pelos dirigentes do novo regime português. 

Faltam aqui o PAIGC, (Guiné e Cabo Verde), a FRELIMO, (Moçambique), MLSTP (São Tomé e Príncipe)... Outros Acordos foram sendo assinados entre representantes portugueses e movimentos africanos.

Almeida Santos nas suas "Quase Memórias: Esta é a minha Verdade!", dois volumes, fala sobre esses tempos. Falei desta obra aqui
Estas são as palavras que vêm na contra-capa:

"Longa como as estradas da Galileia foi esta digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização. A partir de agora, este livro deixa de ser meu. Não faço a menor ideia de como possa ser acolhido pela opinião pública portuguesa. Talvez agrade a alguns. Desagradará necessariamente a muitos, tão amargas são algumas das recordações que evoca. Mas, quem se põe a remexer na história, não pode satisfazer-se só com uma parte dela. Não pode deixar de tentar ser exaustivo, objectivo e verdadeiro. Esta é a minha verdade sobre o estertor do colonialismo e sobre o dossier da descolonização; sobre os mais salientes acidentes do processo revolucionário posterior a Abril que lhe determinaram o tempo, o modo e o resultado final. Deixo ligados a tudo isso inolvidáveis momentos da minha vida. Nem todos agradáveis. Apesar disso, foi reconfortante recordá-los."

De ler. Uma verdade vista pelos olhos de quem se encontrava comprometido com a situação, mas os factos estão lá e a coragem de quem resolveu expô-los.

Boa sexta-feira, meus amigos.

Abraço
Olinda



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Imagem: Net

Nota:"As motivações da criação do Movimento dos Capitães começaram por estar relacionadas com problemas de carreira e com o descontentamento crescente nas Forças Armadas pela manutenção da guerra..." aqui

*Incluídos os períodos da Ditadura Militar, de 1926 a 1928, e da Ditadura Nacional, de 1928 a 1933. Alguns historiadores designam como sendo Ditadura Militar o período de 1926 a 1933. Com o tempo da ditadura do Estado Novo perfazem 47 anos, dez meses e vinte e quatro dias, pelas contas de José Cardoso Pires. aqui