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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Quase Memórias: Esta é a minha Verdade!

Hoje mais do que nunca o trabalho do historiador se mostra exigente. Com a sua capacidade de lançar olhares de conjunto, privilegiando o todo para o decompor em partes, é nessa tarefa que se deverá concentrar. Qualquer que seja o género de História que pretenda desenvolver, regional ou geral, é sua obrigação deixar portas abertas, pistas que outros possam seguir no sentido de se tentar compreender e completar ciclos que parecem isolados mas que na realidade se interpenetram.


Isto para dizer que todos os dados, todas as memórias, todos os documentos são imprescindíveis como material de análise histórica. Esta obra de António de Almeida SantosQuase Memórias, é um instrumento importante, aliado a tantos outros, para se compreender uma época que continua a causar-nos perplexidade.

Trata-se de um trabalho minucioso baseado na documentação produzida em todo o processo de independência das ex-colónias, conversações, tratados e também na sua visão pessoal, introduzindo a sua própria interpretação, as suas vivências e experiências.

    

"Longa como as estradas da Galileia foi esta digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização. A partir de agora, este livro deixa de ser meu. Não faço a menor ideia de como possa ser acolhido pela opinião pública portuguesa. Talvez agrade a alguns. Desagradará necessariamente a muitos, tão amargas são algumas das recordações que evoca. Mas, quem se põe a remexer na história, não pode satisfazer-se só com uma parte dela. Não pode deixar de tentar ser exaustivo, objectivo e verdadeiro. Esta é a minha verdade sobre o estertor do colonialismo e sobre o dossier da descolonização; sobre os mais salientes acidentes do processo revolucionário posterior a Abril que lhe determinaram o tempo, o modo e o resultado final. Deixo ligados a tudo isso inolvidáveis momentos da minha vida. Nem todos agradáveis. Apesar disso, foi reconfortante recordá-los."


Esta é a mensagem impressa na contra-capa da referida obra, composta de dois volumes, editada em Setembro de 2006. Normalmente, escrevo a lápis a data em que adquiro os livros e neste consta 2006/10/27, o que demonstra o meu interesse por esta matéria. É um livro que não se consegue ler de uma assentada. É para ser lido com tempo e, assim sendo, levei o meu tempo a fazê-lo. O 1º Volume traz o subtítulo: Do Colonialismo e da Descolonização. E o 2º : Da Descolonização de cada Território em Particular.

Estamos, de novo, a atravessar tempos que exigem de nós reflexão e grande sentido de responsabilidade. Isso, tanto no que diz respeito aos problemas nacionais como em relação a Europa, espaço onde nos encontramos inseridos. E, não há dúvida, esta Europa necessita urgentemente de ser repensada, regressando ao momento em que foi idealizada e reavaliando os seus objectivos.

Quanto ao panorama nacional, passa-se uma situação bastante interessante. No que se refere às eleições europeias de há três dias, os resultados por cá, no chão nacional, estão completamente obliterados. Já não se sabe bem quem as ganhou e quem as perdeu... Já não se sabe se houve uma vitória histórica... ou uma derrota histórica. E na liça temos mais um lidador. Que os mais altos interesses da pátria se alevantem.   


Nota: Por motivos vários, só hoje me foi possível fazer este post referente a esta obra de Almeida Santos, prometido há já um mêsAs duas imagens são do 1º e 2º volumes. 

NOTA EM 19/01/2016: 
NA DATA DA MORTE DE ALMEIDA SANTOS, FAÇO A REEDIÇÃO DESTE TEXTO QUE PRODUZI E PUBLIQUEI EM 28 DE MAIO DE 2014.    

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quase Memórias: Esta é a minha Verdade!

Hoje mais do que nunca o trabalho do historiador se mostra exigente. Com a sua capacidade de lançar olhares de conjunto, privilegiando o todo para o decompor em partes, é nessa tarefa que se deverá concentrar. Qualquer que seja o género de História que pretenda desenvolver, regional ou geral, é sua obrigação deixar portas abertas, pistas que outros possam seguir no sentido de se tentar compreender e completar ciclos que parecem isolados mas que na realidade se interpenetram.

Isto para dizer que todos os dados, todas as memórias, todos os documentos são imprescindíveis como material de análise histórica. Esta obra de António de Almeida Santos, Quase Memórias, é um instrumento importante, aliado a tantos outros, para se compreender uma época que continua a causar-nos perplexidade.

Trata-se de um trabalho minucioso baseado na documentação produzida em todo o processo de independência das ex-colónias, conversações, tratados e também na sua visão pessoal, introduzindo a sua própria interpretação, as suas vivências e experiências.

    

"Longa como as estradas da Galileia foi esta digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização. A partir de agora, este livro deixa de ser meu. Não faço a menor ideia de como possa ser acolhido pela opinião pública portuguesa. Talvez agrade a alguns. Desagradará necessariamente a muitos, tão amargas são algumas das recordações que evoca. Mas, quem se põe a remexer na história, não pode satisfazer-se só com uma parte dela. Não pode deixar de tentar ser exaustivo, objectivo e verdadeiro. Esta é a minha verdade sobre o estertor do colonialismo e sobre o dossier da descolonização; sobre os mais salientes acidentes do processo revolucionário posterior a Abril que lhe determinaram o tempo, o modo e o resultado final. Deixo ligados a tudo isso inolvidáveis momentos da minha vida. Nem todos agradáveis. Apesar disso, foi reconfortante recordá-los."



Esta é a mensagem impressa na contra-capa da referida obra, composta de dois volumes, editada em Setembro de 2006. Normalmente, escrevo a lápis a data em que adquiro os livros e neste consta 2006/10/27, o que demonstra o meu interesse por esta matéria. É um livro que não se consegue ler de uma assentada. É para ser lido com tempo e, assim sendo, levei o meu tempo a fazê-lo. O 1º Volume traz o subtítulo: Do Colonialismo e da Descolonização. E o 2º : Da Descolonização de cada Território em Particular.

Estamos, de novo, a atravessar tempos que exigem de nós reflexão e grande sentido de responsabilidade. Isso, tanto no que diz respeito aos problemas nacionais como em relação a Europa, espaço onde nos encontramos inseridos. E, não há dúvida, esta Europa necessita urgentemente de ser repensada, regressando ao momento em que foi idealizada e reavaliando os seus objectivos.

Quanto ao panorama nacional, passa-se uma situação bastante interessante. No que se refere às eleições europeias de há três dias, os resultados por cá, no chão nacional, estão completamente obliterados. Já não se sabe bem quem as ganhou e quem as perdeu... Já não se sabe se houve uma vitória histórica... ou uma derrota histórica. E na liça temos mais um lidador. Que os mais altos interesses da pátria se alevantem.   


Nota: Por motivos vários, só hoje me foi possível fazer este post referente a esta obra de Almeida Santos, prometido há já um mêsAs duas imagens são do 1º e 2º volumes.    


domingo, 27 de outubro de 2019

Essa que eu hei de amar




Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"


     (1890-1969)


No passado mês de Julho, apresentei, no Xaile, Guilherme de Almeida, poeta modernista, chamado "O Príncipe dos Poetas Brasileiros", com a sua poesia e alguns elementos biográficos, num total de onze posts. Não terei dito tudo a seu respeito, naturalmente. Hoje, trago mais este poema, para assinalar o Dia Nacional da Poesia, no Brasil, país que através dos seus Autores e iniciativas culturais muito prestigia a Literatura e o amor à Língua Portuguesa.

Trarei também, até 31 de Outubro*, poemas de Castro Alves e de Carlos Drummond de Andrade.



Santos e Pecadores (O.Bilac) - Fala-me de amor



* Dia nacional da Poesia, no Brasil. 
Inicialmente comemorado a 14 de Março, data do nascimento de Castro Alves, foi posteriormente instituído o dia 31 de Outubro, assinalando o dia do nascimento de Drummond de Andrade.

Espero aqui os amigos brasileiros, para me dizerem de sua justiça. :)

Bom domingo a todos.

Abraço.



=====

Veja, sobre Guilherme de Almeida:
Posts:  IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXX, XI

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Poema - daqui
Imagem - daqui


sexta-feira, 26 de abril de 2024

The day after...

Ou os dias que se seguiram...

Depois da euforia da libertação de mentes e de corpos, depois de 48 anos* de ditadura, depois das guerras de libertação, depois de tantas mortes, de jovens estropiados tanto cá como lá, de famílias desmembradas, a alegria e o espanto tomaram conta das pessoas em todo o espaço português e africano. Devemo-lo aos capitães do exército português, fartos de serem mandados para lutar em terras de outrem e aos movimentos africanos que pegaram em armas para exigir o que era seu de direito. 

Depois do golpe militar havia que descortinar o que fazer aos presos políticos, libertá-los logo ou ponderar os prós e os contras, isto é, distinguir aqueles que se encontravam detidos por motivos ideológicos dos que eram réus de crimes comuns... Havia que resolver os problemas cá dentro que eram muitos. 

Era o PREC, processo revolucionário em curso, era a reforma agrária, eram as aspirações do povo tanto tempo amordaçado e também os saneamentos e exílios decorrentes da nova ordem política. Mas havia as colónias que ansiavam há muito pela recuperação dos seus territórios. Muito a fazer, com a pressão do acontecimento histórico, trabalho dos partidos políticos que, entretanto, saíram da sombra imposta pelo regime.


Assinatura do Acordo do Alvor


Tempos complicados esses das negociações. 

Refiro apenas o Acordo do Alvor (Janeiro de 1975) assinado entre o governo português e os principais movimentos de libertação de Angola — Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) — em Janeiro de 1975, em Alvor, no Algarve. O acordo estabeleceu os parâmetros para a partilha do poder, ou seja, foi estabelecido com o propósito de equilibrar o poder entre os três movimentos acima já mencionados após a obtenção da independência de Angola, tida como necessária pelos dirigentes do novo regime português. 

Faltam aqui o PAIGC, (Guiné e Cabo Verde), a FRELIMO, (Moçambique), MLSTP (São Tomé e Príncipe)... Outros Acordos foram sendo assinados entre representantes portugueses e movimentos africanos.

Almeida Santos nas suas "Quase Memórias: Esta é a minha Verdade!", dois volumes, fala sobre esses tempos. Falei desta obra aqui
Estas são as palavras que vêm na contra-capa:

"Longa como as estradas da Galileia foi esta digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização. A partir de agora, este livro deixa de ser meu. Não faço a menor ideia de como possa ser acolhido pela opinião pública portuguesa. Talvez agrade a alguns. Desagradará necessariamente a muitos, tão amargas são algumas das recordações que evoca. Mas, quem se põe a remexer na história, não pode satisfazer-se só com uma parte dela. Não pode deixar de tentar ser exaustivo, objectivo e verdadeiro. Esta é a minha verdade sobre o estertor do colonialismo e sobre o dossier da descolonização; sobre os mais salientes acidentes do processo revolucionário posterior a Abril que lhe determinaram o tempo, o modo e o resultado final. Deixo ligados a tudo isso inolvidáveis momentos da minha vida. Nem todos agradáveis. Apesar disso, foi reconfortante recordá-los."

De ler. Uma verdade vista pelos olhos de quem se encontrava comprometido com a situação, mas os factos estão lá e a coragem de quem resolveu expô-los.

Boa sexta-feira, meus amigos.

Abraço
Olinda



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Imagem: Net

Nota:"As motivações da criação do Movimento dos Capitães começaram por estar relacionadas com problemas de carreira e com o descontentamento crescente nas Forças Armadas pela manutenção da guerra..." aqui

*Incluídos os períodos da Ditadura Militar, de 1926 a 1928, e da Ditadura Nacional, de 1928 a 1933. Alguns historiadores designam como sendo Ditadura Militar o período de 1926 a 1933. Com o tempo da ditadura do Estado Novo perfazem 47 anos, dez meses e vinte e quatro dias, pelas contas de José Cardoso Pires. aqui


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Dia do Trabalhador

É a primeira vez que assinalo, aqui, o 1º de Maio. Nestes 50 anos da Revolução achei por bem mencioná-lo. Foi graças a esse acontecimento, que nos trouxe a liberdade de expressão e de estar, que se tem podido festejar o Dia do Trabalhador, como é designado.

Hoje há que festejar o Dia e relembrar uma vez mais o país que tínhamos. E nada melhor do que Ary dos Santos, com a sua verve poética e declamação inspiradora para nos transmitir todos os detalhes.


Era uma vez um País
....onde entre o mar e a guerra,
 vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra...



Ary dos Santos 
As Portas que Abril Abriu

***



***

E Graça Pires, neste belo poema, fala na mudança operada nas gentes depois da Revolução de Abril de 1974:


O país não parecia o mesmo,

Antes tinha um povo tristonho,

cabisbaixo, desacertado com a esperança.

Agora dava gosto ver e ouvir as pessoas,

mais leves, mais jovens, com braçadas

de flores a intuir alegrias futuras.

Não havia mágoas neste dia prodigioso

em que tudo era novo outra vez.

Alta noite iriam todos para casa

porque a febre dos corpos lhes apetecia.

in: Era madrugada em Lisboa
pg 31


***

Fernando Tordo


-Adeus Tristeza-


***



Esta data tem origem na primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886.

Três anos depois, em 1891, o Congresso Operário Internacional convocou, em França, uma manifestação anual, em homenagem às lutas sindicais de Chicago. A primeira acabou com 10 mortos, em consequência da intervenção policial.

Foram os factos históricos que transformaram o 1 de maio no Dia do Trabalhador. Até 1886, os trabalhadores jamais pensaram exigir os seus direitos, apenas trabalhavam.  (
Veja mais aqui)


***



Os meus agradecimentos a todos quantos me acompanharam durante o último mês, em que se versou, aqui, sobre a Liberdade.

Abraços

Olinda 

***

Querida Olinda,

Fica-me um sorriso nos lábios
Nem sei se sobe ou desce
Digo que me inunda
Somos povo liberto e libertário
Cravos rubros e abertos
Como abraços fraternos
E quando a inquietação nos dominar
Lembremos que somos "filhos da madrugada"
Felizes por vivermos uma revolução
Perfumada de sentimentos de união
E acreditarmos que viver é lutar
Por um poema maior
Feito de vida, sangue e lágrimas
Lágrimas que vertem a comoção
De dignificar o mundo do trabalho
E honrar o campo, a enxada, o arado
A caneta, o papel e o livro
Saído das mãos do trabalhador.

Um abraço imenso.

***

Querida Teresa

Emocionada com o seu gesto tão lindo.
Um poema que nos toca o coração.
Uma homenagem ao 25 de Abril e ao
Dia do Trabalhador. 
Uma surpresa muito muito agradável. 
:)
Beijinhos
Olinda


===

José Carlos Pereira Ary dos Santos
(Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 7 de Dezembro de 1937– Lisboa, Santiago, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.

Graça Pires - Do seu Livro mais recente:
 "Era madrugada em Lisboa - Louvor a um dia com tantos dias dentro"


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Do quadro revolucionário ao protocolo institucional

No dizer de Pierre Goubert, as revoluções perturbam as próprias bases do governo e da legislação, reclassificam os grupos sociais, revelam homens novos e frequentemente jovens, deslocam pelo menos em parte a propriedade e renovam sensivelmente as ideias, as mentalidades e as paixões.

Isto dito num contexto de análise de uma outra revolução, num outro tempo e espaço geográfico, mas que vem ao encontro das especificidades do ambiente vivido na sequência da Revolução de Abril de 1974, durante o chamado Prec, processo revolucionário em curso, período conturbado com acções como a reforma agrária, nacionalizações, saneamentos, movimentos populares que culminaria no golpe militar de 25 de Novembro de 1975. Nem sempre imperara o bom senso e sabemos que muitos acabariam por abandonar o país por terem ficado sem os seus bens e sofrido lamentáveis reveses.



A calma foi voltando, entretanto. Em 1976 foi aprovada a nossa Lei Fundamental, a Constituição que veio substituir a de 1933, com uma nova visão sobre a sociedade. O Estado de direito afirmou-se, funcionando em pleno através das suas instituições. 

Assim sendo, esbatido o inicial fulgor revolucionário e, tendo como referência as comemorações oficiais relativas à Revolução de Abril de 1974, estas já não acontecem nas ruas nem nas praças, nem em tribunas improvisadas, com vozes inflamadas e discursos apaixonados. É lá dentro, no hemi-ciclo parlamentar que tudo acontece, obedecendo a protocolos, através das vozes dos representantes que elegemos, na presença de auditório convidado para o efeito. Tudo muito direitinho e organizadinhho.



Mas cá fora também tivemos a nossa comemoração assinalando a data que tantas mudanças operou, quiçá mais espontânea embora não tão festiva como gostaríamos que fosse. Muito tempo se passou já e, como sabemos, o tempo não perdoa. Emocionou-me ver aquelas cabeças grisalhas, militares e populares anónimos, agora na casa dos sessenta e setenta ou um pouco mais. Imaginei-os há quatro décadas, jovens de 20 e tal anos, uns tomando decisões cruciais e outros pulando, gritando e cantando, dando vivas a uma revolução, aliás, a uma situação cujo alcance não percebiam ainda muito bem.



Neste momento, a geração sobreviva, perante a crise financeira e de valores que atravessamos, ainda procura a antiga chama de modo a alimentar rasgos de patriotismo. Ouvi um comentador dizer, num dos canais de tv, nas vésperas do dia 25: Nós, os que temos agora 40 anos, somos os filhos daquela madrugada... E gostei. Que esta geração e as vindouras, filhos dos filhos dos filhos daquela madrugada, possam receber em suas mãos, amorosamente, o testemunho em direcção à longa caminhada que está por fazer.

*****

Voltarei, na terça ou quarta, com o meu último post relacionado com a etiqueta Leituras de Abril. Desta feita trarei Almeida Santos, em Quase Memórias.

Tenham um bom fim de semana.

Abraço

Olinda


Nota: Por motivos técnicos não pude publicar este post no sábado. Então, os meus votos vão agora para um belíssimo início de semana. :)

*****

Ouvir: Filhos da madrugada, de Zeca Afonso

Referência a Pierre Goubert, in: História Concisa de França, Vol.II, pg.7
Imagens retiradas da internet 

quinta-feira, 27 de março de 2014

- Romeiro, Romeiro! quem és tu? - Ninguém.




CENA XIV

Madalena, Jorge e Romeiro

****

Jorge - Sois português?

Romeiro - Como os melhores, espero em Deus.

Jorge - E vindes?...

Romeiro - Do Santo Sepulcro de Jesus Cristo.

Jorge - E visitastes todos os Santos Lugares?

Romeiro - Não os visitei; morei lá vinte anos cumpridos.

Madalena - Santa vida levastes, bom romeiro.

Romeiro - Oxalá! Padeci muita fome, e não a sofri com paciência; deram-me muitos maus tratos, e nem sempre os levei com os olhos n'Aquele que ali tinha padecido tanto por mim... Queria rezar e meditar nos mistérios da Sagrada Paixão que ali se obrou..., e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do coração e do espírito, que os não deixavam estar com Deus, nem naquela terra que é toda Sua. Oh! não merecia estar onde estive: bem vedes que não soube morrer lá.

....

Madalena - Pois éreis cativo em Jerusalém?

Romeiro - Era: não vos disse que vivi lá vinte anos?

Madalena - Sim, mas...

Romeiro - Mas o juramento que dei foi de que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós e vos diria da parte de quem me mandou...

....

Madalena (Aterrada.)
             - E quem vos mandou homem?

Romeiro - Um homem foi, e um honrado homem a quem unicamente devi a liberdade... a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade e vim.

Madalena - Como se chama?

Romeiro - O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro.

Madalena - Mas, enfim, dizei vós...

Romeiro - As sua palavras, trago-as escritas no coração com as lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram nestas mãos, que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu... e Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras.

Jorge - Homem, acabai!

Romeiro - Agora acabo: sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: "Ide a D. Madalena de Vilhena e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis está vivo por seu mal e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas de há vinte anos que o trouxeram cativo".

Madalena (Na maior ansiedade.)
             - Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem... esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido...levaram-no aí de onde?...De África?

Romeiro - Levaram.

Madalena - Cativo?

Romeiro - Sim.

Madalena - Português?... cativo da batalha de...

Romeiro - Alcácer-Quibir.

Madalena (Espavorida)
             - Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?...



....

CENA XV
Jorge e o Romeiro

****

Jorge - Romeiro, romeiro! quem és tu?!

Romeiro - (Apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.)

             - Ninguém.


****


É o regresso de D. João de Portugal, do reino dos mortos quase. Percebe-se o terror, o pânico de D. Madalena de Vilhena que já se encontrava casada e mãe de uma filha, Maria. Uma tragédia.

Hoje, Dia Mundial do Teatro, trago ao Xaile Almeida Garrett, evocando a sua obra "Frei Luís de Sousa", através de excertos das Cenas XIV e XV, Acto II (pag. 117 a 123).Ed. Areal Editores.


E quem se interessar por estas coisas poderá deslocar-se ao antigo Picadeiro Real, na Rua da Escola Politécnica, que vai receber ou já recebeu, hoje, a exposição "Revista ao Parque", que reúne num só espaço  os quatro teatros do Parque Mayer: Parque Mayer, Teatro Maria Vitória, Variedades, Capitólio. (Cenários, adereços, fatos de revista, programas e curiosidades).

Imagem: daqui

Ver: O Sebastianismo em Frei Luís de Sousa