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domingo, 5 de maio de 2024

MÃE




Em Tudo o que Fiz Bem Pus um Pouco de Ti


Eis o teu rosto iluminado por esta hora de maio.
Ao filho autêntico, basta fechar os olhos para encontrar o rosto da sua mãe.
A fronteira que separa o dentro do fora é vaga de propósito, mais exata é a fronteira dos meses.

Mãe, as tardes de maio não são um acaso.
Pus um pouco de ti naquilo que fiz de mais importante.
Onde existir terra estás tu, dás força e horizonte.

O ar não permitiria respiração se não te contivesse.
A água não seria capaz de alimentar sem a tua presença líquida.
O fogo não chegaria a acender se não incluísse o teu mistério no seu mistério.
Estavas já no primeiro início do firmamento, nesse rugido que encheu a superfície do céu e da terra, que rasgou as trevas; da mesma maneira, estarás no seu último fim.

Estás antes e depois.
Estás na lenta passagem da eternidade.
Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.
Sabes que criei tudo o que há e sabes também que não criei tudo o que poderia haver.

Entre as faltas evidentes, estão palavras capazes de dizer a tua beleza.
Indistintas do silêncio, essas palavras esperam por um tempo que não chegará e, assim, fazem com que a tua beleza seja impossível.
Essa é a natureza do divino, existe e é impossível.

Mãe, a falta de palavras para dizer a tua beleza não é um acaso.
A tua beleza não quer ser dita, prefere ser contemplada.
Os olhos não têm a ambição de possuir.

A tua beleza é a tua liberdade.
Por isso, mãe, por amor e respeito, pus um pouco de ti em tudo o que fiz.
Não se pode olhar para qualquer ponto desta obra sem te ver.
Mãe, este instante não é um acaso.
Em tudo o que fiz bem pus um pouco de ti.

José Luís Peixoto, 
in 'Em Teu Ventre'


Antigamente o Dia da Mãe festejava-se no dia 8 de Dezembro, um feriado da Igreja Católica. Depois foi definido como sendo o primeiro domingo do mês de Maio. Mas não nos incomoda pois não é preciso um dia específico para se falar da nossa Mãe, não é verdade? Ou das Mães em geral. Aproveitemo-lo mesmo assim...

Como vêem, trago para assinalá-lo as palavras de um lindo texto de 
José Luís Peixoto, escritor que admiro.

Além disso, também se comemora hoje o 
Dia Mundial da Língua Portuguesa,
data criada pela CPLP. 



D.A.M.A.


 MÃE



Desejo a Todas as Mães um dia Feliz.

Grande abraço
Olinda


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Poema: Citador

domingo, 28 de janeiro de 2024

De Galveias para o Mundo



Ele é José Luís Peixoto, nascido em Galveias,  a 4 de Setembro de 1974. Narrador, poeta e dramaturgo, tem no seu palmarés muitas obras, algumas traduzidas e publicadas em vinte e seis idiomas. Aos 27 anos foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago.

De referir que:

"Morreste-me" foi escolhido como um dos 10 livros da primeira década do século XXI pela revista Visão. Nas mesmas condições, "Nenhum Olhar" foi escolhido como um dos livros da década pelo jornal Expresso. Este último título foi incluído na lista do Financial Times dos melhores romances publicados em Inglaterra em 2007, tendo também sido incluído no programa Discover Great New Writers das livrarias americanas Barnes & Noble.

Este autor tem colaborado com algumas revistas e jornais tais como Jornal de Letras, as revistas Visão, GQ, Time Out, Notícias Magazine, UP, entre outras, escrevendo crónicas deliciosas e dando a conhecer países e pessoas, com os seus usos e costumes. 

Já o trouxe ao Xaile de Seda algumas vezes com os seus poemas e a sua prosa, inclusivamente, numa Crónica sobre a Finlândia.


***

Transcrevo, para o nosso deleite, este pequeno texto, extraído de "Abraço":


Impossível é não viver

Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.

Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.
(...)

In "Abraço" - José Luís Peixoto

(Excerto)


***


No domingo passado, 21/01/24, a Junta de Freguesia de Galveias homenageou-o inaugurando um Centro de Interpretação da sua Vida e Obra. 





Promover Galveias, freguesia do município de Ponte de Sor, através da Obra de José Luís Peixoto é uma ideia maravilhosa. Aliás, Galveias foi vila e sede de Concelho entre 1538 e início do século XIX.

Na inauguração do Centro de Interpretação foi dito:

Este Centro de Interpretação será com certeza uma mais valia para o nosso território, que se quer cada vez mais dinâmico, mais atrativo e que conta agora, de forma ainda mais expressiva, com José Luís Peixoto como embaixador. aqui


***


Abraços, amigos.
Olinda



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Texto:citador
Veja, aqui, no Xaile de Seda

domingo, 14 de fevereiro de 2021

o tempo subitamente solto. um dia, quando a ternura for a única regra da manhã


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

E MAIS

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto (1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português,
cuja primeira obra foi publicada em 2000.
foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas.
A sua obra tem sido abundantemente adaptada para espetáculos e obras artísticas de diversos géneros.


A voz cristalina de Carolina Deslandes. 
E o seu talento.

Valentine's Day

Neste dia, que para muita gente seria de oferendas simbólicas e comemorações com jantares à luz das velas, temos as palavras.
E servimo-nos, aqui, das palavras dos outros para abrilhantar esta maratona, apesar da Covid-19, que quase nos fazia falhar a meta.
Nos textos que apresentei foi privilegiado o amor romântico. Mas o Amor universal e solidário está sempre presente nas minhas publicações, como sabeis.

Agradeço a vossa presença e comentários. 
Irei visitar-vos em breve.

Bom domingo, meus amigos.

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Citador - Textos
Veja José Luís Peixoto, aqui, no Xaile de Seda

domingo, 12 de maio de 2019

O Dia das Mães no Brasil

"O segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana."
Assim declara o decreto de número 21.366, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e publicado em 5 de maio de 1932.
O documento ainda tece três considerações para justificar a lei: "que vários dias do ano já foram oficialmente consagrados à lembrança e à comemoração de fatos e sentimentos profundamente gravados no coração humano"; "que um dos sentimentos que mais distinguem e dignificam a espécie humana é o de ternura, respeito e veneração, que evoca o amor materno"; e "que o Estado não pode ignorar as legítimas imposições da consciência coletiva, e, embora não intervindo na sua expressão, e do seu dever reconhecê-las e prestar o seu apoio moral a toda obra que tenha por fim cultuar e cultivar os sentimentos que lhes imprimem, força afetiva de cultura e de aperfeiçoamento humano". daqui


Palavras para a minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

In: A Casa, a Escuridão

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Poema: Citador
Imagem: daqui

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Escuta, amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra. 

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.




Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. 


Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

José Luís Peixoto, 

in 'Abraço'


"Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos."
Inseparámo-nos surpreendeu-me um pouco mas estou pronta a derrubar todas as fronteiras.  



José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sor, 4 de setembro de 1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português, cuja primeira obra foi publicada em 2000. (...) foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas. O romance Galveias foi o primeiro livro de língua portuguesa a ser traduzido diretamente para o idioma georgiano, tendo acontecido o mesmo ao livro A Mãe que Chovia, que foi o primeiro a ser traduzido diretamente do português para o mongol. Aqui

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Texto - Citador
Imagem: daqui

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Mulher mais bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita. 



entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 


entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

 
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto
in "A Casa, a Escuridão"

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Meus amigos:

Vou ausentar-me por uns dias. Vou à terra da minha mãe que também é a minha. Dedico-lhe estas palavras de José Luís Peixoto, com a devida adaptação a esta minha intenção.

Fiquem bem.

Abraço. 


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Poema: Citador
Imagem: Pixabay 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O país dos mil lagos

Continuando com o meu quiz do post anterior:
Perante a pergunta, pensei logo na região dos Grandes Lagos da América do Norte, ideia que abandonei logo porque geograficamente impossível, tendo em conta os países apresentados no quiz.



Vejamos, então:

O país dos mil lagos é:

A Finlândia

A Rússia
A Escócia
O Congo

Por exclusão de partes cheguei à resposta correcta: a Finlândia.


Mas, já alguém dizia do outro lado da mesa: Eu, quando estive em Helsínquia parecia que se me congelavam as pernas de tanto frio e estávamos em Abril. E outra coisa: nós somos um tanto ou quanto ruidosos, costumamos falar alto. Ia na rua a falar ao telemóvel num tom normal, pensava eu, quando reparei que as pessoas paravam a olhar para mim. Pareceu-me tudo muito silencioso, muito sem sal...









Por coincidência, A Volta ao Mundo deste mês traz um artigo, de José Luís Peixoto, sobre Helsínquia, onde fala do frio e da maneira como os finlandeses lidam com ele e, também, da impressão que nos dá a forma como olham ou não para nós, no caso vertente, para o autor. 

Vou deixar aqui algumas passagens do referido artigo:

Passeio pelo centro de Helsínquia sem obrigação de estar a horas em qualquer lugar. (...) Essa tranquilidade, adicionada a todos os corpos que passam sem olhar para mim, torna-me invisível. Como se me atravessassem, as pessoas não precisam de desviar-se, não dão qualquer sinal da minha presença. (...) 
Apenas o frio repara em mim. O frio chama-me desde longe e, logo a seguir, aproxima-se demasiado -(...)- escorre-me por baixo da roupa até me cobrir toda a pele, até ser uma segunda pele.
Frio? Pode sempre ser pior. Quando falei com finlandeses sobre o frio, responderam-me que poderia ser pior. (...)

Os finlandeses parecem feitos de neve como se guardassem no olhar, na pele, nos cabelos uma reserva de luz.


Se puderem, leiam este interessante artigo na sua íntegra.

Mas, comparando o desabafo acima e este último chegaremos à conclusão de que se passarmos silenciosos eles nem darão por nós.

Quanto aos lagos, encontrei esta informação, aqui:
  
A Finlândia é o país com o maior número de lagos na União Europeia. Existem cerca de 188 000 lagos na Finlândia (corpos de água parada de área superior a 5 ares, isto é, 500 m2). O número de lagos maiores que 1 hectare (10 000 m2) é superior a 55 000.

E esta hein??!!!

Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.


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POST 1 - La belle province

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1ª imagem: 
El lago Saimaa es la joya más preciada de la Naturaleza en Finlandia. Es el mayor del país y el cuarto de agua dulce mayor de Europa. aqui
2ª imagem:
Helsínquia