POEMA
Talvez
um dia
Quem
sabe!...
Sim
talvez
um dia...
pedra
jogada
à nossa
gaiola de vidro
e para nós
a fuga
além
fronteira do mar.
Talvez
arrebente um dia
o búzio
dos mistérios
no fundo
do mar
e mais
um vulcão venha a tona
— dez
vinte
mil
vulcões — Quem sabe!...
e as
ilhas fiquem derretidas:
Estranha
alquimia
de
montes e árvores
de lavas
e mastros
de
gestos e gritos.
Talvez
um dia
onde é
seco o vale
e as árvores dispersas
haja
rios e florestas.
E surjam
cidades de aço
e os
pilões se tornem moinhos.
Ilhas renascidas
nuvens libertas...
Talvez um continente
À medida dos nossos desejos.
Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!
Ilhas renascidas
nuvens libertas...
Talvez um continente
À medida dos nossos desejos.
Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!
Palavras fortes, estranha alquimia. Exageros de poeta? Na sua visão escatológica prevê e anseia por uma renovação, rompendo fronteiras, um milagre da natureza. E progresso.
Fustigada pelos ventos contra-alísios, as lestadas, que arrastam para longe as nuvens prenhes de água, envolvida pela bruma seca vinda do Saara, é caso para dizer: "Gente sem sorte, ca tem ramede, tchorá bô sina, tchorá magoade"*.
E quando o vulcão se cansar de vomitar lavas incandescentes as pessoas voltarão. No sopé, a terra terá o adubo de que precisa para o cultivo da vinha. Na Chã das Caldeiras. E farão dela a terra do leite e do mel.
Povo paciente e resistente que lê nas estrelas o seu destino.
*Da Morna- letra de Gabriel Mariano, música de Jacinto Estrela:Sina de Cabo Verde.
O Poema foi retirado do site de António Miranda.