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terça-feira, 11 de agosto de 2026

S.Vicente - a miragem do paraíso (I)




Pretende-se que S.Vicente terá sido descoberta em 1462 por Diogo Gomes, escudeiro do infante D. Fernando a quem ficou pertencendo por doação de D. João II, o rei seu tio. 

Foi inicialmente outorgada aos duques de Viseu que, porém, não ligaram qualquer importância à questão da sua ocupação, situação que se manteve mesmo depois de, por herança, ter passado para a propriedade do rei D.Manuel, pelo que por muitos e muitos anos, a ilha ficou relegada à humilde condição de simples campo de pastagem do gado de alguns proprietários de Santo Antão e S.Nicolau. 

Aliás, S.Vicente seria a última das ilhas do arquipélago a ser povoada, e a generalidade dos estudiosos está de acordo em como ainda hoje ela não seria muito diferente de Santa Luzia, não tivesse a natureza lhe dotado de uma bela baía sobre todas superior e, principalmente, fora das rotas das areias que acabaram assoreando a baía de Sal-Rei, e também não tivessem os ingleses precisado impulsionar a neocolonização dos países do atlântico sul para ali colocarem as excedentárias produções das suas fábricas. (...)

GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente, pgs 9,10


Encontrei este livrinho em casa de uma prima minha, sobre a Ilha de São Vicente. Nestes dias de Verão, quentissimos, resolvi inserir aqui alguns apontamentos, procurando não vos cansar muito. Por isso, penso ir saltando algumas páginas...

Para já, deixo-vos um pouco da sua música:




Abraços, meus amigos.

Olinda


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Imagem - net





segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Onde está a luz?

 


Era Dezembro, no seu princípio. E nós éramos quantos? Eu, marido, filha, marido da filha, uma irmã, um casal de sobrinhos...Portanto, sete. Planeámos visitar a ilha de rochas sumptuosas, Santo Antão. Um dos meus primos cedeu-nos a sua casa em Porto Novo. Tomámos o barco em S.Vicente, chegámos ainda a tempo de tomar o pequeno-almoço num restaurante perto do porto. Fomos deixar as nossas coisas em casa e seguimos com o meu sobrinho a conduzir. Subimos até ao alto da Corda, onde o clima muda repentinamente, fresco quase frio, árvores frondosas, ambiente verdejante, e, ao longe, as nuvens davam-nos a ilusão de mar imenso. Visitámos vários sítios, subimos e descemos por caminhos impensáveis. Tinha estado a chover, as estradas quase aéreas mostravam vestígios de derrocadas. Houve momentos em que nos sentimos em perigo e a tracção a quatro rodas fez-se necessária. Voltámos ao Porto Novo pela tardinha, cansados e transpirados. Todos de banho tomado, o pessoal mais novo encalorado ligou ventoinhas, televisão, alguns puseram-se a ouvir música. E eu, tipo ave de mau agoiro: cuidado, não conhecemos a casa... E eles na maior descontracção, com a ideia de repor energias. De repente, um apito ininterrupto, um alarme estrepitoso soou e todos espantados à procura da sua proveniência. Fomos dar com um quartinho minúsculo, talvez 2x2m, se tanto, entre a sala e os quartos, com uma instalação de fios bem pregados à parede que desapareciam pelo tecto. Do lado direito um contador que marcava 25%. 




Todos se interrogavam: o que será isto? Os especialistas de serviço, todos, a olhar para aquilo sem perceber nada, tudo em pânico pois receávamos ter dado cabo de alguma coisa... Os dois quartos foram destinados tacitamente a dois dos casais, a minha irmã encontrou um divã desdobrável que preparou na sala de jantar, filha e marido destinaram algumas almofadas que iriam colocar no chão da sala para dormirem. Ainda com aquilo a apitar, dirigi-me ao meu quarto premi o interruptor, ouviu-se um clique e foi escuridão total. Agora tudo às aranhas, ninguém sabia onde estavam as coisas. Às apalpadelas lá nos deitámos... Não passou muito tempo quando oiço a filha ao meu lado, aflita: mãe mãe passou-me um bicho pela cara acho que é um escaravelho, não quero ficar ali. Ajeitei-me para o meio da cama, ela deitou-se e, durante a noite, eu enchouriçada entre a filha e o pai sem poder respirar até que a manhã raiou (não: a manhã não raia, diz o poeta). A seguir, a utilização da casa de banho, com os banhos, a higiene, o pequeno-almoço atribulado...nisto chegou a senhora encarregada da casa e nós a prepararmos as nossas coisas para seguir viagem, para o outro lado da ilha. Muito embaraçados contámos o que tinha sucedido com a luz, o alarme, a atrapalhação e ela descontraidamente dirigiu-se ao quadro da luz e disse: Oh, quando aquele contador marca 25% é porque a energia solar acumulada vai esgotar e então liga-se a luz da Companhia. E foi o que ela fez. Simples.

 



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Imagens: net

Video: Cesária Évora: Nho Antone escaderode

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Sobre as minhas andanças por Cabo Verde (3)

Como devem estar lembrados, ou talvez não*, começámos a descida para a Ribeira Grande, o que quer dizer que, depois de subirmos até ao topo a partir de Porto Novo, iniciámos a descida para o outro lado da ilha. A descer todos os santos ajudam, diz o povo, mas neste caso é preciso pulso firme. Um dos meus sobrinhos ia ao volante do Jeep e parecia bem naquele papel.


Parámos na Povoação onde almoçámos. Devo dizer que não foi dos meus melhores momentos à mesa. Cabo Verde é famoso pelo bom tempero mas ali, naquele restaurante, o cozinheiro parecia ter sido possuído pelo espírito de algum chef indiano pois tudo sabia inexplicavelmente a caril... e o que eu gosto de caril. Nesse dia não estava para aí virada. Do meu frango "estufado" só comi o acompanhamento que me soube muito bem, pão di terra (mandioca, batata doce, banana verde). O empregado pareceu-me bastante contristado: então não comeu nada?


Continuámos viagem em direcção à Ponta do Sol. Enquanto fazíamos a travessia na estrada quase suspensa das rochas, com o mar lá em baixo, de entre nós elevaram-se vozes, em especial a da minha irmã mais velha, voz de ouro, entoando canções antigas relacionadas com alguns pontos da ilha de Santo Antão, neste caso a Ponta do Sol:Da minha terra Ponta do Sol/Guardo comigo saudade imensa/Por isso a quero cantar baixinho/Com a melodia que o amor entoa./Ponta do Sol meu terno berço /Sinto que as tuas rochas altivas/Gritam nos ares no céu de anil/Lugar mais lindo não pode haver.(...) E seguiram-se mais dois pares de quadras igualmente lindas.




E, claro, todos nós fazíamos coro. Aproveitando a inspiração veio a vez de "Paúl jardim florido/de águas cantantes nas bananeiras" ainda que não tivéssemos ainda passado pelo Vale do Paúl e também "Janela" que, por fim, não tivemos oportunidade de visitar. Mas, ouçamos este cantor de voz maviosa que, com largos gestos, canta todas as antigas mornas dedicadas à ilha de Santo Antão, Homero Fonseca. A dificuldade está na escolha. Mas, lá tem que ser, trago-vos a morna que engloba todas as outras chamada: "Santo Antão"* ou não, opto por "Paúl", tendo assim oportunidade de mostrar algumas imagens desse lindo vale:




Antes de chegarmos ao Paúl andámos pela Rua das Pombas onde tudo acontece em termos institucionais. Soube que já foi sede de um Concelho imenso abarcando o lado da ilha donde viemos, incluindo Porto Novo que se emancipou em 1961, quando Adriano Moreira passou por lá e concedeu-lhe o estatuto de Concelho. Nessa altura, havia um grupo de jovens cantores que o encantaram, musicalmente falando, e trouxe-os para cá onde eles tiveram a oportunidade de gravar discos.

Este texto já estava escrito há muito tempo. Não cheguei a publicá-lo. Agora, vendo os rascunhos, que são muitos, deparei-me com ele. Data da minha viagem a Cabo Verde, em 2016/17.

Agora sim, o video de Santo Antão





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1ª imagem daqui
2ª imagem: daqui

domingo, 2 de abril de 2023

Por onde andei ...

Estive uns dias ausente como referi em devida altura. Foram dias de muito rebuliço, sem parar, de muito riso e festa com pessoas da família e amigos. Do muito que se andou e festejou trago algumas imagens do mar, do sol, das rochas, do artesanato.




Pôr-do-sol no Mindelo, captado do Rooftop do
Hotel Terra Lodge
Onde se comeu um belo cuscuz.
Ao fundo o Monte Cara.




Sempre o Monte Cara, monte icónico, que 
nunca falta em bilhetes postais ou fotografias,
ou em qualquer outra publicação que pretenda
dar a conhecer as especificidades da ilha.
Do espaço de lazer do Mansa Hotel.



Do mesmo lugar.
Vêmo-lo de entre os cortinados, o Monte Cara.
A cara de um homem moldado na pedra, 
pela natureza.
De mais perto distinguem-se todos os 
contornos.




No Martini Sunset. Para ali chegar segue-se 
por uma estrada tortuosa, a subir...
Piscina que, de determinado
ângulo, parece suspenso, quase a 
despenhar-se.
Bar mais à direita, e bonita esplanada




Praia da Laginha
Ao fundo o Ilhéu dos Pássaros
onde começa a Baía de S.Vicente.
Digamos que o Canal, com mar revolto em dias de muito
vento, fica para lá do ilhéu.
Mais ao longe o vulto imenso da 
Ilha de Santo Antão,
nha terra.



Aqui, uma nesga de mar da Baía do Calhau.
Mas, descendo um pouco mais, onde estou sentada, :)
 deparamo-nos 
com dois vulcões extintos e no sopé água azul
num doce marulhar.
A vinte minutos da cidade do Mindelo, o Calhau é
ideal para a prática de surf e pesca entre a 
Praia Grande e a Praia de Sargaça.



Restaurante Sabor
Viemos comer uma pizza a pedido do mais novo.
Acabámos por provar de tudo...e apreciar a
bela linha do horizonte que daqui se desfruta.
E a ilha de Santo Antão ao longe, 
envolta na bruma.




Artesanato na Praça Estrela
Há roupa africana de todas as cores, 
padrões e feitios.
Dizem-me que os vendedores são do Senegal
Há também lojas na cidade com artigos
 que vão descobrir motivos às origens
 



Uma rua da cidade de Mindelo.
Nesta cidade
encontram-se modernos edifícios de 
vários andares
a par de casas térreas em estilo colonial ou outro.




Um pormenor da Praia da Laginha,
praia que se encontra no centro da 
cidade de Mindelo.
Em tempo de praia, que é quase o ano todo,
é possível, à hora de almoço,
dar uma fugidinha e tomar um banho
de mar, ir almoçar a casa e voltar para
o escritório




A alguns quilómetros da cidade encontra-se
a Baía das Gatas. No acesso, temos rochas nuas de
 ambos os lados, com o Monte Verde a dominar a 
paisagem.
Este é um passadiço feito recentemente.
À direita uma quase piscina de água tépida. 

No Verão realiza-se no local um
grande festival musical




No regresso da Baía das Gatas, esta vista
espectacular, que se completa mais à esquerda com 
ondas espumosas a espreguiçarem-se na areia,
Divisa-se a Santa Luzia ao longe, ilha 
actualmente desabitada. Já albergou uma pequena 
comunidade de agricultores, no Sec.XVIII.
Com os ilhéus Branco e Raso constituem
uma reserva natural.




Réplica centenária da Torre de Belém, ao fundo.
Alberga o Museu do mar. 
Aqui perto, na rua de Praia, situa-se o Plurim de Peixe, 
diz-se que é de visita obrigatória
O interessante, para mim, está fora do mercado nos
passeios onde as mulheres vendem peixe
e verduras. Vejam, aquium texto que escrevi,
em tempos



Cremilda - Um raio de sol


As fotos que constam deste post é uma ínfima parte do que se viu e se registou. Nelas não há pessoas por respeito à sua privacidade, mas digo-vos que é um fervilhar que dá gosto. Seja no Porto Grande com barcos que chegam diariamente das outras ilhas com passageiros e cargas ou nas ruas, restaurantes e lojas.

Pequenos flashes sobre a ilha de São Vicente, em Cabo Verde, uma das ilhas do Arquipélago a que Basil Davidson chamou de Ilhas Afortunadas. Ou num plano mais alargado, serão as Ilhas Afortunadas da mitologia grega juntamente com a Madeira, os Açores e as Canárias, não esquecendo um pequeno enclave na costa africana. E, no seu conjunto, compõem a Macaronésia.

Abraços
Olinda  


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Fotos nossas

domingo, 6 de junho de 2021

Cantiga africana


"O ló kalunga uá mu bangele...”

Assim cantava Denxo,
Ao som do pilão
Cantiga que aprendera
Nas roças de S. Tomé.

"O ló kalunga uá mu bengele..."

Denxo cantava e soluçava
Ao compasso ritmado
Do pó batendo no pilão
Para milho, fazer cachupa

"Bangele-Lé Lelé..."

De balaio erguido na mão
Panela à espera do lume
Bolso sem um tostão
Denxo venteia seu milho

"Lé Lelé.."

Perdeu o alento
Sua canção desfeita em lágrima
Sobre o farelo caído no chão
Enquanto pensa no seu irmão
Que ficou na terra do café.





Ana Júlia Monteiro Macedo Sança, nasceu em Cabo Verde, na África de língua portuguesa.
Seu primeiro livro — Arco Vírus e Vibra Sóis foi publicado em 1985 pela editora Peregrinação.
Poetisa laureada, a Ana já ganhou prêmios em Itália, Portugal e Estados Unidos. É funcionária do Consulado-Geral de Portugal em Toronto (Canadá). aqui




Sobre o crioulo de São Tomé e Príncipe

O santome, também conhecido como forro, fôlô, lungwa santome, dialeto ou são-tomense, é uma língua crioula de base lexical portuguesa que surgiu no século xvi, na ilha de São Tomé, fruto do contacto entre o português e diversas línguas do continente africano. Depois do português, língua oficial, o santome é a segunda língua mais falada na República de São Tomé e Príncipe, mas não goza, atualmente, de estatuto oficial, embora tenha sido declarada uma das línguas nacionais, ao lado do angolar (ngola) e do principense (lung’ie). A primeira referência histórica ao santome data de 1627, altura em que o Padre Alonso de Sandoval, a partir de Cartagena (Colômbia), menciona a existência da lengua de San Thomé. Já no século xviii, mais precisamente em 1766, Gaspar Pinheiro da Câmara também faz alusão a esta língua ao escrever que he de saber que a gente natural destas ilhas tem lingoa sua e completa, com prenuncia labeal, mas de que não me consta haver inscripção alguma (...) (apud Espírito Santo 1998: 59, nota 1.). A língua escrita só apareceria pela primeira vez na segunda metade do século xix, quando autores como Francisco Stockler e António Lobo de Almada Negreiros, bem como os pioneiros dos estudos crioulos, Hugo Schuchardt e Adolpho Coelho, nos dão a conhecer os primeiros fragmentos nesta língua.  Ver mais aqui

Dá-se o nome de ‘língua crioula’ à língua que nasce do contato entre, normalmente, um povo expansionista e dezenas de outros povos confinados em um determinado ambiente”. Ou seja, “crioulo”, em linguística, nada tem a ver com etnias, mas sim 
com a criação de 
um idioma 
a partir da aglutinação e variação das culturas presentes 
em um determinado local. 
Ver mais


Boa semana, meus amigos.

Abraços


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Poema e imagem: site de António Miranda


sábado, 12 de setembro de 2020

Libertação através da Cultura

Um povo deve apropriar-se da sua cultura e fazer dela o seu estandarte. Revolver a terra à procura dos valores da sua ascendência e beber as ideias emanadas desde o princípio dos tempos. Despir-se de roupagens culturais trazidas pelo opressor numa assimilação imposta e eliminar em si próprio todos os resquícios externos fazendo nascer um homem novo. Amílcar Cabral acreditava neste paradigma, não propriamente com estas palavras, mas de forma sistemática e com uma fundamentação político-filosófica de mestre.
Qual a realidade geográfica e mental que ele tinha em vista? Pergunta retórica... Era a Guiné e, paradoxalmente, unido a Cabo Verde. Espaços geográficos diferentes e mentalidades diferentes e já com desinteligências no terreno de quase-séculos. Mas não é aqui que reside o propósito desta reflexão. É dentro da própria Guiné onde existia uma grande diversidade de povos, com as suas diferenças e as suas querelas ancestrais (R.Pélissier). Onde seria necessário encontrar um denominador comum que servisse de elo, numa noção de corpo e de nação trilhando os mesmos caminhos. Tê-lo-á descoberto Cabral? Talvez. Contudo, sabemos que ele não pôde consolidar e pôr em prática as suas ideias. Um tempo que lhe foi roubado.
Hoje sentimo-nos perplexos perante a instabilidade na Guiné-Bissau. Ali, todas as situações são consideradas de ruptura, não prevalecendo o diálogo e a procura do caminho ideal para que o país possa prosseguir em paz. Fazem-se perguntas. Apontam-se motivos. Soluções, não se vislumbram. 
Voltando a Cabral, mas com a adaptação necessária a estes tempos, há que dar pequenos passos, indo buscar ao passado elementos culturais válidos, como o amor arreigado à terra, no sentido de serem ultrapassadas as diferenças para a construção do país com o contributo de todos. 

Este é o excerto de um post que produzi, aqui, em 2012. De lá para cá pouca diferença a apontar no que diz respeito à Guiné-Bissau, apesar dos esforços desenvolvidos por alguns dos seus filhos.


Hoje passam 96 anos sobre o nascimento de Amílcar Cabral. O seu legado como homem que preferia o diálogo à luta armada e o primado da Cultura combatendo a ignorância, é um exemplo de savoir-faire e de estadista de alto nível.

Eu sou tudo e sou nada…
Mas busco-me incessantemente,
– Não me encontro!

Oh farrapos de nuvens,
passarões não alados,
levai-me convosco!
Já não quero esta vida,
quero ir nos espaços
para onde não sei.

Dúvidas que naturalmente assombram quem ousa sair de si mesmo e procura compreender o Mundo.



Abraços, meus amigos. 

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Poema - aqui– Amílcar Cabral, em “Emergência da poesia em Amílcar Cabral” (30 poemas).. [recolhidos e organizados por Oswaldo Osório]. Colecção Dragoeiro. Praia: Edição Grafedito, 1983.

Ver, se interessar: Amílcar Cabral e o gosto pela Literatura

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Na brêu di nha nôte - Celina Pereira




MORNA

PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

UNESCO

2019-12-11


Um pensamento para Adriano Moreira que, em 1961, numa visita a Cabo Verde, promoveu a vinda de um grupo de jovens cantores e músicos cabo-verdianos para Portugal, a fim de actuarem e darem a conhecer a sua música. Dizem-no os mais velhos.

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Câ Nô Dixâ Nôs Morna Morrê - Fernando Quejas




MORNA

PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

UNESCO

2019-12-11



Fernando Quejas (Praia30 de abril de 1922 - Lisboa28 de outubro de 2005) foi um cantor e compositor cabo-verdiano.

Em Portugal, onde residia desde 1947, Quejas notabilizou-se aos microfones da Emissora Nacional, onde se manteve durante 25 anos.

Entre 1953 e 1960, gravou 22 discos para a editora "Alvorada", e colaborou também com a RTP, como autor e intérprete em programas sobre Cabo Verde.

A partir da década de 70, dedica-se a programas de rádio e espectáculos junto das comunidades portuguesa e cabo-verdiana, em Portugal e no estrangeiro.

Regressou a Cabo Verde em 1990, a convite do Governo, para um espectáculo na Assembleia Nacional, na Cidade da Praia.

Na sua terra natal, foi um dos sócios fundadores do Rádio Clube de Cabo Verde, estreando-se na primeira emissão radiofónica em directo da emissora. aqui

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"Mar Eterno" - de Eugénio Tavares


Diz quem sabe que Fernando Quejas foi o primeiro compositor e cantor cabo-verdiano a levar a morna para fora de Cabo Verde. Fez ou passou para o português muitas Mornas para que a mensagem fosse percebida, tendo-a interpretado em programas da Emissora Nacional. Na terra natal esse seu gesto foi incompreendido. Com o tempo foi-lhe sendo reconhecido o seu lugar na divulgação da Morna.

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PENSAMENTO - B.LÉZA




MORNA

PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

UNESCO

2019-12-11

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Francisco Xavier da Cruz (B.Leza ou Beléza) foi um músico de Cabo Verde.

Natural do Mindelo, B.Leza inovou a morna ao utilizar frequentemente os acordes de passagem, (chamados de meio-tom brasileiro na gíria dos músicos cabo-verdianos), antes pouco usados nesse género musical.

O seu estilo e a sua obra, que começaram a ter sucesso na década de 1950, marcaram a música de Cabo Verde nos vinte anos seguintes. Compôs dezenas de mornas, entre as quais se destacam Eclipse, Miss Perfumado, Resposta de Segredo Cu Mar e Lua Nha Testemunha, que, diz a lenda, foi composta no leito do hospital, dias antes da sua morte a 14 de Junho de 1958.
Diz também a lenda que muitas pessoas iam ter com o mestre B.Leza para lhe pedir uma morna para a pessoa amada, para uma serenata ou para assinalar um acontecimento. Em questão de dias, B.Leza tinha a obra feita. Moacyr Rodrigues escreve que “influenciado pela música brasileira e argentina – B.Leza – vai enriquecer não só a música com a introdução do meio-tom mas também a letra pelo desenvolvimento de ideias”. aqui


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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

MORNA - Classificada como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO

"A nação já pode celebrar: a morna já é Património da Humanidade", anunciou o ministro da Cultura de Cabo Verde. A decisão pública deverá ser conhecida em dezembro, na Colômbia. aqui








NOTA:
UNESCO avisa que não há decisão final sobre morna como Património Imaterial da Humanidade, o que só se verificará a 12 de Dezembro próximo, em Bogotá.

Leia mais aqui

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Esquina do Tempo: aqui
Onde poderá ler sobre as origens e a evolução
da "Morna"

domingo, 21 de julho de 2019

Madonna e as batucadeiras de Cabo Verde

Como africanista assumida, neste espaço, não poderia passar-me despercebido este video de Madonna com as batucadeiras de Cabo Verde, que conta uma história. 

Ora, atentai:






Diz-se aqui:


Curiosamente, para muitos portugueses, o batuku era quase desconhecido até ao início deste ano, quando a cantora de “Like a Virgin”, estabelecida em Portugal em 2017 na companhia dos filhos, publicou na rede social Instagram um vídeo que já teve mais de 240 mil visualizações. Nele se via um grupo de mulheres da Orquestra de Batukadeiras em oração com a cantora, após uma gravação de estúdio de que ainda não são conhecidos pormenores. A mensagem de Madonna que acompanhava o vídeo informava que aquelas mulheres iriam participar no seu próximo disco de originais, que pode ver a luz do dia nos próximos meses.


Voltarei com mais algumas palavras sobre essas batucadeiras e, também, sobre Cabo Verde (mais uma vez).

Bom domingo.

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

E a dessalinização da água do mar?









É meritório o que se tem visto: o transporte de água em camiões-cisternas para onde não há água nem para beber, como é o caso de Viseu. Contudo, a situação não é passível de se prolongar durante muito tempo. A água é um bem que pode acabar. 

Ouvi hoje o Ministro do Ambiente dizer a miúdos da escola que a água não se fabrica. Pois não. Mas é bom que comecemos a pensar em fabricá-la, aproveitando as técnicas que outros países carentes de água já estão a utilizar há muito tempo: dessalinizando a água* do mar. Falo do Médio-Oriente e aqui mais perto de nós de Cabo Verde, país com o qual temos muitas afinidades histórico-culturais. 

Pergunte-se aos cabo-verdianos como é que lidam com a seca, como fazem para que a água doce chegue às torneiras de forma sustentada e como fazem para que ali surjam verdadeiros oásis. É tempo de pormos todas as cabeças a trabalhar na resolução deste problema. Se não o atacarmos de frente, dele vão nascer muitos outros em catadupa, mas ao contrário. Aliás, não há que inventar. 

Bastará pôr em marcha o que já existe.

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Não querendo ser insistente nem aborrecida, mas sendo:
Li hoje, 22/11, uma notícia sobre as alterações climáticas, em que pessoas gradas ligadas ao Ambiente tecem considerações sobre o assunto numa mesa redonda, um Encontro Nacional de Entidades Gestoras de Agua e Saneamento, em Évora. Ora, leia-a também, aqui. 






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*Nota: Sei do que falo. :) 
É a água que eu bebo e utilizo, para tudo, quando vou a Cabo Verde.

Ver:
1ªImagem: Pixabay
2ª Imagem Notícias ao Minuto

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sobre as minhas andanças por Cabo Verde (2)

Parei há dois posts atrás e há não sei quantos dias a narrativa sobre as minhas andanças africanas, mais precisamente, por Cabo Verde. Hoje retomo-a e, já se sabe, não de forma exaustiva mas dando conta apenas de um ou outro episódio, de uma ou outra impressão. Vou reatar a conversa no momento em que saímos de São Vicente vendo à esquerda o Monte Cara, com o Sol nascente lá atrás. Referia, na altura, a circunstância de ser uma fragilzinha no mar, pronta a fazer figuras tristes. 


Ilhéu dos Pássaros (a)

Mas, diga-se a verdade, o mar dessa vez foi muito meu amigo, muito manso e mesmo quando passámos o ilhéu dos Pássaros e me disseram que parecia um mar de azeite arrisquei um olhar, dois olhares e por fim descontraída pude começar a admirar as infindáveis rochas da ilha de Santo Antão, lá ao fundo, apenas uma amostra.



Agora é ao contrário: vemos ao fundo a ilha de São Vicente

Chegados ao Porto Novo, resolvemos tomar o pequeno almoço ali perto. E que iria ser? Cachupa guisada, claro, ovo estrelado, chouriço, café com leite, pão, manteiga, queijo. Uma refeição de respeito e perguntei à minha cabeça ainda mareada se o meu estômago aguentaria essa sobrecarga. Uma vozinha respondeu-me: Ai aguenta, aguenta! Nada que eu desconhecesse. 




Já provaram um pequeno-almoço assim? Mesmo bom.

Quando atravessamos o Porto Novo e começamos a subir, a subir, por estradas escavadas nas rochas com perícia, primorosamente calcetadas, o espectáculo dum lado e do outro intimida. A temperatura começa a mudar e vemo-nos num mundo completamente diferente. 
É quando a estrada estreita deixa de nos oferecer as intermináveis formações rochosas meio despidas de verde, mas continuando lá em cima a tocar o céu. 


Na estrada já ladeada de árvores, a aragem começa logo a exigir um casaquinho, o ar puríssimo, nós por cima das nuvens, não se sabendo bem se estamos a ver outra vez o mar. Mas não. Eram camadas de flocos de algodão, entre um branco diáfano e laivos de azul e rosa.


Era a magia experimentada por todos quantos sobem e descem pela estrada da Corda, construída nos anos 60 do século passado e que atinge a altitude de cerca de 1800 metros em Delgadim, o seu ponto mais estreito. E é um ponto de paragem obrigatória. 



O registo fotográfico referente a Delgadim encontra-se no post anterior: "Reencontro"

E parámos mesmo, subjugados por aquela grandeza, incapazes de captá-la e registá-la em toda a sua essência, a não ser pela concentração, quase em pose de meditação.


A seguir, como a carne é fraca, aproveitámos para servir-nos do farnel que levávamos no Jeep.  E iniciámos a descida para a Ribeira Grande.

Meus amigos, desejo-vos um bom fim de semana.

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Sobre as minhas andanças por Cabo Verde (1) - Clique

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Exceptuando-se a imagem do Ilhéu dos Pássaros (a) que fui buscar ao arrozcatum, todas as outras fotos são produção nossa. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Reencontro

Depois de tantos dias de ausência trago uma carta de Nuno Júdice para marcar um encontro convosco. Nas palavras do poeta um encontro poderá ser em qualquer sítio, a qualquer hora, talvez privilegiando o silêncio ou então dizendo alguma coisa mesmo que não se diga tudo, ou ainda apenas o gesto, a boa vontade, a disponibilidade, num nascer do nascer ou pôr-do-sol, à beira-mar,

Laginha - São Vicente

Carta (esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida” 

Estrada da Corda - Delgadim - Santo Antão

ou mesmo aqui tão perto do céu, na dobra do caminho em que a mão de Deus nos toca de perto e nos sentimos tão pequenos, em sentido, em estado de pura meditação despindo-nos de vaidades. E então reparo, também, que poderá ser nas dobras deste Xaile o nosso reencontro.

Desejo-vos uma boa quinta-feira. Está frio mas, em compensação, está Sol.

Abraço.

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Poema: retirado do Citador 
As fotos são do pessoal cá de casa, tiradas na nossa ida a Cabo Verde.