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sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Do nosso desejo



Árias pequenas.Para bandolim

***

Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.

Hilda Hilst


Hilda Hilst (1930-2004) foi uma poetisa, cronista, dramaturga e ficcionista brasileira. Fez parte da “Geração de 45” que buscava a reabilitação de regras mais rígidas para a composição do verso. Foi considerada uma das maiores escritoras do século XX.

Biografia

aqui

Bach

Ária na corda Sol (G) ou Ária da quarta corda é uma adaptação para
violino e piano do segundo movimento da Suíte nº 3 para orquestra, de J. S. Bach
Milton Mori - 
Toca-a no seu Bandolim. 
E que bem que soa!


Veja mais poemas de Hilda Hilst aqui, no Xaile de Seda.




Bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda

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Imagem: Hilda Hilst

Poema

In:Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974)

pg 79 aqui

aqui


sábado, 6 de fevereiro de 2021

Ama-me

Espero-te antes de haver vida
És tu quem faz nascer os  dias
Mia Couto



Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Hilda Hilst


Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, (Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. Seu trabalho aborda temas como misticismo, insanidade, erotismo e libertação sexual feminina. Hilst foi fortemente influenciada por James Joyce e Samuel Beckett, e essa influência aparece em temas e técnicas recorrentes em seus trabalhos como o fluxo de consciência e realidade fraturada.








Veja Hilda Hilst, aqui, no Xaile de Seda.


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in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor'
Poema - Citador

sábado, 20 de julho de 2019

Cantares do sem-nome e de partidas


Nos idos* de 2013, Canto da Boca dizia-me: 

Como sabes, Hilda é da minha Santíssima Trindade da poesia das mulheres do Brasil, não é possível falar em poesia brasileira e não mencioná-la. Entretanto, sua passagem por essa dimensão foi um tanto difícil, a sensação que eu tenho é que ela partiu para o "andar de cima", com muita mágoa desse mundo das artes...

Trago-te como já é de hábito, sites, ou algo que possa ajudar na sua apropriação da nossa poesia, da nossa cultura, eis aqui um site onde vais saber um pouco mais sobre a Hilda Hilst:
http://www.hildahilst.com.br/site/

E um dos meus poemas preferidos dela:



CANTARES DO SEM-NOME E DE PARTIDAS

I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


II

E só me veja


No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos

Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).

Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.

E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

III

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

VIII

Aquela que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.

Pertencente é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE”
Que bem me sabe inteira pertencida.


IX

Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.



Beijos!!

;))







Minha amiga:

Penso não te ter agradecido o suficiente todo o conhecimento que me proporcionaste sobre a Cultura brasileira. 
Agora, em mais uma das minhas pesquisas sobre o teu belo país encontrei, de novo, Hilda Hilst e lembrei-me deste poema que me trouxeste em tempos. Trouxe o poema bem como as tuas palavras de então para embelezar este "Xaile".

Deixo-te aqui um apontamento da tua cidade, OLINDA, 
com interpretação de Caetano Veloso.
Desejo-te tudo de bom.
Beijos.
Olinda



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Canto da Boca18/08/2013, 23:56:00
aqui
*idos - uso incorrecto neste post. ver aqui

terça-feira, 16 de julho de 2019

Tateio





Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

Hilda Hilst



Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, (Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.



Veja Hilda Hilst- aqui e aqui no "Xaile"


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Poema - daqui
Imagem - daqui
Hilda Hilst, aos 29 anos, pelo fotógrafo português Fernando Lemos em 1959 Foto: Fernando Lemos / Divulgação