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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Primavera da Poesia - Recitais de poesia e música lusófona

Regressaram à Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, a 2 de abril, os recitais de poesia e música lusófona. Esta sessão, dedicada a Angola, contou com a participação dos artistas Aminata Goubel, Ana Paula Tavares, Betinho Feijó e Lopito Feijó, neste que foi o segundo encontro da iniciativa «Primavera da Poesia».
Até ao dia 7 de maio, todos os sábados às 17h, a Biblioteca Municipal D. Dinis continuará a ser palco destes recitais, sempre pela voz de escritores, poetas, músicos e atores lusófonos.

Os próximos encontros vão contar com a presença de artistas de Moçambique (9 de abril), Cabo Verde (16 de abril), São Tomé e Príncipe (23 de abril), Guiné Bissau (30 de abril) e Brasil (7 de maio). É o que se lê aqui 

Pela minha parte trago-vos este poema de Ana Paula Tavares, poeta que já tivemos a honra e o prazer de ler aqui, em outro momento:

Canto de nascimento

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite

Ana Paula Tavares
(O lago da lua 1999)

Desejo a todos um bom fim de semana.

Abraço

Poema retirado de: aqui

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Mandei-lhe uma carta...

mandei-lhe um cartão...
mandei-lhe um recado...
mandei fazer-lhe um feitiço...
ofertei-lhe isto e aquilo...
e... ela disse que não...
tocaram uma rumba dancei com ela...
olhei-a nos olhos...pedi-lhe um beijo...
na..ra...narara...na...ra
e ... ela disse que sim...

Ai, o Amor!


Viriato Cruz e Sérgio Godinho - Dupla perfeita.





NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato Cruz

*****



A TODOS DESEJO:


UM ANO DE 2013 COM MUITO AMOR!



*****


O amigo Antônio Lídio Gomes deixou-nos este lindo poema, em comentário.
Obrigada, Caro Poeta.

Divino Afeto

Que seja bem-vindo o amor supremo
No coração mais puro dos devaneios
Amor bendito, sagrado e dos anseios
Irradiando n’alma um fervor extremo

Creio que esse doce mistério do amor
É a sublimação, e uma joia da alma
A emanação etérea, aquilo que salva
Que cura as feridas, e extingue a dor

Creio que todo amor, pueril e sereno
É o divino afeto, sacrossanto e ameno
Fecundado de Deus, desejo primordial

Emanação divina, sacrossanta, etérea
Que a alma alcança, por esta matéria
Desde o princípio substância imaterial

*****

Video e letra da canção - net

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A mãe e a irmã


A mãe não trouxe a irmã pela mão
viajou toda a noite sobre os seus próprios passos
toda a noite, esta noite, muitas noites
A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado
a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas
                                               [vermelhas
A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites
                                               [todas as noites
com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste
e só trazia a lua em fase pequena por companhia
e as vozes altas dos mabecos.
A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção
no pano mal amarrado
nas mãos abertas de dor
estava escrito:
meu filho, meu filho único
não toma banho no rio
meu filho único foi sem bois
para as pastagens do céu
que são vastas
mas onde não cresce o capim.
A mãe sentou-se
fez um fogo novo com os paus antigos
preparou uma nova boneca de casamento.
Nem era trabalho dela
mas a mãe não descurou o fogo
enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.
As tias do lado do leão choraram duas vezes
e os homens do lado do boi
afiaram as lanças.
A mãe preparou as palavras devagarinho
mas o que saiu da sua boca
não tinha sentido.
A mãe olhou as entranhas com tristeza
espremeu os seios murchos
ficou calada
no meio do dia.

(Dizes-me coisas amargas como os frutos)

Ana Paula Tavares
Angola




Imagem: Internet

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vou lá visitar pastores






A terra que te ofereço

1

Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

2

Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.

3

Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.


Ruy Duarte de Carvalho
      1941-2010

VER
SOBRE ESTE AUTOR

Poema retirado de:


http://betogomes.sites.uol.com.br/

Imagem retirada do
Google