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segunda-feira, 12 de maio de 2025

A rua é das crianças

 



Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. 

Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem.
 
Não projetam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo





***

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão





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1º excerto:"Obra Poética de Ruy Belo-Vol.1 p.185 - aqui
2º excerto: Pedra filosofal - António Gedeão - aqui

sábado, 25 de abril de 2015

Poema do Homem Só





Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
 Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
 Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
 Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
 Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
 Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.
António Gedeão


Palavras extraídas do discurso de Urbano Tavares Rodrigues, intitulado: António Gedeão: Decifrador do mundo, alquimista do sonhoaqui:
Como sábio, como alquimista – dos minérios e do verbo – vem António Gedeão, com Movimento Perpétuo, em 1956; com Teatro do Mundo, em 1958; com Máquina de Fogo, em 1961, superar o verdadeiro abismo que existia (e afinal continua a existir, salvo raras excepções) entre esses dois domínios. Os seus poemas lírico-didácticos, de constatação das coisas, de explicação dos fenómenos conseguem a fusão das duas atitudes habitualmente separadas; a sua viva inteligência, a sua palavra serena penetram a mecânica do mundo físico e criam os seus correlatos no jardim das ideias e das sensações.

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Meu amigos, desejo-vos um excelente DIA DA LIBERDADE.
Abraço
Olinda

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A imagem foi retirada daqui

quinta-feira, 20 de março de 2014

Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel

A Primavera chega hoje às 16h57. É o que nos dizem aqui e, segundo parece, vai ser assim, no dia 20 de Março e não 21, até 2050. A tradição já não é o que era, está visto. Também a questão do equinócio da Primavera, com dias iguais às noites, não é bem assim. A ocasião em que isso se verificou foi há dois dias. E o especialista do Observatório Astronómico de Lisboa explica-nos porquê: No domingo, o Sol nasceu às 6h46 e pôs-se às 18h45, e a noite para segunda-feira terminou às 6h44. Contra estas circunstâncias nada há a fazer, mas o certo é que hoje o dia nasceu um tanto cinzento. Quem sabe se amanhã ela, a Primavera, não aparece esplendorosa, fazendo jus à cultura popular.


E como neste Xaile tudo é pretexto para mais um poema e também porque todo o tempo é Tempo de Poesia, leiamos, a propósito, António Gedeão:


Tempo de Poesia


Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.


António Gedeão
    (1906-1997)

Interessante este homem. De seu nome, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, cientista e pedagogo e, acima tudo, para nós, poeta. E da Pedra Filosofal, quem não se lembra?



Eles não sabem nem sonham

Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança

*****

E quem não sonha é um triste. Que o sonho faça, sempre, parte das nossas vidas. Hoje decorre a 5ª edição da Happy Conference. Uma visão utópica? Há quem diga que a utopia é que nos faz avançar.

****

Tempo de poesia - retirado de aqui
Imgem: Internet

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Dez reis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


António Gedeão