Mostrar mensagens com a etiqueta Al-Mu'Tamid. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Al-Mu'Tamid. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de agosto de 2024

"Poema dirigido por...

...Ibn'Ammar a al-Mu'tamid num momento de 
tensão entre ambos"



Silves - Século XVII *


1. deverei fiar-me no que creio
    ou dar ouvidos a meus companheiros?
    verei realizado o meu anseio
    ou parto antes com os cavaleiros?

2. quando me entrego ao meu parecer
    vou em frente com amor ardente
    mas se discorro sabiamente
    sobre meus passos quero eu volver

3. um fundo afecto até ti me trouxe
    mas minha falta fê-lo transformar

4. curioso o Destino com a sua posse...
    só através dele logro divisar
    que longe, e não perto, devo estar.

5. temo-te, pelo poder sobre vida,
    mas a esperança tem em ti guarida
    por este afecto em coração

6. quantas vezes pudeste fustigar
    sendo eu a tua própria mão?

(...)

Hamdane Hadjadji (1932)
In:
Ibn Ammar Al-Andalusi - o drama de um poeta



***

Em Silves, al-Mu’tamid habitou o magnífico Palácio das Varandas, de que se encontram vestígios na fachada do Castelo. A fim de testar as suas capacidades, o seu pai, o rei al-Mu’tadid nomeou-o governador da cidade. Foi no Palácio das Varandas que al-Mu’tamid viveu em felicidade e lassidão, em companhia do seu amigo, o poeta Ibn Ammar. Juntos, tornaram Silves – Shilb – um importante centro cultural do mundo islâmico da época.

O mundo parecia-me um lugar menos frio e pronto a ser preenchido por novas diversões desde que Ibn Ammar fora habitar no palácio das varandas. Ele deu-me a conhecer novos prazeres. Pus de lado a obsessão de agradar ao meu pai. Éramos jovens e a cidade pertencia-nos. Tinha dinheiro para contratar músicos, bailarinas, poetas e filósofos para abrilhantar as festas na minha pequena corte. Uma felicidade nascente transmitiu à minha estadia em Silves um sentimento de euforia que nunca mais vim a experimentar da mesma maneira em nenhum outro lugar.” **

***


Veja Al-Mu'tamid aqui, no Xaile de Seda





====
* imagem daqui
Poema in: Poemário Assírio & Alvim, 2012, 06/01
** Citações: Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'tamid, de Ana Cristina Silva

Nota:
De referir que Adalberto Alves possui uma obra muito importante sobre a nossa herança árabe.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

A noite lavava as sombras das suas pálpebras com a aurora

O rei-poeta, al-Mu'Tamid, na grandiosidade das suas palavras. Do seu desterro em Marrocos, triste, roído de saudades, cantava Silves e o Palácio dos Balcões, do modo que se segue:


Saúda, por mim, Abú Bala,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha
Saúda o Palácio dos Balcões.
Da parte de quem nunca o esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava

À sua amada enviava juras de amor, assegurando-se de que a distância não seria motivo para o esquecimento: 

Invisível a meus olhos,
trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
e lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
e eu, indomável, submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
oxalá se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une
nunca a distancia o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.

E que dizer a quem vive dos ardis da paixão ou da ilusão? Ouçamos o poeta, através da voz de Eduardo Ramos e o seu alaúde, aqui

quem vive dos ardis da ilusão
e, assim, se aparta do amigo
poderá encontrar consolação?
I
quando será que estarei
livre de desdém tão fero
cujos fortes esquadrões
me dão guerra que não quero.
desvio, assim, é injusto.
juro pela luz altaneira
que em suas tranças se divisa:
não sou cobra traiçoeira
das que mudam de camisa.
II
de negras madeixas
amo uma gazela
um sol é seu rosto
e palmeira é ela
de ancas opulentas
existe em seus lábios
do néctar o gosto.
ó sede se intentas
sua boca beijar
não o vais lograr.
III
em encanto não tem
rival tal senhora,
e, fora do sonho,
quem tão bela fora?
qual espada seus olhos
lhe brilham e rosas
lhe enfeitam a face
na sombra vistosas
mas se as vais olhar
fá-la-ás murchar.
IV
dá paz ao ardor
de quem te deseja.
contenta o amor
e faz dom de ti,
vamos, sorri,
quando a boca beija.
me disse na hora:
pecar me refreia
respondi-lhe: ora,
não é coisa feia!
V
uma vez era noite
de bem longa festa.
adormeci. me disse
me acordando com esta:
teu sono vai longo
toca a levantar!
então me beijou
e eu pus-me a cantar:
fazem reviver
teus lábios a arder!    [que lábios serão?]

Al-Mu’Tamid





E nestas noites de Junho, em Beja, noites  que se querem cálidas e mágicas, talvez ele, Mu'Tamid,  se materialize no ardor da sua poesia.

Relembremos tão-só o poeta e o mecenas. Do governante e da reconquista cristã se encarregará a História.

====

Poemas:Fonte
Nota: A seguir ao último verso, na mesma linha, lê-se:[que lábios serão?]. Desconheço se a expressão faz parte do poema ou se se trata de um aparte de quem o publicou. Por outro lado, tanto se encontra o primeiro verso escrito deste modo "quem vive dos ardis da ilusão" como deste, "quem vive nos ardis da ilusão". Um pormenor que terei de verificar oportunamente.