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sexta-feira, 20 de junho de 2014

A noite lavava as sombras das suas pálpebras com a aurora

O rei-poeta, al-Mu'Tamid, na grandiosidade das suas palavras. Do seu desterro em Marrocos, triste, roído de saudades, cantava Silves e o Palácio dos Balcões, do modo que se segue:


Saúda, por mim, Abú Bala,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha
Saúda o Palácio dos Balcões.
Da parte de quem nunca o esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava

À sua amada enviava juras de amor, assegurando-se de que a distância não seria motivo para o esquecimento: 

Invisível a meus olhos,
trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
e lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
e eu, indomável, submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
oxalá se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une
nunca a distancia o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.

E que dizer a quem vive dos ardis da paixão ou da ilusão? Ouçamos o poeta, através da voz de Eduardo Ramos e o seu alaúde, aqui

quem vive dos ardis da ilusão
e, assim, se aparta do amigo
poderá encontrar consolação?
I
quando será que estarei
livre de desdém tão fero
cujos fortes esquadrões
me dão guerra que não quero.
desvio, assim, é injusto.
juro pela luz altaneira
que em suas tranças se divisa:
não sou cobra traiçoeira
das que mudam de camisa.
II
de negras madeixas
amo uma gazela
um sol é seu rosto
e palmeira é ela
de ancas opulentas
existe em seus lábios
do néctar o gosto.
ó sede se intentas
sua boca beijar
não o vais lograr.
III
em encanto não tem
rival tal senhora,
e, fora do sonho,
quem tão bela fora?
qual espada seus olhos
lhe brilham e rosas
lhe enfeitam a face
na sombra vistosas
mas se as vais olhar
fá-la-ás murchar.
IV
dá paz ao ardor
de quem te deseja.
contenta o amor
e faz dom de ti,
vamos, sorri,
quando a boca beija.
me disse na hora:
pecar me refreia
respondi-lhe: ora,
não é coisa feia!
V
uma vez era noite
de bem longa festa.
adormeci. me disse
me acordando com esta:
teu sono vai longo
toca a levantar!
então me beijou
e eu pus-me a cantar:
fazem reviver
teus lábios a arder!    [que lábios serão?]

Al-Mu’Tamid





E nestas noites de Junho, em Beja, noites  que se querem cálidas e mágicas, talvez ele, Mu'Tamid,  se materialize no ardor da sua poesia.

Relembremos tão-só o poeta e o mecenas. Do governante e da reconquista cristã se encarregará a História.

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Poemas:Fonte
Nota: A seguir ao último verso, na mesma linha, lê-se:[que lábios serão?]. Desconheço se a expressão faz parte do poema ou se se trata de um aparte de quem o publicou. Por outro lado, tanto se encontra o primeiro verso escrito deste modo "quem vive dos ardis da ilusão" como deste, "quem vive nos ardis da ilusão". Um pormenor que terei de verificar oportunamente. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Peregrinos da Eternidade

Os Cristãos rondam ao longo dos séculos as terras do califado de Córdova. Aguentam de quando em quando as expedições punitivas dos Muçulmanos, às quais ripostam sempre que podem. No começo, podem pouco. O Islão constitui por estes dias, na Hispânia como fora dela, uma civilização poderosa, refinada e culta, uma espécie de tesouro encerrado num escrutínio refulgente, que os resistentes contemplam como alcateias cobiçosas. Comparados com os inimigos, os Cristãos não passam, durante grande parte deste combate  multissecular, de seres bisonhos e grosseiros, quase todos iletrados, enfermos da sonolência intelectual que neles provoca a ignorância supersticiosa. Ao invés, no Al-Andaluz, em redor da estrela que é Córdova prosperam outras cidades magníficas, onde abundam as mesquitas e os palácios esplendorosos, onde se guarda e germina o saber em bibliotecas, universidades e salões literários, onde se edificam hospitais e banhos públicos, onde se rasgam passeios marginados de correntezas murmurantes e de verduras cheias de viço que estimulam o galope aventureiro das ideias e dos sentidos.



Não aconteceu sempre assim. Durante os avanços iniciais os Muçulmanos evidenciaram apenas uma cultura singela e prática - a dos seus desertos de origem. Mas à medida que progridem nas conquistas apropriam-se por toda a parte do que há de melhor e mais elaborado nos países que se lhes rendem. Descobrem saberes antigos - de egípcios, de sumérios, de fenícios, de hebreus. Apoderam-se de sapiências gregas, persas, indianas, chinesas, bizantinas. Saqueiam, pesquisam, compram, traduzem, estudam, difundem. Absorvem conhecimentos, transformam-nos e emprestam-lhes, como no Al-Andaluz, uma feição peculiar, inconfundível, que modelará para sempre o espaço e as pessoas. E o que passa a brilhar na Hispânia islâmica é uma civilização que se revê, orgulhosa, numa activíssima  multidão de filósofos e médicos, de matemáticos e físicos, de astrónomos e músicos, de historiadores e arquitectos, de geógrafos e químicos, de prosadores e, sobretudo, de talentosos poetas, que exaltam em palavras eternas a guerra santa, a natureza, a mulher, o amor, a vida.


Este é um excerto de 'Peregrinos da Eternidade', de José Bento Duarte, que aborda a História da Península Ibérica, na Idade Média, de uma forma quase romanceada mas, sem pecar em relação aos dados históricos. Nele ficamos a saber de muitos episódios que a História dita oficial não nos conta. Das intrigas entre as cortes dos reinos em presença, isto é, de Portugal, de Castela, de Aragão, e, concomitantemente, nas suas relações e alianças com a Inglaterra e França, bem como do seu envolvimento nas guerras da reconquista cristã. E, ainda, da própria maneira de ser dos monarcas, da sua ética ou falta dela.

Da presença dos árabes quase que não se ouve falar nos nossos dias. Nos dias do Califado de Córdova (929-1031), Al-Andaluz, ou seja, a Península Ibérica, beneficiou de momentos esplendorosos como, aliás, nos é referido acima. Com a entrada dos árabes na Ibéria em 711 e a sua permanência até 1492, ano em que se deu a queda do reino de Granada, compreendo até que ponto o enraízamento já se tinha instalado e vislumbro o sofrimento daqueles que se sentiam parte integrante da terra, situação que, como é natural, se arrastou no tempo. Em 'A Mão de Fátima', de Ildefonse Falcones, (li-o em tempos), que decorre já no Sec.XVI, vemos como o personagem principal se debate perante o dilema/conflito entre os cristãos e os muçulmanos. Que lado escolher se se traz nas veias e no íntimo a marca dos dois lados?

Cruzamento de culturas que faz de nós uns eternos peregrinos. 

  
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Em tempo:

Meus amigos

O meu agradecimento pela vossa presença e comentários sobre o tema, o que veio valorizar a intenção posta na feitura deste texto, com o valioso contributo dos autores acima citados.

De sublinhar, estas informações e impressões que a São nos trouxe:


Li o livro em castelhano e dediquei-lhe um post. Também gostei muito do primeiro livro dele, que foca a construção de Santa Maria del Mar, em Barcelona.

Parece impossível como se fala exclusivamente da expulsão dos judeus e se esquece que em três dias os mouros foram obrigados a deixar tudo para trás, embarcados para o Norte de África e lá abandonados.

Toda a Ibéria tem marcas árabes e Alhambra (em Granada) e a Mesquita de Córdoba são fascinantes e belíssimas.

Carlos V afirmou ser criminosa a intervenção cristã no templo e eu concordo plenamente.

A interioridade e a sobriedade da Mesquita são afrontadas pela sobrecarregada exuberância e exterioridade da igreja católica lá implantada.

No entanto, a delicadeza e a beleza dos palácios nazarís de Alhambra também têm que se confrontar com o pesado palácio , símbolo da sua soberba, que o mesmo imperador lá mandou construir com o imposto especial que lançou sobre os mouros. Felizmente teve o bom senso de não destruir nada.

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Abraços

Olinda

****

Em caracteres pretos, excerto de:
Peregrinos da Eternidade (crónicas ibéricas medievais) - José Bento Duarte
Pgs 51 e 52
Ver considerações sobre 'A Mão de Fátima', em http://www.lendonasentrelinhas.com.br
Imagens:internet

sábado, 21 de maio de 2011

MÉRTOLA: FESTIVAL ISLÂMICO


Está a decorrer em Mértola o 6º festival islâmico, revivendo a herança árabe. Eis alguns apontamentos que retirei das fontes abaixo indicadas: 


As músicas, as artes, e sabores árabes que há séculos 'alimentavam' o quotidiano de Mértola voltam a 'invadir' a vila alentejana durante o 6º festival islâmico, que vai decorrer entre amanhã (19) e domingo.
Para reviver a herança islâmica da vila e as ligações com o Norte de África, o festival bienal, promovido pela Câmara de Mértola, recupera a 'Martulah' dos séculos XI e XII, quando era a capital de um reino islâmico e um importante porto comercial nas rotas do Mediterrâneo. O tradicional mercado de rua marroquino, o 'souk', espalhado pelas ruas estreitas e íngremes do labiríntico centro histórico de Mértola, a lembrar as medinas do outro lado do Mediterrâneo, abre na quinta-feira às 10h00. (dia 19)
A animação musical, através de som luso-árabe, será constante no 'souk', a cargo dos grupos Coral Guadiana de Mértola, Adufeiras, Boukdir, Mercadores de Abjul e Eduardo Ramos.


Mértola, sobranceira ao rio Guadiana, possui um enorme interesse histórico: de facto, esta vila encantadora e de casario branco é como um museu vivo, com os vestígios de diferentes períodos exibidos em áreas distintas.As origens de Mértola remontam aos fenícios, os quais criaram um porto comercial. Mais tarde seria aproveitado pelos romanos e arabes. Mértola chamar-se-ia Mirtolah para os arabes, e Myrtilis para os romanos. Os seus muitos tesouros podem ser admirados no Núcleo Romano, no Núcleo Visigótico e no Núcleo Islâmico.


Em 1238, D. Sacho II conquista Mértola aos mouros, doando a vila à Ordem de Santiago para esta a repovoar.


           Porque é preciso não esquecer. 






Nota: Aparecem estas duas grafias:
Martulah e Mirtolah

Jornal:Metro (18/05/2011)
http://www.liederkiste.com
http://www.mertolaonline.com/
Imagem:
http://dnn.cm-evora.pt