O rei-poeta, al-Mu'Tamid, na grandiosidade das suas palavras. Do seu desterro em Marrocos, triste, roído de saudades, cantava Silves e o Palácio dos Balcões, do modo que se segue:
Saúda, por mim, Abú
Bala,
Os queridos lugares
de Silves
E diz-me se deles a
saudade
É tão grande quanto
a minha
Saúda o Palácio dos
Balcões.
Da parte de quem
nunca o esqueceu.
Morada de leões e
de gazelas
Salas e sombras
onde eu
Doce refúgio
encontrava
À sua amada enviava juras de amor, assegurando-se de que a distância não seria motivo para o esquecimento:
Invisível a meus olhos,
trago-te
sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
e
lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
e
eu, indomável, submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
oxalá
se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une
nunca
a distancia o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.
E que dizer a quem vive dos ardis da paixão ou da ilusão? Ouçamos o poeta, através da voz de Eduardo Ramos e o seu alaúde, aqui:
quem
vive dos ardis da ilusão
e,
assim, se aparta do amigo
poderá
encontrar consolação?
I
quando
será que estarei
livre
de desdém tão fero
cujos
fortes esquadrões
me
dão guerra que não quero.
desvio,
assim, é injusto.
juro
pela luz altaneira
que
em suas tranças se divisa:
não
sou cobra traiçoeira
das
que mudam de camisa.
II
de
negras madeixas
amo
uma gazela
um
sol é seu rosto
e
palmeira é ela
de
ancas opulentas
existe
em seus lábios
do
néctar o gosto.
ó
sede se intentas
sua
boca beijar
não
o vais lograr.
III
em
encanto não tem
rival
tal senhora,
e,
fora do sonho,
quem
tão bela fora?
qual
espada seus olhos
lhe
brilham e rosas
lhe
enfeitam a face
na
sombra vistosas
mas
se as vais olhar
fá-la-ás
murchar.
IV
dá
paz ao ardor
de
quem te deseja.
contenta
o amor
e
faz dom de ti,
vamos,
sorri,
quando
a boca beija.
me
disse na hora:
pecar
me refreia
respondi-lhe:
ora,
não
é coisa feia!
V
uma
vez era noite
de
bem longa festa.
adormeci.
me disse
me
acordando com esta:
teu
sono vai longo
toca
a levantar!
então
me beijou
e eu pus-me a cantar:
fazem reviver
teus lábios a arder! [que
lábios serão?]
Al-Mu’Tamid
E nestas noites de Junho, em Beja, noites que se querem cálidas e mágicas, talvez ele, Mu'Tamid, se materialize no ardor da sua poesia.
Relembremos tão-só o poeta e o mecenas. Do governante e da reconquista cristã se encarregará a História.
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Poemas:Fonte
Nota: A seguir ao último verso, na mesma linha, lê-se:[que lábios serão?]. Desconheço se a expressão faz parte do poema ou se se trata de um aparte de quem o publicou. Por outro lado, tanto se encontra o primeiro verso escrito deste modo "quem vive dos ardis da ilusão" como deste, "quem vive nos ardis da ilusão". Um pormenor que terei de verificar oportunamente.
Nota: A seguir ao último verso, na mesma linha, lê-se:[que lábios serão?]. Desconheço se a expressão faz parte do poema ou se se trata de um aparte de quem o publicou. Por outro lado, tanto se encontra o primeiro verso escrito deste modo "quem vive dos ardis da ilusão" como deste, "quem vive nos ardis da ilusão". Um pormenor que terei de verificar oportunamente.
Parece impossível como se fala exclusivamente da expulsão dos judeus e se esquece que em três dias os mouros foram obrigados a deixar tudo para trás, embarcados para o Norte de África e lá abandonados.
Toda a Ibéria tem marcas árabes e Alhambra (em Granada) e a Mesquita de Córdoba são fascinantes e belíssimas.
Carlos V afirmou ser criminosa a intervenção cristã no templo e eu concordo plenamente.
A interioridade e a sobriedade da Mesquita são afrontadas pela sobrecarregada exuberância e exterioridade da igreja católica lá implantada.
No entanto, a delicadeza e a beleza dos palácios nazarís de Alhambra também têm que se confrontar com o pesado palácio , símbolo da sua soberba, que o mesmo imperador lá mandou construir com o imposto especial que lançou sobre os mouros. Felizmente teve o bom senso de não destruir nada.