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sexta-feira, 1 de maio de 2020

GRAÇA PIRES - "A solidão é como o vento"



Leu a notícia no jornal:

"Menina de nove anos agredida pela mãe".
Sabia que era dela que falavam
e escreveu no seu diário:
mãe, o que é que aconteceu?
O sorriso que começava inteiro nos teus olhos
tornou-se estrangeiro em tua boca.
Lembro-me do instante
em que começaste a fitar-me obliquamente,
como se um cerco de amordaçasse o olhar.
Depois, sem suspeitares,
tinhas as mãos vulneráveis à violência.
O que é que nos aconteceu, mãe?
Como dizer o teu andar inquieto, ou calar
o teu rosto cavado por uma qualquer angústia?
O que é que te aconteceu, mãe?
De hoje em diante usarei no tornozelo
uma pulseira negra, em sinal de protesto,
por me teres privado tão cedo da tua alegria.
Pg.46

Poemas que falam bem do estilo da Autora, da sua prodigiosa propensão em ir ao fundo das emoções e sentimentos humanos.

Parabéns, Graça Pires.






Encontrou-o à entrada do deserto

absorto, como se conhecesse
todas as invocações do silêncio.
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.
Ela saía do deserto. O mesmo deserto.
Trazia um cacto murcho em cada mão
e um rio seco a escamar-lhe a pele.
Olharam-se. E ela contou-lhe.
Contou-lhe das vezes que se afogou no chão
pensando que era água;
como rebentaram seus lábios pela sede interminável.
Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;
que bebeu o próprio sangue
para curar a febre e o delírio.
Falou-lhe do medo e do cansaço
que venceu cambaleando, rastejando,
dormindo agarrada à noite.
Ele hesitou.
Depois, com uma quietude
que só nos prodígios acontece,
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.
Pg. 61







Hoje, lançamento no Facebook - Poética Edições.
(01/05)


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BREVE RESENHA SOBRE O LIVRO DE GRAÇA PIRES, "A SOLIDÃO É COMO O VENTO" - AQUI