domingo, 7 de abril de 2024

Liberta em Pedra





Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que é dor maior,
por dentro da harmonia jacente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.

Não importam feições,
curvas de seios e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mãos.

Importa a liberdade
de não ceder à vida,
um segundo sequer.

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.
- Falavas? Não ouvi.
- Beijavas? Não senti.
Morreram? Ah! Morri, morri, morri!

Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto...
E fugir pela noite,
sem corpo, nem dinheiro,
para ler os meus santos
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filósofos e nautas,
de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,
da música concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta?

Natércia Freire,* 
in 'Liberta em Pedra'




Livre, liberta em pedra, voltada para a luz para o mar azul 
e para o mar revolto...

O facho da liberdade que cada um traz em si, latente, em especial a mulher que, muito muito tarde, encontra o seu lugar na escrita do mundo dos homens.
 
Considerada como ser imperfeito, a mulher, sem outro préstimo que não fosse enfeitar a realidade desse mesmo mundo, foi a par e passo desabrochando, mercê de luta incessante ao longo dos tempos e compreendendo que o seu 
destino era outro.

***
  



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*Vale a pena ler a Biografia, mais completa, da autora, aqui, escrita por altura do
Centenário do seu nascimento.

Citador - poema

Imagem - net


quinta-feira, 4 de abril de 2024

Evolução







Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo

tronco ou ramo na incógnita floresta...

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo...


Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

Ou, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paúl, glauco pascigo...


Hoje sou homem, e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, da imensidade...


Interrogo o infinito e às vezes choro...

Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.


in "Sonetos"



***


Um soneto que termina em glória. Encontra-se nele a consciência do ser que sente em si as dores do mundo. Que luta contra as emoções que poderão impedir a sua alma de se sublimar. Ainda no nebuloso limbo tacteia e depara-se 
com um ideal maior que é aspirar à liberdade. 




FREI HERMANO DA CÂMARA


-NA MÃO DE DEUS-
Soneto de Antero de Quental


***


Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada18 de abril de 1842 – Ponta Delgada11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta português do século XIX que teve um papel importante no movimento da Geração de 70. aqui




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Poema - Citador

imagem relevo cárstico - net

domingo, 31 de março de 2024

Ode à Paz





Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,


Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

In: Inéditos (1985/1990)


***

A Paz! Senhora que nos fita do alto de várias incongruências, que nos acena, que nos sorri. E parece tão ao alcance das nossas mãos. Mas qual quê! Queremo-la realmente? Quantas e quantas vezes não pomos à frente as nossas próprias vontades.
Mas hoje saudemo-la, à Paz, desejemo-la com todas as nossas forças. Ela não é uma palavra vã. Olhemos para o que se passa lá fora, para as guerras que grassam e que fazem tantas vítimas. Vítimas de bombas das mais sofisticadas, da fome declaradamente visível. 
Quando vejo vultos de sacos ou volumes que caem dos céus, largados por aviões, e os pobres massacrados a correrem pela praia ou outros lugares para os apanhar, sendo por vezes atingidos pela metralha sem poderem gozar esse bem, começo a pensar que a nossa evolução como pessoas é uma "treta". 
A crueldade anda à solta.
 
E junto a minha voz à de Natália Correia:

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

***

BOA PÁSCOA
FAÇAMOS A NOSSA PARTE,
PARA A NOSSA REDENÇÃO.

Abraços

Olinda



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Poema: citador