segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Presente não existe


Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência. 



Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo. 

 
in 'Ensaio: O Tempo'


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Texto: Citador
Imagem: aqui

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Poema de Setembro





Sugeriram-me um poema sobre Setembro. Comecei
de imediato a pensar: tirar um Setembro das recordações? Criar
um Setembro que jamais existiu? E criar como? Só como entidade
fortuita, como vivência crepuscular? Num princípio de manhã?
Setembro como lugar e hora, como estância perdida? Porque
Setembro é algo de impalpável, estranhamente inexistente, um risco numa
parede entre duas portas cerradas. Ou então
algo tão intenso e cheio de presença como uma sombra enorme
num pátio abandonado. Setembro como memória perene? Setembro como fuga
como chegada à palavra e ao horizonte das formas?

Eis a voz. Eis o nome. Eis o lugar que se escolheu. Um vestígio
de matéria absurdamente concreta. Porque os demais momentos
são agora um ruído junto das casas que se habitaram
com todo o seu encanto e desencanto primordiais. Com a semelhança
de olhares e de ausências.

E assim Setembro me poisou num ombro
como réstea de sol  num dia inteiramente comum. Setembro
que é dito, que é escrito, que é rememorado
Setembro que se olh
a e nos define como seres ao anoitecer
ante este muro sobre o qual já se vêem os astros habituais
e que são tão nossos como o grito súbito de uma ave indistinta.

Setembro que não sei dizer
Setembro que nos foge quando o tentamos olhar
Setembro que lembro e que conheço como uma cor amada
mês que morre e revive em mim como um soluço um beijo um aceno

de mão sulcada por muitas linhas e pensamentos.

(Do livro em preparação Escrita e o seu contrário)


Pseudónimo de Francisco Ludovino Cleto Garção
Poeta, pintor, publicista, actor/declamador. Aqui

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Poema de Aqui - O Arquivo de Renato Suttana
Imagem: Pixabay

terça-feira, 21 de agosto de 2018

As Pontes - Obras de Arte de Engenharia Civil

As pontes ligam pessoas e coisas e fazem a vida acontecer. À vista delas pensamos logo em duas margens e na possibilidade de irmos de um lado ao outro e trazer o que nos faz falta tanto no aspecto material como num mais elevado, poético, (quase que oiço os Jáfumega: A ponte é uma passagem// p'rá outra margem//Desafio pairando sobre o rio//a ponte é uma miragem). 

E é indiscutível: a existência das pontes facilita grandemente o nosso quotidiano. O interessante é que na construção civil elas têm a designação de Obras de Arte. Assim os viadutos e os túneis, bem como as barragens, os diques, as eclusas, os muros de sustentação. 


O termo remonta à época em que tais estruturas eram concebidas por artífices que, graças a uma importante intuição e criatividade, conseguiram conceber e construir obras que eram apelidadas de "obras de arte". aqui

Só que essas estruturas foram construídas para suportar determinados pesos e esforço, conforme as exigências de cada época. Se pensarmos que em Portugal temos pontes desde os romanos e que de lá para cá foram sendo construídas muitas mais tomamos consciência de como o seu número é elevado*, o que multiplica os cuidados a ter com a sua manutenção. Logo, há que vigiá-las e avaliá-las constantemente no sentido de se determinar se a sua utilização, de forma continuada, obedece aos parâmetros devidos de segurança.


Construída entre o Século I e o Século II d.C.


Passagem de uma resenha histórica em relação às pontes:

Apesar de as primeiras estruturas em arco terem surgido inicialmente na Mesopotâmia e no Egipto entre os anos de 4.000 a.C. e 3.000 a.C., é com os romanos que nascem os primeiros verdadeiros engenheiros da nossa civilização. Tendo por base os conhecimentos adquiridos do contacto com as culturas etrusca e grega e partindo da aplicação do arco, do ponto de vista pragmático e através de experiências em série, os romanos deduziram os princípios teóricos da construção de pontes.* 

Em Março de 2001 fomos assombrados com a queda trágica de um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro, também chamada de Entre-os-rios, e com ela perdemos 59 vidas. Investigações e mais investigações. Foi da areia retirada sistematicamente das suas bases? Parece que foi essa a conclusão. Não foram encontrados culpados. A ponte entrara oficialmente ao serviço em 1888, tendo sido sujeita a algumas intervenções ao longo dos anos, mas não as suficientes em termos de fiscalização para evitar tal desastre. 





O que aconteceu com a Ponte de Entre-os-rios veio despertar-nos para a necessidade urgente de reavaliar o estado das pontes no sentido de passarmos à sua reabilitação. De 2014 encontrei notícias de que haveria cerca de 430 pontes e viadutos a necessitar de obras. Sobre a sua efectivação nada sei. De uma entrevista de 18 deste mês, do Público, a um responsável da Infraestruturas de Portugal, respigo esta pergunta e a correspondente resposta:

Existe um plano de fiscalização com períodos definidos para vistoria?

Podem ser inspecções mais detalhadas a que chamamos inspecções principais, e que regra geral ocorrem de seis em seis anos, ou inspecções de rotina, que têm uma base anual e servem para identificar eventuais anomalias ou confirmar que a manutenção corrente é suficiente.


Podemos ficar descansados? 

De concreto, sabemos que há projectos em relação à Ponte 25 de Abril, para 2019, com vista à realização de obras de reabilitação o que levará à interrupção do trânsito nos seguintes dias: 

No sentido Norte/Sul, os cortes estão previstos para os dias 18 e 19 de maio e 13 e 28 de outubro. No sentido Sul/Norte, as interrupções serão efetuadas nos dias 11 e 12 de maio e 12 e 19 de outubro de 2019. As datas indicadas por António Laranjo coincidem com madrugadas de fins de semana e foram anunciadas durante uma audição na comissão de obras públicas do Parlamento sobre as obras de reabilitação da Ponte 25 de Abril.



A intervenção durará dois anos e ao longo desse tempo outros cortes poderão ser necessários.

Venham as obras e as interrupções de trânsito, para o bem de todos nós.


Daqui expresso a minha tristeza pela tragédia sofrida pelos genoveses com o desabamento do viaduto Morandi, que ceifou tantas vidas e mergulhou os sobreviventes em grande sofrimento. 


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Leia mais:

Ponte 25 de Abril - História

Lista de Pontes de Portugal

Obras na Ponte 25 de Abril

*7200 obras de arte - Manutenção e reparação em tempo

**Conferência Internacional sobre Reabilitação de Estruturas Antigas de Alvenaria
fulltext_CIRea2012.pdf - (Aqui ficamos a saber tudo, ou quase tudo, sobre estas estruturas)

Imagens- Wiki