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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

OS JUSTOS

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salv
ar o mundo.

             In "A Cifra"






Sobre este poema diz-nos Francisco José Viegas, aqui:
O poema “Os Justos”, de Jorge Luis Borges, resume a ideia de que há poemas que salvam a nossa vida. À medida que o tempo passa, que a morte se atravessa no caminho, que a memória exige esforço e sacrifícios cada vez mais pesados, a poesia parece transportar algum material de salvação. Não para a morte, física e real — mas para a vida, que falha tantas vezes. Não é uma solução nem um bálsamo; é um fragmento de beleza (e de alegria, e de serenidade, e de atenção) que busca a nossa perplexidade.



BOM ANO, MEUS AMIGOS.
ABRAÇOS
OLINDA


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Imagem:pixabay

sábado, 15 de abril de 2023

AS CAUSAS



Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges,


Jorge Luís Borges casou-se já no final da vida com Maria Kodama, a mulher que o acompanhava havia anos, fosse como leitora (assim começou, ao que parece, a sua relação, pois Borges cegara bastante cedo), fosse como uma espécie de secretária (era ela que organizava a sua agenda).
(...)Maria Kodama morreu no final de Março e ninguém encontra o seu testamento. Deste testamento constariam certamente os nomes das pessoas para quem seriam transmitidos os seus bens, nomeadamente os direitos de autor das obras de Jorge Luis Borges. Se o documento não for encontrado, a propriedade será transferida para o Estado argentino, (...)

Excerto de um texto in "Horas Extraordinárias", intitulado 







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in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Poema trazido do Citador

Alguns posts no Xaile de Seda, sobre Jorge Luís Borges

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

 in 'Ensaio: O Livro'

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires24 de agosto de 1899 — Genebra14 de junho de 1986) foi um escritorpoetatradutorcrítico literário e ensaísta argentino. aqui





Dia Internacional do Tango



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Texto: daqui

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Presente não existe


Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência. 



Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo. 

 
in 'Ensaio: O Tempo'


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Texto: Citador
Imagem: aqui

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Elegia da lembrança possível





O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.


O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.


O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.


O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.


O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.


O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.


O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.


Jorge Luís Borges
  1899-1986


Argentino. Escritor, tradutor, crítico literário, ensaísta.
Um homem que reúne no seu âmago a memória do mundo, através de milhentas leituras e análises. Penso ver isso no conto A Biblioteca de Babeluma metáfora em que mundo e literatura se confundem, segundo algumas interpretações. Assim, ler um texto é tentar decifrá-lo, mas se considerarmos que o próprio mundo está impregnado de linguagem, a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.
Nas suas obras destacam-se temáticas como a filosofia, a metafísica, a mitologia, a teologia. Mas também aborda a cultura das pampas argentinas e lida com campanhas militares reais, como a guerra na argentina contra os índios, tratando-as como pano de fundo para produção na área da ficção.

Não é a primeira vez que nos envolvemos aqui na leitura deste autor. E não há-de ser a última. Descobrir a sua obra é como fazer uma viagem ao princípio de tudo. Aliás, é um exercício da lembrança possível num mundo ainda por acontecer.

Abraço.

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Imagem-pampa argentina:daqui

sábado, 27 de setembro de 2014

Para que um dia as nossas mãos se unissem...































Quanto caminho não haveria de ser percorrido, desde os primórdios, na lonjura dos tempos, nos incomensuráveis e insondáveis dias que nos precederam: Adão, a palavra, o hexâmetro, os espelhos. O infinito linho de Penélope. O tempo dos estóicos. O mar aberto. O ávido ouro. Cada remorso e cada lágrima. As causas, elas aqui estão:

As Causas


Todas as gerações e os poentes. 
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem. 

Jorge Luis Borges
    1899-1986 

Tempo para recordar Jorge Francisco Isidoro Luís Borges de Acevedo, nascido em Buenos Aires, em 1899, poeta, crítico literário, ensaísta. Li, há alguns dias, que a Câmara de Torre de Moncorvo, em parceria com a Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, vai fazer um estudo genealógico sobre o escritor argentino, percorrendo 200 anos até às suas raízes. Consta que em 1850, o seu bisavô, Francisco Borges, saiu de Torre de Moncorvo, integrado numa expedição militar para o rio de la Plata e nunca mais regressou a Portugal. Aguardemos... 


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Poema: in "História da Noite" .Tradução de Fernando Pinto do Amaral.Citador
Ler também o Advento-aqui 
Imagem: 
La insondable pampa argentina-daqui

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Advento

Sou o que fui na aurora, entre a tribo.
Deitado em meu canto da caverna,
Lutava por afundar nas obscuras
Águas do sonho.
Espectros de animais
Feridos pelo estilhaço da flecha
Davam horror à negrura.
Mas algo,
Talvez a execução de uma promessa,
A morte de um rival sobre a montanha,
Talvez o amor, ou uma pedra mágica,
Me fora outorgado. Perdi tudo.
Pelos séculos gasta, a memória
Só guarda essa noite e sua manhã.
Sentia desejo e medo.
Bruscamente
Ouvi o surdo tropel interminável
De um rebanho atravessando a aurora.
Arco de roble, flechas que se cravam,
Deixei-os e corri até a greta
Que se abre no extremo da caverna.
Foi então que os vi.
Brasa avermelhada,
Cruéis os cornos, montanhoso o lombo,
A crina lúgubre como os seus olhos
Que espreitavam malvados. 
Aos milhares.
São os bisões, eu disse.
A palavra Nunca antes passara por meus lábios,
Mas senti que talvez fosse seu nome.
Era como se eu nunca houvesse visto,
Como se houvesse estado cego e morto
No tempo antes dos bisões da aurora.
Eles surgiam da aurora.
Eram a aurora.
Não quis que os outros profanassem
Aquele denso rio de bruteza
Divina, de ignorância, de soberba,
Indiferente como as estrelas.
Pisotearam um cão do caminho;
Teriam feito o mesmo com um homem.
Depois os traçaria na caverna
Com ocre e cinábrio. 
Foram os Deuses
Do sacrifício e das preces.
Nunca
Disse minha boca o nome de Altamira.
Foram muitas minhas formas e mortes
.

Jorge Luís Borges






Este poema foi-me trazido por Canto da Boca na altura em que publiquei, aqui, um poema apócrifo atribuído a este autor e intitulado InstantesPoderemos assim fazer um cotejo entre os dois poemas ou simplesmente lê-lo e sentir o pulsar desta grandiosa forma de escrever.


Sobre o autor, fui buscar ao Bibliotecário de Babel estes elementos:

Argentino de cultura anglófona, Borges viveu a infância na biblioteca do pai e atravessou a vida como se nunca de lá tivesse saído. O seu universo é livresco no melhor sentido da palavra, erudito, especulativo, fantástico, reinventando permanentemente os grandes temas (o tempo, o infinito, a ordem secreta do mundo). Em vez de «compor vastos livros», preferiu «simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário». Poeta maior, ensaísta agudíssimo e enciclopédico, escreveu dezenas  de contos perfeitos, atravessados por tigres, espelhos, labirintos, simulacros e parábolas. Alguns dos mais geniais estão em FicçõesTlön, Uqbar, Orbis TertiusPierre Menard, autor do QuixoteO Jardim dos Caminhos que se BifurcamA Biblioteca de Babel.
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Nota - O Advento consta de O Ouro dos Tigres, 1972

Imagem - internet