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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fugit irreparabile tempus

Dizia Virgínia Woolf que é sempre indiscreto mencionar os nossos afectos. Pode ser indiscreto mas é, se calhar, inevitável. Como é bom descobrir uma poesia, um poeta, um texto pelos quais se sente admiração (genuína) e, ao mesmo tempo, afecto (irresistível)! A poesia (e nela incluo os belos poemas em prosa que são parte dela) de Eduardo Bettencourt Pinto, este livro, em particular - Um Dia Qualquer em Junho - é um motivo singular de admiração e afecto. Admira-se e gosta-se, isto é, sentimo-nos bem a admirar e admiramos aquilo de que gostamos. Convergências assim são mais raras do que se pensa.

Pego nestas palavras de Eugénio Lisboa, com as quais ele inicia o prefácio ao livro referido, e faço-as minhas ao mesmo tempo que o abro na página sessenta e um que contém este poema:

Fugit irreparabile tempus*

As tábuas das palavras, ei-las,
secas,
de tanto sol,
dos sibilantes espíritos do mar,
do voo raso de pombos bravos,
das mulheres bordando rosas de sal
enquanto escutam nas mãos
o germinar da terra, os filhos
duma aparição.
As cigarras acoitam aqui o canto, as noites
enluaradas.
Construo com elas a casa do sul,
a dor e o júbilo das monções, nomes de barro
resgatados ao martírio e ao êxodo do olhar,
 a vasta ressonância dos apelos,
atravesso as dunas e as cidades, 
os vidros embaciados dos sonhos,
este difícil ofício de ser homem
na grande e branca varanda de setembro,
o verão quase no fim.

*(Virgílio, Geórgicas) 

Na irreversibilidade da passagem do tempo, ao longo dos tempos, a renovação das ideias tem sido uma constante, indo nós buscar, não poucas vezes, inspiração ao passado. E em todos os tempos, momentos houve em que o colapso desta capacidade do ser humano pareceu iminente. Como agora, em que nos enrodilhámos num círculo vicioso, a nível mundial, embasbacados atrás dum só objectivo: o materialismo aliado ao vazio de sentimentos e de valores. Um tempo perigoso em que o mais pequeno deslize, o detalhe dum ecce homo desfigurado galvaniza o mundo. Um tempo em que a banalização da guerra e notícias de vítimas inocentes perecendo irremediavelmente em ataques fratricidas entram na ordem do dia.

É tempo de consciencialização e de instrospecção. Reverdeçam palavras de amor e de fraternidade. Recordemos o nosso ofício de seres racionais, amoráveis e viajantes do espaço, refazendo o percurso da estrada de damasco, a outra, de há dois mil anos - instantes de luz e inspiração...

sábado, 5 de março de 2011

TEMPOS (i)



O tempo das esperas, de deixar amadurecer uma notícia, de chorar por causa de uma catástrofe, de um cataclismo, já lá vai. Agora tudo se sabe a cada minuto, praticamente antes de acontecer, privando o nosso espírito do seu poder de assimilação. 

Estamos a anos-luz da sucessão paulatina dos dias e das noites, de ver o tempo nas estrelas, na Via Láctea ou Estrada de Santiago, de contemplar a lua e saber que vai chover, do esvoaçar dos pássaros quando o vento se avizinha. E a anos-luz estamos do tempo dos mensageiros que percorriam grandes distâncias e chegados ao destino sucumbiam exauridos; dos dias e dias, meses, anos que duravam as viagens antes e depois do tempo das catedrais e do cantochão; do tempo dos peregrinos, do caminho das florestas que continha perigos de toda a espécie; do mar de ondas alterosas e monstros que alimentavam a imaginação das gentes.

Caminhando em direcção ao futuro a forma de comunicar foi sendo aperfeiçoada: correio expresso, estradas, veículos de tracção animal, automóveis, aviões supersónicos, naves espaciais, que sais-je?, o mundo é hoje uma coisa só. Da nossa casa, sentados a uma secretária, deitados, de uma bóia na piscina, de um banco de jardim, no mar, a sulcar os céus, podemos decidir do destino das nações, das pessoas, da guerra, da paz. As ferramentas electrónicas de hoje facilitam-nos a vida até ao inconcebível; tanto podemos combinar encontros amorosos, manifestações cívicas como engendrar revoluções... E nem precisamos ser especialistas, é tudo na óptica do utilizador e à distância de um clique. 

Ao mesmo tempo, através dessas estradas as ideias são veículadas, o pensamento filósofico como medida de todas as coisas sofistica-se, a evolução em termos conceptuais e abstractas afirma-se cada vez mais e já há alguma dúvida se estaremos ainda, integralmente, no tempo do homo sapiens sapiens ou se haverá já, de entre nós, um grupo que se destacará não tarda nada.

Contudo, pobres de nós, com os neurónios concentrados na nossa faceta de Indivíduo Sentado estamos a perder a habilidade de sobreviver em contacto com a natureza. No nosso código genético estará inscrito que fazemos parte integrante dela e antes de nos distanciarmos irremediavelmente dos outros primatas teríamos tido a noção disso. 

Mas, bem no nosso íntimo vamos sentindo o apelo da selva. Não poucas vezes bate em nós aquela sede de aventura.Então resolvemos dar asas a essa condição, fazemos um pique-nique ou acampamos, acendemos uma fogueira, descuidamo-nos e incendiamos tudo; sentamo-nos numa escarpa em frente ao mar, com saudades indefiníveis, contemplando a linha do horizonte, na conversa com amigos, vêm ondas e levam-nos; aproximamo-nos de uma ribanceira muitas vezes de um precipício para olhar lá para baixo, numa curiosidade incompreensível ou não, e escorregamos. Mais ainda, metemo-nos em mares e rios cujos perigos não conhecemos e desaparecemos.

E isto repete-se todos os anos, sempre que o tempo se torna mais ameno, lá vamos nós perecer numa atitude inglória e fatalista.

Il faut cultiver notre jardin.


Imagem Google