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segunda-feira, 21 de março de 2022

Uma outra Europa?

Talvez. 

A Europa cindida, cultural e politicamente, em Leste e Oeste terá, efectivamente, muitas diferenças em termos de mentalidade, de vivências de séculos, mas sempre o mesmo ser humano com as suas alegrias e tristezas. No sofrimento somos todos iguais, tudo se esbate nas nossas fragilidades.

Quando invadem a nossa terra, bombardeiam os nossos hospitais, as nossas maternidades, os centros culturais; 

quando temos de fugir, quem sabe, para nenhures, com as nossas crianças nos braços ou pela mão, os nossos velhos a arrastaram-se de lágrimas nos olhos, com os seus parcos haveres; 

quando temos de deixar para trás, filhos, companheiros, pais, em idade activa, para combaterem por esse bem maior que é as nossas vidas organizadas em comunidades, com as instituições cujos representantes elegemos e que dão estabilidade à vida em sociedade; 

quando somos desalojados das nossas casas e somos acordados pelo barulho do seu desmantelamento, caindo pedra sobre pedra, ficando soterrados ou alvejados... 

Nessas horas a nossa condição humana, o instinto de sobrevivência, o apego ao quotidiano, uma espécie de paraíso perdido, irmana-nos na dor, e o sentimento de perda e impotência é o mesmo.



A invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de Fevereiro, tem feito desfilar perante os nossos olhos o espanto de um regresso a tempos que já pensávamos ultrapassados. A aquisição de valores como a democracia, o direito de um povo decidir do seu destino, parece não ter importância para quem diz que o ocidente não terá sucesso no seu domínio do mundo. 

Penso que temos estado um tanto adormecidos não ligando a ameaças que Vladimir Putin tem vindo a fazer, pensando, como dizem os entendidos na matéria, na reconstrução do antigo Império russo. No primeiro quartel do século XX caímos na mesma esparrela perante ao que Hitler vinha dizendo, palavras que ficaram registadas em livro tristemente famoso e na vida de milhões de pessoas.

Como e quando irá isto parar ninguém sabe, apesar do que dizem os muitos especialistas que por aí pululam, aventando várias saídas...ou saída nenhuma.

A cruel realidade é o sofrimento que esse desastre bélico está a causar a todo um povo que resiste e luta pelo direito à terra e à liberdade, com o perigo quase palpável de alastramento do conflito.

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Mapa: daqui

terça-feira, 1 de março de 2022

Avó negra





Minha avó negra, 
de panos escuros
da cor do carvão
Minha avó negra, de panos escuros
que nunca mais deixou.
Andas de luto.
Toda é tristeza

Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis dos quimbandas.
Não chinguilas no óbito
tuas mãos de dedos encarquilhados
tuas mãos calosas da enxada
tuas mãos que me preparam
(quitabas e quifututilas),
tuas mãos, ora tranquilas,
desfiam as contas gastas
de um rosário já velho.
Já não sabes chinguilar
não fazes mais que rezar.
Teus olhos perderam o brilho.
E da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas.

Avozinha, às vezes
ouço vozes
que te segredam saudades
da tua velha senzala
da cubata onde nasceste
das algazarras dos óbitos
do sonhos do alambramento
que supunhas merecer.
E penso que
se pudesses
talvez revisses
as velhas tradições. 

    (1934-989)




Welwitschia - Deserto do Namibe


Meus amigos:

Neste momento, no ano de 2022, encontramo-nos de luto perante a agressão da Rússia à Ucrânia. Movimentos da sociedade civil multiplicam-se em actos de solidariedade, no envio de medicamentos, roupas, apoio moral àqueles que procuram um lugar para se albergarem com crianças e idosos. Todos não seremos demais para uma ajuda efectiva, é um facto.

Mas eis que no meio dessa tristeza o que mais estaria destinado aos nossos olhos e aos nossos ouvidos? 

Discriminações nas fronteiras, que conduzirão à liberdade, a negros, indianos e outros que não estão na escala de valores de caucasianos, barrados sem consideração pelo tempo de espera ao relento, entregues às intempéries. Quando mulheres e crianças têm prioridade nos lugares nos comboios, autocarros e no atravessamento das fronteiras, em relação a mulheres e crianças negras essa atenção não se põe?

Tempos que se recuam ou então não temos emenda, mesmo...





Choremos!




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Poema  e glossário: daqui
Glossário:
cazumbi - espírito, alma dos mortos; feitiço,
quimbanda — curandeiro,
chinguila - dançar em êxtase,
quitaba - pasta comestível.
quifututila - doce angolano.
alambramento – dote ou presente de noivado.

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Poeta, contista, e ensaísta angolano, Mário António Fernandes de Oliveira, nascido em 1934 e falecido em 1989, ocupa um lugar de destaque na vasta literatura angolana.
Foi activista político, ligado à criação do Partido Comunista de Angola (PCA) e do Partido de Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUAA), conjuntamente com Viriato da Cruz, António Jacinto e Ilídio Machado. Por repressão da polícia política abandonou as actividades políticas.
Foi professor auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, director do Serviço para a Cooperação com os Novos Estados Africanos, da Fundação Calouste Gulbenkian e presidente da Secção de Literatura da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Enquanto ensaísta crítico, Mário António estudou, aprofundadamente, a literatura angolana, bem como as próprias estruturas histórico-sociais de Angola, ou não fosse licenciado em Ciências Sociais e Políticas e Doutorado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
Quanto à sua poesia, poder-se-á dizer que Mário António começa por utilizar, inteligentemente, os modelos brasileiros (muito usados na época, até mesmo pela proximidade dos temas, sentimentos e realidades entre Angola e o Brasil), recorrendo também a linhas literárias europeias.
Entrando mais concretamente na temática da sua produção poética, pode dizer-se que esta está amplamente marcada pela temática da infância em que dominam os valores africanos da religiosidade e da fraternidade.
A sua poética está efetivamente marcada por esta "saudade" de um passado real: "saudade" do mundo da infância, em que as relações puras eram possíveis.
Em todas as fases poéticas de Mário António verificamos a permanente oposição entre dois campos distintos - campos esses que marcam a própria vida angolana: de um lado temos a cidade da infância, o tempo de todas as possibilidades, o local da união, o sítio e o tempo mágico em que o homem dependia apenas dos fenómenos da natureza e guiava os seus passos pelos astros; do outro lado, a camada do cimento, as grandes construções que destruíam o espaço amplo e livre do antigamente, a sociedade mesclada: brancos, negros e mestiços. aqui e aqui