já sabias que mais cedo ou mais tarde haveria de escrever um texto meloso como este; porque constantemente fazes questão de me lembrar que todos os dias devemos empenhar-nos na construção de um mundo só nosso - não de uma casa, não de uma conta bancária, não de uma mentira, mas de um mundo - um mundo inteiro cheio de coisas imensas, cheio de amor, cheio de tudo aquilo que conseguirmos meter lá dentro, cheio de vida; porque daqui a uns anos vamos com certeza ser capazes de nos comover com esta história; porque esta é a história que vamos querer contar aos nossos filhos (e que vamos querer que eles se encarreguem depois de contar às gerações futuras), esta é a história que nos emociona sempre que pensamos na grande probabilidade da mesma se vir a realizar, e nos faz chorar – mesmo quando não há nada para chorar – ao imaginarmos a remota hipótese dela não se vir a concretizar; porque a verdade é que todos os dias devemos ser capazes de chorar por tudo e por nada – saber chorar é uma qualidade, tentarmos ser felizes porque o que importa é sermos felizes – saber ser feliz também dá trabalho – e aceitarmos o que a vida nos dá e desejarmos sempre mais e mais felicidade, agarrarmos a vida pela mão, deixarmo-nos conduzir por ela, não permitimos que nada nos escape: esta é a nossa vida e não há-de haver outra; um dia saberemos reconhecer a importância de tudo isto quando olharmos para trás e nos revirmos: se ainda agora podemos constatar que o amor não encolheu, é porque há qualquer coisa de mágico e de imortal nesta nossa simples pretensão, há qualquer coisa de mágico em nós
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segunda-feira, 16 de setembro de 2024
terça-feira, 22 de novembro de 2016
uma mãe com ar de casa
uma mãe com
ar de casa, um edifício de habitação que lentamente se vai arruinando e tão
depressa se transformará em escombros; o que nos conforta é a perfeita consciência
de que haverá sempre uma beleza fértil, um legado, uma paisagem afectiva que se
produz, nos pormenores, nos pequenos gestos, a atenção que ela nos foi
prestando durante anos, a singularidade sentimental da herança que se preocupou
em construir, a magia edificante que sempre brotará das suas mãos, da sua alma,
dessa coisa que em si produzia amor, o brilho que emana da sua arquitectura
emocional; e não há palavras capazes de explicar, tudo em si é representativo
daquilo que nos dá, que nos deu, do que ela é, do que ela foi, do que sempre
será; e pensamos muito no que aconteceria se de repente um infortúnio qualquer
no-la roubasse, sabendo que à medida que vamos crescendo isso virá a acontecer;
e porque ela nos faz muita falta, e toda a gente a quer muito, ninguém sabe,
ninguém está nunca preparado, ninguém consegue sequer imaginar a sua ausência,
como se ela fosse uma espécie de campo magnético, um valor central, um
incêndio, as coisas mais antigas de que nos lembramos têm todas a sua marca,
ela está lá sempre, o seu sorriso, os seus olhos, a sua luz, e não nos sai da
cabeça a hipótese da sua extinção, o simples reconhecimento de que ela findará,
de que ela terminará - tudo terminará, quando menos se espera já se acabou
Miguel Godinho*
Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI - foi aqui que o encontrei. Referência a uma antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos.
Perguntei-lhe se podia trazer este seu texto comigo. Não me disse nada. Partindo do princípio de que quem cala consente, eis-me a partilhá-lo convosco, aqui no Xaile. Desculpe-me o atrevimento, Miguel Godinho ou Miguelangelo Godinho*.
Meus amigos, já estou bem. Obrigada pela vossa amizade. A partir de 30 de Novembro vou passar uns dias noutras paragens, mais a Sul.
Abraço
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Imagem: Pixabay
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