Este é o mar que temos de atravessar que, em dias de vento, se enche de carneiros, como diz o povo, com grandes e alterosas vagas. Nos dias de calmaria parece um lago imenso, nem uma aragem consegue empurrar os veleiros que se aventuram a calcorreá-lo.
Isso era noutros tempos, na verdade. A corrente levava-os até não se sabe onde, por dias, a não ser que o vento resolvesse reaparecer.
Na actualidade, já há navios que fazem a travessia, com música a passar, salas com bons assentos para os passageiros, saquinhos para quem se sinta mal-disposto, funcionários a dar assistência a quem se sinta menos bem...
Nesse clima de bonança, bem tento sair para o convés para contemplar a força da natureza que se apresenta aos nossos olhos. Mas debalde. Lembro-me do tempo em que isso nem me passaria pela cabeça.
Realmente, de volta ao ano lectivo, de borco, quase me desfazendo no meio das maiores agruras, com a água a passar de um lado para o outro, em grandes castelos a abater sobre mim, mon Dieu!, lembra-me Vitorino Nemésio com o seu mau tempo no canal, ressalvando, bem entendido, a trama e toda a envolvência dessa grande obra.
Cesária Évora
-Mar de Canal-
Nota: Hoje, Dia da Língua Portuguesa.
Floreça, fale, cante, ouça-se e viva
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
Ver, aqui, no Xaile de Seda
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foto minha