Este é o mar que temos de atravessar que, em dias de vento, se enche de carneiros, como diz o povo, com grandes e alterosas vagas. Nos dias de calmaria parece um lago imenso, nem uma aragem consegue empurrar os veleiros que se aventuram a calcorreá-lo.
Isso era noutros tempos, na verdade. A corrente levava-os até não se sabe onde, por dias, a não ser que o vento resolvesse reaparecer.
Na actualidade, já há navios que fazem a travessia, com música a passar, salas com bons assentos para os passageiros, saquinhos para quem se sinta mal-disposto, funcionários a dar assistência a quem se sinta menos bem...
Nesse clima de bonança, bem tento sair para o convés para contemplar a força da natureza que se apresenta aos nossos olhos. Mas debalde. Lembro-me do tempo em que isso nem me passaria pela cabeça.
Realmente, de volta ao ano lectivo, de borco, quase me desfazendo no meio das maiores agruras, com a água a passar de um lado para o outro, em grandes castelos a abater sobre mim, mon Dieu!, lembra-me Vitorino Nemésio com o seu mau tempo no canal, ressalvando, bem entendido, a trama e toda a envolvência dessa grande obra.
Cesária Évora
-Mar de Canal-
Nota: Hoje, Dia da Língua Portuguesa.
Floreça, fale, cante, ouça-se e viva A Portuguesa língua, e já onde for Senhora vá de si soberba, e altiva.
A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. ecoou lamentos de uma infância perdida.
A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela
A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome.
A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância O eco da vida-liberdade.
Hoje, dia de homenagem à Língua Portuguesa, trago uma representante da Literatura Brasileira tendo em conta que o Brasil é o pais que maior contributo dá à manutenção do idioma, pelo número de falantes que apresenta.
O Português é ali Língua Oficial, o mesmo acontecendo nas cinco ex-colónias africanas - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Não nos esqueçamos de Timor-Leste. E também da Guiné Equatorial, com as nuances que lhe conhecemos.
Sendo a Língua Portuguesa uma língua viva, desde a época dos Descobrimentos ela viajou pelos cinco continentes e, como resultado, foi adquirindo vários termos desses espaços podendo-se dizer que existem tantas variantes quantos os países que a têm como língua oficial.
Conceição Evaristo é uma linguista e escritora brasileira.
É uma das mais influentes literatas do movimento pós-modernista no Brasil, escrevendo nos gêneros da poesia, romance, conto e ensaio. Como pesquisadora-docente, seus trabalhos focavam na literatura comparada. daqui
Este poema não só foca um dos momentos mais tristes do passado esclavagista como também se centra no papel da Mulher, em especial a mulher escrava. E Vem até ao presente...
Velha Infância
Maria Monte_Os Tribalistas
*NOTA
O título - Um dos versos do poema-carta do poeta renascentista português António Ferreira, em defesa da Língua Portuguesa.
Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.
Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos. No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos. Assim, como?
Texto saboroso de José Cardoso Pires, que traça o retrato do português ajoujado sob o peso de oito séculos de História. Lembra-me, nas devidas proporções, Bocage que ri de si próprio na descrição bem-humorada da sua pessoa, em "Magro, de olhos azuis, carão moreno".
Hoje, 5 de Maio, comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela CPLP em 2009, corroborado pela UNESCO em 2019.
A CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, terá perdido algum do seu prestígio, a meu ver, pelo facto de ter acedido à integração da Guiné Equatorial por motivos políticos, sabendo nós que esse país não preenchia os requisitos exigidos. Confesso que lavrava em mim a noção romântica dos oito unidos pelo idioma. Desde essa altura minguou-se a minha admiração por essa entidade.
De referir que o Brasil já tinha criado o Dia Nacional da Língua Portuguesa a partir do decreto de lei nº 11.310, de 12 de junho de 2006, estipulando a celebração para o dia 5 de novembro.
Um pouco à sorte fui à procura de algum hino à ou da CPLP.
E não é que encontrei?!
Intitula-se "A Lusófona"
Ei-lo:
Luanda é a Capital da Cultura da CPLP, em 2022.
Boa quinta-feira meus amigos.
Abraços
Olinda
====
Os países da CPLP: Angola, Brasil, Cabo Verde,Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste
Veja:
Textos jornalísticos
25 de Abril- Uma aventura para a democracia - aqui