Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Os emigrados ... e os imigrantes

 


119 (c.1932)


Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram -
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?

E o propósito que uma vez formei num hotel, planeado e ligado?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.

ÁLVARO DE CAMPOS

***


Portugal país de emigrantes, ouve-se dizer. Com efeito, desde há séculos as descobertas pelo mundo mais não eram do que vontade de mudar de vida e de encontrar condições de sobrevivência. Primeiro os nobres que só alcançavam benesses e títulos através de batalhas e de conquistas. Depois os capitães dos barcos, os marinheiros, os ajudantes de marinheiros, aqueles que eram procurados pela justiça, os jovens carregados nessas viagens para fazer toda a espécie de serviços e outros que fugiam para longe à procura de liberdade.

Temos notícias de emigrantes para o Brasil e outras terras como a França, neste caso, emigração clandestina denominada "a salto", pessoas que preferiam ir para o desconhecido, sair das suas aldeias, viver em bairros de lata, passar mal lá longe, para depois regressarem tomando o nome das terras onde deixavam o suor e as lágrimas. Quando começou a colonização das terras de África, muitos eram enviados para lá com algumas promessas, outros degredados para cumprirem pena.

É preciso dizer mais?

Sim, temos a outra face da moeda que é a imigração. Pessoas que têm demandado a Europa procurando meios de subsistência ou para fugir de guerras e perseguições. O corredor utilizado, normalmente, tem sido o Mediterrâneo, o Mare Nostrum, e sabemos bem das tragédias que têm acompanhado esses migrantes. Portugal parece ser uma das portas de entrada dessa migração. Ainda agora desembarcaram alguns no Algarve, que foram apanhados e levados para um centro até o dia do seu repatriamento. Fico a pensar como seria se, nas mesmas circunstâncias, algum de nós fosse repatriado tendo que arrostar com tudo o que iria encontrar quando chegasse à terra de onde fugira. 

A Lei de Imigração nº. 9/2025, de 13/02, vem alterar a Lei 23/2007, de 04/07, com sanções para os cidadãos estrangeiros que entrem ilegalmente no país. Ainda que reconheça que deve haver regras, há que fazer uma análise humanista da situação. Tem-se ouvido bastante a questão do reagrupamento familiar que, parece, não está bem acautelada. 

Que os legisladores vistam a pele dos desapossados da sorte.



===

Poema In: Fernando Pessoa
Obra completa de Álvaro de Campos
Pg. 298

Imagem: pixabay

Ver - 
Os livros que fazem a História da Emigração.
Uma análise muito interessante.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Emigração - marcas no tempo

A mala de cartão e o trolley, marcas ou objectos que traduzem a mesma realidade: a emigração. Na mala de cartão seguiam as necessidades e o desespero de quem se aventurava a atravessar fronteiras clandestinamente, a salto, principalmente, para França, nos finais da década de 50 e durante a de 60. No trolley e no coração, os novos emigrantes, a geração mais qualificada de sempre, carregam as suas ilusões e desilusões mas também a esperança em dias melhores.




Se há quem refira que hoje em dia os emigrantes viajam com telemóveis, computadores e em melhores condições, como, por exemplo, em relação aos meios de transporte e documentação, o facto é que tanto num caso como noutro, deixam para trás a família, os amigos, o seu rincão. Mas, se quisermos recuar no tempo encontraremos aqueles que emigraram para o Brasil e África, muitos deles degredados, e outros na ânsia de encontrar, como agora, um estilo de vida compatível com as suas aspirações, nem sempre conseguido. Sobre esta época da nossa História, que condicionou em muito a de outros povos, muito haveria a dizer. Uma marca indelével.

Não vou alongar-me neste tema, pelo menos por agora. O que pretendo, hoje, é reproduzir aqui umas quantas ideias que alguns dos novos emigrantes gostariam de transpor para o nosso dia-a-dia. Li isto na revista Visão, em princípios de Outubro último. Quer dizer que vai fazer um mês, mas já sabem, as coisas neste Xaile andam um pouco au ralenti.




Telejornais curtos
As notícias na tele, em horário nobre, são concentradas em quinze minutos, muito factuais, sem intervalos nem intervalos a todas as pessoas mais as suas tias e o cão, e sem "diz-que-disse-e-que-parece".-Engenheiro aeroespacial, há onze anos em Darmstadt, Alemanha.

Despejar a arrecadação
Em cada fim de semana, um bairro diferente organiza uma venda para livrarmos de tudo o que temos a mais, a preços simbólicos. É também um pretexto para estarmos com os vizinhos, petiscar e comprar alguma coisa que nos faz falta. -Conservadora restauradora, há dois anos em Genève, Suíça.

Separar o lixo orgânico
Na minha primeira semana, não separei devidamente o lixo orgânico (restos de comida e cascas de legumes e de ovos) e recebi logo uma carta. No nosso prédiio, temos diferentes contentores, e há dias certos para as recolhas. O lixo orgânico é reciclado para a agricultura. - Arquiteto, há um ano em Lindau, Alemanha.

Garrafas com depósito
A maioria das cervejas vem em garrafas iguais, seja qual for a marca, e pode-se devolver uma grade com marcas misturas. As garrafas de plástico também têm depósito.-Avaliador de patentes em Haia, Holanda.

Apoio à natalidade a sério
A maternidade paga-se, mas o Estado dá logo mil euros. A nossa filha nasceu há um ano e o parto custou bem menos. Até aos cinco anos dela, a Segurança Social tem serviços de apoio pelos quais não pagamos um tostão. O sistema de apoio à natalidade funciona tão bem que, em 2012, a Bélgica subiu para o 6º lugar (na UE) em termos de taxa de natalidade. - Doutoranda em Engenharia Biocientífica e Jornalista freelancer, ambos, há cinco anos em Bruxelas, Bélgica.

Biblioteca da Língua
Aqui, existe um Museu da Língua Portuguesa. O meu sonho era construir em Lisboa uma grande biblioteca da língua portuguesa (à semelhança da antiga Biblioteca de Alexandria), que teria todos os livros publicados nos PALOP.- Realizador há um ano em São Paulo, Brasil.

Viva a autonomia
As escolas têm uma gestão autónoma. Não há concursos para a contratação de professores. A direcção recruta-os com base no mérito e experiência, empatia com o projeto, etc. Logo, as escolas competem entre si, o que eleva a qualidade do ensino. Acresce que a comunidade é muito participativa. Por exemplo, a escola da minha filha quis angariar fundos para os professores receberem formação para leccionarem, com maior qualidade, a língua inglesa. Cada miúdo teria de entrar numa corrida e recolher apostas. Os donativos correspondiam às voltas que cada um dava, vezes o montante apostado. Com esta ideia supersimples angariou-se 20 mil euros. - Gestora  de investigação e ciência, há cinco anos em Groningen, Holanda.





Muitas outras propostas poderia eu incluir, retiradas do referido artigo, mas não se coadunaria com o tamanho ideal de um post. E este já vai longo. As ideias apresentadas fariam uma diferença enorme na nossa sociedade, se postas em prática. Por cá, verifica-se muitas vezes que abundam ideias mas entre o pensar e o agir vai uma grande distância.

 =======

Nota:O artigo acima referido: "Reinventar Portugal" - Revista Visão- 9 a 15 de Outubro de 2014, pags.54 a 63As idades das pessoas constantes do inquérito variam entre os 30 e os 45 anos. Preferi não incluir os nomes.

1ª imagem - daqui
2ª imagem - daqui
3ª imagem - daqui - A referência de um dos inquiridos ao Museu da Língua Portuguesa no Brasil, lembrou-me a Biblioteca Nacional do Brasil ou Fundação Biblioteca Nacional que contém obras raras da cultura portuguesa, a maior parte levada para lá aquando da ida da Família Real, no sec. XIX. Note-se que não escrevi "Fuga". Segundo alguns historiadores havia um plano há muito elaborado que previa isso, no sentido de salvaguardar a coroa portuguesa. 


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quero ir para casa, embarcar num golpe de asa




QUERO VOLTAR PARA OS BRAÇOS DA MINHA MÃE

Cheguei ao fundo da estrada,
Duas léguas de nada,
Não sei que força me mantém.
É tão cinzenta a Alemanha
E a saudade tamanha,
E o verão nunca mais vem.
Quero ir para casa
Embarcar num golpe de asa,
Pisar a terra em brasa,
Que a noite já aí vem.
Quero voltar
Para os braços da minha mãe,
Quero voltar
Para os braços da minha mãe.

Trouxe um pouco de terra,
Cheira a pinheiro e a serra,
Voam pombas
No beiral.
Fiz vinte anos no chão,
Na noite de Amsterdão,
Comprei amor
Pelo jornal.
Quero ir para casa
Embarcar num golpe de asa,
Pisar a terra em brasa,
Que a noite já aí vem. 
Quero voltar
Para os braços da minha mãe,
Quero voltar
Para os braços da minha mãe.

Vim em passo de bala,
Um diploma na mala,
Deixei o meu amor p'ra trás.
Faz tanto frio em Paris,
Sou já memória e raiz,
Ninguém sai donde tem Paz.
Quero ir para casa
Embarcar num golpe de asa,
Pisar a terra em brasa,
Que a noite já aí vem. 
Quero voltar
Para os braços da minha mãe,
Quero voltar
Para os braços da minha mãe.

Pedro Abrunhosa

Letra retirada do blogue:  amusicaportuguesa