Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de maio de 2026

Se eu pudesse trincar a terra toda






Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...



Planeta Terra ou terra terra? Sempre me intrigou a interpretação deste Poema de Alberto Caeiro. Sendo um heterónimo criado por Fernando Pessoa, com as características próprias de Guardador de Rebanhos deduzo que seja terra terra. Mas nem sempre pensei assim...tendia mais a ver a Terra na sua globalidade.

Contudo, lá volto eu aos pensamentos antigos e hoje Dia Mundial da Língua Portuguesa, publico de novo este poema do nosso homem das sensações.

No Brasil, muito antes deste dia ser estabelecido para todos os países lusófonos, já o Dia Nacional da Língua Portuguesa vigorava desde 5 de Novembro de 2006.  Não nos esqueçamos que a maior parte dos falantes da Língua Portuguesa provém do Brasil.


***

Embora não seja feriado por cá, aproveitemos para fazer boas e proveitosas leituras.

Abraços
Olinda


====
7-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.

  - 45.
In: Arquivo Pessoa
Publicado aqui no Xaile de Seda

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

LISBON REVISITED (1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


Álvaro de Campos





Lisbon Revisited (1923)
Por Antônio Abujamra
Álvaro de Campos (1890-1935) igual a si próprio. 

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Contudo, dá-me parecenças com José Régio (1901-1969), com o seu "Cântico Negro":
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

Ambos rebeldes na sua forma de escrever e de ver o mundo. 
Fernando Pessoa tinha uma vida interior rica e complexa, como o demonstram os seus vários heterónimos.


Abraços e boa semana, amigos.
Olinda


====
1923

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 247.

1ª publ. in Contemporânea, nº 8. Lisboa: 1923.


Arquivo Pessoa: Obra Édita - LISBON REVISITED (1923) -

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O amarelo actual que as folhas vivem




Quando, Lídia, vier o nosso Outono

Com o Inverno que há nele, reservemos

Um pensamento, não para a futura

Primavera, que é de outrem,

Nem para o Estio, de quem somos mortos,

Senão para o que fica do que passa —

O amarelo actual que as folhas vivem

E as torna diferentes.


Ricardo Reis




***


Ricardo Reis (19 de setembro de 1887) é um dos quatro heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, tendo sido imaginado de relance pelo poeta em 1913 quando lhe veio à ideia escrever uns poemas de índole pagã.

aqui



Um Outono metafórico como imaginária é a figura de Lídia.
Mas a realidade é bem diferente. O nosso Outono já deu entrada neste nosso hemisfério, mais precisamente por cá. Tempinho fresco, mas a prometer calor lá mais para a frente, e alguma chuva que não chega para apagar os incêndios que já voltaram.

Mas tenho umas belas palavras, do nosso poeta Luís Rodrigues, que tomo a liberdade de transcrever:



O Outono

é um lugar só nosso

onde guardamos a beleza
 
das estações da vida

L.R.



Abraços. meus amigos.
Olinda




===

13-6-1930

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 

 - 120.

1ª publ. in Presença , nº 31/32. Coimbra: Mar./Jun. 1931.

domingo, 31 de agosto de 2025

O Tejo






XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Alberto Caeiro






Lara Brenner
Sobre o poema, sobre Fernando Pessoa,
sobre os heterónimos, sobre o Tejo, 
símbolo de
poder ...




Abraços, amigos.


Olinda





====

7-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

  - 46.
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.
In: Arquivo Pessoa
Ver Fernando Pessoa aqui, no Xaile de Seda

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Os emigrados ... e os imigrantes

 


119 (c.1932)


Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram -
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?

E o propósito que uma vez formei num hotel, planeado e ligado?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.

ÁLVARO DE CAMPOS

***


Portugal país de emigrantes, ouve-se dizer. Com efeito, desde há séculos as descobertas pelo mundo mais não eram do que vontade de mudar de vida e de encontrar condições de sobrevivência. Primeiro os nobres que só alcançavam benesses e títulos através de batalhas e de conquistas. Depois os capitães dos barcos, os marinheiros, os ajudantes de marinheiros, aqueles que eram procurados pela justiça, os jovens carregados nessas viagens para fazer toda a espécie de serviços e outros que fugiam para longe à procura de liberdade.

Temos notícias de emigrantes para o Brasil e outras terras como a França, neste caso, emigração clandestina denominada "a salto", pessoas que preferiam ir para o desconhecido, sair das suas aldeias, viver em bairros de lata, passar mal lá longe, para depois regressarem tomando o nome das terras onde deixavam o suor e as lágrimas. Quando começou a colonização das terras de África, muitos eram enviados para lá com algumas promessas, outros degredados para cumprirem pena.

É preciso dizer mais?

Sim, temos a outra face da moeda que é a imigração. Pessoas que têm demandado a Europa procurando meios de subsistência ou para fugir de guerras e perseguições. O corredor utilizado, normalmente, tem sido o Mediterrâneo, o Mare Nostrum, e sabemos bem das tragédias que têm acompanhado esses migrantes. Portugal parece ser uma das portas de entrada dessa migração. Ainda agora desembarcaram alguns no Algarve, que foram apanhados e levados para um centro até o dia do seu repatriamento. Fico a pensar como seria se, nas mesmas circunstâncias, algum de nós fosse repatriado tendo que arrostar com tudo o que iria encontrar quando chegasse à terra de onde fugira. 

A Lei de Imigração nº. 9/2025, de 13/02, vem alterar a Lei 23/2007, de 04/07, com sanções para os cidadãos estrangeiros que entrem ilegalmente no país. Ainda que reconheça que deve haver regras, há que fazer uma análise humanista da situação. Tem-se ouvido bastante a questão do reagrupamento familiar que, parece, não está bem acautelada. 

Que os legisladores vistam a pele dos desapossados da sorte.



===

Poema In: Fernando Pessoa
Obra completa de Álvaro de Campos
Pg. 298

Imagem: pixabay

Ver - 
Os livros que fazem a História da Emigração.
Uma análise muito interessante.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Álvaro de Campos e a "necessidade de sentir tudo exageradamente"


Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstracto auge no fim de mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!
Ponham-me grilhetas só para eu as partir!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, v. 30-37)






Noutros poemas, também notamos esta necessidade extrema de sentir tudo exageradamente e, assim, alcançar uma comunhão com o universo, textos claramente sensacionistas, portanto:

No poema Passagem das Horas:

Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas b”, v. 3-5)




O Álvaro de Campos é o Pessoa que Pessoa gostaria de ter sido. Uma espécie de Alice do outro lado do espelho que ele inventou para reciclar tudo o que era mau, regurgitado como qualquer coisa de belo. aqui


====
imagem: daqui
Poemas in:
Fernando Pessoa
Obra completa de Álvaro de Campos
edição de Jerónimo Pizarro e Antonio Cardiello





sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"Segredo"





Intervalo

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

in "Cancioneiro


Quem foi que te disse? O coração às vezes adivinha...




Djavan 
Segredo


Nota: O título do post "segredo" assim entre aspas porque retirado do que o poema nos sugere.



***




===
s. d.

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 

 - 240.1ª publ. in Momento , nº 8. Lisboa: Abr. 1935.

Fernando António Nogueira Pessoa (1888 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. daqui

Imagem: Pixabay

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Às vezes medito

 


49 29-4-1928


Às vezes medito,

Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo

E todo o mistério das coisas aparece-me com um óleo à

     superfície,

E todo o universo é um mar de caras de olhos abertos para

     mim.

Cada coisa - um candeeiro da esquina, uma pedra, uma árvore,

É um olho que me fita de um abismo incompreensível,

E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos

     deuses.

(excerto)


ÁLVARO DE CAMPOS



===

In: Fernando Pessoa

Obra completa de Álvaro de Campos

Pg. 225

terça-feira, 24 de outubro de 2023

"NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA"

Tantos bons poetas!

Tantos bons poemas!

São realmente bons e bons,

Com tanta concorrência não fica ninguém,

Ou ficam ao acaso, uma loteria da posteridade,

Obtendo lugares por capricho do Empresário...

Tantos bons poetas!

Para que escrevo eu versos?

Quando os escrevo parece-me

O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -

A única coisa grande no mundo...

Enche o universo de frio e pavor de mim.

Depois, escritos, visíveis, legíveis...

Ora...E nesta antologia de poetas menores?

Tantos bons poetas!

O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue

O génio da habilidade, e os bons poetas dos maus poetas?

Sei lá se realmente se distinguem...

O melhor é dormir...

Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -

Sou vulgar?

Há tantos bons poetas!

Santo Deus!...


ÁLVARO DE CAMPOS

           50  1-5-1928 *

                 pags 226/227




Pintura de Almada Negreiros (1946)


...A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

in: Carta a Adolfo Casais Monteiro-13 Jan 1935

aqui



====

*Fernando Pessoa

Obra completa de Álvaro Campos

sábado, 13 de maio de 2023

AVE-MARIA

 

À minha Mãe


Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito de amargura!

Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!

O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho!

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
A vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe,
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus,
Velai por mim cada dia!

Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!

Orai, agora, oh Mãe qu'rida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte,
Quando nos fugir a vida!

---

Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito de amargura.


7-4-1902
(Data provável em que este poema foi escrito)

in Poesia do Eu
pgs. 457 a 459



Estamos perante uma paráfrase de F. Pessoa
daquela oração que bem conhecemos: 
Ave-Maria*,
e dedica-a à sua Mãe, como se lê acima.



AVE-MARIA

Schubert

===


No dia 14/5 festeja-se o "Dia das Mães" no Brasil.

Associo-me, nesse dia, aos amigos 

brasileiros que visitam este Xaile.

Abraços

Olinda



Da amiga Rosélia 



Da amiga Fê




Da amiga Gracita


====

Obra essencial de Fernando Pessoa:
Poesia do Eu
Ed. Richard Zenith

*Nota: Diz-se que, sendo Maria vocativo, a expressão devia ser escrita assim:
"Ave, Maria!",  isto é,  com uma virgula em vez de hífen.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Não há abismos...





18 (c.1917)


Não há abismos!

Nada é sinistro!

Não há mistério verdadeiro!

Não há mistério ou verdade!

Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!

Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!

Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!

Alegre cantaste a alegria de tudo,

Mas sem pensá-lo tu sentias

Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.

Como cantaras alegre a morte futura

 

Se a puderas pensar como morte,

Se deveras sentiras a noite e o acabamento?

Não, não: tu sabias

Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,

Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo

Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,

Que cada momento não passa nunca,

Que a flor colhida fica sempre na haste,

Que o beijo dado é eterno,

Que na essência e universo das coisas

Tudo é alegria e sol

E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.

Embandeira em canto e rosas!

 

E da estação de província, do apeadeiro campestre,

— Lá vem o comboio!

Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos

Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

 

Não, não enganas!

Avó carinhosa de terra já grávida!

Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!

 

E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...

E com grande explosão de todas as minhas esperanças

Meu coração universo

Inclui a ouro todos os sóis,

Borda-se a prata todas as estrelas,

Entumece-se em flores e verduras,

E a morte que chega conclui que a já conhecem

E no seu rosto grave desabrocha

O sorriso humano de Deus! 


Álvaro de Campos





Onde Vais?


Bárbara Bandeira

feat.

Carminho



Boa semana, amigos.

Abraços

Olinda




=====

Fernando Pessoa -  Obra completa de Álvaro de Campos

pgs. 180/181



sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Ano da Morte de Ricardo Reis



Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou  a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subi a escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, (...) 

Excerto pgs 79/80

E ei-los. Criatura e Criador. Agora ambos irreais, cada um na sua própria condição. Trata-se de ficção em cima de ficção sob a lupa de José Saramago, que aproveita para fazer o retrato do país, nesses anos trinta do nosso descontentamento. Decorria o Estado Novo que desde 1926 vinha fazendo história, no pior sentido, e na Europa a Guerra Civil em Espanha; a ascensão ao poder de Mussolini, em Itália; e a expansão da ideologia nazi, na Alemanha.

 

Ricardo Reis (pormenor). 1958 - 
Almada Negreiros*

Quanto a Ricardo Reis, como se sabe, é o heterónimo clássico, helénico e imbuído de um paganismo revisitado, edificado literariamente quando Pessoa quis “escrever uns poemas de índole pagã”, concebido como tendo uma educação em colégio de jesuítas, formado em medicina, expatriado por ser monárquico para o Brasil e regressado a Lisboa depois da morte de Pessoa, nascido antes dele em 1877 e que supostamente lhe terá sobrevivido, morrendo, segundo a ficção de Saramago em 1936, um ano após a morte do seu autor. aqui


Fernando Pessoa 
Almada Negreiros - 1964

Aproveito para aqui inserir um dos belos poemas (ode) de Ricardo Reis:


Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis
in "Odes"


Na penúltima página, 406, pode ler-se:

Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa de cabeceira buscar The god of labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, (...)

A criatura reúne-se ao criador.
Assim o quis Saramago.
E o destino cumpre-se.

==

Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

Olinda


====


José Saramago:
O Ano da Morte de Ricardo Reis, Excerto pgs 79/80
*Pormenor Ricardo Reis:
MultiPessoa-Mural da Fac. de Letras de Lisboa