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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um rosto de mulher




Um rosto de mulher 
é o meio que o coração encontra 
para manter a sua sede. 




Um chá, uma flor, uma paisagem, 
 uma romã aberta, 
 desaparecem na sombra 
se não houver um rosto de permeio. 




Não te queixes 
do que supões ausência. Por agora 
és tu que manténs o movimento. 





Sem isso 
nem o coração mais pulsaria.  

Assim falava Egito Gonçalves


José Egito de Oliveira Gonçalves, 1920-2001, poeta, editor, tradutor. Português.
Em 1995 obteve o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português, o Prémio Eça de Queirós e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se. A sua obra encontra-se traduzida em francês, polaco, búlgaro, inglês, turco, romeno, catalão e castelhano.

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Poema - In: E no entanto move-se - Quetzal Editores, 1966
Imagens:Pixabay

sábado, 20 de agosto de 2016

Sento-me então a olhar o rio




Sento-me então a olhar o rio, 
os meus pensamentos formam cardumes 
que contra a corrente se insurgem 
mas as águas são inexoráveis; 
olhando-as, a superfície cintila, 
propaga-se como se fossem notas 
de um piano na garupa de um cavalo 
que se dirige para o mar. 
O rio bebe as cores da cidade, 
sobre elas eu abro o coração 
em que te encontras, as colinas 
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos 
é um momento de pausa: as coisas 
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar 
como tudo o que a memória não reteve.




Mas este rio 
já foi longamente folheado, nele 
escrevemos o romance de amor 
que nos deu uma casa, 
nos cortou o cabelo, nos afastou 
das rugas, nos entregou o azul 
(tecido, nuvem, divã, janela...) 
o voo das artérias, lugar do corpo, 
portas que nos amanhecem, espelho 
onde fazemos fluir a vida. Acordes 
da guitarra que forja o horizonte, 
que guia o sinuoso voo das gaivotas 
e acaricia a pele que rasga atalhos 
no interior dos sonhos. Estarei 
vivo enquanto me guardar 
teu coração. E no seu lucilar, 
esta água imita o fogo 
que devora sombras e escombros, 
libertando a asa que no sangue 
respira. A foz está próxima, 
mas o horizonte é o teu olhar. 
No leitor do carro, a guitarra flexível 
sublinha o que divago; os acordes 
disparam, 
encontram-me na trajectória do seu alvo. 

Egito Gonçalves
        1920-2001



Mais uma vez, sento-me a olhar o rio nas asas de palavras que voam por sobre a cidade, qualquer cidade, e desaguam na foz, qualquer que seja. Ao fim e ao cabo a foz está próxima mas o horizonte é o teu olhar. Tudo perto e tudo tão longe. Somente o pensamento atravessa fronteiras e desfaz amarras.

Mas, o corpo que é terreno não se dissocia completamente do que o rodeia. Durante a noite oiço a tosse que não pára. Já a oiço também durante o dia. Afino os ouvidos e pergunto-me: Donde virá? Há alguém que sofre aqui perto. Mas em que prédio? Qual a porta? Cá por casa indago. Talvez seja alguém que mora sozinho e precise de ajuda. Como resposta invade-me a preocupação. E resolvo. Vou bater de porta em porta. 


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Poema: In: A Ferida Amável

Imagem: Pixabay

terça-feira, 8 de março de 2016

Só o amor me interessa

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores 


Egito Gonçalves (1920-2001)
in: Antologia Poética

Sentimento idílico este que nos envolve. Mas, onde andará o amor quando há mães que matam os próprios filhos? Ah! As mulheres, porto seguro, lugar de abnegação, capazes de todos os sacrifícios pelas suas crias. Vemo-las, idealmente, amoráveis, belas, embevecidas, com o filho ao colo livrando-o dos perigos. Então que mal lhes afecta o coração, o cérebro, para se esquecerem de tudo e praticarem actos incompreensíveis? Ou será que têm razão aqueles que dizem que o amor maternal não é inato e que "parir é dor, criar é amor", pondo a tónica naqueles que sem qualquer ligação de sangue conseguem dar amor e protecção?

Amigos, hoje, dia dedicado à Mulher, não pude deixar de inserir aqui a minha preocupação perante este tão grande problema que nos tem assolado.

Um abraço.