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Jamais esqueci o seu nome.
Eu, menina, no Liceu, passava toda senhora de mim,
e olhava sempre em frente.
Parecia que o mundo era meu e tudo o que gravitava
à minha volta não tinha importância alguma.
Ele andava alguns passos atrás, nos intervalos,
e fazia tudo para se fazer notado.
Um dia fez chegar até mim um papel todo dobradinho.
O meu primeiro impulso foi deitá-lo fora. Contudo,
a minha curiosidade foi mais forte.
A principio não percebi bem do que se tratava, mas
por fim consegui ver além do óbvio.
Era o meu nome ao contrário, em acróstico,
num poema singelo e belo.
Impressionou-me.
Emocionei-me.
Tentei agradecer a sua delicadeza e quase devoção.
Debalde.
Ele tinha seguido viagem com outros da sua idade,
para continuar os estudos.
Percebi que o seu gesto tinha sido uma despedida.
Conservei a sua dádiva.
Por vezes, uso o nome que ele inverteu e escreveu
no papelinho.
E jamais esqueci o dele.
De coração de pedra, aparentemente, passei a
assumir o meu verdadeiro eu.
Aprendi a lição...
Olinda
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Tema desta semana:
Coração de Pedra
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Imagem: pixabay