Habituei-me a pensar no meu marido não como quem pensa numa pessoa mas como quem pensa num lugar. Os lugares são estáveis. Estão lá para sempre. Lulu era a minha cidade natal, a casa dos meus pais, as paisagens da minha infância, um sólido cais de pedra, um porto de abrigo capaz de me proteger das tempestades. Pensando melhor, também os lugares morrem, também eles nos podem trair. Foi o que aconteceu à minha cidade. Em todo o caso eu pensava em Lulu como quem pensa num lugar estável. Faça um pequeno esforço de imaginação. Pense num lugar estável. O Kilimanjaro parece-lhe um lugar estável? Pois eu pensava em Lulu com o mesmo sentimento de segurança, de perenidade, com que você pensa no Kilimanjaro.
Interessante, não é? Esse sentimento de segurança, de perenidade. É refrescante essa confiança e pertença.
A questão aqui é saber se, realmente, tudo permanece imutável: na vida, no ambiente, no nosso planeta.
E, será que esses dois continuarão juntos?
A questão aqui é saber se, realmente, tudo permanece imutável: na vida, no ambiente, no nosso planeta.
E, será que esses dois continuarão juntos?
Deixo-vos este exercício,
enquanto procuro recuperar o texto que queria publicar há dois dias, relacionado com o post anterior. Talvez seja melhor escrever outro se o PC não entrar, de novo, em colapso.
Abraço e até breve.
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13/05
Pois bem, queridos amigos
A vida é assim. Tudo vai tomando novas aparências. Lugares que pareciam enormes na nossa infância quando lá voltamos, em adultos, já não parecem os mesmos. Encolheram. Foi essa a sensação quando voltei à minha aldeia depois de alguns anos. As pessoas não são as mesmas. Os cantos e recantos também não.
Tudo é passível de mudança, para o bem ou para o mal. Até o Kilimanjaro, referido no texto, o ponto mais alto de África, o das neves eternas, já não é o que era. Com as alterações climáticas corre o risco de perder a sua coroa brilhante.
Mas, ouçamos mais algumas palavras da personagem sobre a sua relação com o marido:
Nos últimos anos, é verdade, fomo-nos afastando um do outro. Afastando é uma maneira de dizer, pois estamos sempre juntos, acho mesmo que o que nos afastou foi esse excesso de proximidade.
...Cansámo-nos um do outro...
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13/05
Pois bem, queridos amigos
A vida é assim. Tudo vai tomando novas aparências. Lugares que pareciam enormes na nossa infância quando lá voltamos, em adultos, já não parecem os mesmos. Encolheram. Foi essa a sensação quando voltei à minha aldeia depois de alguns anos. As pessoas não são as mesmas. Os cantos e recantos também não.
Tudo é passível de mudança, para o bem ou para o mal. Até o Kilimanjaro, referido no texto, o ponto mais alto de África, o das neves eternas, já não é o que era. Com as alterações climáticas corre o risco de perder a sua coroa brilhante.
Mas, ouçamos mais algumas palavras da personagem sobre a sua relação com o marido:
Nos últimos anos, é verdade, fomo-nos afastando um do outro. Afastando é uma maneira de dizer, pois estamos sempre juntos, acho mesmo que o que nos afastou foi esse excesso de proximidade.
...Cansámo-nos um do outro...
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José Eduardo Agualusa - Barroco Tropical, excerto, pg 124
Imagem: Kilimanjaro (Net)