Do alto da sua escarpa o homem contempla o seu reino. Um mar arável, muitas vezes desgrenhado, um chão de claridades onde se despertam luas-cheias, relâmpagos às mãos-cheias, pedras com vida por dentro, pássaros em santuários, e, no meio de tudo, na terra de todas as metáforas, uma romãzeira perene, repleta de romãs que contam uma viagem para além da Taprobana, combatendo Alísios e Adamastores. Cioso, o homem e o seu cão de barro, o Dique, quase gente, guardam as romãs. Numeradas de um a dez, eu olho para elas invejosa, dizendo: Um dia destes levo daqui uma romã. Ele, nada diz. E quem cala consente, não é? A dificuldade: escolher uma delas. Qual trazer se todas são sumarentas, transbordantes de vida, com bagas vermelhas e reluzentes? O Dique vem em meu socorro, leva-me pela mão e indica-me uma. De olhos fechados, embrulho-a no meu xaile de seda e trago-a comigo.
EI-LA:
Romã
nº 4
A
remoinhar desertos e tempestades, acordámos à vista da Taprobana que só existe por
tão desejada.
Na
mítica Taprobana, lá para os lados de um chão de azuis e outros céus estava tudo
no seu lugar.
A
fragrância inebriante das algas nas narinas do vento, o bolor à superfície, os
retratos
nas paredes da casa – fios de música pendurados nas árvores de fruto para adocicar
os melros, a partilha do pó pelos melhores objectos, a biblioteca perfilada
nas memórias, ténues sinais, utopias que alimentam o pomar onde plantamos
os sonhos em voz alta.
Na
mítica Taprobana não vi cegos de concertina nas esquinas, amanhãs violados por
uma côdea, nem procissões.
Estava
tudo no seu lugar. Até as palavras nómadas, reconstruídas a céu aberto, bosques
vertebrados, espaços encantatórios, multidões em andamento para concertos
de violino e piano, santuários de pássaros, relâmpagos às mãos-cheias a dardejar
no cais.
A
nossa romã.
Na
verdade a Taprobana talvez exista se continuarmos a desbravar caminhos
improváveis.
Atento
militante da vida – o Dique, pela primeira vez, ladrou.
Pousei
a caneta, rasguei a folha de papel.
Olhei-o nos olhos e
disse-lhe com ternura – a partir de hoje és um cão.
Se quiser provar o sabor das outras Romãs ou a melhor forma de construir sonhos e respirar por guelras vá ao Mar Arável. Quanto à bibliografia do autor clique no nome. Penso que está incompleta porquanto a obra mais recente publicada, salvo erro, chama-se 'Chão de Claridades'.
Nota: A imagem é da Romã nº 3.