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Que fazer?!…
Eu não compreendo o Amor,
eu não compreendo a Vida
Mistérios insondáveis,
Formidáveis,
Mistérios que o Homem enfrenta
Mistérios de um mistério
Que é a alma humana …
Eu não compreendo a Vida:
Há luta entre os humanos,
Há guerra,
Há fome, e há injustiça imensa:
Há pobres seculares,
Aspirações que morrem …
Enquanto os fortes gastam
Em gastos não precisos
Aquilo que outros querem …
Eu não compreendo o amor:
Amamos quem sabemos impossível
Sentir por nós aquilo
Que tanto cobiçamos …
A Vida não me entende,
Eu não compreendo a Vida.
Quero entender o Amor,
E o amor não me compreende!
Amílcar Cabral
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– “Emergência da poesia em Amílcar Cabral” (30 poemas).. [recolhidos e organizados por Oswaldo Osório]. Colecção Dragoeiro. Praia: Edição Grafedito, 1983. daqui
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Nesta data em que se assinala o Centenário do nascimento de Amílcar Cabral, esta pergunta "Que fazer?" impõe-se. Sim, o que fazer neste mundo tomado pela intolerância e desamor? o Homem que defendia a concórdia encontra-se na escrita deste poema envolvido pela dúvida e descrença. Ontem como hoje, parece não haver evolução alguma no comportamento ou modo de pensar da Humanidade.
Vida e Amor...
Africa Tabanka
Amílcar Lopes da Costa Cabral (Bafatá, Guiné Portuguesa, actual Guiné-Bissau, 12 de setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973) foi um político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Ver mais aqui
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Imagem: Net