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terça-feira, 8 de julho de 2014

Espelho do Príncipe - Alberto da Costa e Silva

De volta com Alberto da Costa e Silva, agora com o título do livro pelo qual lhe foi atribuído o Prémio Camões - 2014, tendo também em conta toda a sua obra. Não que eu o tenha já lido, mas baseio-me na análise que dele faz Guilherme d'Oliveira Martins - um admirável livro de história e de memórias:

Ao lermos o “Espelho do Príncipe”, onde o memorialista e o historiador se encontram, somos levados à recordação de um jovem de Sobral, no Ceará, até à ida para o Rio de Janeiro, que relembra episódios onde a natureza, as tradições e a sociedade que evolui se encontram, como no célebre episódio do ritual da morte de uma galinha, onde percebemos que o lado melancólico apela à magia da existência: “a visão da moça a matar a galinha frequentou a sua infância. Ele acordava cedinho e, encolhido na rede, assistia à cena a repetir-se, com o corredor escuro, o quadrado branco da porta e, no patamar de tijolos gastos da escada que descia para o quintal, a moça, a mudar de modinha ou não mais cantando, porém sempre alegre, completa em seu riso, permanentemente ressonhada a degolar a galinha".*





Em relação ao autor refere que é dos mais completos escritores da língua portuguesa contemporânea e, simultaneamente, um dos intelectuais que melhor compreendeu o entrançado complexo da lembrança e de uma língua de várias culturas, cultura de várias línguas, na Europa, América e África. Palavras de Oliveira Martins que também nos mostra aspectos interessantes do percurso pessoal e literário de Alberto da Costa e Silva. Se quiser ler o artigo completo clique aqui.





De outro sítio trago este Soneto:

Soneto

Alto me sonho, mas sou apenas homem:
alguns dias a infância desterrada
em outro ser (e o ar que as mãos agarram
se vai movendo em nós, respiro fraco

com que me gasto, calmo, rês, mudado
no tempo em que me faço e me desfaço,
humilde, cego, em lágrimas sangrado,
passagem de luar, bicho deserto)

que sente, alguma vez, a despenhar-se
o espaço nas coisas, grande, alado,
ou sobre mim, em mim, no ser atado

à vida, à terra, a este adeus cortado
e vê o mundo a reerguer-se, aberto,
no refino da espera e de um abraço.

Alberto da Costa e Silva

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*Citação de Mia Couto, inserido no texto em referência.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O menino Alberto da Costa e Silva: o tecelão do parque





A poesia de Alberto da Costa e Silva se murmura dentro de sua perene infância, tão eternizável, que inunda todo o conhecimento de sua imagem literária:

Vou pedir ao meu pai
que me esqueça menino.

A passagem do dístico vale intensamente para sentir a força de suas mãos poéticas, que ilumina a altíssima linhagem de sua revelação:

Todos os dias são iguais - o grego
e o menino que fui
sempre o souberam.
Ele o pensava; eu o vivia,
amargo.
                      O sol
cegava, nos telhados.
Mas o menino de ontem, hoje,
cantava.

Esse cantar de Alberto da Costa e Silva é lucidez perdida no presente ou encontrado no amor a sua Musa Vera, vera musa:

Dizer jamais de nós
senão o certo:
o céu,
e o campo aberto.

No livro AO LADO DE VERA (1997), Alberto da Costa e Silva brinda a amada (  e a todos nós) com lindos poemas mágicos:

Usa o meu coração, se o teu já tens gasto,
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava
e parece estender como massa de trigo
sobre a mesa molhada. Usa o meu coração

como o trapo que limpa a sujeira das tábuas
e negrece de pó, e se pui, e se esgarça,
se com ele se invertem este dia adverso
e esta noite perversa. Usa o meu coração

para nos esconder, como aos olhos as pálpebras.
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos,
e jogar para os céus, ao abrir das janelas,
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários.

A frase Usa o meu coração será sempre um eco. Alberto da Costa e Silva faz de sua obra um artesanato elevado de sonhos, é um tecelão que se fia no grande parque da linguagem:

Cuidado! Não é tua
esta morte.
Cuidado! Ela vem disfarçada
de irmã e reparte
moscas e formigas
como se fossem frutas
maduras e espigas.
Cuidado! que vem vestida
de infância
e de vida.

Alberto é filho de Da Costa e Silva ( um dos maiores poetas Simbolistas em Língua Portuguesa, nascido no Piauí):

Meu pai, que estás no céu,
no céu que vejo,
neste céu que respiro e que me veste
( e não naquele de derrota feito,
em que o eterno disfarça o sonho breve),

repara em mim,
em mim, que me envelhece
a tua falta
( a tua falta cresce
e desfaz o rancor desta certeza:
mesmo na morte o corpo dói), protege

o homem que fizeste e que, menino,
se agacha junto à quinta das paredes,
o queixo nos joelhos,
o olhar cego
a outro tempo que não seja ainda
imóvel, puro, certo,
como tu,
como tu, que estou sendo
na carne que, em mim,
é teu degredo.

O menino é o Poeta em consoada.

Quando nos criaram,
as mãos do deus já estavam
cansadas.

Por isso,
somos frágeis e mortais. E amamos,
para resgatar o que no deus
foi sonho.


Poemas de Alberto da Costa e Silva
Minuta de Diego Mendes Sousa

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Deste site trago estas palavras sobre a poesia de Alberto da Costa e Silva. Espero que gostem.

A todos desejo uma excelente quarta-feira. :)

domingo, 15 de junho de 2014

Alberto da Costa e Silva: o vício de África

Este é o título de mais um artigo do Público dedicado a Alberto da Costa e Silva, desta feita por Diogo Ramada Curto. Nele é referido que a atribuição do Prémio Camões-2014 a este diplomata, que desempenhou funções em Portugal como Embaixador de 1989 a 1992, historiador, poeta, ensaísta, constitui um incentivo para se ler a sua obra.




O articulista mostra como este intelectual brasileiro encontrou em África e no tráfico atlântico de escravos a raiz a partir da qual o Brasil necessita de ser explicado. Dos seus principais livros de história indica os seguintes: A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses; A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de 1500 a 1700 ; Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos; Um Rio Chamado Atlântico. Não esqueço uma colectânea de ensaios publicada há muito em Lisboa O Vício da África e Outros Vícios; nem a sua recente coordenação do vol. I da História do Brasil Nação: 1808-2010 – Crise Colonial e Independência 1808-1930.

De entre eles ressalto "A Enxada e a Lança - a África antes dos Portugueses", que poderá ser lido aqui. Em 1960, Alberto da Costa e Silva foi pela primeira vez a África e conta a sua experiência numa entrevista que poderia ser resumida nestes dizeres:

Viajando, pude confrontar o que lia e ouvia sobre a África com aquilo que via. Sobretudo, conheci gente. E comecei a tomar cuidado para não cometer os enganos que os viajantes apressados costumam cometer, pois pensam que estão vendo bem quando veem apenas a superfície. É preciso ter paciência no olhar. Principalmente, ter cautela para não construir grandes teses, que geralmente se revelam com alicerces de brisa, sem fundamento.

Aproveito para inserir, neste Xaile, mais um poema seu:

Uma Ausência de Mim

Uma ausência de mim por mim se afirma. 
E, partindo de mim, na sombra sobre 
o chão que não foi meu, na relva simples 
o outro ser que sonhei se deita e cisma. 

Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro 
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores, 
os bichos sob o sol, a chuva e tudo — 
ou foi o sonho dos demais que sonho? 

A epiderme da vida me vestiu, 
ou breve imaginar de um ócio inútil 
ergueu da sombra a minha carne, ou sou 

um casulo de tempo, o centro e o sopro 
da cisma do outro ser que de mim fala 
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba. 

Alberto da Costa e Silva, in 'A Linha da Mão'



Desejo-vos uma muito boa tarde. :)


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Respiro e Vejo

Alberto da Costa e Silva, brasileiro, um escritor que estuda a História, resgatador da memória de África - distinguido com o prémio mais importante da criação literária em língua portuguesa, o Prémio Camões - 2014:

Hoje, aqui, connosco. Apreciemos este belíssimo poema:






Respiro e Vejo


Respiro e vejo. A noite e cada sol 
vão rompendo de mim a todo o instante, 
tarde e manhã que são tecido tempo, 
chuva e colheita. O céu, repouso e vento. 

Vergel de aves. Vou entre viveiros, 
a caçar com o olhar, passarinhagem 
dos pequeninos sóis e das estrelas 
que emigram neste céu de goiabeiras. 

mas sigo a jardinagem, podo o tempo, 
o desgosto do espaço, a sombra e o fogo, 
as florações da luz e da cegueira. 

E, no dia, suspensa cachoeira, 
neste jogo sagrado, vivo e vejo 
o que veio em meus olhos desenhado. 

Alberto da Costa e Silva,
 in 'A Linha da Mão'

Poema:Citador