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Eis
Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.*
Assim se apresenta este nosso poeta, mas não fica por aqui. Ora, leiam isto:
De cerúleo gabão não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto;
Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso.
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto.
Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes.
Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto: é o Bocage!
Sim, é o Bocage, Manuel Maria Barbosa du Bocage, que todos nós julgamos conhecer muito bem, identificando-o, normalmente, com o seu lado brejeiro e anedótico, mas cuja essência muitas vezes nos escapa. Uma forte presença na literatura portuguesa do Sec.XIX, situando-se no período de transição do clássico para o romântico é também muito duro consigo próprio quando julga a sua obra:
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.
Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.
Pois bem, hoje, 15 de Setembro, é feriado em Setúbal em homenagem ao filho da terra, nascido em 1765. Hoje é dia de Bocage e da Cidade. E lê-se aqui que as actividades em comemoração dos 250 anos do seu nascimento vão ser muitíssimas, estendendo-se até 16 de Setembro de 2016.
Entretanto, passeemos, virtualmente, pela Biblioteca Nacional numa visita a este poeta sadino, através de um trabalho realizado em 2005 sob o título "Eis Bocage...duzentos anos depois" (1765/1805), e atentemos, por exemplo, no mote deste capítulo, que o apresenta como O Poeta da Liberdade:
E não se esqueçam que Setúbal está uma cidade bastante apelativa, a modernizar-se, com muitos focos de interesse não só para os turistas como para os naturais da terra.
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*As palavras do título e os versos que se encontram a seguir à imagem, são excertos do soneto que poderá ler na íntegra aqui
2ª imagem:
Estátua do poeta na cidade de Setúbal