sábado, 26 de fevereiro de 2011

DEZ MIL PASSOS

Desci as escadas rumo a um destino ainda desconhecido. Ouvi, um pouco ao longe, a música do amolador que me trouxe memórias de vidas não vividas, de pregões matinais e de varinas nas ruas de Lisboa. Daí a relembrar algumas passagens do Livro de Cesário Verde foi um passo. Procurei seguir em direcção ao som da sua flauta e vi-o, homem duns 70 anos, conduzindo a bicicleta à mão  onde se via a pedra de amolar e alguns guarda-chuvas donde saíriam varetas para consertar outros guarda-chuvas. Teria ele essa sorte? Tive pena de não ter comigo a minha tesoura que já não corta nada. 

Fui afinando a minha percepção: atravessei a estação de comboios e vi uma mulher que me pareceu uma conterrânea, vi uma rapariga que abanou a cabeça, sacudiu os cabelos, desiludida por ter perdido o comboio, vi um casal com uma criança duns 3 anos com capacete, o pai com o triciclo ao ombro, vi senhoras com carrinhos de compras que deixavam, ao passar,o cheiro de ervas aromáticas; vinham do mercado ao ar livre a uns passos dali, passos esses que resolvi fazer. 

Fui andando e afinando os ouvidos a ruídos normalmente imperceptíveis e consegui distinguir chilreios de passarinhos nas varandas e choros matinais de criancinhas e tosses de idosos à janela à espera de um bom dia. Nesta altura já sabia qual seria o meu destino imediato. Distraída, falhei-o por um quarteirão. Nada a perder quanto a voltar para trás. Vi que o meu pedómetro marcava 2746 passos dos 10000 que me propunha fazer. Para isso, tinha de aceitar fazer todos os recados da malta lá de casa. Melhor entrar no ginásio. Melhor também não o fazer só hoje e tomar isso como um objectivo, senão seriam, com toda a certeza, passos perdidos.

Passos tão perdidos como os do corredor ou sala dos Passos Perdidos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LOJAS DE BAIRRO


Ia apressada para as compras habituais de sábado quando reparo em alguns caixotes, com fruta, encostados ao gradeamento que protegia o envidraçado de uma mercearia e, por cima, três folhas A4, com evidentes sinais das intempéries, coladas nas referidas vidraças e com o seguinte escrito à mão: a nossa pêra 0.50, a nossa laranja baia 0.75, a nossa maçã 0.80. Lembro-me quase instantaneamente de que aquelas folhas ou outras costumam lá estar e eu é que nunca tinha reparado na sua mensagem. O que teria então despoletado a minha atenção? Tinha acabado de ver num jornal que alguns municípios estão interessados em promover o comércio local ou tradicional, aproveitando os dias disto e daquilo. Lembro-me que esta questão do comércio local já tinha sido abordada tempos atrás, tendo levado à alteração do horário de funcionamento das grandes superfícies comerciais, entretanto reposto, o que quer dizer que não terá havido grande adesão a essa ideia por parte de quem compra. Parece-me, contudo, que não basta apenas querer animar as lojas de bairro, mercearias e mini-mercados. Terá de haver alguma estratégia de sedução que envolva as pessoas e lhes mude hábitos já criados. Mas como é que me iriam tirar da cabeça, por exemplo, a poderosa cantiguinha do nãnãnã venha cá, o aumento do iva aqui não entra, zero de... e zero de... e quejandos? E aquela liberdade de pegar nas coisas, manuseá-las, sopesá-las e metê-las no carrinho, percorrendo os corredores com certezas já adquiridas, num automatismo de fazer inveja a qualquer robot

 À primeira vista, missão quase impossível.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

MAR CRIOULO

Este é o mar de Arménio Vieira, um mar com um sal ainda mais salgado que o mar de Fernando Pessoa, talvez, reminiscências de jugos ancestrais ou não tão longínquos. Para o povo crioulo das Ilhas Afortunadas de Charles R. Boxer e Cesária Évora, o mar será tudo isso e também morada di sodade:


M A R 

Mar! Mar! 
Mar! Mar!
 

Quem sentiu mar?
 

Não o mar azul
 
de caravelas ao largo
 
e marinheiros valentes
 

Não o mar de todos os ruídos
 
de ondas
 
que estalam na praia
 

Não o mar salgado
 
dos pássaros marinhos
 
de conchas
 
areias
 
e algas do mar
 

Mar!
 

Raiva-angústia
 
de revolta contida
 

Mar!
 

Silêncio-espuma
 
de lábios sangrados
 
e dentes partidos
 

Mar!
 
do não-repartido
 
e do sonho afrontado
 

Mar!
 


Quem sentiu mar?
Arménio Vieira - Escritor cabo-verdiano
Prémio Camões 2009


Imagem Google
Ilhas de Cabo Verde