quarta-feira, 26 de março de 2014

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página




Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão


Daniel Faria

O mundo de Daniel Faria é o mundo do símbolo, um mundo em que existe o tudo e onde tudo é lançado conjuntamente, um mundo onde há um centro para o qual convergem todos os sentidos: «Desejo o útero de tudo» (273) (*), escreve o Poeta, colocando-se na posição daquele caminha para esse centro. Nesse mundo, onde o sentido é concebido como absoluto, a escrita nasce da atenção e da escuta, que são atitudes daquele que está em silêncio, não daquele que fala ou escreve. Os poemas de Daniel Faria apontam muitas vezes para um tempo e uma experiência que lhes seriam anteriores: antes do poema, haveria esse silêncio meditativo e a escuta que ele propicia, haveria a condição daquele que ouve, ou vê, mas não fala; só depois viria o poema, que, ao resgatar do silêncio o saber daquele que ouviu, ou mais precisamente daquele que viu uma linguagem que excedia a palavra, resolveria a incompatibilidade entre a escuta e a fala. Por consequência, nos poemas, nós encontramos, então, as «Palavras do homem no lugar penetrante / De quem ouve. Palavras / De quem cai em êxtase, e se ergue pelo tato // [...] Palavras de quem vê e derrama / Os olhos e os cântaros sobre si» (203).
Continuar a ler texto:  aqui

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Poema trazido do Bibliotecário de Babel
Curiosidade: ver este artigo do Público através deste blog
Imagem de: aqui

9 comentários:

  1. (•̃‿•̃)

    ❀ Merci Olinda !
    C'est très beau !

    GROS BISOUS
    bonne journée

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  2. Que Lindo.
    Obrigada.

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  3. Não conhecia nada de Daniel faria e gostei!
    A magnólia também passou a ser minha!

    Abraço

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  4. Pois é, vim conhecer um pouco desse autor que atá agora era totalmente desconhecido para mim.
    Mas, ficamos encantados com a sua pequena amostra da sua obra, e a magnólia passa a ser nossa também.
    Abraço

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  5. Mas que belo poema, Olinda! Não conhecia o autor e fiquei fascinada com a visão que ele tem da vida e que vem ao encontro da tal " discrição " que devemos ter em relação a todos os que nos rodeiam. O teu sempre assertivo comentário no Começar de Novo muito acrescente à mensagem passada tanto neste poema, quanto no texto que apresentei.

    Afinal, estamos todos na mesma página " e a magnólia quando nasce também é para todos. Um dos seus ramos sempre se inclina para o lado de cada um de nós e não devemos desprezar a flor que nesse ramo nos é oferecida; devemos sim, apreciá-la, sentir o seu perfume e com essa emoção sentida escrever um poema nem que seja para ser lido só pelo nosso coração.. Apesar de nós,a magnólia vai crescer...vai florir...vai perder as folhas e de novo florir; é o ciclo da vida...é o livro que a cada dia se abre nas nossas mãos e que temos de o ler; por isso é melhor que o façamos bem devagar, apreciando...observando...sentindo cada palavrinha e depois, sim, o poema chegará, um poema que será a expressão daquele que sabe escutar..que sabe sabe dar atenção e que
    quer ser a voz daqueles que, por motivos vários, se remeteram ao silencio; enfim...será a
    expressão daquele que está disposto a ser a magnólia que oferece a sua bela flor. Gostei imenso desta " página " que connosco partilhaste fazendo-a nossa e da flor que aceitei como minha, guardando-a no melhor lugar que tenho para ela, o meu coração.
    Obrigada, querida amiga pelo magnífico momento e pelo tanto que me dás sempre que venho ao Xaile de Seda. Já há muito que não lia um poema tão bonito, Olinda. Beijinhos, amiga e até sempre!
    Emília

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  6. Muitas vezes só necessitamos de uma palavra de conforto, de ânimo,
    de alguém que dedique um pouco do seu tempo para nós.
    E são nessas muitas vezes que encontramos nossos amigos virtuais!
    Hoje venho te abraçar pelo dia do amigo virtual.
    Você é benção na minha vida.
    Quero estar em sintonia contigo
    por muitos anos .
    Como muito carinho deixei um mimo na postagem,
    simples mais de todo coração.
    beijos te agradeço pela nossa amizade.
    Evanir.

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  7. Já ouvi, ou melhor, li muita coisa sobre Daniel Faria, mas ainda não o tinha lido. E gostei!
    Beijinhos, Olinda, bom dia!

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  8. Os versos são belos e não conhecia o autor. As considerações que transcreveu, a propósito de seu mundo, são um estímulo para que nos aprofundemos sobre ele. Bjs.

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