terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lugares da infância






Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

 In: "Um sítio onde pousar a cabeça"

       (1943-2012)


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Poema: Citador
Imagem:pixabay

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (iv)

Eis-nos chegados a 15 de Agosto de 2017. Há sessenta dias fomos confrontados com notícias estarrecedoras. Lavravam-se incêndios em Pedrógão Grande que se estenderam a outras localidades, nos quais perderam a vida sessenta e quatro pessoas, encurraladas pelo fogo e pelo fumo, num sofrimento atroz.


Seguiram-se, como sabemos, debates e mais debates sobre as responsabilidades, as incúrias, as incompetências. O povo, solidário, desdobrou-se em actos de solidariedade. Eu, pessoalmente, não sei se essas ajudas já chegaram em pleno aos sobreviventes.

Todos os dias deflagram-se novos incêndios. Todos os dias vemos a aflição das pessoas que deitam mão a tudo para se defenderem dessa praga: mangueiras, baldes, pás, sem equipamento, só com a roupa que trazem no corpo, desamparados, perdidos no meio dessa desgraça. Bombeiros extenuados, gente descrente de tudo. Uma situação de calamidade pública que parece não ter fim, não se sabendo donde vem nem para onde vai. O que fazer?


Em 15 de Agosto de 1498, uma Mulher chamada Leonor, Rainha, coadjuvada por almas caridosas entre elas Frei Miguel de Contreiras*, iniciou uma obra que haveria de crescer e abranger todo o País, ao instituir uma Irmandade de Invocação a Nossa Senhora da Misericórdia, com sede na Sé de Lisboa. Ela teve o cuidado de que essa instituição contasse com cem homens de boa fama e sã consciência e vida honesta assumindo o compromisso de ajudar os mais desfavorecidos. O Compromisso originário da Misericórdia de Lisboa foi aprovado pelo Rei D. Manuel I e confirmado pelo Papa Alexandre VI.

São 397 as Misericórdias Nacionais e por aquilo que li regem-se pelos mesmos princípios, isto é, tendo na sua missão o objectivo de cumprirem as 14 Obras da Misericórdia que referi num dos primeiros posts, cuidando tanto do espírito como do corpo.

E então digo, apropriando-me das palavras de Martin Luther King: I have a dream. É o sonho de que apareça quem tome nas suas mãos as dores dos desvalidos, as dores de quem não tem para onde ir, que se vê acossado, que não tem um momento de descanso, que vê os seus entes queridos perecerem, que se vê açoitado por elementos da natureza ou por mão criminosa. 

Nos meus sonhos revejo a Rainha Dona Leonor** a desfazer-se das suas jóias para ajuda nas suas obras de misericórdia, colocando o bem-estar dos desfavorecidos acima das vaidades deste mundo. Li que a palavra misericórdia quer dizer "dar o coração" e é nesta óptica que vejo as Misericórdias a responderem presente neste momento de grande sofrimento, pondo de lado burocracias que embotam os sentimentos. Isto, sem querer pôr em causa as obras meritórias que essas instituições desenvolvem na sociedade.
Urge que uma entidade, livre da pesada máquina do Estado, vá para o terreno prestar apoio atempado e efectivo nesses casos de calamidade pública.

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*Maria de Lourdes Amorim apresenta-no-lo como co-fundador.**Referi no post anterior a suspeita sobre o envenenamento de D.João II. Ficou provado que este rei morreu vítima de um ataque de urémia, por sofrer de nefrite crónica. p.149

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (iii)

À Rainha Mecenas

DONA LEONOR DE LANCASTRE






Marés de Mim

- As minhas mãos são jangadas
que se embalam descuidadas
à flor das marés de mim.
Trazem sal e maresia,
distância e melodia
dum navegar sem fim.


As minhas mãos são saudade,
são poentes de eternidade
que rezam o sonho e a miragem.
Trazem as velas ao vento,
nos mastros do meu lamento
ao crepúsculo da viagem.

De gestos e madrigais,
fiz minhas algas e corais
na praia da minha vida.
No silêncio das madrugadas
canto as horas paradas
cheias de melodia perdida.

E quando no cais ancorar
com vagas de solidão que invento,
trago por dentro do Tempo
o pouco de Tudo, o tudo de Nada
que a brisa de minha alma salgada
trouxe do ventre do mar...


-As minhas mãos são jangadas
que se embalam descuidadas
à flor das marés de mim.
Trazem sal e maresia,
distância e melodia
dum navegar sem fim.

Maria de Lourdes Amorim




Poema extraído das páginas 153 e 154 da obra desta autora com o título: "D.Leonor de Lancastre - Grande Senhora do Renascimento". 

A dado passo lê-se que Dona Leonor pacificou, modernizou, reformou tudo, numa revolução total: religiosa, assistencial, artística e intelectual, à medida do seu espírito de Mulher de alta cultura, visão atlântica, engenho, arte e poesia.

Para além de ter instituído e organizado a Misericórdia de Lisboa, a Rainha Dona Leonor fundou, dotou e organizou o Hospital das Caldas da Rainha, o Convento da Madre de Deus em Xabregas, o Convento da Anunciada em Lisboa, a Igreja de Nossa Senhora de Merceana, as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha e sete merceeiras no Convento de S. Agostinho, diz-nos por sua vez Maria do Carmo Romão* no prefácio à referida obra.

-Perdoem-me os meus queridos leitores que já por aqui passarem. Vou acrescentar algumas informações que me parecem de inserir neste post:

Portugal encontrava-se no período áureo dos descobrimentos e, em breve, tornar-se-ia a nação mais rica e poderosa da Europa, reprodução das palavras de Mário G. Viana, "D.Leonor", citado por Maria de Lourdes Amorim. A seguir, a autora continua com palavras suas referindo o espírito aberto e lúcido da Rainha-mecenas sempre atenta ao que a rodeava. E, a propósito, diz isto: Na sociedade portuguesa quinhentista, a galeria ilustre de artistas feita de arquitectos, pintores, imaginários, poetas, trovadores e físicos, recebeu a protecção e o seu inteiro apoio. Foi sua Alteza que "poderosamente contribuiu para revelar ao mundo o génio de Gil Vicente".

Espantemo-nos mais uma vez:

...à volta do seu nome foi levantada, pelo escritor e historiador Anselmo Braancamp Freire, a suspeita de que D.João II fora envenenado a mando da rainha e de seu irmão D. Manuel I. 

Voltarei com mais um post.

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Obra referenciada:
D.Leonor de Lancastre - Grande Senhora do Renascimento, de Maria de Lourdes Amorim. Ed.Ésquilo - Chancela da Santa Casa Casa da Misericórdia de Lisboa, V Centenário (1498-1998)

21ª Provedora da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa

1ª imagem - Estátua em Beja
2ª imagem - Armas da Rainha, em casada
3ª imagem - Brasão das Caldas da Rainha

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (ii)

Os historiadores atribuíram o título de Princesa Perfeitíssima a Leonor de Avis ou de Lencastre, inspirados no cognome de Príncipe Perfeito por que ficou conhecido D. João II, mas também pelas suas excelentes qualidades, reveladas, nomeadamente, nas áreas social e cultural.

Prometi, no post anterior, avançar um pouco mais neste tema e eis-me aqui a fazê-lo.

Ao abrir a obra "As Misericórdias", de Costa Goodolphim, de 1897, fac-similada, deparo-me com um prólogo dedicado à Caridade, que o autor pretende apresentar como sendo a força motriz da alma portuguesa. Um panegírico aos Reis, Rainhas e povo, excelsos na sua forma de praticar essa instituição. Vejamos algumas frases soltas da sua exposição, a qual começa com uma citação de Garrett, (penso que se tratará do nosso Almeida Garrett):

Em nenhum paiz da terra ha instituição philantropica superior ou igual. Garrett


Continuando com o prólogo:

As paginas d'este livro são tributo ao mais formoso sentimento do coração humano.

O que é a caridade?

A caridade não é só a esmola que se atira para o seio do desgraçado, quando nas praças e nas ruas nos dirige as suas supplicas.

A caridade tem como missão suprema dar conforto sem vexame, erguer os miseros sem orgulho, tratar o servo como amigo, o operario como irmão, porque todos são filhos do mesmo ramo.

Ao lado do povo, que com a sua grande alma vae com o seu obulo e o seu trabalho erguer e sustentar instituições sympáticas, no seu ideal perfeitamente humano, vimos as rainha e os reis portuguezes levantarem monumentos de caridade, páginas formosas d'esta virtude.

A alma portugueza é a mais compassiva e a mais alevantada no exercicio de piedosa romaria em busca dos afflictos.

Povo que tem alma tão grande e tão alevantada, como sempre aberto á dor alheia, como se propria fosse, esse povo é grande e tem o primeiro logar na historia da humanidade.

A seguir, comecei a ler o primeiro capítulo que é dedicado à Misericórdia de Lisboa cuja fundação, como vimos no primeiro post, é atribuída à Rainha Dona Leonor. Para o meu espanto, Costa Goodolphim põe a tónica em Frei Miguel de Contreiras, e coloca esta questão: 

Como se fundou a Misericórdia de Lisboa?

Tendo como fonte a Chronica da Santissima Trindade, o autor traça o perfil caritativo de Frei Miguel Contreiras, orador popular,  "pae dos pobres", que, vendo o desamparo em que se achavam muitos enfermos pelos adros das igrejas e arcos do Rocio, intentou fazer um hospital para os recolher e tratar, tendo sido ele o instituidor da irmandade da Misericórdia de Lisboa. Seguindo esta linha, ele foi a alma, a cabeça pensante, embora tivesse contado com companheiros cujos nomes são indicados no livro. Confessor da Rainha, pediu-lhe o seu apoio.

Mas, espantemo-mos de novo:

Aqui, o jornal i * diz que a história de Frei Miguel Contreiras é uma história mal contada, que o frade espanhol pode nunca ter existido e que não passará de uma fraude histórica.

E esta, hein?!!!

Voltarei.

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Obra citada: "As Misericórdias", de Costa Goodolphim.
Em bold - Excertos do Prólogo, pags: entre 5 e 13
De referir que o autor procura fazer uma análise
histórica através de outros documentos.

* A história do frade que é fraude

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (i)

Ela é Leonor de Avis ou Leonor de Lencastre, e mais outros títulos, senhora de grandes virtudes, casada com D. João II, o Príncipe Perfeito. Reinou no auge da expansão portuguesa e foi considerada a rainha mais rica da Europa.

Lê-se aqui que: 

As rainhas de Portugal contavam com o rendimento de bens senhoriais e patrimoniais da Coroa destinados à sua sustentação e dignidade. Este patrimônio era chamado Casa das Rainhas. Dona Leonor, além das vilas herdadas das rainhas que a precederam, foi dotada pelo rei com as cidades de Silves e Faro, e as terras de Aldeia Galega e Aldeia Gavinha. Na Casa das Rainhas que manteve em viuva, mesmo depois de D. Manuel casar, estava também incluida a cidade das Caldas, que ela própria fundara.*


Ela soube empregar a sua riqueza e influência em obras meritórias que constituem um precioso legado para todos nós. Um desses exemplos é a fundação da primeira Misericórdia em Portugal, sendo outras criadas por acção de D. Manuel I.

As principais razões da fundação e rápida expansão das Misericórdias portuguesas logo no século XVI são, em síntese, de ordem espiritual, porque os leigos aplicavam e viviam a sua doutrina, e de Estado, pois foi uma forma de afirmação do poder régio ao controlar e tornar muito mais eficaz a assistência.**





Apraz-me registar nesta publicação as 14 obras de misericórdia, da mesma fonte:

Obras corporais
Obras espirituais
Dar de comer a quem tem fome
Dar bom conselho a quem pede
Dar de beber a quem tem sede
Ensinar os ignorantes
Vestir os nus
Corrigir os que erram
Acolher os errantes
Consolar os que estão tristes
Visitar os doentes
Perdoar as injúrias
Remir os cativos
Suportar com paciência as fraquezas do próximo
Sepultar os mortos
Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos


Por muito pouco dados à espiritualidade que sejamos, não há dúvida que nos sentimos tocados e dispostos a praticar alguns desses conceitos quando vemos a desgraça atingir o nosso semelhante.

Voltarei com o tema das Misericórdias, talvez um pouco mais alargado. 


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sábado, 15 de julho de 2017

Descobrir a grandeza das coisas anónimas

Leve os seus filhos a encontrar os grandes motivos para serem felizes nas pequenas coisas. Uma pessoa emocionalmente superficial precisa de grandes eventos para ter prazer, uma pessoa profunda encontra prazer nas coisas ocultas, nos fenómenos aparentemente imperceptíveis: no movimento das nuvens, no bailar das borboletas, no abraço de um amigo, no beijo de quem ama, num olhar de cumplicidade, no sorriso solidário de um desconhecido.



A felicidade não é obra do acaso, a felicidade é um exercício. Treine as crianças para serem excelentes observadoras. Saia pelos campos ou pelos jardins, faça-as acompanhar o desabrochar de uma flor e descubra com elas o belo invisível. Sinta com os seus olhos as coisas lindas que estão à sua volta.

Leve os jovens a viver os momentos singelos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos. As montanhas são formadas por ocultos grãos de areia.

As crianças serão felizes se aprenderem a contemplar o belo nos momentos de glória e de fracasso, nas flores da Primavera e nas folhas secas do Inverno. Eis o grande desafio da educação da emoção!

In: Cury, Augusto - Pais brilhantes, Professores fascinantes, páginas 41/42


Tempo de férias, tempo para reaprender a estarmos juntos. Oportunidade para andarmos de mãos dadas e apreciar tudo o que está à nossa volta. O autor bem o diz, descobrir as coisas que os nossos olhos não vêem normalmente e ensinar essa forma de ver às nossas crianças. Nem tudo o que luz é ouro, lá diz o povo. Muitas vezes é nas pequenas coisas que encontramos a verdadeira felicidade.

Desejo-vos um bom fim de semana.

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Imagem: daqui

segunda-feira, 10 de julho de 2017

As pombas





Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

      1859-1911


Raimundo da Mota de Azevedo Correia, juiz, poeta. Brasileiro.


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Poema - daqui
Imagem - daqui

sábado, 8 de julho de 2017

A formidável máquina que é o nosso cérebro




Máquina? Pergunto-me. Talvez não seja apropriado referir-me ao cérebro como uma simples máquina, dadas as suas implicações a nível emocional, da ética, da própria consciência, boa ou má, da mente, esse instrumento poderoso que tanto nos apresenta excelentes direcções como outras menos boas em perfeita simultaneidade e também a possibilidade de optar por uma ou outra.

Até para Alícia, psicóloga, cega, que mede as reacções emocionais dos seus doentes através das pulsações, este é assunto que causa perplexidade. Vejamos como ela se exprime, em dado momento:


-Mesmo depois de todos estes anos - disse Alícia - continuo pasmada com o poder aterrador da mente. Temos esse organismo instalado nas nossas cabeças, o qual, se o deixarmos, pode destruir-nos ao ponto de nunca voltarmos a ser os mesmos... e, no entanto, é nosso, pertence-nos. Não fazemos ideia daquilo que nos assenta nos ombros.*

Tive de parar aqui, na minha leitura, tal o impacto destas palavras que, ao fim e ao cabo, vão ao encontro das minhas preocupações. Vemos a função do cérebro alargada na sua qualidade de órgão que concorre para o bom funcionamento do corpo humano, para a de um autêntico organismo com o poder de vida ou de morte; com o poder de decisões importantes que podem afectar a nossa própria vida como a daqueles que nos rodeiam, dependentes de nós ou não, mas também de indecisões ou falhanços por incúria. 




Que dizer de pessoas que resolvem, por motivos que só elas conhecem na realidade, atropelar outras deliberadamente, esfaquear, atingir com armas letais, agredir de qualquer forma? Ou pequenas discussões que acabam em tragédia, muitas vezes entre amigos? Ou a decisão de encetar uma guerra, uma campanha que envolva a vida de todos, através do poder que o próprio povo confere aos seus representantes? Ou de, quem de direito com a obrigação de zelar pelo bem comum, não decidir coisa alguma, colocando-nos muitas vezes em situações de precariedade e de perigo?

Mas também há o outro lado. Um lado maravilhoso que nos faz sentir orgulho de pertencer a este grupo de seres vivos. Homens e mulheres que se sacrificam, que oferecem o seu bem-estar em prol daqueles que sofrem. Saem das suas casas, adoptam modos de vida sem comodidade para que outros possam ter aquele mínimo necessário à sua sobrevivência. E em situações de crise colocam a sua própria existência em risco para apoiar outros.   

E assim é feito o nosso dia-a-dia. A qualquer momento, a todo o momento, dispomos desta possibilidade imensa de fazer bem ou de fazer mal, de prejudicar ou de beneficiar. E isso só depende de nós. Alguém mais novo que eu já me disse: Da mesma forma que existe o "bem" também existe o "mal". Isso faz parte da nossa natureza. É uma perda de tempo andarmos à procura de motivos para isto ou aquilo

SERÁ?

Que Deus nos ajude!  

Desejo-vos dias abençoados.

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Em itálico:
*Excerto, pg 237, As Mãos Desaparecidas - Robert Wilson
Imagens: Pixabay

Mãe




I

Dantes, quando a deixava,
As férias já no fim,
Ela vinha à janela
Despedir-se de mim.

Depois, quando na estrada,
Olhava para trás,
Deitava-me ainda a benção
Para que eu fosse em paz.

Dali não se movia,
À vidraça encostada,
Até que eu me perdia
Já na curva da estrada.

Hoje, se olho, calo-me
E baixo os olhos meus!
Já não vem à janela
Para dizer-me adeus!

II

Chove, e a chuva é fria.
Noite! Nos montes distantes
O Inverno principia.
Um Inverno como dantes.

Ao redor do lume aceso
Todos ficamos a olhar...
Todos não, não somos todos,
Porque há vazio um lugar.

Esse lugar era o dela,
Que ninguém mais preencheu.
Mesmo com vida, na terra,
Era uma estrela no céu.

Alfredo Brochado
in "Bosque Sagrado" 



Nas minhas incertezas e dúvidas de adolescente, ela dizia-me: "No teu rosto, as tuas feições conjugam-se todas umas com as outras o que o torna perfeito." E quanto à minha silhueta, também me dizia de uma forma que me convencia: "Pareces uma espanhola", isso talvez obedecendo ao seu conceito de beleza e elegância. O certo é que me devolvia a confiança.

Hoje, dia do seu aniversário natalício.

Um bom fim de semana vos desejo, meus amigos.

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Poema: daqui
Imagem: daqui

domingo, 2 de julho de 2017

Porque






Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
               
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

in: Mar Novo, 1958

     6/Nov/1919 - 2/Jul/2004

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Imagem: aqui

sábado, 1 de julho de 2017

O Belo é necessário




Neste mundo o lindo é necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contacto aquece; se ela passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que - ninguém sabe a razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. 

In: "Os trabalhadores do mar"


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Texto: Citador
Imagem: Pixabay

Rubis

A terra escondeu nas estranhas
as suas lágrimas de sangue
para que ninguém as pudesse ver

Jorge Sousa Braga (1957)
O Poeta nu

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Poemário: Assírio & Alvim
2012

domingo, 25 de junho de 2017

Para ti





Foi para ti 
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


In: Raiz de Carvalho e outros poemas

Mia Couto

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Poema: Citador
Imagem: Pixabay

domingo, 18 de junho de 2017

Estamos de luto.

Estamos de luto, com o coração amachucado, sem forças para compreender e aceitar o que se passou e o que continua a passar-se. Florestas em fogo, inalação mortal de fumo, estrada pejada de carros queimados e seus ocupantes apanhados numa morte horrível. Hora aziaga em que tudo de mau se conjugou para sua e nossa desgraça. As palavras nesta altura são poucas para exprimir a nossa dor. Façamos o que nos for possível para consolar os familiares e ajudar os sobreviventes.

A hora é de solidariedade.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Você: Brasil


Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

E o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheiros de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
A alma das sua gente simples,

Ambas cristãs e supersticiosas,
sortindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.
dos seus cateretês, das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também...
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Ler mais aqui

Jorge Barbosa

Jorge Vera-Cruz Barbosa nasceu na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 1902. Faleceu em Cova da Piedade, Portugal, em 1971. Foi funcionário público. Um dos membros mais importantes do movimento Claridade.
Publicou: Arquipélago. São Vicente: Cabo Verde, 1936; Ambiente. Praia: Cabo Verde, 1941. Caderno de um Ilhéu. Lisboa: 1956.

Do site de António Miranda

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Imagem do Rio de Janeiro - Net

domingo, 21 de maio de 2017

A Lusitânia e os lusitanos

Diz-nos Estrabão que a Lusitânia era a maior das nações ibéricas e que os seus rios continham poalha de ouro. Sabemos que desta, outrora, próspera terra faz parte o nosso território e a estremadura espanhola. Dos lusitanos ou hispânicos ele e Trogo Pompeu contam que eram povo aguerrido com o corpo preparado para a abstinência e fadiga e ânimo para a morte... e que faziam sacrifícios aos deuses assim a modos que arrepiantes, bem ao modo da época. Destes heróis sobressai o mítico Viriato que é abatido por três dos seus oficiais comprados por Roma.



Camões ao cantar o peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram, convocando os deuses do Olimpo e tendo como pano de fundo a nossa epopeia marítima leva-nos a acreditar que os lusos, se é que existem ou existiram, são capazes de grandes feitos acima da sua condição humana. Por isso mesmo, temos na nossa História ecos de heroísmos que nos consolam e nos levam a acreditar que, por mais desolador que seja o nosso presente, há-de aparecer quem nos livrará desta apagada e vil tristeza.



D. Sebastião, o Desejado, foi para Alcácer-Quibir numa de teimosia ou por mau aconselhamento e lá ficou, enterrando consigo a nata da sociedade portuguesa. Mas sempre subsistiu em nós a crença de que ele viria um dia, numa manhã de nevoeiro, para resolver os nossos problemas. 

E não é que o nosso salvador, na sua auréola trágico-romântica, surge agora trazendo-nos esperanças nunca dantes apercebidas? Salvador de nome, de jure e de facto. Bem podem falar mal dele dizendo que foi golpe de marketing e coisas do género que não nos aquece nem arrefece. Cá por mim, podemos amar por todos e a todos. Eles que aprendam também a amar assim.

E mais. Doravante:

Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta.


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Imagens - Viriato e D.Sebastião, Rei de Portugal: Net
Em itálico: frases e expressões conhecidas da nossa literatura,
nomeadamente, d' "Os Lusíadas".
Ver aqui a Lusitânia de Estrabão. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Alde Manuce, a cultura clássica e o itálico

Ando muito preguiçosa com as minhas leituras. Até deixo livros a meio. Um caso de estudo. Ontem, madrugada adentro, estava eu a ler umas páginas mais de um livro que até já terá reclamado em viva voz, fui remetida para esta nota de rodapé, numa referência a "Os Comentários"(De Bello Gallico), de César: Alde Manuce, muito célebre, é o inventor dos caracteres itálicos*. Claro que isto chamou-me logo a atenção. Tantas e tantas vezes tenho usado o itálico sem nunca prestar atenção às suas origens. E que é que eu vi sobre o assunto?

Antes de assumirmos a invenção do itálico por Alde Manuce, aliás, Aldo Manuzio ou Aldus Manutius, nascido Teobaldo Manucci (1452-1515), temos a escrita cursiva desenvolvida por Niccolò d'Niccoli. A partir dessa escrita Francesco Griffo fizera as primeiras punções, instrumentos para gravar, e, em 1501, este tipo, conhecido como itálico ou aldino, é utilizado pela primeira vez na imprensa por Manuce.

Li que Aldus Manucius, humanista, editor e tipógrafo, encontra-se no grupo dos grandes divulgadores da cultura clássica, tendo publicado entre 1495 e 1509 obras de Aristóteles, Aristófanes, Thucydides, Sófocles, Herodoto, Xenofóne, Euripides e Demostenes, entre outras. Depois de 1513, foi a vez de obras de Platão, Pindar, Hesychius e Athenaeus. Além dos textos dos autores referidos, Aldus publicara obras de Pietro Bembo, Poliziano, Dante, Petrarca, Plínio, Pontanus, Sannazzaro, Quintiliano, Valerius Maximus, Erasmo de Roterdão, e muitos mais.
Na Imprensa Aldina, (esta designação será originada no seu nome - não vi outra explicação), foram compostos os primeiros livros de bolso, uma invenção muito ao gosto dos humanistas que viajavam muito.


Por outro lado:
A Biblioteca Nacional, Portugal, realizou em 2015, uma mostra da sua obra, referindo, em especial, um livro com a correspondência de Catarina de Siena, freira dominicana, hoje aceite como Doutora da Igreja, livro esse que atesta essa técnica, utilizada pela primeira vez, em que: a gravura apresenta três frases escritas - «iesu dolce; iesu amore; iesu» - numa letra diferente de todas as outras que a tipografia experimentara e conhecera até então: uma letra levemente inclinada à direita, um ductus que Aldo Manuzio desenhara e fizera abrir pelo gravador Francesco Grifo e que ajudava a expressar e a destacar o êxtase sentido pela santa. Um tipo novo que depressa começou a correr mundo e que hoje é conhecido como itálico. Uma forma de letra que no meio de um texto extenso se destaca e chama a atenção do leitor.

Ficou aqui demonstrado que só tenho a ganhar com leituras aturadas e consistentes mas, mesmo assim, noto uma falha, minha na certa. Não fiquei a perceber bem se Alde Manuce, Aldus Manutius ou Teobaldo Manucci, inventara o itálico ou apenas, o que já seria muito, terá utilizado a escrita anteriormente desenvolvida por d'Niccoli, inovando-a e dando-lhe uma utilização mais globalizante com a ajuda das punções de Griffo. Numa missiva a um amigo, Manutius refere em 1501, que: estamos a imprimir em formato bem pequeno, para que seja convenientemente bem segurado pelas mãos e aprendido pelo coração (sem falar em ser lido) por todos. Todos, com um sentido bem relativizado na nossa óptica de hoje.

Quanto à utilização do itálico por nós, já se sabe, uma delas é chamar a atenção para textos ou expressões que não são da nossa autoria, mesmo quando, ou especialmente, desconhecemos a fonte. Espero tê-lo feito, além de indicar a proveniência dos textos lidos.

Desejo-vos uma boa semana.

Abraço.


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*Benzoni, Juliette - O Quarto da Rainha, pg 68
Ver mais e conferir: aqui, aqui, aqui,aqui, aqui
O itálico do meu texto diz respeito a excertos destas referências.
1ªImagem (net): escrita cursiva de Francesco Griffo
2ª imagem: Sancta Catarina - BNP