sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A assembleia dos ratos

cão ladrava qualquer que fosse o ruído. Como naquele momento, um dos miúdos tossiu e ouviu-se logo a reclamação do animal. Ouvidos apuradíssimos a fazer jus ao que se diz deles de que ouvem sons não acessíveis aos humanos. 



Contudo, escada abaixo escada acima ouvem-se os guizos que o dono ou a dona lhe penduram ao pescoço e, como sempre, o nosso espanto quotidiano e a toda a hora perante tal: tendo ouvidos tão afinados como aguentaria o ruído constante dos guizos. Era essa a conversa depois do jantar. 

E veio a propósito de nada, a descoberta por parte de um dos presentes de que o guizo é um instrumento musical, para além de massacrar os ouvidos do tal cão e dos gatos que, regra geral, são mimados com guizos ao pescoço.



Estávamos nessa animada assembleia quando se chegou à conclusão de que se devia dizer algo aos donos do cão, que ladra a toda a hora e sobre o tilintar dos guizos que ressoam pelo prédio todo, referindo também o mal-estar que poderiam estar a causar ao animal. Um dos presentes disse que não se deve ter cães nos prédios, outro que eles passam o dia presos sem poderem exteriorizar a sua natureza, outro ainda que se sentia um cheiro esquisito logo assim que se transpunha a porta da entrada. Outras opiniões se ouviam ainda que mais fracas.

Tudo de acordo, mas quem seria o mensageiro ideal para essa tarefa? Quem seria a pessoa com a diplomacia exigida para não causar melindres?  O da voz tonitruante, sempre pronto para uma briga, prontificou-se mas não foi aceite  pela maioria pois ainda deitaria o prédio abaixo, sendo pior a emenda que o soneto. Seguiram-se: o A. com um trabalho em mãos não tinha tempo para estar à espreita dos vizinhos; a B. com o trânsito e os transportes sempre atrasados não dava; o C. poderia fazê-lo num fim-de-semana mas qual quê, e os treinos que só poderia fazer nesses dias?; a D. com os miúdos, não lhe davam descanso, não tinha tempo para nada...



E assim ficámos a olhar uns para os outros num impasse até que o miúdo mais novo, o da tosse, disse: -isto parece uma assembleia de ratos! -De raaatos - admirou-se o outro, dois anos mais velho- estás-te a passar ou quê? - De ratos, pois. A minha professora leu-nos uma fábula que dizia que todos falam falam mas ninguém faz nada...e também ela disse que as fábulas têm uma moral.

A curiosidade foi mais forte e munidos das devidas ferramentas pusemo-nos à procura da tal fábula e encontrámo-la, realmente. Cá está ela, adaptada, creio eu:

Relata que uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um rato jovem levantou-se e deu a ideia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas, o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se do seu canto e falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato? aqui

Moral da história: Falar é fácil, fazer é que é difícil.



Do tempo em que os animais* falavam ou do tempo de Esopo (620 a.C / 564 a.C.) chegam-nos estas considerações.

E esta grande questão prevalece: 
quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato?

=====
Referências:
Esopo
La Fontaine
Video youtube
Free images: Pixabay
*Entenda-se:os chamados irracionais.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fui quase todas as mulheres de Modigliani

Em tempos, ilustrei dois poemas sobre a mulher* com uma pintura de Modigliani. Por isso, o  título do livro de poemas de Graça Pires chamou-me logo a atenção. Isso e os belos poemas que a autora nos tem oferecido no seu blogue, retirados do mesmo. Daí a minha vontade de o adquirir e tê-lo aproveitado como uma parte da primeira experiência que apresentei à minha filha.

Resolvi publicar um dos seus poemas e quem já tiver lido o livro ou lido os poemas de que falei acima concordará que a dificuldade está na escolha. Mas até nisso tive sorte, porque no livro está contido um poema, adivinhem lá o tema. Nem será preciso grande esforço porque vou apresentá-lo a seguir:




Mulher com xaile vermelho

Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento.

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda.

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela.

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra.

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração. 

in: Fui quase todas as mulheres de Modigliani
pg 43


No início, página 6, encontramos estas palavras de Maria Teresa Horta:



  
Voamos a lua,
menstruadas
Os homens gritam:
     - são as bruxas
As mulheres pensam:
     - são os anjos
  As crianças dizem:
     - são as fadas

Maria Teresa Horta
              Os Anjos





=====

Obra referenciada:
Fui quase todas as mulheres de Modigliani
Poesia - Graça Pires, Ed. Poética Edições
Maio 2017

======

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Mãe, o que é que queres pelos teus anos?

-Ah...não sei. Qualquer coisa...
-Não, assim não vale. Uma experiência que queiras.
-Está bem, há dois livros que tenho estado para adquirir. Pode ser isso...
-Livros? Mas isso é alguma experiência?
-E que experiência! Penso que através de um livro podemos viajar, atravessar fronteiras, conhecer mundos...
-Ahaha - riu-se divertida e já convencida- então pode ser isso e, entretanto, pensa também noutra coisa.



Pois é, o que poderá ser assim do pé para a mão? Há dois anos a experiência que ela me arranjou foi uma ida a um spa para ser submetida a massagens e etc. No ano passado, fomos todos a Cabo Verde comemorar o meu aniversário (festa de arromba) e lá, de conluio com o pai e as tias, fui presenteada ainda com uma viagem a Paris. Dessas duas viagens não vos dei conta como devia. Em relação a Cabo Verde fiz dois posts com a promessa de voltar, mas perdi as fotos e ando para aqui às aranhas à procura delas, na esperança de retornar ao assunto. De Paris, idem, idem, aspas...quase na mesma data.



Então, como ela é uma rapariga que não se esquece das coisas lá tenho que resolver. Lembrei-me que em Novembro li em duas revistas sobre um tema que depois viria a ser reforçado no dia do Yoga. Trata-se da Sofrologia. Diz quem sabe que a palavra Sofrologia tem a seguinte composição: vem das palavras: sos = serenidade, harmonia ; phren: mente, consciência e logos: estudo, conhecimento. Assim, etimologicamente "Sofrologia" significa: estudo da consciência em equilíbrio.

Interessante como as palavras podem induzir-nos em erro, porquanto essa à primeira vista parece levar-nos para um campo completamente diverso. Segundo consta, se levada a sério poderá ser a solução para muitos dos problemas do sistema nervoso. Pensa-se que poderia substituir perfeitamente a quantidade de comprimidos que as pessoas ingerem para as insónias e para as perturbações do dia-a-dia. Naquilo que li há também o aconselhamento para as crianças irrequietas proporcionando-lhes assim uma certa tranquilidade.




Portanto, está encontrada a segunda experiência, bem como a experiência primeira que eu escolhi e não dispenso: os dois livros. Logo que cheguem às minhas mãos e os tenha lido, falar-vos-ei deles. Alguns de vós conhecem os autores.

Suspense...

Até lá.

====

.As revistas onde encontrei o tema da Sofrologia: 
Voici et France Dimanche

Ler, se interessar:

As outras duas imagens são: daqui
  

O Portugal futuro



0 portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


In:Boca Bilingue

   Ruy Belo
(1933-1978)

Poeta e ensaísta português, natural de São João da Ribeira, Rio Maior.

=====
Poema retirado de: Banco de Poesia Fernando Pessoa
Imagem: daqui

sábado, 9 de dezembro de 2017

Passeando pela Wonderland

Chuva, chuva, chuvinha...Foi assim, ontem, na amada Lisboa. Passeámos ontem pela Wonderland, no Parque Eduardo VII, toda molhadinha, demos a volta até à pista de patinagem, os pais a fazerem a vontade aos filhos, pois se foram lá para isso, tudo de capuz, a pisar as folhas outonais. Dum lado e doutro tendinhas com muitas coisas para degustar, muitas mesas com cadeiras para as pessoas se sentarem e passarem um bocado bebendo uma ginginha e outras que tais. Mas, nada feito. À noite e sem chuva terá um outro aspecto. Mas, venha, venha a chuva, sim.

a)

Elas, as mesas, cheias de folhas e de água, a roda gigante ao fundo parada, sem préstimo, e fomos saindo de mansinho. Apanhámos um táxi para o largo do Carmo. O taxista palavroso, mas com tino, brindou-nos com a actualidade a que aderimos. Esta chuvinha é boa para a terra, e aproveita bem, para a cidade é só para causar acidentes e trânsito. Então, estão a ver o Trump com aquilo de Jerusalém...e o outro da Coreia não lhe fica atrás. Mas também o da Rússia, hein... Veio a lembrança do Chernobyl, por fim a dúvida se teria sido antes ou depois da queda do Muro de Berlim e a seguir, ainda, a bomba atómica na segunda guerra mundial, sobre Iroshima e Nagasaki. E...chegámos. A ideia era irmos almoçar a um restaurante mesmo ali junto ao elevador de Santa Justa.


Escolhi um risoto vegetariano, não que seja vegetariana. Mas, às vezes, quando vou comer fora, prefiro coisas assim. Estou a entrar numa fase em que a comida feita em casa é que é. Enfim, manias. Para a sobremesa um brownie com gelado. E, claro, nunca consigo comer uma sobremesa até ao fim.


Dali, a vista do Convento do Carmo a convidar-nos para uma visita. E fomos...


Numa outra perspectiva


E um olhar para baixo

Fomos ver as ruínas e o Museu Arqueológico. Chamou-me a atenção um busto cujo letreiro fazia esta afirmação, seguida de um ponto de uma interrogação: D. Afonso Henriques (?). Investigação, datação, incompleta? Pergunto eu.









Fotos que são apenas pormenores. Podia postar mais algumas, mas seria cansativo. Outras mais esclarecedoras poderão ser encontradas na Net.

A seguir, resolvemos que desceríamos para a Baixa utilizando o Elevador. Fomos ver - meu Deus, os preços são proibitivos. Ficámo-nos pelo imenso corredor  cinzento e frio como se vê na foto. Vamos de táxi?- perguntámo-nos. Um sacrilégio, sendo a zona que é.


Descemos pela rua do Sacramento, pezinho aqui, pezinho ali, porque escorregar  pela rua abaixo com a chuvinha e o óleo concentrado, não era nada difícil. Continuámos pela Calçada do Carmo e fomos dar ao Rossio. Ali uma Feira de Natal, à semelhança das que fazem noutros países. Tendinhas, barraquinhas mimosas com tudo de doce tradicional e não só, vi variedades de bombocas, foi o que me chamou logo a atenção. Não tenho fotos. A chuvinha não parava e o telemóvel não aguentaria tanta humidade. 

Como eu gosto de andar à chuva - não sendo torrrencial - ainda deu para espreitar montras, pastelarias e andar por ali sem destino.

Ai, o Metro é logo ali, rumo à Alameda e a seguir Gare do Oriente. Mesmo com chuva e envolta em neblina, Lisboa é a minha Wonderland por excelência.

Bom fim de semana, meus @migos.

=====

a) imagem Net
(impossível fotografar com o tlm na Wonderland por causa da chuva)

Fotos nossas.

Ler, se interessar:
Ruínas e Museu Arqueológico do Carmo

=====

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Coisas do arco-da-velha

                             (arco celeste pela manhã, mal do pobre que não tem pão e ovelha que não tem lã)


Coisas do arco-da-velha são, genericamente, coisas mirabolantes. Como também histórias do arco-da-velha. A origem está, muito provavelmente, no Antigo testamento: arco-da-velha, arco-celeste ou apenas arco-íris foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: 'Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo  recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra' (Génesis 9:16). Também se considera que o Arco-da-Velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à lei Divina. Afora estas conotações religiosas, o arco-da-velha (associado à fada ou à feiticeira) é o arco-íris. A crença mais popular que se estende a várias regiões e, até, a vários países, supõe que o arco-íris tira a água de um lugar para a despejar noutro lugar. Há também quem, mais ambicioso, ache que as pontas do arco assentam sobre o local secreto onde um pote de moedas de ouro foi enterrado.
Os poetas, esses dizem que o arco-íris é apenas a fita que a Natureza põe na cabeça depois de lavar os cabelos...

In: COISAS DO ARCO-DA-VELHA, Sem perguntas, Só respostas, de Jorge Esteves, página 59.



Excerto do livro de Jorge Esteves, nosso companheiro da blogosfera, lançado em 27 de Outubro último, na Biblioteca Municipal do Porto e no dia seguinte, 28, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. No próximo dia 9 terá lugar o lançamento em Lisboa.

Na contracapa lê-se: COISAS DO ARCO-DA-VELHA é o resultado de uma pesquisa orientada pelo amor à Língua Portuguesa e ânsia de conhecimento do autor que nos conduz a viagens no tempo, num retrocesso até às origens, ou possíveis origens, de cerca de 320 aforismos comummente usados neste nosso idioma. (...)
Esta é uma obra de leitura aprazível, destinada a um leque amplo de leitores; interessa ao cidadão comum, aos jovens estudantes, aos estudiosos de todas as idades e, seguramente, aos que têm a Língua Portuguesa como ferramenta de trabalho.

Da minha parte, devo dizer que ler o "Coisas do arco-da-da velha" vem confirmar a minha admiração pela forma como Jorge Esteves transforma a escrita numa arte.

====

Obra referenciada: COISAS DO ARCO-DA-VELHA - Sem perguntas, Só respostas - Jorge Esteves - Ed. Perfil Criativo - WWW. AUTORES.CLUB 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Mãe-coragem

Se tivesse de escolher ou optar por uma figura emblemática dos últimos tempos escolheria uma Mulher que me tem impressionado sobremaneira, que tem engolido as lágrimas, fazendo das fraquezas força. Na sublimação da sua dor procura justiça e nessa busca engloba todos os que estão a sofrer uma dor como a sua.  


























Nela vejo todas as mães que perderam os seus filhos naquela fatídica noite de 17 Junho ou nos dias infernais começados a 15 de Outubro, ou em situações similares; aqueles que perderam os seus familiares, os seus amigos, os seus vizinhos; todas as pessoas cujas vozes não se ouvem e que no seu sofrimento vêem os seus dias e noites povoados de fantasmas.

Nádia Piazza é a figura materna que elejo. Ela não se isola, abraçando a sua desgraça. Carrega com ela, quais filhos desprotegidos, todos os que viveram aqueles momentos de horror e pede perdão às vítimas dos incêndios de Outubro, por achar que não cuidou delas como devia

Da mesma forma que fiquei sem palavras aquando dos incêndios de Pedrógão Grande, retirando-me por algum tempo do Xaile de Seda, também agora não me vejo capaz de dizer tudo o que sinto ao ouvir a voz embargada dessa mulher que deseja honrar a memória do seu filho de 5 anos, amando e dando a mão ao seu semelhante.

Bem-haja, Nádia Piazza!

=====
Imagem: daqui

domingo, 3 de dezembro de 2017

Banquete de amor



Ao contrário dos outros quadros, que pareciam ter levado com lama e borra de café, este, este banquete de amor, consistia na cor. Uma mesa iluminada pelo sol - sobre a qual tinham sido colocados pratos, chávenas e copos - parecia transbordar de luz. A mesa e o banquete tinham sido colocados no plano mais próximo e, de todos os lados, o fundo parecia relegado para uma espécie de escuridão visível. O olhar regressou à mesa. Nos copos havia, não vinho, mas luz, e as bandejas tinham pratos de tons extremamente coloridos, como se o convidado tivesse trazido para aquele banquete um apetite, não de comida, mas do espectro inteiro de cor, iluminado por candeeiros de arcos celestiais. A comida não tinha forma. A comida não tinha forma. Tinha apenas cor, pastéis ardentes, clarinhos mas intensos. Uma magia de visionário fluía de uma ponta à outra da mesa, todos os pratos tendo sido transformados em abstracções de formas demasiado brilhantes, como se uma pessoa tivesse saído de um cinema e deparado com uma radiosa tarde de Verão no coração da cidade, onde todos os objectos estavam carregados de luz que os olhos não conseguiam processá-los. O quadro era como um flash, uma arte que cegava como uma catarata. Aquela comida disposta diante de nós era exactamente assim. Depois, reparei que a parte da frente da mesa parecia inclinada na direcção do observador, como se toda aquela luz, e estava prestes a tornar-se nosso.
In: Banquete de amor, Charles Baxter, página 79.


Excerto do livro que estou a ler e que se intitula Banquete de amor, como referido acima. Trata-se de um livro de histórias de amor mas, o mais interessante, é que tem um fio condutor: o personagem principal, Bradley, que, nas horas vagas se dedica à pintura. Foi ele que sugeriu ao narrador, escritor na trama e na vida real, a feitura do livro. Pelo tom algo coloquial dos contos não contava encontrar texto tão belo, uma prosa poética tão elevada. Também Bradley está a revelar-se muito interessante. O livro tem 267 páginas e ainda vou na 79. Talvez ainda me depare com mais surpresas agradáveis.

Pelo que leio na contracapa, o Banquete do amor é um verdadeiro festim, uma sumptuosa iguaria de literatura que reflecte sempre aquilo que mais nos delicia e atormenta, referindo entre outras considerações que esta deliciosa narrativa reflecte sobre histórias de amores extraordinários entre pessoas comuns.

Tenham um bom domingo e façam o favor de ser felizes, como dizia o saudoso Raúl Solnado.

======

Obra referenciada: Banquete de amor, de Charles Baxter, Ed. Bico da Pena - 1ª edição, 2007.

1ª imagem:Link adress
2ª imagem: Link adress

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Escrevo meu livro à beira-mágoa





Terceiro

Escrevo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

In: Mensagem

    (1888-1935)

Este poema é o terceiro passo da II Parte (Os Avisos), de Mensagem, livro 
composto por 44 poemas, editada um ano antes da sua morte. 
É uma obra que exalta os feitos dos portugueses, seguindo a linha camoniana,
e cultiva a esperança na recuperação do seu antigo prestígio.

=====
Poema retirado: daqui
Imagem: Pixabay

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Esta refrega




JOSEPH CONRAD


Esta refrega, igual à dos marinheiros contra a tempestade
Que avança para sotavento - enquanto eles, unidos
Nesse caos, se voltam, cada um no seu nocturno
Beliche para sonharem outra vez com o caos, ou com a casa -
O poeta, ele próprio, que luta com a forma
Do seu tortuoso trabalho, sabe, e tendo intencionalmente
Pago com a mesma moeda a fadiga do mar, convidou
Os guindastes da alma que trabalham no seu quarto.
O fermento de marinheiro no seu sangue
- Embora o indolente coração escute a azáfama do ferro
E a canção dos barcos que navegam para Este -
Ajuda-o a vencer ou a ser vencido.
Adormecido, ele luta toda a noite com uma vela!
Mas continua a sonhar palavras para além da vida dos barcos.

Malcolm Lowry
(1909-1957)


Para o título deste post fui buscar "Esta refrega" ao primeiro verso deste poema. Quanto ao seu título, propriamente dito, penso que é "JOSEPH CONRAD" pois este nome aparece a encabeçá-lo. Fui ver quem seria.

Joseph Conrad é um escritor britânico e muitas das suas obras se centram em marinheiros e no mar. Mas qual a relação entre ele e Malcolm Lowry? Encontrei uma tese de doutoramento que analisa obras suas: JOSEPH CONRAD E MALCOLM LOWRY: "LA MUSIQUE SOMBRE DU CHAOS", HEART OF DARKNESS (1902), NOSTROMO (1904) ET UNDER THE VOLCANO (1947).

Se tiver interesse em saber em que consiste, leia-a aqui.


====

Poema retirado do Poemário 2012, Assírio & Alvim
Imagem: Pixabay

sábado, 25 de novembro de 2017

Os dias da semana. Porquê sete?

Animada e nada altruísta ia a partilha do telemóvel:
- Dá cá isso.- Não, não, eu que vejo.
- Se calhar, tenho mais experiência nestas coisas.
- Sim? Olha quem fala...

Até que um deles disse: -Mãe, pai, assim não dá. Precisamos dos nossos telemóveis. 
- Está bem, está bem. Sendo para uma boa causa...
-Então, qual a palavra-chave que vamos escrever?
-Eu é que sei? Não disseste que tens mais experiência?
-Vá lá decidam-se!- disse uma voz de adulto.



E a Catarina decidiu: -Já sei: Os dias da semana. Bem. Não é uma palavra.É uma expressão.

-Será que sabes escrever isso? Tu que és toda virada para os números e para essas coisas das ciências exactas... - casquinou o das línguas.

-Pois, fica sabendo que para se perceber e interpretar um determinado problema temos de dominar muito bem a língua. Um senhor chamado Tales de Mileto, grego, era matemático, filósofo e outras coisas...

-Ai, ai, ai. Já cá faltava Tales de Mileto, Pitágoras e a sua hipotenusa e catetos, e mais o outro, aquele...o do "Eureka"...enfim...

-Por favor, poupem-me! - exclamou a Regininha que até então tinha estado calada- Por mais que falem disto e daquilo é a História que liga tudo. Tudo é História.

Saindo da timidez natural quando se trata de falar da sua disciplina preferida, tomou conta das operações e a coisa desemperrou.

-Vejam, aqui diz que os dias da semana, antigamente, eram designados com os nomes dos deuses romanos. Está aqui este quadro que nos mostra isso e também as transformações em função de cada idioma de origem latina, aliás, como já nos mostraste, Renato. Quanto ao latim escolástico e latim vulgar sabes alguma coisa sobre isso?

-Eu não! gosto é de línguas vivas.

-Eu não sei latim, nem coisa que o valha, mas deduzo que o latim escolástico tenha a ver com a Escolástica que define as normas da Igreja. acudiu a Catarina.

- Como podem ver no quadro, a língua portuguesa não está incluída na terminologia originada pela utilização dos nomes dos deuses pagãos. Isso tem a ver, certamente, com a acção dessa Instituição quando considerou a designação pagã dos dias da semana. Lembram-se daquilo que se disse sobre feria e feira? - continuou a Regininha com um ar algo doutoral, o que irritou um pouco o Rui. 












-Ah, pois, lembro-me perfeitamente e estou agora a ler qualquer coisa sobre o que tu disseste o Rui, o da teoria política e relações internacionais, desperta de repente e pela primeira vez - mas, não foi propriamente a Igreja mas um Bispo, São Martinho de Dume.

E a discussão continuou a volta disso e pelo que víamos não iria terminar tão cedo...

Mas, o benjamim da família não se fazia ouvir e começámos a procurar por ele. Reapareceu com uma enciclopédia infanto-juvenil**, concentradíssimo e pôs-se a ler em voz alta:

Porquê sete?
O início da Bíblia refere que Deus criou o Mundo em seis dias e que ao sétimo descansou. Os Babilónios começaram a usar a semana de sete dias há cerca de 3000 anos. As fases de sete dias da Lua eram, para eles, um mistério e uma magia. Cada uma dessas fases - da lua-nova ao quarto crescente e do quarto crescente à lua-cheia, da lua-cheia ao quarto minguante e do quarto minguante à lua-nova - em apenas sete dias.

-Mas, há 3000 anos? Então, não estamos em 2017? E depois há aqui umas letras a.C.- hehehe! Boss A.C. ?

-Ó meu menino não é nada disso - reagiu o avô a rir - qual Boss A.C. qual quê!... a.C. indica um espaço de tempo relacionado com acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Cristo e d.C., por sua vez, depois do nascimento de Cristo. E é precisamente a partir do nascimento de Cristo que o nosso tempo começou a contar e, por isso, estamos em 2017. Mas há civilizações muito antigas que contam o seu tempo utilizando outras balizas. Ao fim e ao cabo tudo não passa de convenções...Afinal o que é o tempo?

E o avô lê, pensativamente, na página 6 do livro do neto, uma citação de Santo Agostinho:

O que é o tempo? 
Eu sei o que é mas, se alguém me perguntar, não sei explicar!

=====

A pedido de várias famílias, hahaha, esta é a continuação do post "I giorni della settimana", de 29 de Agosto. Portanto, há quase 3 meses. Queiram aceder a ele: AQUI

=====

Precioso contributo da Maria - Divagar sobre tudo um pouco- no 1º post:


Minha amiga como sempre um post muito interessante.
Fiquei intrigada com a origem dos nomes dos dias da semana e também fui procurar e eis o que encontrei e me fez sentido:

O feira, de segunda a sexta, vem de feria, que, em latim, significa “dia de descanso”. O termo passou a ser empregado no ano 563, após um concílio da Igreja Católica na cidade portuguesa de Braga em que S. Martinho propôs que durante a Semana Santa todos os dias fossem inteiramente consagrados ao descanso, ao culto católico e às orações. o "feira" acabou depois por ser aplicado a todos os dias do ano.

Nunca tinha pensado nisto, foi interessante pesquisar.

=====

O contributo da M., do blogue A Panificadora Ribeiro. Muito obrigada, Amiga:

M.26/11/2017

Muito interessante! Já agora, acrescento o alemão, Montag, Dienstag, Mittwoch, Donnerstag, Freitag, Samstag e Sonntag, também com os nomes dos deuses romanos :)

=====

(Peço desculpas por algumas gralhas que, de vez em quando, acontecem nas dobras deste Xaile. Por exemplo: ali acima "Afinal" apareceu... "A final". Imperdoável!)

====

1ª imagem: daq
2ª imagem daqui
Ver - Escolástica
**O grande livro do tempo - pg 20
Texto- William Edmonds
Ilustrações - Helen Marsden
  

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Codex Amiatinus, o manuscrito mais antigo da Vulgata

Não fosse o desembargo de citações que pôs muita gente a interessar-se por essa colecção de textos que é a Bíblia, objecto de aturados estudos por parte de especialistas, e eu não teria o pretexto que há muito buscava para falar do Codex Amiatinus. Houve uma altura, não há muito tempo, em que tentei fazê-lo comparando o trabalho da Bíblia copiada à mão por um homem nas suas horas de ócio*- cá no nosso rectângulo-, com o texto antigo na óptica do novo e do velho, uma curiosidade. Perdi, entretanto, o jornal ou a revista onde o facto vinha relatado.



Contudo, reparo que é um fraco pretexto, diga-se em meu desabono. O caso vertente, o das citações, que deu brado, não é exemplo que se deva seguir ou referenciar sequer, a não ser para o abominar. É mister que detentores de lugares cimeiros na sociedade reservem para si ideias susceptíveis de influenciar comportamentos que não se coadunem com os cânones já estabelecidos na nossa civilização. Aliás, o sofrimento das pessoas e as estatísticas são do conhecimento de todos. Mulheres maltratadas e assassinadas empobrecem o nosso património mental, as nossas vidas, a nossa condição de seres humanos. O velho e o novo. Tenhamos bem presente isto: "Dou-vos um mandamento novo. Amai-vos uns aos outros". Isso dizia o homem de Nazaré há dois mil e tal anos e nunca mais aprendemos.


Então, o meu pretexto não será esse que disse acima, mas há um outro a que eu poderia apelar. Há 500 anos Martinho Lutero afixou as suas 95 teses numa clara rebeldia contra o status quo, o caso das bulas entre outros. Ele não teria, segundo parece, a intenção de causar a hecatombe que se seguiu, a Reforma* e Contra-Reforma, mas foi o que foi. Uma bola de neve. Vislumbro daqui o burburinho que não terá sido, o espanto, embora a situação de prepotência da igreja já se ter tornado um espinho que muitos gostariam de extrair.

Uma das coisas boas é que a Bíblia começou a ser traduzida para vernáculo e a imprensa de Gutenberg fez o resto. A novidade impôs-se. Os monges copistas com o seu belo trabalho, moroso e elaborado destinado a alguns tinham os dias contados. Era a mudança de ideias que abria um mundo imenso à divulgação cultural que se alargaria a toda a gente, no futuro. E vemo-lo no nosso século, de tal forma que já não há tempo para se ler tudo o que aparece editado.

Porém, vamos recuar no tempo. Diz-se que este manuscrito nem é dos mais belos. Não terá grandes iluminuras, aqueles enfeites eivados de sacralidade, que existem em tantos outros. Não interessa para o caso. Ele tem uma particularidade que os outros não têm. É o mais antigo da Vulgata. Ora, esta é a cópia considerada mais acurada da tradução da Bíblia para latim entre fins do século IV e inícios do século V, levada a cabo por Jerónimo de Estridão (santo).


E a novidade aqui é que este Senhor preferiu fazer a sua tradução a partir do hebraico, língua original, em vez do grego como era corrente, apesar das grandes críticas surgidas na altura. A Vulgata foi considerada a versão de melhor compreensão popular* e adoptada pela Igreja Católica. Numa revisão terminada em 1975, será promulgada em 1979 por João Paulo II, e toma o nome de Nova Vulgata, ficando assim estabelecida como a nova Bíblia oficial da Igreja.

Mais uma vez, o velho e o novo. O antigo com as suas prerrogativas, servindo-nos de ponto de partida para seguir em frente. O novo, ancorando-se nas raízes já existentes, lançando-se à descoberta do futuro. 

Todas as gerações sentem grande dificuldade em aceitar aquilo a que não estão habituadas. Não vou apontar aqui exemplos. Todos nós o sentimos no nosso íntimo. Salvo algumas excepções, todos nós temos um pouco de "Velho do Restelo", aquela figura ímpar de que se serviu Camões para mostrar os nossos receios, inseguranças e horror ao desconhecido.


95
— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!


97
— "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?   

Aqui chegados, será que o que foi dito atrás é pretexto bastante para ter trazido o Codex Amiatinus? Já não sei bem. Tenho a certeza de que houve uma altura em que sabia o motivo por que queria falar de tal documento. Mas, esfumou-se dado o tempo transcorrido em relação à data da selecção do tema. 

Resta-me o prazer de ter estado aqui a comunicar convosco, como se os meus amigos não tivessem coisas mais interessantes para fazer. E outras leituras à espera!

Que post palavroso este!- quase que oiço em surdina.

=====

Ver, se interessar:
-*Os cinco Solas da Reforma - aqui, no Xaile
-Ócio criativo - Blog Começar de novo
Os Lusíadas: Cântico IV - estrofes 95 e 97
*Ter em devida conta o significado do termo "popular", nessa altura.