quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Estar aqui e ser agora

O poder político é, conforme a clássica definição de Max Weber, uma estrutura complexa de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso. Isto é, o poder político, ao contrário das restantes formas de poder social, implica que haja uma relação entre governantes e governados, onde o governante exerce um poder-dever e o que obedece, obedece porque reconhece o governante pela legitimidade deste.

Assim, o espaço normal do processo político é o da persuasão. O da utilização da palavra para a comunicação da mensagem e a consequente obtenção da adesão, enquanto consenso e não unanimidade, onde há obediência pelo consentimento, onde o poder equivale à negociação.

Só quando falha este processo normal de adesão comunicativa é que o governante trata de utilizar a persuasão com autoridade, com o falar como autor para auditores, onde o autor está situado num nível superior e o auditor no nível inferior da audiência. Com efeito, o emissor da palavra não está no mesmo plano do receptor, está num lugar mais alto, aquele onde se acumula o poder.

Num terceiro passo vem a astúcia, o ser raposa para conhecer os fios da trama, esse olhar de coruja, que nos tenta convencer, actuando na face invisível do poder, nomeadamente para enganar o outro quanto à identificação dos seus próprios interesses, ou criando, para esse outro, interesses artificiais. Isto é, quando falha a comunicação pela palavra, mesmo que reforçada pela autoridade, vem o engodo, a utilização da ideologia, da propaganda ou do controlo da informação. O que pode passar pelo controlo do programa de debates, com limitação da discussão ou evitando o completo esclarecimento dos interesses das partes em confronto.

Excerto de um texto em que José Adelino Maltez, o nosso poeta do post anterior, (também investigador de ciência política, também professor universitário) analisa os princípios teóricos do sistema político na óptica de alguns autores que ele identifica no mesmo. Poderá lê-lo na íntegra aqui. Interessante o que se encontra escrito no topo: José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009.

De referir que no excerto que ora publico o itálico é do original.




Aproveitemos o ensejo e mergulhemos em mais um dos seus poemas:

Estar aqui

Estar aqui e procurar descobrir
a minha própria procura.
Estar aqui e ficar à espera
do que o tempo me trouxer.
Não desesperar com a demora.
Seja o que Deus quiser!

Cansa estar aqui por estar apenas aqui,
nos meandros da procura,
procurando o meu porquê.

Dar porquês a cada momento, farta
Apetecia ser um outro qualquer,
este lugar não ter de ser
e poder mudar meu tempo.

Porquê ter de haver um sítio e um momento?
Para que servem coordenadas no espaço do pensamento?
Vivo, logo tenho que sonhar.

No próprio tempo que tenho
procurar eternidade.
Ousar chegar mais além, na teia das palavras que procuro, aqui e agora.

Utopia não há, nem vale a pena.
Sobretudo, para quem do poema faz
o seu próprio mais além.
O além de quem tem de estar aqui e agora e viver, o dia a dia.
Hora a hora, sagrar
o deus instante que Deus me deu.

Viver tem de ser
viver aqui e agora,
sem temer o que vai acontecer
depois de meu próprio morrer.
Porque apetece o perfume dos dias
e não cansar-me de procura.
A longo prazo só morrem
os que temem a própria morte.
Estar aqui e ser agora,
procurando descobrir os meandros da procura.
Ficar assim, hora a hora, à espera do tempo que vier.
Seja o que Deus, sem mais disser,
seja o que Deus quiser.

In: No princípio era o mar - p.9

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Imagem: aqui
Poema : daqui

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Esta poesia do calor amarela e seca



Esta poesia do calor amarela e seca
esta campina agreste a demarcar-me
os caminhos ásperos e mediterrânicos
de meu país de silvas e piteiras,
com o sol a pique sobre a poeira
das planuras desabrigadas

Paira na charneca taciturna
o silêncio de um grito por dar
e o húmus gretado pela impiedade solar
abre as entranhas à brisa
que em suas crinas arrasta
um verde som de frescura

os lábios da terras ressequidos
vão pedindo ao vento gotas de mar
neste comum queimar de terra
nada que salpique a poeira de pureza
um céu cujo azul o calor não deixa ver
e uma luz baça e sufocante
que nos enlouquece e nos faz delirar

Sinto a irreal carícia das searas ondulando
e um intenso cheiro a campo
deserta meu sentimento
Por entre o rumor das cigarras
o compasso desta hora em constante despedida

In:Pátria prometida - excerto pg.16



E já chove. Pelo menos, choveu ontem à noite aqui na minha aldeia. Que ela, a chuva, continue a cair mansa e benfazeja. Que a natureza nos tome ao seu cuidado e faça a gestão do mar de cinzas que grassa pelo nosso país.

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Poema: daqui
Imagem: Pixabay

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ler nas estrelas

E a chuva que não vinha. Todos os anos era aquele sufoco. Ele espreitava todos os sinais, sopesava-os e ia dizendo da sua justiça. À noite espreitava o céu. Huuumm...a lua com aquele halo amarelo não dizia nada de bom, mas a estrada de santiago prometia, leitosa, poderia ser um bom presságio. De dia via as nuvens a formarem-se prenhes de água, ai, mas os pássaros todos em revoada, prenúncio de vento que as levaria para longe. E assim era. Todas a despejarem-se no mar. Aquela leitura já a sabíamos de cor e, realmente, não falhava. Até nós olhávamos para a abóbada celeste com as mesmas  perguntas.

Chegava o dia em que a chuva, marota, depois de várias negaças lá resolvia visitar-nos. Não importava se era pouca ou muita, era sempre uma festa. Lavava a alma. Para já, o importante era que desse para as sementeiras. Tudo preparado naquela espera, toca de correr para os campos. E o milho medrava naquele chão de pousio durante tanto tempo, feliz por poder mostrar do que era capaz, com todos os seus elementos.

Agora o leitor das estrelas voltava a sua atenção para as plantinhas que, quase a medo, iam despontando. Ou o medo estaria no seu coração? Auscultava-lhes a cor, a resistência, o futuro. Se resistissem até à monda e a chuva voltasse em tempo devido tínhamos colheita garantida. E recomeçava o perscrutamento dos céus, o comportamento da lua, das constelações, do voo dos pássaros, do sol, quente e devastador.

Até que um dia, um belo dia, num ano qualquer, dava-se o milagre e completava-se o ciclo. Sementeira, monda, colheita, passando pelo ansiado dia de Santo André em que íamos comer milho verde assado, não sei se havia dispensa da escola ou como é que era mas o certo é que isso faz parte das minhas memórias. Na colheita, os homens e mulheres chamados para o efeito começavam logo de manhã e, pelo caminho, iam deixando algumas espigas para nós recolhermos.

E ajudávamos a descascar o precioso cereal à procura de uma espiga vermelha. E ouvíamos as histórias que eles contavam. E espreitávamos com afinco os bolos de milho, a mandioca, a batata doce que punham a assar na cinza quente.

O leitor das estrelas. O meu pai.

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Dedico este pequeno texto a quem por aqui por passar, com votos de dias de muita esperança.

Abraço.

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1ªImagem: Pixabay
2ª imagem:net

domingo, 15 de outubro de 2017

Isto é Verão ou quê?



Completamente virado do avesso o tempo prodigaliza-nos temperaturas que convidam ao chinelo no pé, à blusinha de alças, ao uso de calções, ao biquini, ao fato de banho, estendendo-nos na areia molhada, passando bronzeador, dando uns bons mergulhos, sozinhos ou com a família e amigos, com uma boa merenda, enfim a tudo a que teríamos direito num clima tropical.

Mas, não é esse o caso e para que tudo funcione por cá é fundamental que as quatro estações do ano sigam o seu ciclo e em cada época a natureza colabore connosco para que não nos falte o necessário. A verdade é que o destempero do nosso clima temperado já há muito se nota com a falta de chuva: o chão cada dia mais crestado, as culturas fenecendo, os animais quase sem água para beber. Há locais onde a água nas torneiras já não apareceria se a edilidade não a mandasse buscar, bombeando-a depois para os depósitos.

A juntar a isso o fim da tal "época de fogos" que já tinha sido decretado, levando ao encolhimento de recursos, afinal reacendeu e então quem de direito, desavisado, foi apanhado desprevenido como se não existisse tecnologia que ajude a fazer previsões* a fim de se tomarem as devidas providências a tempo e horas. Ou talvez não haja.

Preocupemo-nos, queridos concidadãos. Não basta aproveitar o bom tempo e dizer e desejar: para mim era praia o ano todo, este calorzinho vem mesmo a calhar, deu para descontrair, e etc. Temos de fazer alguma coisa. E como não possuímos poderes sobrenaturais e já não se vê muita fé na dança da chuva ou nas procissões há que poupar a água em nossas casas. Quem não souber como fazer da melhor forma pesquise na internet. Há muita informação sobre isso. 

Lembremo-nos que de toda a água que existe no nosso planeta a água doce tem uma percentagem pequeníssima. E da água potável então nem se fala: há regiões no globo que não a têm.

Foi só um desabafo.

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NOTA EM 16/10/2017

Incêndios:

.800 246 246 - Protecçao civil (número de emergência)

Fonte: Rádio Renascença


.A Segurança Social está a disponibilizar apoio de emergência às populações afectadas pelos incêndios em vários postos dos distritos de Viana do Castelo, Guarda e Coimbra (...)


Fonte: Público online

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*climáticas
Imagem: Pixabay 

sábado, 14 de outubro de 2017

Olá, amigos

Depois de uma ausência não programada, eis-me de volta para a continuação da nossa troca de palavras, instrumento fundamental para este nosso convívio. Nesta troca acontecem coisas maravilhosas, sentimo-nos unidos e solidários e quando um falta todos se preocupam e procuram saber o que se passa, se se está doente se a vida vai correndo dentro da normalidade.

Hoje, trago-vos uma canção de Tozé Brito e Paulo de Carvalho, que traduz a tal preocupação de que falo acima e interesse pelo que se passa com o outro. Mas, ou muito me engano ou há neste interesse concreto um problema que envolve os dois amigos, no diálogo cantado, que é gostarem da mesma mulher(?). Não sei. O que eu sei é que gosto muito destes dois, no registo de 1979. 
Por isso, ei-los:


Quanto ao mais, cá vamos indo, sentados na primeira fila deste espectáculo que é o nosso país. Todos os dias aparecem novos actores, bem, que de novos não têm quase nada, com as mesmas falas mansas preparando-se para as eleições que não estão muito longe. E quando temos o poder na ponta dos dedos, prontos para fazer a tal cruz, o que acontece é que não há muito por onde escolher.

Voltarei para finalizarmos a conversa iniciada no post anterior. Que já tarda.

Um bom fim de semana a todos, é o que vos desejo.

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Nota: Não era este o video que queria trazer. Não consegui importar o que me interessava. Há como que um acompanhamento sobreposto. Sorry.
video: youtube

terça-feira, 29 de agosto de 2017

I giorni della settimana

-Settimana. Gosto desta palavra. Coloca-nos logo no número exacto de dias de uma semana. Há muito que quase nos esquecemos que uma semana tem sete dias com a história dos dias úteis que são cinco. E porquê úteis? será que sábado e domingo são dias inúteis? É por isso que gosto quando os italianos se referem aos dias de trabalho como giorni lavorativi. Não há que enganar.

Assim discorria o elemento mais velho da família com a propriedade que a antiguidade lhe conferia, a propósito dos chamados dias de semana ou dias úteis que alguém deixou escapar.


Estávamos no terraço a aspirar por algum fresco que eventualmente nos quisesse visitar. Por comum acordo, novos, velhos e assim assim tínhamos colocado os telemóveis e outros aparelhos electrónicos num cesto, de modo a não nos desviarem do nosso convívio dominical. Por isso, nada de facebooks, twitters ou quejandos.

Com o rumo que a conversa levava, um dos meus sobrinhos lembrou-se das semelhanças dos dias da semana em francês, espanhol e italiano. E lá recitou: 
para o francês temos: dimanche, lundi, mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi; para o espanhol: domingo, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes, sábado; para o italiano: domenica, lunedì, martedì, mercoledì, giovedì, venerdì, sabato.

- Palmas para tão grande declamador. 
E nosso mais velho, referido acima, ainda comentou:
Vá lá, ao menos sabes que domingo é o primeiro dia da semana.

Então a minha filha interpelou o nosso sábio
Olha lá, e em português porque é que, sendo também um idioma de origem latina, os dias da semana são tão diferentes? 
- Ah! Isso já não sei. Também não tenho que saber tudo, não achas? Já agora o que é que sabes sobre isso?
- O que eu sei é que tem a ver com feria, dia de descanso, para os cinco dias a que chamamos dias de trabalho ou dias úteis...Giro, não é? Olha, pesquisa!




-Boa! Esta é a parte em que podemos ir buscar os telemóveis para ver como é ... - exclamou o benjamim. 
-Os telemóveis não, um telemóvel e já é muito ou então uma enciclopédia- admoestou o pai

E o que é que descobrirão os nossos diligentes pesquisadores? Declarou-se, então, aberta uma caça ao tesouro. Todos debruçados sobre o telemóvel de serviço, lá partiram para esse desbravamento.

Voltaremos. Mas, entretanto, o nosso querido leitor o que nos poderá dizer sobre o assunto?

De assinalar, a despropósito do tema deste post, que o tempo refrescou, graças a Deus. Já choveu. Apesar da tendência para as inundações, com as sarjetas entupidas como é hábito, a chuvinha de hoje soube que nem uma bênção.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

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Imagens: Pixabay

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lugares da infância






Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

 In: "Um sítio onde pousar a cabeça"

       (1943-2012)


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Poema: Citador
Imagem:pixabay

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (iv)

Eis-nos chegados a 15 de Agosto de 2017. Há sessenta dias fomos confrontados com notícias estarrecedoras. Lavravam-se incêndios em Pedrógão Grande que se estenderam a outras localidades, nos quais perderam a vida sessenta e quatro pessoas, encurraladas pelo fogo e pelo fumo, num sofrimento atroz.


Seguiram-se, como sabemos, debates e mais debates sobre as responsabilidades, as incúrias, as incompetências. O povo, solidário, desdobrou-se em actos de solidariedade. Eu, pessoalmente, não sei se essas ajudas já chegaram em pleno aos sobreviventes.

Todos os dias deflagram-se novos incêndios. Todos os dias vemos a aflição das pessoas que deitam mão a tudo para se defenderem dessa praga: mangueiras, baldes, pás, sem equipamento, só com a roupa que trazem no corpo, desamparados, perdidos no meio dessa desgraça. Bombeiros extenuados, gente descrente de tudo. Uma situação de calamidade pública que parece não ter fim, não se sabendo donde vem nem para onde vai. O que fazer?


Em 15 de Agosto de 1498, uma Mulher chamada Leonor, Rainha, coadjuvada por almas caridosas entre elas Frei Miguel de Contreiras*, iniciou uma obra que haveria de crescer e abranger todo o País, ao instituir uma Irmandade de Invocação a Nossa Senhora da Misericórdia, com sede na Sé de Lisboa. Ela teve o cuidado de que essa instituição contasse com cem homens de boa fama e sã consciência e vida honesta assumindo o compromisso de ajudar os mais desfavorecidos. O Compromisso originário da Misericórdia de Lisboa foi aprovado pelo Rei D. Manuel I e confirmado pelo Papa Alexandre VI.

São 397 as Misericórdias Nacionais e por aquilo que li regem-se pelos mesmos princípios, isto é, tendo na sua missão o objectivo de cumprirem as 14 Obras da Misericórdia que referi num dos primeiros posts, cuidando tanto do espírito como do corpo.

E então digo, apropriando-me das palavras de Martin Luther King: I have a dream. É o sonho de que apareça quem tome nas suas mãos as dores dos desvalidos, as dores de quem não tem para onde ir, que se vê acossado, que não tem um momento de descanso, que vê os seus entes queridos perecerem, que se vê açoitado por elementos da natureza ou por mão criminosa. 

Nos meus sonhos revejo a Rainha Dona Leonor** a desfazer-se das suas jóias para ajuda nas suas obras de misericórdia, colocando o bem-estar dos desfavorecidos acima das vaidades deste mundo. Li que a palavra misericórdia quer dizer "dar o coração" e é nesta óptica que vejo as Misericórdias a responderem presente neste momento de grande sofrimento, pondo de lado burocracias que embotam os sentimentos. Isto, sem querer pôr em causa as obras meritórias que essas instituições desenvolvem na sociedade.
Urge que uma entidade, livre da pesada máquina do Estado, vá para o terreno prestar apoio atempado e efectivo nesses casos de calamidade pública.

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*Maria de Lourdes Amorim apresenta-no-lo como co-fundador.**Referi no post anterior a suspeita sobre o envenenamento de D.João II. Ficou provado que este rei morreu vítima de um ataque de urémia, por sofrer de nefrite crónica. p.149

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (iii)

À Rainha Mecenas

DONA LEONOR DE LANCASTRE






Marés de Mim

- As minhas mãos são jangadas
que se embalam descuidadas
à flor das marés de mim.
Trazem sal e maresia,
distância e melodia
dum navegar sem fim.


As minhas mãos são saudade,
são poentes de eternidade
que rezam o sonho e a miragem.
Trazem as velas ao vento,
nos mastros do meu lamento
ao crepúsculo da viagem.

De gestos e madrigais,
fiz minhas algas e corais
na praia da minha vida.
No silêncio das madrugadas
canto as horas paradas
cheias de melodia perdida.

E quando no cais ancorar
com vagas de solidão que invento,
trago por dentro do Tempo
o pouco de Tudo, o tudo de Nada
que a brisa de minha alma salgada
trouxe do ventre do mar...


-As minhas mãos são jangadas
que se embalam descuidadas
à flor das marés de mim.
Trazem sal e maresia,
distância e melodia
dum navegar sem fim.

Maria de Lourdes Amorim




Poema extraído das páginas 153 e 154 da obra desta autora com o título: "D.Leonor de Lancastre - Grande Senhora do Renascimento". 

A dado passo lê-se que Dona Leonor pacificou, modernizou, reformou tudo, numa revolução total: religiosa, assistencial, artística e intelectual, à medida do seu espírito de Mulher de alta cultura, visão atlântica, engenho, arte e poesia.

Para além de ter instituído e organizado a Misericórdia de Lisboa, a Rainha Dona Leonor fundou, dotou e organizou o Hospital das Caldas da Rainha, o Convento da Madre de Deus em Xabregas, o Convento da Anunciada em Lisboa, a Igreja de Nossa Senhora de Merceana, as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha e sete merceeiras no Convento de S. Agostinho, diz-nos por sua vez Maria do Carmo Romão* no prefácio à referida obra.

-Perdoem-me os meus queridos leitores que já por aqui passarem. Vou acrescentar algumas informações que me parecem de inserir neste post:

Portugal encontrava-se no período áureo dos descobrimentos e, em breve, tornar-se-ia a nação mais rica e poderosa da Europa, reprodução das palavras de Mário G. Viana, "D.Leonor", citado por Maria de Lourdes Amorim. A seguir, a autora continua com palavras suas referindo o espírito aberto e lúcido da Rainha-mecenas sempre atenta ao que a rodeava. E, a propósito, diz isto: Na sociedade portuguesa quinhentista, a galeria ilustre de artistas feita de arquitectos, pintores, imaginários, poetas, trovadores e físicos, recebeu a protecção e o seu inteiro apoio. Foi sua Alteza que "poderosamente contribuiu para revelar ao mundo o génio de Gil Vicente".

Espantemo-nos mais uma vez:

...à volta do seu nome foi levantada, pelo escritor e historiador Anselmo Braancamp Freire, a suspeita de que D.João II fora envenenado a mando da rainha e de seu irmão D. Manuel I. 

Voltarei com mais um post.

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Obra referenciada:
D.Leonor de Lancastre - Grande Senhora do Renascimento, de Maria de Lourdes Amorim. Ed.Ésquilo - Chancela da Santa Casa Casa da Misericórdia de Lisboa, V Centenário (1498-1998)

21ª Provedora da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa

1ª imagem - Estátua em Beja
2ª imagem - Armas da Rainha, em casada
3ª imagem - Brasão das Caldas da Rainha

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (ii)

Os historiadores atribuíram o título de Princesa Perfeitíssima a Leonor de Avis ou de Lencastre, inspirados no cognome de Príncipe Perfeito por que ficou conhecido D. João II, mas também pelas suas excelentes qualidades, reveladas, nomeadamente, nas áreas social e cultural.

Prometi, no post anterior, avançar um pouco mais neste tema e eis-me aqui a fazê-lo.

Ao abrir a obra "As Misericórdias", de Costa Goodolphim, de 1897, fac-similada, deparo-me com um prólogo dedicado à Caridade, que o autor pretende apresentar como sendo a força motriz da alma portuguesa. Um panegírico aos Reis, Rainhas e povo, excelsos na sua forma de praticar essa instituição. Vejamos algumas frases soltas da sua exposição, a qual começa com uma citação de Garrett, (penso que se tratará do nosso Almeida Garrett):

Em nenhum paiz da terra ha instituição philantropica superior ou igual. Garrett


Continuando com o prólogo:

As paginas d'este livro são tributo ao mais formoso sentimento do coração humano.

O que é a caridade?

A caridade não é só a esmola que se atira para o seio do desgraçado, quando nas praças e nas ruas nos dirige as suas supplicas.

A caridade tem como missão suprema dar conforto sem vexame, erguer os miseros sem orgulho, tratar o servo como amigo, o operario como irmão, porque todos são filhos do mesmo ramo.

Ao lado do povo, que com a sua grande alma vae com o seu obulo e o seu trabalho erguer e sustentar instituições sympáticas, no seu ideal perfeitamente humano, vimos as rainha e os reis portuguezes levantarem monumentos de caridade, páginas formosas d'esta virtude.

A alma portugueza é a mais compassiva e a mais alevantada no exercicio de piedosa romaria em busca dos afflictos.

Povo que tem alma tão grande e tão alevantada, como sempre aberto á dor alheia, como se propria fosse, esse povo é grande e tem o primeiro logar na historia da humanidade.

A seguir, comecei a ler o primeiro capítulo que é dedicado à Misericórdia de Lisboa cuja fundação, como vimos no primeiro post, é atribuída à Rainha Dona Leonor. Para o meu espanto, Costa Goodolphim põe a tónica em Frei Miguel de Contreiras, e coloca esta questão: 

Como se fundou a Misericórdia de Lisboa?

Tendo como fonte a Chronica da Santissima Trindade, o autor traça o perfil caritativo de Frei Miguel Contreiras, orador popular,  "pae dos pobres", que, vendo o desamparo em que se achavam muitos enfermos pelos adros das igrejas e arcos do Rocio, intentou fazer um hospital para os recolher e tratar, tendo sido ele o instituidor da irmandade da Misericórdia de Lisboa. Seguindo esta linha, ele foi a alma, a cabeça pensante, embora tivesse contado com companheiros cujos nomes são indicados no livro. Confessor da Rainha, pediu-lhe o seu apoio.

Mas, espantemo-mos de novo:

Aqui, o jornal i * diz que a história de Frei Miguel Contreiras é uma história mal contada, que o frade espanhol pode nunca ter existido e que não passará de uma fraude histórica.

E esta, hein?!!!

Voltarei.

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Obra citada: "As Misericórdias", de Costa Goodolphim.
Em bold - Excertos do Prólogo, pags: entre 5 e 13
De referir que o autor procura fazer uma análise
histórica através de outros documentos.

* A história do frade que é fraude

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (i)

Ela é Leonor de Avis ou Leonor de Lencastre, e mais outros títulos, senhora de grandes virtudes, casada com D. João II, o Príncipe Perfeito. Reinou no auge da expansão portuguesa e foi considerada a rainha mais rica da Europa.

Lê-se aqui que: 

As rainhas de Portugal contavam com o rendimento de bens senhoriais e patrimoniais da Coroa destinados à sua sustentação e dignidade. Este patrimônio era chamado Casa das Rainhas. Dona Leonor, além das vilas herdadas das rainhas que a precederam, foi dotada pelo rei com as cidades de Silves e Faro, e as terras de Aldeia Galega e Aldeia Gavinha. Na Casa das Rainhas que manteve em viuva, mesmo depois de D. Manuel casar, estava também incluida a cidade das Caldas, que ela própria fundara.*


Ela soube empregar a sua riqueza e influência em obras meritórias que constituem um precioso legado para todos nós. Um desses exemplos é a fundação da primeira Misericórdia em Portugal, sendo outras criadas por acção de D. Manuel I.

As principais razões da fundação e rápida expansão das Misericórdias portuguesas logo no século XVI são, em síntese, de ordem espiritual, porque os leigos aplicavam e viviam a sua doutrina, e de Estado, pois foi uma forma de afirmação do poder régio ao controlar e tornar muito mais eficaz a assistência.**





Apraz-me registar nesta publicação as 14 obras de misericórdia, da mesma fonte:

Obras corporais
Obras espirituais
Dar de comer a quem tem fome
Dar bom conselho a quem pede
Dar de beber a quem tem sede
Ensinar os ignorantes
Vestir os nus
Corrigir os que erram
Acolher os errantes
Consolar os que estão tristes
Visitar os doentes
Perdoar as injúrias
Remir os cativos
Suportar com paciência as fraquezas do próximo
Sepultar os mortos
Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos


Por muito pouco dados à espiritualidade que sejamos, não há dúvida que nos sentimos tocados e dispostos a praticar alguns desses conceitos quando vemos a desgraça atingir o nosso semelhante.

Voltarei com o tema das Misericórdias, talvez um pouco mais alargado. 


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sábado, 15 de julho de 2017

Descobrir a grandeza das coisas anónimas

Leve os seus filhos a encontrar os grandes motivos para serem felizes nas pequenas coisas. Uma pessoa emocionalmente superficial precisa de grandes eventos para ter prazer, uma pessoa profunda encontra prazer nas coisas ocultas, nos fenómenos aparentemente imperceptíveis: no movimento das nuvens, no bailar das borboletas, no abraço de um amigo, no beijo de quem ama, num olhar de cumplicidade, no sorriso solidário de um desconhecido.



A felicidade não é obra do acaso, a felicidade é um exercício. Treine as crianças para serem excelentes observadoras. Saia pelos campos ou pelos jardins, faça-as acompanhar o desabrochar de uma flor e descubra com elas o belo invisível. Sinta com os seus olhos as coisas lindas que estão à sua volta.

Leve os jovens a viver os momentos singelos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos. As montanhas são formadas por ocultos grãos de areia.

As crianças serão felizes se aprenderem a contemplar o belo nos momentos de glória e de fracasso, nas flores da Primavera e nas folhas secas do Inverno. Eis o grande desafio da educação da emoção!

In: Cury, Augusto - Pais brilhantes, Professores fascinantes, páginas 41/42


Tempo de férias, tempo para reaprender a estarmos juntos. Oportunidade para andarmos de mãos dadas e apreciar tudo o que está à nossa volta. O autor bem o diz, descobrir as coisas que os nossos olhos não vêem normalmente e ensinar essa forma de ver às nossas crianças. Nem tudo o que luz é ouro, lá diz o povo. Muitas vezes é nas pequenas coisas que encontramos a verdadeira felicidade.

Desejo-vos um bom fim de semana.

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Imagem: daqui

segunda-feira, 10 de julho de 2017

As pombas





Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

      1859-1911


Raimundo da Mota de Azevedo Correia, juiz, poeta. Brasileiro.


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Poema - daqui
Imagem - daqui

sábado, 8 de julho de 2017

A formidável máquina que é o nosso cérebro




Máquina? Pergunto-me. Talvez não seja apropriado referir-me ao cérebro como uma simples máquina, dadas as suas implicações a nível emocional, da ética, da própria consciência, boa ou má, da mente, esse instrumento poderoso que tanto nos apresenta excelentes direcções como outras menos boas em perfeita simultaneidade e também a possibilidade de optar por uma ou outra.

Até para Alícia, psicóloga, cega, que mede as reacções emocionais dos seus doentes através das pulsações, este é assunto que causa perplexidade. Vejamos como ela se exprime, em dado momento:


-Mesmo depois de todos estes anos - disse Alícia - continuo pasmada com o poder aterrador da mente. Temos esse organismo instalado nas nossas cabeças, o qual, se o deixarmos, pode destruir-nos ao ponto de nunca voltarmos a ser os mesmos... e, no entanto, é nosso, pertence-nos. Não fazemos ideia daquilo que nos assenta nos ombros.*

Tive de parar aqui, na minha leitura, tal o impacto destas palavras que, ao fim e ao cabo, vão ao encontro das minhas preocupações. Vemos a função do cérebro alargada na sua qualidade de órgão que concorre para o bom funcionamento do corpo humano, para a de um autêntico organismo com o poder de vida ou de morte; com o poder de decisões importantes que podem afectar a nossa própria vida como a daqueles que nos rodeiam, dependentes de nós ou não, mas também de indecisões ou falhanços por incúria. 




Que dizer de pessoas que resolvem, por motivos que só elas conhecem na realidade, atropelar outras deliberadamente, esfaquear, atingir com armas letais, agredir de qualquer forma? Ou pequenas discussões que acabam em tragédia, muitas vezes entre amigos? Ou a decisão de encetar uma guerra, uma campanha que envolva a vida de todos, através do poder que o próprio povo confere aos seus representantes? Ou de, quem de direito com a obrigação de zelar pelo bem comum, não decidir coisa alguma, colocando-nos muitas vezes em situações de precariedade e de perigo?

Mas também há o outro lado. Um lado maravilhoso que nos faz sentir orgulho de pertencer a este grupo de seres vivos. Homens e mulheres que se sacrificam, que oferecem o seu bem-estar em prol daqueles que sofrem. Saem das suas casas, adoptam modos de vida sem comodidade para que outros possam ter aquele mínimo necessário à sua sobrevivência. E em situações de crise colocam a sua própria existência em risco para apoiar outros.   

E assim é feito o nosso dia-a-dia. A qualquer momento, a todo o momento, dispomos desta possibilidade imensa de fazer bem ou de fazer mal, de prejudicar ou de beneficiar. E isso só depende de nós. Alguém mais novo que eu já me disse: Da mesma forma que existe o "bem" também existe o "mal". Isso faz parte da nossa natureza. É uma perda de tempo andarmos à procura de motivos para isto ou aquilo

SERÁ?

Que Deus nos ajude!  

Desejo-vos dias abençoados.

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Em itálico:
*Excerto, pg 237, As Mãos Desaparecidas - Robert Wilson
Imagens: Pixabay

Mãe




I

Dantes, quando a deixava,
As férias já no fim,
Ela vinha à janela
Despedir-se de mim.

Depois, quando na estrada,
Olhava para trás,
Deitava-me ainda a benção
Para que eu fosse em paz.

Dali não se movia,
À vidraça encostada,
Até que eu me perdia
Já na curva da estrada.

Hoje, se olho, calo-me
E baixo os olhos meus!
Já não vem à janela
Para dizer-me adeus!

II

Chove, e a chuva é fria.
Noite! Nos montes distantes
O Inverno principia.
Um Inverno como dantes.

Ao redor do lume aceso
Todos ficamos a olhar...
Todos não, não somos todos,
Porque há vazio um lugar.

Esse lugar era o dela,
Que ninguém mais preencheu.
Mesmo com vida, na terra,
Era uma estrela no céu.

Alfredo Brochado
in "Bosque Sagrado" 



Nas minhas incertezas e dúvidas de adolescente, ela dizia-me: "No teu rosto, as tuas feições conjugam-se todas umas com as outras o que o torna perfeito." E quanto à minha silhueta, também me dizia de uma forma que me convencia: "Pareces uma espanhola", isso talvez obedecendo ao seu conceito de beleza e elegância. O certo é que me devolvia a confiança.

Hoje, dia do seu aniversário natalício.

Um bom fim de semana vos desejo, meus amigos.

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Poema: daqui
Imagem: daqui