domingo, 23 de abril de 2017

Sempre o futuro, sempre! E o presente...






(A J. Félix dos Santos)

Sempre o futuro, sempre! E o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! Que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa

In: Sonetos


      (1842-1891)



É isso, a vida passa sim, mas não sei se vagarosa. O que eu sei é que preocupados com o futuro não vivemos o presente, praticamente. Preparamos o momento seguinte, o dia de amanhã, a próxima semana, o mês que há-de vir, os anos vindouros, a reforma. 

O trágico disso tudo é que nem sabemos se estamos vivos na milésima de segundo seguinte que o tempo transpõe no seu movimento aparente e inexorável, deixando de ser futuro.

Mas, Antero resolveu o problema. Espírito inquieto, meditativo, indo até ao âmago do valor das coisas, tomou o assunto nas suas mãos, agarrou o presente, fê-lo seu, acabando assim com todas as tuas dúvidas, numa atitude radical.

Eu, porém, prefiro a vida, a vida vivida momento a momento, numa gargalhada, num sorriso, num abraço. Também eu quero gerir esse presente, mas de outro modo: encarando a Vida como uma dádiva. 

A todos os que por aqui passarem, desejo um bom domingo.

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Poema: Banco de poesia Fernando Pessoa
Imagem: Pixabay 

sábado, 22 de abril de 2017

Golfo da Finlândia


-Mãe, o Google maps diz que estou aqui.(9h11)




-Este é o lado excelente da tecnologia, faz-me saber a par e passo dos sítios por onde vais passando. Sabes que hoje é o Dia da Terra? E quem havia de dizer que a minha atenção estaria centrada no Golfo da Finlândia. (9h16)

-Ahahaha...Pois é...a vida é engraçada...
Nem eu há duas semanas pensaria que ia estar no meio do Golfo da Finlândia. Parece de loucos só de pensar. (9h21)

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Imponderáveis da vida! 
E o nosso planeta tão lindo, onde o azul e o verde se misturam numa aguarela sem par. A juntar a isso, pessoas diferentes, culturas diferentes.


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Não consegui baixar a fotografia que ela me enviou.
Fica para a próxima. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Linguagens

À entrada da cidade o trânsito intensifica-se e, alguns metros mais à frente, bifurca-se. Parte dele segue pelo túnel e outra parte pela superfície. Aqui, surge o primeiro semáforo e do lugar onde me encontro consigo ver a vida que se agita, em azáfama, nos segundos que dura a paragem forçada dos carros. Mulher de lenço na cabeça com uma braçada de jornais ou revistas oferece exemplares aos condutores dos veículos, mulheres e homens de coletes reflectores aparecem com papelinhos na mão, talvez rifas, e também miúdos com o que me parece ser pensos rápidos. O tempo urge, mas nem todas as janelas se abrem. 



No meio disto, vislumbro algo inusitado, para mim: um jovem na passadeira a produzir para os carros parados um espectáculo de malabarismo, com três, quatro, cinco peças, como se tivesse todo o tempo do mundo. Começo a pensar já com uma certa ansiedade se ele conseguirá acabar em pleno o seu intento, se ele está com atenção aos sinais. Mas eis que com elegância recolhe as peças e faz duas vénias, cabelos longos em movimento para a frente e para trás, saltando de seguida para o passeio mesmo a tempo, sem um segundo a mais ou a menos.

Minutos depois saio do autocarro e desço as escadas que me conduzem ao metropolitano. Mas antes tenho de ir à casa de banho ou retrete ou WC. Encontro o que procuro. As casas de banho públicas têm quase todas o mesmo aspecto, não só são pequeníssimas como o asseio deixa muito a desejar. Penduro a mala ao pescoço, não há um ganchinho sequer como sempre, e faço a ginástica que todas as mulheres conhecem. Nisto os meus olhos são atraídos pela escrita que povoa as portas desses recintos. Declarações de amor, "amo-te Filipe", "amo-te Diana", bem como toda a espécie de desabafos com linguagens da mais variada gradação. Dir-se-ia tratar-se de um receptáculo privilegiado para os momentos em que o nosso lado mais básico se apresenta, sem vernizes.



Porém, entre os milhentos dizeres um deles destaca-se pelo trocadilho ou, quem sabe, pela intenção: "O diabo veste farda".*

Desejo-vos uma boa semana ou então, desde já, um bom fim-de-semana.

Abraço.

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Imagens net

sábado, 8 de abril de 2017

Ternura





Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

In: Infinito Pessoal

   (1927-1996)





Ternura é o tema que este grande senhor nos propõe, neste lindo poema. Compreendo-a alargada ao vasto mundo, ao mundo das nossas relações.  
Esbanjemos pois ternura por toda a parte, posto que nos custa apenas um gesto, um olhar, um sorriso, um abraço.

Esta é a minha proposta para este fim de semana.

Assim, envio um abraço ternurento a todos vós.

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Poema: retirado do Citador
1ª imagem: Pixabay
2ª imagem Net

terça-feira, 4 de abril de 2017

Habitantes das margens

Ao passar de manhã vejo-as, alvas, pernaltas, tranquilas, no esplendor da água azul que daqui descortino. Reúnem-se nos rectângulos ou quadrados das salinas. Numa outra, estão as mais pequenas, não pernaltas, também branquinhas. De vez em quando estas levantam voo rasante e enfiam os bicos na água talvez caçando algo de interesse para o seu sustento. É o que eu vejo do lado direito da ponte. Arrisco um olhar apressado ao lado esquerdo, apenas o permitido pelo andamento do transporte, não me detenho nele. 


Concentro-me então deste lado. Agora vejo pontos negros além e mais encorpados à medida que os meus olhos se ajustam tentando fitá-los de mais perto. Noto que o rio se afastou das margens. Para onde terá ido? À vista dos bancos de areia penso, talvez erradamente, que poderia atravessá-lo a pé. Mas, afinal, aquilo que eu vejo são pessoas num labor incessante, enterradas quase meio corpo no lodo. Dali retiram algo, manejam uma coisa qualquer, não o sei o quê. Descubro uma figura de mulher, dobrada pela cintura. Noto-lhe um casaco vermelho e um avental. Mais ao longe há dois ou três barquinhos. Vislumbro junto a eles figuras com água pela cintura.


Compreendo que não há tempo a perder. Assim, a labuta. Não tarda nada o rio volta para o seu leito. Num acto de cumplicidade e solidariedade ele concede às frágeis e difusas criaturas tempo para retirar do seu lodo enriquecido aquilo de que precisam. Nem sempre esse tempo é suficiente. Embebidas naquele trabalho que se me afigura sofredor mas fundamental para a sua subsistência, esquecem-se muitas vezes que a água tem de seguir o seu curso. E por lá se deixam ficar, correndo sérios riscos.


Quando à tarde volto, o rio já é de novo rei e senhor do seu espaço. A maré-cheia está implantada. O sítio escuro e lodoso transforma-se numa bela extensão de água e na sua superfície espelha-se o céu. As pernaltas e as outras estão pousadas nas salinas. Tudo tão calmo. Tranquilo. Uma coisa linda.

Dias virão em que essa ordem será alterada, quando as máquinas esventrarem o solo, umas, e outras torpedearem os ares, espantando a vida que se renova todos os dias no estuário. Ou não?


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1ª imagem: daqui
2ª imagem: daqui
3ª imagem: daqui

domingo, 2 de abril de 2017

A Graça




Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...
    (1810-1877)


É esta a imagem que guardo de Alexandre Herculano, desde sempre. Cara fechada, austera, sem o laivo de um sorriso. Quem sabe se ele não seria uma pessoa dada, risonha e amável. Mas aqui ficou para sempre. A fotografia ou o retrato têm esta particularidade: firmam de forma indelével o momento, uma expressão.

A sua época não foi das mais pacíficas. Aliás, foi um tempo de grandes mudanças. Nasceu sob o signo das invasões francesas com todas as suas implicações e assim foi crescendo, vivenciando os problemas trazidos pela fuga da família real para o Brasil, ou a transferência da corte portuguesa para o Brasil. Herculano não fica de lado a observar. Envolve-se na vida política denunciando o perigo do absolutismo e, mais, toma parte activamente nas lutas liberais que opõem os dois irmãos, D.Pedro IV e D.Miguel.

E quanto ao aspecto cultural? Temo-lo também situado em vários patamares e a produzir intensamente em vários jornais e revistas, bem como escrevendo romances, olhar atento sobre o seu tempo e o passado. Quem não se lembra de Eurico, o Presbítero, romance histórico mas também de amor, a história de Eurico e Hermengarda? 

Na sua História de Portugal é considerado o introdutor ou precursor da historiografia em Portugal, a história como ciência.

Neste seu poema "A Graça" vejo-o a fazer o seu exame de consciência entre o que foi e o que podia ter sido:


És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
                                           Quando sou infeliz. 


Mas a esperança em dias melhores lá está.

Desejo-vos um bom domingo.

Abraço   

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Poema: Banco de Poesia Fernando Pessoa

domingo, 26 de março de 2017

A Peregrina



Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante,
és pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.

Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.

Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.

Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com teu pífaro indiano.

Maria Ângela Alvim
(1926-1959)
In: Superfície-Toda poesia


Maria Ângela Alvim nasceu no dia 1 de janeiro de 1926 nas fazendas do Pouso Alegre, município de Volta Grande, no estado de Minas Gerais - Brasil.
Leitora assídua de Simone Weil e de Santa Teresa de Ávila pensa durante algum tempo seguir a vida religiosa. Em 1945, por influência de um dominicano francês, o Padre Lebret, fundador do movimento e da revista "Économie et Humanisme", inicia a carreira de assistente social, então nascente em todo o Brasil, que a confronta com uma realidade terrível. É dessa época que data a sua amizade e colaboração com o autor de "Geografia da Fome", Josué de Castro.
No dia 19 de outubro de 1959, Maria Ângela Alvim pôs fim aos seus dias.
aqui

Encontrará uma reflexão sobre esta autora, sob o título Maria Ângela Alvim: a célebre desconhecida, bem como considerações sobre pesquisas sobre a sua vida e obra. aqui.

O Poema é do Poemário Assírio & Alvim, 2012.

sábado, 18 de março de 2017

Radiografia de uma insónia

Acordo sobressaltada. Deixei-me dormir a ver a série e já são quase duas horas. Salto do sofá, arrumo a papelada na pasta, guardo o computador e outras ferramentas para a apresentação de amanhã. Casa de banho, pijama, um copo de água e cama.

Encosto a cabeça na almofada, de certeza que vou reatar o sono. Mas será que não me esqueci de nada? Claro, está tudo controlado. A menos que surjam imprevistos, uma pergunta de alguém mais picuinhas sobre o produto, talvez não tenha pensado em tudo... E, se o computador se encravar, se o projector avariar. Mas não, vai tudo correr bem. Às vezes, a memória pode falhar, com os nervos, ou pode dar-se o caso de a pessoa se engasgar... Credo, que pensamentos! Agora me lembro que não vi a roupa que vou levar...Talvez, a saia cinzenta e...mas essa está-me justa...aliás toda a minha roupa está assim. Preciso rever o meu guarda-roupa. Mas, dizem que não se deve adaptar a roupa ao corpo mas o corpo à roupa, para controlar o aumento de peso. Pois, é isso. Tenho de ter cuidado com aquilo que como. Ao fim e ao cabo o que é eu como de mais? Aquele bolinho todos os dias de manhã? Isso não fará grande diferença e uma pessoa não é de ferro. A sério, tenho de começar a comer umas saladas. À noite tomar uma refeição mais leve, aliás, ajuda à digestão. Também ouvi dizer que se pode comer de tudo e que bastará reduzir um pouco nos hidratos de carbono, açucar e... tenho de ver isso. Ah! esquecia-me, e os sapatos? Preciso de uns sapatos confortáveis, não sei se os que tenho me permitem estar muito tempo de pé. Bem, nem sei se vou estar muito tempo de pé, mas mais vale prevenir do que remediar. Mas remediar com quê? As sabrinas já não têm um aspecto apresentável. Talvez uns botins que não calço há já algum tempo... mas está calor apetecia-me uns sapatinhos mais leves. Fazer o quê? Tenho de levar os que eu tenho. A esta hora já não dá para esquisitices. Ai!!! mas que horas são? Quase quatro horas? Não acredito! Tão tarde! Ou já se deve dizer, tão cedo? Pois, tenho de me levantar às sete, tenho de deixar o miúdo na escola às oito. Sinto a cabeça pesada. O bocadinho que dormi enquanto via a série não é suficiente. Tenho de me sentir estável, senão não direi coisa com coisa na apresentação do trabalho. Será que ainda consigo dormir um bocadinho até às sete?



A partir de agora o cérebro está completamente desperto, preocupo-me com as horas olhando vezes sem conta para o relógio, viro-me para o lado esquerdo, viro-me para o lado direito, coço a cabeça, a cara, os olhos, as orelhas, deito-me de barriga para baixo, de costas, mexo na almofada que se tornou de pedra, procuro aplicar umas técnicas de descontracção que conheço: faço o corpo pesado, faço respiração abdominal, procuro concentrar-me num som qualquer, mas agora é que oiço nitidamente os ínfimos silêncios e os pequenos barulhos, começo a ouvir as pessoas a mexerem-se no andar de cima, o bater da porta da rua, carros que começam a trabalhar... Nada feito. O despertador, claro, desperta e lá se vão as minhas esperanças. 

Meus amigos, não façam como eu. Sendo o sono importantíssimo para a saúde, reservem-lhe o espaço a que tem direito.

Bom fim de semana.

Abraço

Olinda

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Imagem - aqui 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poesia por Alepo

Um grupo de escritores portugueses teve a louvável iniciativa de publicar um livro com poemas seus com o objectivo de o produto da respectiva venda ser entregue à Unicef para minorar o sofrimento das crianças de Alepo que se vêem sem apoio, órfãs e desvalidas.

O livro foi apresentado a 4 de Fevereiro e tem este título: Cinco Lágrimas por Alepo. 

Dele vou retirar dois poemas que abaixo transcrevo:





Choro por ti, mártir Alepo.
O teu coração já não bate porque to arrancaram a toda a hora, 
em cada filho, na combustão das valas, onde agora mora.
Já não te pertence o teu sol soalheiro.
Anoitecem-te com o fumo ácido dos morteiros.
Gota a gota te mirram as crianças que em ti cresciam
e que agora atravessam a poeira dos escombros
outrora parte do colo onde adormeciam.
No desnorte do teu horizonte se ergue o teu nome,
escrito com teu sangue, algures no monte.

Na Abóbada que te cobre acolhe-se a Alma de que és parte.

Na potência dos fortes, querem-te sumindo.
Resiste, Alepo.
Só a putrefação serve aos abutres famintos.

Manuela Barroso (a nossa querida amiga do "Anjo Azul"-clique no nome, p.f.)

pg. 45

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"o medo não podia ter tudo..."

ALEPO

Cidade fantasma.
Destruição, fome, desespero...
São milhares, fogem da guerra
de mãos vazias e as memórias nos escombros.
No rosto vazio, triste e macerado das crianças
há um grito mudo - urge acordar o Mundo!
Só a voz das armas se faz ouvir...
Enquanto houver ditadores, tiranos e fundamentalismo
a humanidade estará em perigo.

José Efe

pg.57


O livro tem 120 páginas. A lista dos contribuidores é imensa.
Em "Notas Iniciais", Conceição Lima diz isto:

Um dia, li no Jornal Público: Em Alepo, contam-se os dias para a morte".
Colei esta frase no meu mural. Choveram poemas, em reação! Tornou-se vaga alterosa, incontrolável, irreprimível! Formou-se uma onda! Há ondas que nascem  e se formam, sem que se preveja o movimento em que se desenham e avançam. A Ciência as explica, a poesia as preenche.(...)

António Gaspar deu-me o empurrão!Demos as mãos!
Cá estão elas - AS CINCO LÁGRIMAS POR ALEPO!
Desaguam agora, num grito comum, cumprindo o "dilúvio" que António Gaspar prenunciara...
(...)


E António Gaspar Cunha, também ele poeta, numa reflexão sobre a civilização e a escravidão intelectual que "Os Senhores" do mundo nos querem impor, fala do livro assim, a dado passo:
"O que daqui emana são as almas dos poetas. Almas que choram, que gritam, que clamam esperança e que por vezes sorriem. É um livro de poesia de uma beleza erguida passo-a-passo; são choros, sob a forma de poemas, que se juntam até formar um dilúvio de esperança."


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Título / Cinco lágrimas por Alepo
Autor / Vários autores
Género / Poesia
Capa / António Gaspar Cunha
Paginação / António Gaspar Cunha

1ª edição - Gráficamares, LDA


terça-feira, 7 de março de 2017

Jardim das mulheres

A última vez que pensei nesta história foi uma semana depois de a carta ter chegado. Nessa altura, tinha deixado Londres - cidade que considero agora a minha casa - para seguir o percurso da carta até ao local de onde ela tinha vindo e mais além. 




Encontrava-me numa floresta exactamente igual àquela que os marinheiros tinham encontrado por acaso, e lembrei-me de como costumava, de manhã bem cedo, ver as minhas avós, as esposas do meu avó, saírem de casa e dirigirem-se, pelo mesmo caminho no qual eu estava, ao seu jardim. Uma a uma, cada mulher separava-se das suas companheiras e encaminhava-se para a sua parcela de terreno, cujos limites eram marcados por uma termiteira abandonada, uma árvore caída, um pedregulho vertical. Ali, entre as cambalas gigantes, os sapelis e as mafumeiras da floresta, cada mulher cuidava das goiabeiras, papaieiras e jamboeiros que ali tinha plantado. Depois, mondava o inhame e a mandioca, onde estes cresciam na terra fofa e escura, e regava o ananaseiro que marcava o centro da sua parcela de terreno.
  



Pensei na história dos marinheiros. E, durante muito tempo, julguei que não passava disso. Uma história. Sobre a forma como os Europeus nos descobriram e como deixámos de ser um espaço em branco num mapa.(...) depois de eu ter ouvido todas as histórias que este livro contém e escrevê-las para o leitor, lembrei-me designadamente desta. Então apercebi-me de que o tema da história era, na verdade, outro. Era sobre diferentes maneiras de ver. Os marinheiros não atentaram nos sinais, sendo incapazes de ver o padrão ou a lógica, só por serem diferentes dos seus. E a maneira de ver africana: arcana, invisível, porém, visível, evidente para quem nele se insere.
Os marinheiros viram o que consideraram ser a abundância da Natureza e roubaram o jardim das mulheres. Julgaram ter encontrado o Éden, e talvez tivessem mesmo, mas era um Éden criado, não pela mão de Deus, mas sim pelas mãos de mulheres.
(Excerto: Aminatta Forna, Jardim das mulheres pgs 18 e 19).  

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Quem não sabe é como quem não vê, não é Aminatta?

África arcana, visível apenas para quem lhe sente o respirar profundo vindo das suas entranhas; de quem lhe adivinha o ritmo calmo e chão do passar dos dias e das noites mas também a trepidação dos sons saídos do fundo da alma. Lá onde tudo começou, donde saímos todos e espalhados por sítios vários fomos tomando feições outras, colorações novas, eis que voltámos à fonte, mas já tão esquecidos dos valores da terra-mãe.

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Jardim de Mulheres -

Sinopse

Tudo começou com uma carta...

Abie Kholifa herda uma plantação de café da família, num país africano. Movida pelas palavras de Alpha Kholifa, seu primo, Abie regressa, iniciando uma viagem de reencontro com o passado.
Através das histórias contadas pelas suas quatro tias - Asana, Mary, Hawa e Serah -, ela descobre uma África atraída pelas tentações do Ocidente, mas desesperada por se manter fiel às suas tradições. Submersas em verdades silenciadas, mentiras sussurradas e contos mágicos, estas mulheres fortes - as verdadeiras protagonistas de Jardim de Mulheres - tentam alterar o correr tranquilo dos seus destinos e reivindicar as suas próprias identidades.
Percorrendo sensibilidades e gerações, Jardim de Mulheres é um romance espantoso sobre uma nação, uma família e as mulheres cujas histórias oferecem uma emotiva verdade que jamais entrará para as narrativas oficiais da História. aqui



Aminatta Forna was born in Glasgow, raised in Sierra Leone and the United Kingdom and now divides her time between London and Sierra Leone.
Forna was born in Bellshill, Scotland, in 1964 to a Sierra Leonean father, Mohamed Forna, and a Scottish mother, Maureen Christison. When Forna was six months old the family travelled to Sierra Leone, where Mohamed Forna worked as a physician. He later became involved in politics and entered government, only to resign citing a growth in political violence and corruption. Between 1970 and 1973 he was imprisoned and declared an Amnesty Prisoner of Conscience. Mohamed Forna was hanged on charges of treason in 1975. The events of Forna's childhood and her investigation into the conspiracy surrounding her father's death are the subject of the memoir The Devil that Danced on the Water.
Forna studied law at University College London and was a Harkness Fellow at the University of California, Berkeley. In 2013 she assumed a post as Professor of Creative Writing at Bath Spa University.
Between 1989 and 1999 Forna worked for the BBC, both in radio and television, as a reporter and documentary maker in the spheres of arts and politics. She is also known for her Africa documentaries: Through African Eyes (1995), Africa Unmasked (2002) and The Lost Libraries of Timbuktu (2009). Forna is also a board member of the Royal National Theatre and a judge for The Man Booker International Prize 2013.[
Aminatta Forna is married to the furniture designer Simon Westcott and lives in south-east London.
aqui e aqui
Imagens:net

Jardim do Éden

Vem-me à memória uma história. Uma história que conheço, segundo parece, há muitos anos, embora já não me lembre de quem ma contou.

Há quinhentos anos, uma caravela que ostentava as cores do Rei de Portugal contornou a curva do continente. Tinha sido privada de vento algures ao largo das ilhas de Cabo Verde, e os mantimentos, comida e água começavam a escassear. quando finalmente os ventos se apiedaram dela, impulsionaram-na para Sudeste, em direcção à costa, onde o comandante avistou uma série de portos naturais e levantou a âncora, Os marinheiros prostrados pela fome, e com os cabelos encaracolados devido ao escorbuto, remaram para terra, arrastaram-se pelas águas pouco profundas e pela areia, onde ficaram sob a sombra das árvores. 

Ali se detiveram e olharam à sua volta com incredulidade. Imagine-se! Balouçando-se diante dos seus rostos, estavam mangas suculentas, abundantes quantidades de carambolas, abacates do tamanho da cabeça de um homem. Enquanto, da extremidade dos seus elegantes caules, os ananases acenavam de forma incentivadora, despontavam batatas-doces e inhame da terra, e grandes cachos de bananas desciam até eles. Os marinheiros pensaram ter encontrado nada mais, nada menos do que o Jardim do Éden.


E, durante algum tempo, era isso que os europeus pensavam que a África era. O Paraíso. 
(Excerto: Aminatta Forna - Jardim de Mulheres, pgs 17 e 18)

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Não me esqueci que tenho pendente a continuação da descrição de alguns aspectos da minha viagem a Cabo Verde. Coisa comezinha perante a magnitude das viagens dos descobrimentos que aqui se aflora, do tempo em que homens mal preparados em equipamentos e desconhecendo quase tudo arrostaram com perigos enormes para cumprirem um destino, fosse ele qual fosse, bem como objectivos que muitos deles desconheciam. O mundo que iam descobrindo, muito diferente do seu, levavam-nos de deslumbramento em deslumbramento, não isento de sofrimento como sabemos, ultrapassando aquilo que algum dia pudessem ter imaginado.

A região que a autora tem em mente chama-se Serra Leoa, nome dado por Pêro de Sintra que, ao serviço do Infante D. Henrique na exploração da costa ocidental africana, ali aportara em 1462. Um pormenor muito interessante que importa registar aqui é que numa terra com 16 etnias a língua franca é o KRIO, mistura do inglês e de algumas línguas nativas. Por aqui se vê o destino que essa terra levou depois, no que se refere à potência que lá se implantou.

Numa época em que a Inglaterra e França ainda se ocupavam em discutir as suas linhas sucessórias e a delimitar o território que lhes competia (guerra dos cem anos, 1337-1453) Portugal abria caminhos nunca dantes percorridos, para o mal dos seus naturais, alterando para sempre a face do mundo. Com a Espanha, através do Tratado de Tordesilhas (1494) divide o mundo descoberto e por descobrir em duas partes. Depois...depois França, Inglaterra e Holanda lançaram-se na recolha dos louros.

Voltando a Serra Leoa, esta transformar-se-ia num importante centro de comércio transatlântico de escravos até 1792.

Voltarei com mais um excerto do livro desta autora.

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Imagem: Net   

sábado, 4 de março de 2017

Iniciação - Júlio Dinis

Não sei se já vos terei dito que na minha adolescência li os romances de Júlio Dinis quase todos. Os meus pais eram grandes leitores de autores do século dezanove e, assim, transmitiram-me a mim e aos meus irmãos esse bichinho da leitura.

Sempre quis ler alguma poesia de Júlio Dinis para além daquela que ele inclui nos seus livros. Há poucos dias encontrei no escaparate de sugestões de leitura da biblioteca aqui da minha aldeia um livrinho de bolso, de 264 páginas, que ele próprio prefacia e ao qual também vai introduzindo notas de rodapé. Dele retiro o poema que hoje aqui vos trago, Iniciação: 


Além, naquela avenida,
De plátanos e salgueiros,
Foi que em teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.

Sob os copados verdores
Daquela frondosa rua,
Mal vistos da própria lua,
Falávamos nós de amores.

Todos em nossa procura,
Nós a rirmos escondidos.
Oh! que instantes decorridos!
Oh! que rápida ventura!

"Vai", disseste-me ao partires,
"Que estes beijos te dêem vida.
"Adeus, a infância é volvida!
"Luta e...se não sucumbires..."

E a voz faltava-te em meio;
E eu disse com modo brando:
Se não sucumbir?..." Chorando
Apartaste-me ao teu seio.

"Volta; e a sentida promessa,
"Que em meus beijos entendeste,
"Cumprida será." Disseste:
"Adeus. A luta começa."

E começava! Ai, por vezes
Me tomou o desalento:
Porém aquele momento
Lembrava-me nos reveses.

Lutei. E ao voltar agora
Com as lembranças do passado,
Dize, anjo, se me é dado
Recordar-te ainda essa hora?
                                    
                                    1865

(1839-1871)


Um outro préfacio é nele inserido por Egas Moniz, em 1946, (o nosso primeiro laureado com um Nobel) e a que intitulou: "Algumas Palavras". Logo no início ele diz isto: A notícia do seu desaparecimento emocionou o País e deixou no Norte um vinco forte de saudade, pois Júlio Dinis tem um culto muito especial no Porto e em longos arredores que envolvem o Minho, Trás-os-Montes e Beiras. Nestas regiões raros são os que não leram a obra romântica do seu autor predilecto: mas as poesias nem sempre têm tido a boa sorte de outros dos seus livros. Esquecem-nas uns, outros não lhes encontram os encantos da sua prosa.

Egas Moniz encontra explicação para isso no facto de Júlio Dinis ser um admirador de Soares de Passos cuja obra fez derramar muita lágrima de emoção. Mas, segundo ele, à época já "Agonizava aquele romantismo saudosendo e tristonho que se acoitava à sombra dos ciprestes. A arte tomava novos rumos sob rajadas fortes de revolta e salutar protesto."

Bem, meus amigos, lede e dizei-me da vossa justiça se vos interessardes por este género de literatura.

Desejo-vos um bom fim de semana. Hoje está Sol e um pouco menos frio, o que poderá fazer-nos ver as coisas com mais optimismo perante os imbróglios que se desenrolam à nossa volta.

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Poema transcrito de: Júlio Dinis - Poesias , página 154 e 155
Imagem: internet

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O homem sempre presente


Aqui d'el rei que ele não pára. Hoje está aqui, amanhã no norte, depois de amanhã no sul. Come da marmita,  abraça e beija a plebe, fala de tudo, opina em tudo, dá notícias em primeira mão, dá entrevistas, fala e justifica medidas como se fosse governo, enfim, por esse andar não vai aguentar o ritmo e, mais, está a sair da sua esfera.






E agora? Fazer o quê? Lançar-lhe um anátema, um impeachement? Não podem. Ele está lá por direito próprio. Sendo um homem de leis, isto é, com a sua formação jurídica saberá até onde ir sem extravasar as suas competências, tendo sempre em conta a importância e independência dos três poderes: legislativo, executivo, judicial. A sua forma de estar poderá colidir com o establishment, mas quem, em boa consciência, não gosta de uma lufada de ar fresco, de uma pedrada no charco? Incomoda? Pois, incomoda a muita gente essa disponibilidade toda, essa maneira diferente de estar e de fazer.


Em tempos, nos tempos da troika, cheguei a referir aqui, retiradas da Constituição, as competências do Presidente da República que, além do veto suspensivo que servirá para mostrar o seu desacordo por determinada medida, tem ao seu dispor outros instrumentos de gestão de crise. Será preciso esperar por crises, sejam institucionais, económico-financeiras ou outras para ele se manifestar? Mais vale pôr o dedo na ferida enquanto é tempo e dizer pura e simplesmente: Está morto, este assunto está morto. Vamos avançar. O futuro é que interessa.

Continue assim, Presidente, seja o homem do leme. 
Seja sempre o homem dos afectos que abraça o Universo.

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Imagem:Pixabey

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um esquecimento...imperdoável?

Bem, nem tanto. Mas um pouco estranho, quand même. Talvez seja porque lá no íntimo sinta que não tenho estado a fazer o suficiente. Como é que me lembrei agora do que devia ter-me lembrado há quase 30 dias? O nosso cérebro, às vezes, tem um jeito muito peculiar para se fazer presente. Esta madrugada senti um baque. O caso não era para tanto, mas foi mesmo assim. Eu não conseguia dormir e sei o motivo. Ao jantar fui tentada a beber café, e fi-lo, a acompanhar uma fatia do bolo que eu tinha feito e a que me tinha esquecido de juntar manteiga. Para me penitenciar disso perante os outros que, com risinhos, diziam: está bom, mas...? Apeteceu-me apenas e o facto de não ter posto manteiga até poderia ser uma coisa boa por causa do colesterol e coisas do género.




Estava assim acordada, a dar voltas e mais voltas e a pensar cá para mim que devia levantar-me quando ouvi um chilreio. Primeiro não muito audível, mas pouco depois aumentou, mesmo ali na minha varanda. Apercebi-me de que se tratava de um passarinho, um rouxinol, um pintassilgo (?). E comecei a pensar se ele não teria saído da gaiola inadvertidamente. Daquilo que ouvia era quase certo que ele se encontrava perdido e queria voltar para casa. Isto de liberdade é uma coisa complicada. À força de se estar preso, nos primeiros tempos é preciso habituarmo-nos à ideia.

Tinham soado grandes trovões e estava a chover muito. Levantei um pouco o estore e vi água a correr como num ribeiro. O meu passarinho continuava o lamento, tive muita pena dele. Pouco a pouco, ouvi-o a afastar-se, longe, mais longe, às tantas já só ouvia um sonzinho de nada que ia e vinha. Mantinha o ouvido alerta. Foi quando me surgiu o pensamento de chofre, aquele baque de que falei acima. E foi assim:


"Ah! Mas, não me lembrei do aniversário do Xaile de Seda, nos idos do mês de Janeiro!" Uma voz segredou-me: não é nos idos, foi no dia 22. Imaginem, esquecer-me assim completamente do meu Xaile. Reconheço que não lhe tenho prestado a atenção devida. Foi um ano de muito pouca produção, teci poucas ou nenhumas considerações sobre o que se passa à minha volta. Não cerzi nem remendei o suficiente e, claro, as fissuras começam a notar-se.




Façam de contas que a imagem só tem 6 queques e, consequentemente 6 velas, pois é esse o número de anos do Xaile de Seda: 6 anos. (Faz-me lembrar o Manel, meu irmão, que no dia seguinte ao do seu aniversário começa logo a dizer que tem mais um ano). 

Esperemos que no decurso deste ano possamos encontrar-nos aqui mais vezes, sinal de que também eu estive mais presente.

Um abraço.

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Imagens: Pixabay  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Estrela da tarde




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia. 

       Meu amor, meu amor
       Minha estrela da tarde
       Que o luar te amanheça
       E o meu corpo te guarde.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza
       Se tu és a alegria
       Ou se és a tristeza.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza! 



Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram. 

       Meu amor, meu amor
       Minha estrela da tarde
       Que o luar te amanheça
       E o meu corpo te guarde.
        (...)

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

José Carlos Pereira Ary dos Santos
            (1937-1984)


Ary dos Santos e Carlos do Carmo. Perfeito! Um poema de amor intenso e interpretado também intensamente. E Fernando Tordo? A sua música acompanha as palavras de forma envolvente.  

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Poema: do Citador
Imagem: Pixabey
Video: Youtube  

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Para atravessar contigo o deserto do mundo





Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento 

Sophia de Mello BreynerAndresen
           1919-2004

 Palavras de Sophia:"Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema». A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». (…) Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo." aqui

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Poema do Citador
Imagem: Internet