quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Partícula de Deus

Num sono solto, sentia que não estava sozinha. Algo etéreo incidia nos meus olhos, ora um pouco para lá, ora um pouco para cá. Como uma brincadeira. Abri um olho, depois o outro. Das frinchas da janela uma sombra alegre e esvoaçante dançava, acenando-me num chamamento. Pé-ante-pé fui ver, já com um sorriso nos lábios. As folhas da árvore envoltas na leve brisa saudaram-me e então dei uma gargalhada. Escancarei a janela, um Sol de inverno, suave, inundou-me e deu-me, mais uma vez, as boas-vindas. Um mundo lindo, perfeito, e eu faço parte dele... parte integrante da partícula de Deus, uma evidência preexistente que todos os dias se renova e nos faz sentir que vale a pena viver.


FELIZ ANO NOVO

Imagem google


VER:    
A partícula de Deus
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aproxima a boca da nascente


Aproxima a boca da nascente:

não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
com os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Poema de:
Eugénio de Andrade
in O Sal da Língua


FELIZ NATAL MEUS AMIGOS



foto:minha

domingo, 18 de dezembro de 2011

Viajantes no Tempo

Era só fazer uma pequena trouxa, pegar no menino e sua mãe, e fugir. Para onde? Talvez para a terra onde, por ironia do destino, os seus antepassados tinham sido escravizados. Assim ficariam longe da alçada dos seus perseguidores... Se ele pudesse ler o futuro veria que este menino, depois do regresso à terra prometida e já adulto, não teria a vida facilitada. A solução estaria em fugir de novo ou ficar. Uma escolha que já não seria dele, José.

Ao longo dos tempos, muitos têm sido confrontados com esta realidade: ter de partir para terras desconhecidas em busca de liberdade e melhores condições de vida. Dir-se-á que muitos migrantes correm pelo gosto de aventura ou para conhecer novos mundos. Mas haverá, sempre, por trás, um motivo que parece incontornável, de emergência.

É interessante verificar que nestas migrações forçadas, ou não, se dá a nossa renovação cultural e a abertura de novos ideais. É um caminho que se alimenta de cruzamentos entre quem chega e quem acolhe. Um acolhimento que nem sempre se pauta por sentimentos de solidariedade...


Hoje, assinala-se o Dia Internacional dos Migrantes. clique



Imagem : Oferta da amiga Maria Alice Cerqueira
http://www.mariaalicecerqueira.com/

DESPEDIDA




'O mundo e a música ficaram mais tristes hoje...'
Canto da Boca -Brasil & Cabo Verde


De:

'À Cesária Évora

Deste mundo eis que em doce despedida,
De humana história e que hoje não é mais;
Vertem prantos que no chão concebe a vida,
E que o chão acolhedor transforma em paz...

Do descanso almejado em tristeza e candura,
De singela despedida que a alma ora encerra;
Vão consigo seus segredos, alegria e doçura,
Vão as rosas, seu sorriso, e junto a terra...

Encerrada aura, dessa estrela radiante,
Que abrigada no negrume aconchego,
Apagado mundo tão soturno e silente...

Jaz segredos nessa esfera que a alma desce,
Tão espesso que de Deus emana u'a Luz,
Que triunfa sobre credos, sobre fé, bendita prece...'



(Clicar, p.f., nas referências)

sábado, 17 de dezembro de 2011

SODADE


CESÁRIA ÉVORA, sempre!






Imagem Google:Cabo Verde

Algures dentro de mim


Algures dentro de mim
uma nascente.
A merecê-la que cântaro?
Que canto?


Sinuoso
vertente
só precário
o trilho das palavras


A dor transborda
a sede permanece.


Rosa Lobato Faria
In 'As Pequenas Palavras'

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Homens do Presente


Homens do presente, nada no passado,
Antes de serdes as coisas que vemos,
Quem podia ter sabido ou pensado
Que seríeis hoje aquilo que temos?
Ah, passantes pela mesma via,
Quem pôde pensar-vos antes deste dia?


Homens do presente e pó de amanhã,
Ao passar dos anos aonde ireis ter?
Que rude mudez ou ânsia em pressa vã
Irá registar vossa dor e prazer?
Ondas ou cristas do mar desta vida
Quem vos pensará passado este dia?


Só o génio pode o fogo atiçar
Que na natureza em vós abrigais;
Só o génio pode a lira tocar
E erguer vosso nome aos céus dos mortais;
O génio pode a morte romper
E o nada de ontem num tudo verter.


Mas a virtude, como os choros humanos,
Pelos areais depressa bebida,
Mergulha no pó dos passados anos
E nem sabereis onde está escondida.
Que o génio, então, possa ser laureado;
Que o pó de amanhã seja eternizado

(Heterónimo F.Pessoa)

Poema de 1904:


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Levantar-me-ei de novo?

Um pouco à deriva, de joelhos dobrados, com estranhos cá dentro de casa a mandar e a desmandar pensei que jamais conseguiria soerguer-me sequer. Uns atrás dos outros, praticamente da mesma família, eles foram surgindo cada um impondo o seu ponto de vista e as suas exigências, aproveitando as brechas que eu não tapei. 
O tempo foi passando, com tudo a cair aos pedaços já não me reconhecia a mim nem aos meus. Passaram-se sessenta anos, mais ou menos, sobre a data em que o meu rei-menino, a minha esperança, resolvera ir perecer, levando as melhores promessas do meu reino, lá por terras de África. Chegou uma altura em que parei para pensar e perguntar-me para que lado é que eu queria ir. Aguentei até quase me faltarem as forças, mas ainda tive as suficientes para levantar a cabeça, endireitar o tronco e fazer-me ouvir. 
Ainda consegui reunir umas quantas cabeças pensantes. Conjugando esforços, delineando metas e o futuro próximo, gritámos: basta! Refiz a minha independência, não foi fácil tudo o que se seguiu, mas recomecei a pensar por mim mesmo e a trabalhar para reerguer todo o edifício que estava quase em ruínas.
Hoje, parece-me, sigo pelo mesmo caminho. São outros tempos, as coisas acontecem com uma velocidade estranhíssima. O que é hoje uma coisa amanhã já não é. As alianças que se fazem presentemente têm o valor de coisa nenhuma. Outros são os senhores do mundo. Os paradigmas são outros. A democracia, em todo o espaço em que eu estou inserido, apresenta-se periclitante. Com o presente e o futuro comprometidos, pergunto-me: Conseguirei levantar-me de novo?


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

EMOÇÕES

Caríssimos


No seu blog EMOÇÕES a MARA oferece-nos uma belíssima pesquisa sobre o Fado, intitulado Fado - Patrimônio Mundial da Humanidade. Não vos digo mais nada. Convido-vos a lá irem...





Imagem retirada de 'Emoções'

domingo, 27 de novembro de 2011

La ballade des gens heureux

Gérard Lenorman
          video

Notre vieille Terre est une étoile
Où toi aussi et tu brilles un peu
Je viens te chanter la ballade
La ballade des gens heureux
Je viens te chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Tu n’a pas de titre ni de grade
Mais tu dis "tu" quand tu parles à dieu
Je viens te chanter le ballade
La ballade des gens heureux
Je viens te chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Journaliste pour ta première page
Tu peux écrire tout ce que tu veux
Je t’offre un titre formidable
La ballade des gens heureux
Je t’offre un titre formidable
La ballade des gens heureux


Toi qui a planté un arbre
Dans ton petit jardin de banlieue
Je viens te chanter le ballade
La ballade des gens heureux
Je viens te chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Il s’endort et tu le regardes
C’est ton enfant il te ressemble un peu
On vient lui chanter la ballade
La ballade des gens heureux
On vient lui chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Toi la star du haut de ta vague
Descends vers nous, tu verras mieux
On vient te chanter la ballade
La ballade des gens heureux
On vient te chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Roi de la drague et de la rigolade
Rouleur flambeur ou gentil petit vieux
On vient te chanter la ballade
La ballade des gens heureux
On vient te chanter la ballade
La ballade des gens heureux


Comme un chœur dans une cathédrale
Comme un oiseau qui fait ce qu’il peut
Tu viens de chanter la ballade
La ballade des gens heureux
Tu viens de chanter la ballade
La ballade des gens heureux

Gerard Lenorman - La ballade des gens heureux

sábado, 26 de novembro de 2011

Encontros


Na vã esperança de cumprir os dez mil passos a que me proponho todos os fins de semana, calcei os ténis, desci as escadas, saí e comecei com passos curtos, alargando-os à medida que avançava na minha caminhada. Não vi o meu amigo amolador, talvez por causa da tosse que lhe ouvi no outro dia ou... 

Passei pelo pequeno mercado de rua aspirando os cheirinhos a ervas aromáticas, olhando para um e para o outro lado, para as bancadas improvisadas em cima de caixotes onde havia talhadas de abóbora, couves, tangerinas, nabos, cenouras.  Passei por duas pessoas que vinham a entrar no recinto, ao ar livre, ela, uma mulher duns sessenta e tal anos e ele, um passo mais atrás, mais ou menos da mesma idade, uma bicicleta com cestinha, pela mão: ela, estou a falar consigo mas nem o conheço... e ele, eu também não a conheço e estou a falar consigo....e perdi o resto da conversa. 

Resolvi subir os três montículos artificiais do jardim, dar a volta e conservar-me mais ou menos na mesma área. Encostados a um muro dois homens de latitudes diferentes mas unidos pelos mesmos ideais ou crenças, já munidos de algumas brochuras, ofereciam a quem passava dias melhores e a esperança de um lugar reservado no dia do juízo final... Reparei nos acenos negativos corroborados pelo não, muito obrigado dos transeuntes. Dei comigo a admirar e a apreciar a disponibilidade destas pessoas que dedicam os seus dias de descanso a um apostolado nem sempre bem-vindo.

Consultei o pedómetro preso à minha cintura, decepção, um resultado que nem digo...andei mais a tomar conta de outras coisas do que a caminhar como devia. Passos perdidos? Bem, amanhã terei de me aplicar... 


Imagem Google         

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Solte-se a Voz

Carlos Saura. Um espanhol que teve a ideia de, num documentário de 2006, apresentar o Fado numa perspectiva de tirar o fôlego. Adorei-o. Pelo seu cariz eclético e quase universal deu-lhe o nome de Fados. Nele estão patentes influências de, pelo menos, três continentes, que vão da toada europeia à fórmula mágica tropicalíssima, sem esquecer os acordes do flamenco, prestigiados pela incomparável interpretação da Joaquin Cortés. Aliás, neste filme participam nomes sonantes, como Mariza, Camané, Carlos do Carmo, Caetano Veloso,Chico Buarque, Lura, e não fica por aqui...  

E agora que estamos a poucos dias de o Fado poder passar a fazer parte do património cultural da humanidade, relembro este pormenor importantíssimo: um estrangeiro, ibérico, resolveu reunir num documento, o que na sua visão global poderá interessar em termos de influências e evolução de uma forma de estar, de uma estranha forma de vida, vista, geralmente, como tipicamente portuguesaVIDEOS

Ainda relacionado com este tema, gostaria de citar Isabel Castro Henriques, historiadora, que, na sua obra 'A Herança Africana em Portugal', traça de uma maneira magistral o percurso dos africanos em Portugal, especialmente em Lisboa. A sua chegada a Lagos, em 8 de Agosto de 1444, marcaria o momento simbólico de viragem rumo a uma nova Ordem. Não é disto que pretendo falar agora, mas realçar que das suas danças e cantares, o lundum, poder-se-ão extrair as influências e a origem do Fado. Com eles, o lundum viajaria para o Brasil...e assim se completaria o círculo ou o ciclo.



Imagem google


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Moeda de troca

Tempo. E se, de repente, o tempo passasse a ser a moeda de troca em todas as circunstâncias da nossa vida? O dinheiro deixaria de ser importante: para comer pagar-se-ia com Tempo; a casa, a luz, a água, a roupa, os sapatos, o carro, o combustível, o autocarro, enfim, tudo seria pago com a moeda Tempo.

In Time, com tradução para o português, Sem Tempo, é o nome do filme onde tudo isto se passa. Uma alteração genética leva a que o processo de envelhecimento pare nos 25 anos de vida. A partir desta idade ninguém morre, vive para sempre. Para impedir a superpopulação é criado um sistema em que pelo trabalho produzido recebe-se tempo...um relógio embutido na pele de um dos braços indica o tempo que cada um tem. Para não atrair a cupidez há uma manga ou um bocado tecido a esconder esta informação. Há pessoas que vivem no limite, com uma esperança de vida de um dia ou de apenas umas horas ou mesmo minutos. Tudo é feito a correr porque o tempo pode acabar de um momento para o outro. Há time zones ou portagens que separam o gueto da zona dos ricos que até jogam ao poker que pagam com Tempo. Por aqui se vê que há os pobres muito pobres sem tempo nenhum e que acabam por morrer onde quer que seja e há os ricos muito ricos que vivem para sempre e que controlam tudo. No meio, toda uma trama de corrupção para ganhar tempo, assaltos para roubar tempo, assassínios para espoliar os outros do tempo que têm.

Fui ver este filme. Impressionou-me. E se não estivermos tão longe de uma realidade como esta ou parecida? Presentemente, o tempo tornou-se um dado insidioso que já se entranhou nos interstícios mais escondidos da nossa vida e promete tornar-se ainda mais presente.


Convenceram-nos que podíamos todos ser proprietários, contraindo empréstimos para compra de casa própria a 60, 80 anos.Vivemos com o nosso tempo hipotecado, pagando os juros com anos de vida. Acabamos por morrer sem o que tal bem seja nosso ou então acabamos por ir para debaixo da ponte porque não conseguimos pagar os juros. Pagamos diariamente juros astronómicos de uma dívida soberana que vai crescendo crescendo na mesma proporção que o passar das horas, dos dias, dos anos. Juros a seis meses, a um ano, a dois, a dez, numa espiral incontrolável. O nosso dia-a-dia está comprometido e o nosso futuro como país na corda-bamba.
  
Lá está, há os pobres e os ricos...os pobres ou remediados que não têm para onde ir e os outros que sempre arranjam um qualquer paraíso ou alguma forma de se refugiarem em retiros sabáticos numa inimputabilidade espantosa...
  




Imagem do filme retirado do Google.

domingo, 20 de novembro de 2011

Arroz do Céu

Sol de outono com o seu brilho característico, dia bonito. Folhas douradas, esverdeadas e acastanhadas atapetam o chão. Tudo convida a um passeio num parque cheio de árvores, à beira-mar, à beira-rio, ou onde nos sentirmos bem. Apetece oferecer sorrisos, flores, paletas de cor, inebriantes perfumes, castanhas assadas e também uma quinda de mel. E porque não este apontamento do Arroz do Céu, de José Rodrigues Miguéis:


A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso; varreu-os com o resto do lixo para dentro do saco cilíndrico, com um aro na boca. Mas como ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que escorria da parede. Mas o respiradouro, se bem me compreendem, obliquava como uma chaminé, e a grade, ela própria, ficava-lhe invisível do interior. Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa-vias encolheu os ombros, sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.
Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a espiá-lo, abaixou-se, ajuntou os bagos com a mão, num montículo, e encheu com eles um bolso do macaco. Chegado a casa, a mulher cruzou as mãos de assombro: alvo, carolino, de primeira! Dias depois, sempre sozinho, varreu o arroz para dentro de um cartucho que apanhara abandonado num cesto de lixo da estação, e levou-o para casa. Pobres, aquela fartura de arroz enchia-lhes a barriga, a ele, à patroa e aos seis ou sete filhos. Ela habituou-se, e às vezes dizia-lhe: «Vê lá se hoje há arroz, acabou-se-nos o que tínhamos em casa.» Confiada naquele remedeio de vida!
O limpa-vias nunca perguntou donde é que chovia tanto grão, sobretudo no bom tempo, pelo Verão, e aos domingos, que até parecia uma colheita regular. Embrulhava-o num jornal ou metia-o num cartucho, e assim o levava à família. Ignorando que lá em cima era a Igreja de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, e como tal de bom-tom, não sabia a que atribuir o fenómeno. Pelo lado da raiz, no subway, os palácios, os casebres e os templos não se distinguem.
E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. Sem ele ter pedido nada. Guardou segredo – é mau contar os prodígios com que a graça divina nos favorece. Resignou-se a ser o objecto da vontade misericordiosa do Senhor. E começou a rezar-lhe fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do Céu...
O Céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam.


Arroz do Céu
José Rodrigues Miguéis
Excerto retirado de:
AQUI
Texto integral
Imagem Google

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vou lá visitar pastores






A terra que te ofereço

1

Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

2

Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.

3

Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.


Ruy Duarte de Carvalho
      1941-2010

VER
SOBRE ESTE AUTOR

Poema retirado de:


http://betogomes.sites.uol.com.br/

Imagem retirada do
Google

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Perto de Casa


Anda aqui para perto de casa, para perto de mim. Anda para aqui onde o céu é mais azul, as árvores mais altas e os rios correm devagar. Anda comigo, com os pés na minha sombra, enquanto te demoras num olhar. Salta neste arrepio sem fim, comigo, enquanto te abraço e te digo que te quero tanto assim.

Deixa-me beijar-te a longa trança, deixa-me enrolar-te num novelo sem fim. Suspiro na encosta do teu peito e vejo-te a desvaneceres levemente em mim. Cantei-te todas as danças, torneei-te em todas as noites. Sem ti desencontrei-me do resto e esqueci-me do que havia em mim. Mas se estivermos por aqui, perto deste nosso sítio perfeito, onde te embalei em todas as artes de mim, onde os nossos filhos se fizeram e cresceram, se estivermos por aqui, consigo sossegar e parar o medo que cresce daninho em mim.

Sabes que sem a tua quentura à minha beira deixo de ser eu,  já nem sei quem sou. Sabes que é entre as paredes da nossa casa que consigo finalmente respirar? Lentamente, devagar.

Pois então ata-me aqui à nossa casa, ao nosso mundo, a ti, prende-me para eu não ir. Não quero perder-me como das outras vezes, confundido com um cheiro a ti que não o teu, atrás de um passo bamboleante que não o teu, perdido em alguém que não és tu. Por isso fica aqui comigo, pertinho de casa, de nós, da vida que levamos, para não me deixar levar uma outra vez pelo que me acena ali na esquina, por umas pestanas demoradas, por um gesto que não o teu. 

Sou fraco, bem sabes, e hoje quando saíste para um dos teus sítios, esqueceste-te de trancar a porta e eu senti-me sozinho, lembrei-me de sair, de arejar, e ela lá estava ao fundo da estrada que corri, chamou-me, apertou-me - estava tão longe de casa, de ti - e lá deixei eu ir-me outra vez, perdido de ti, de mim, de nós.

Isto tudo para te pedir: não voltes a sair, não vás para longe, fica sempre aqui pertinho de casa, das nossas árvores, do céu tão azul, do rio que hoje está a correr tão devagar. Minha querida, só mais esta vez, prometo, deixas-me ficar?

Texto de:
                                     Histórias de Nós                           

 Foto: minha               

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Língua Gestual


Soube através da TV, no último sábado, penso, que uma Turma de Famalicão integra no seu programa a Língua Gestual e que os alunos já se comunicam, efectivamente, por meio desta língua no sentido de interagirem com colegas surdos. Pela importância social desta notícia andei a ver se encontrava o video para a documentar aqui no Xaile. Só hoje o consegui. Ei-lo, AQUI


A seguir encontrei neste interessante blog o seguinte poema, que eu não conhecia, de Manuel Alegre a ilustrar um post de 2009 sobre o dia da Língua gestual portuguesa, 15 de Novembro:

As Mãos


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Vós mi defendestes, senhor


Vós mi defendestes, senhor,
que nunca vos disse ren
de quanto mal mi por vós ven,
mais fazede-me sabedor, 
por Deus, senhor, a quen direi
quan muito mal lev’e levei
por vós, se non a vós, senhor?


Ou a quem direi o meu mal,
se o eu a vós non disser?
Pois calar-me non m’é mester
e dizer-vo-lo non m’er val.
E, pois tanto mal sofr’assi, 
se com vosco non falar i,
por quem saberedes meu mal?


Ou a quen direi o pesar
que mi vós fazedes sofrer,
se o a vós non for dizer,
que podedes conselh’i dar?
E, por en, se Deus vos perdon, 
coita d’este meu coraçon,
a quen direi o meu pesar?


Dom Dinis


Poema:
Casa Fernando Pessoa

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Árvore do Silêncio


Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.
Coisas de terra são palavra.
Semeia o que calou.
o faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.
Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
com a graça e o redondo de uma mão?
(Tu não te calas? Tu não te calas?!)







Canto de Véspera(1966)
Vitorino Nemésio

Poema e imagem retirados
do:                           



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quase mil anos

Sinto que tenho mil anos. Será que os não fiz já? Há tanto tempo que trilho por caminhos com que não sonhava sequer. O meu nascimento foi bastante conturbado, reconheço, talvez uma indicação de que aquilo que acabei por conseguir não seria fácil. Por onde terei andado? Faço um esforço. Depois de ter consolidado o meu próprio espaço à custa de trabalhos e canseiras, resolvi expandir-me um pouco. Nunca me passou pela cabeça ir para tão longe. Viajei por todos os continentes, atravessei oceanos, fiz coisas de que nem sempre me orgulhei, deixei e recebi influências.Durante esse tempo todo fiz alguma fortuna...que desapareceu na voragem do tempo. Depois, por força das circunstâncias voltei para casa, pode dizer-se que me recolhi ao lar. Para sobreviver, fiz alianças.Tudo parecia bem encaminhado e o rumo certo a tomar: Pertencer a um grupo com nome sonante, com moeda própria, com muitas e muitas promessas de permeio... Perguntar-me-ão se, depois de tanto tempo vivido, não tive filhos. Claro que tive. Muitos. Alguns deles para meu bem ou para meu mal desafiam-se no governo da minha casa. Um desafio em cujos resultados nem quero pensar. Mas, de nada me vale esconder a cabeça na areia. Maus negócios, dívidas e mais dívidas acumulam-se há já algum tempo. A somar a isso tudo a falta de visão dos meus parceiros, que não atinam com o caminho a seguir. Fazer o quê? Sinto-me com mil anos, mas ainda me faltam cento e sessenta e oito anos para os perfazer, mais coisa menos coisa. É isso, fui registado como independente e livre em mil cento e setenta e nove. Há quem diga que sou um jardim à beira-mar plantado e que na minha casa há um cabo onde a terra acaba e o mar começa...Será esta a solução? Fazer-me ao mar de novo?...